14 março 2006


No dia 12 de Março de 2005, José Sócrates tomou posse como Primeiro-Ministro de Portugal, o primeiro socialista a fazê-lo com maioria absoluta.
Hoje, passado um ano do início da sua governação pode-se começar a esboçar um retracto daquilo que tem sido Sócrates como Primeiro-ministro.
Parece-me a mim que este foi um ano, apesar de tudo, positivo. A pouco e pouco Sócrates habituou-nos ao seu estilo autoritário e rigoroso, contrastando em absoluto com António Gueterres, seu antigo “chefe” e actual Alto-comissário para os refugiados. Sócrates é muito mais activo que Guterres, e repudia a passividade, a ignorância e a estupidez. De facto, quem poderia dizer que Sócrates seria tão diferente do seu mentor?
Foi Mário Soares que, durante a campanha eleitoral, disse que o primeiro-ministro deveria ser alguém capaz de “dar murros na mesa e ter coragem em determinadas situações. Sócrates é o anti-Guterres.”
Sócrates é um PM rigoroso, objectivo e disciplinado. Obriga os seus ministros a contarem-lhe tudo aquilo que se passa nos seus ministérios – organizando para o efeito uma reunião semanal às segundas-feiras – sendo no entanto um defensor exímio de todos eles.
Aliás se há mais algum ponto em que Sócrates divirja de Guterres é exactamente na estabilidade governamental. Muitos foram as reformas no governo causadas por pressões privadas e da comunicação social no tempo de Guterres; ora, Sócrates não se deixa pressionar e protege os ministros até à extensão das suas forças. A única excepção foi Campos e Cunha mas, convenhamos, este não tinha grande vontade de continuar nas suas funções. Mas Teixeira dos Santos – seu substituto – Correia de Campos, Manuel Pinho, Isabel Pires de Lima e até Freitas do Amaral já foram “salvos” por Sócrates em tempos de dificuldade.
Concordando-se ou não com as decisões de Sócrates enquanto PM, é necessário admirar o estilo seguro e imperial com que anuncia essas medidas. Faz às vezes lembrar… Cavaco Silva na certeza das suas resoluções e na confiança que – procura – incutir aos cidadãos. Claro que muitos dirão que beneficia do facto de governar com maioria absoluta, de ter defrontado um opositor em queda – Santana Lopes – e de ter passado em pouco tempo de deputado, a líder da oposição a primeiro-ministro.
Eu, por outro lado, prefiro ver o outro lado da coisa. Prefiro ver a sua capacidade profissional, a audácia de algumas das suas posições e avaliar a confiança que ele me transmite enquanto primeiro-ministro. Claro que ainda não cumpriu algumas das suas promessas eleitorais mas, pelo menos, já as começou a preparar e a por em prática. O plano tecnológico, a venda livre de medicamentos que não necessitem de receita, a OTA e o TGV, medidas na educação entre outras.É indiscutível que num ano, e passando o país por uma irremediável crise económica e social, Sócrates tem trabalhado bem. Tivessem Guterres e Barroso feito o mesmo e se calhar viveríamos bem melhor.
Por paradoxal que pareça, José Sócrates é o primeiro socialista a liderar um governo de maioria absoluta, mas é também o menos socialista de todos os anteriores socialistas líderes de governo, e provavelmente o mais eficaz e eficiente no aproveitamento dos recursos à sua disposição. Dá que pensar…
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Apenas queria acrecentar que em entrevista ao Expresso, Sócrates revelou que a medida que mais lhe custou foi o aumento do IVA. E, sem dúvida, que é essa a medida que lhe traz maiores doses de contestação.

Comentários

5 Comments:

At terça-feira, março 14, 2006 2:37:00 da tarde, Blogger Elise said...

Não sei se sócrates será assim tão objectivo. Por vezes parece um pouco perdido nas suas decisões. Espero que cavaco puxe pelo melhor que há em Sócrates já que esse "melhor" existe.

 
At terça-feira, março 14, 2006 3:59:00 da tarde, Blogger Rui Rocha said...

concordo contigo em tudo menos num aspecto: não acho que o governo de durão barroso tenha sido negativo. de qualquer forma é um bom post, uma opinião globalizante, nada específica, não aprofundada, mas interessante.
ps: nem sempre discordo do que dizes!

 
At terça-feira, março 14, 2006 3:59:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

As pessoas queixam-se muito da subida dos impostos. É difícil para os portugueses viverem com mais um agravamento nos preços. Mais lembrem-se lá de uma coisa... Outro dia veio nos jornais a dizer que a população devia 17 mil milhões de euros (ou algo do género) ao fisco. Talvez se os portugueses não tivessem roubado tanto nos anos 90 tivéssemos mais dinheiro para fazer reformas e assim. Está certo que nem toda a gente fugia ao seu dever, mas é como se costuma dizer: paga o justo pelo pecador. Um governo sem dinheiro não vai longe, por muito que se esforce...

 
At terça-feira, março 14, 2006 7:09:00 da tarde, Blogger Sofocleto said...

Miguel Sousa Tavares – Expresso - 07.01.2006

É como a Ota e o TGV: ninguém ainda conseguiu explicar direito a lógica de interesse público, de rentabilidade económica ou de factor de desenvolvimento. Mas todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos, não apenas os directamente interessados - os empresários de obras públicas, os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos - mas também flutuantes figuras representativas dos principais escritórios da advocacia de negócios de Lisboa. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. Não há nada pior e mais perigoso do que a relação dos socialistas com o grande dinheiro: são saloios, deslumbrados e complexados. E o grande dinheiro agradece e aproveita.

Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro -, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre. Jogando com o que resta do património público, com o dinheiro que receberemos até 2013. Cá fora, na rua e frente a eles, estão os que acreditam que nada pode mudar, mude ou não mude o mundo.

Brilhante Phillipe Vieira, brilhante!

 
At sábado, março 18, 2006 9:02:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não cumpriu algumas promessas? essas "algumas", foram as ideias chave da campanha eleitoral e foi contando com essas medidas que o PS consegui essa maioria. Era óbvio que Sócrates sabia que não era possível cumprir... mas há males que vêm por bem

 

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