07 março 2006

Macroeconomia e inflação: ensaio acerca das flutuações de valor das condecorações presidenciais

O título é pomposo (desnecessariamente pomposo, admita-se) mas o assunto é pertinente. Em 10 anos, Jorge Sampaio conseguiu condecorar mais de 1900 pessoas. Feitas as contas, dá uma média de 190 pessoas por ano, cerca de quatro por semana.
Passar os olhos pela lista de contemplados não abona em favor do Presidente. Uma peneira pouco criteriosa deixou passar de tudo um pouco, desde estilistas (ainda por cima medianos, dizem os entendidos...) até jardineiros, passando por ex-terroristas em part-time. Somar dois e dois não é difícil e a conclusão é clara: ou o mérito pulula em cada esquina ou a exigência não é grande. É economia pura: quando a riqueza não aumenta e muita moeda é cunhada, o valor de cada unidade diminui. Na Alemanha dos anos vinte estavam todos cheios de dinheiro e não podiam comprar nada; agora, o que não falta por aí são «altas individualidas» (as aspas não estão a mais) a abarrotar de medalhas pouco exigentes nos peitos que decidem agraciar. Há coisas...
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Esta banalização das honrarias - ridícula, em absoluto - não é, ao contrário, do que alguns dizem, exclusividade lusa. Também em Inglaterra - terras de Sir Elton John... - as mãos da rainha não são esquisitas na hora de agraciar aqueles que, de uma forma ou de outra, se distinguiram na defesa da pátria.
Esta louvável boa-vontade produziu, infelizmente, algumas reacções pouco simpáticas. Há cerca de um ano, um cantor de segunda recusou entrar no hall of fame britânico. Pobre e mal agradecido? Not really: o músico (cujo nome não recordo) afirmou que a profusão de medalhas, títulos e honrarias era um sinal de que a fasquia estava colocada bem abaixo do nível mínimo. E ele, artista medíocre, sim, mas com uma réstia de orgulho, não teve pejo em dizer «No thanks» à Rainha.
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É verdade que em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Mas quando o Estado concede três olhos a rodos, nem todos poderão ser reis. É a economia.

Comentários

5 Comments:

At terça-feira, março 07, 2006 3:07:00 da manhã, Blogger Filipe Alves said...

Já não é de agora, porém. Já no século XIX circulava a anedota (julgo que da autoria de Bordalo Pinheiro): "Foge cão, que te fazem barão! Para onde, se me fazem visconde?" ;)

 
At terça-feira, março 07, 2006 3:52:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Não sei se sabes mas o Sir Elton John (apesar de não ser o meu estilo de música) é um dos músicos mais bem sucedidos a nível mundial e foi condecorado por disseminar a cultura inglesa e também pelos seus donativos a associações. Se contestas isto, então diz-me quem é que deve ser condecorado...

 
At terça-feira, março 07, 2006 5:28:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"A tolerância não é respeitar as ideologias, mas sim as pessoas. Respeitar as mulheres é o princípio fundamental da humanidade." - Quitéria Barbuda in "Os Filhos de Maomerdas", revista "Espírito", nº 28, 2006.

QUAES CUNQUE FINDIT

www.riapa.pt.to

 
At quinta-feira, março 09, 2006 1:23:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Hugo, o título de Sir era originalmente atribuido a cavaleiros. De facto, não vejo o Elton John como um cavaleiro, e daí a ironia do comentário.

 
At quinta-feira, março 09, 2006 2:49:00 da manhã, Blogger Hugo Monteiro said...

Talvez um cavaleiro florido. Mas o que está em questão é merecer ou não uma condecoração. E podes ter a certeza que nem todos os cavaleiros de antigamente foram tão "másculos" como se diz...

PS: não tenho a certeza, mas acho que as lady's não eram "cavaleiras" nem coisa parecida...

 

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