19 março 2006

Há cada um...

Em França, as coisas estão a aquecer. Literalmente. A nova lei que facilita os despedimentos nos primeiros anos de emprego é o motivo dos protestos, das manifestações e do vandalismo.
O cenário repete-se ciclicamente e, quando se dá, a sociologia de casa de banho tem o rótulo na ponta da língua: mais um Maio de 68. Aconteceu com os jovens desintegrados que expurgaram as mágoas nos carros alheios há uns meses e acontece agora, com os meninos da segurança no trabalho. Não me entendam mal: eu também quero segurança no trabalho. Mas, entre um trabalho precário e não ter trabalho algum, alinho pelo segundo sem pensar duas vezes. E, num país em que a taxa de desemprego chegou a ser superior a 30% na faixa etária dos 20 aos 30, desculpem lá, mas o que havia antes não era segurança no emprego, mas sim um desemprego certo e seguro.
Aparentemente, os meninos em França não pensam assim. E, na luta pelo direito à segurança (segurança sem emprego, que vale o que vale) - possivelmente inspirados nas manifestações anti-globalização, esses momentos de êxtase da Esquerda moderna -, sairam à rua, partiram uns vidros e umas monstras, atiraram umas pedras e gritaram meia dúzia de palavras de ordem. Um conceito inovador de revolucionários, portanto: se antes havia o estilo robinwoodesco - tirar aos ricos para dar aos pobres -, desta vez a ideia é destruir a propriedade dos próprios pobres e da classe média. Numa síntese: «x» destrói a propriedade «y» como forma de protesto contra uma lei que lhe retira as possibilidades de ter segurança num emprego «z» - que não é um fim em si, mas sim um meio de ganhar dinheiro que permitirá, mais tarde, ter direito à propriedade (digamos, «y», por exemplo).
Aguardemos ansiosamente os comentários do Bloco de Esquerda e do PCP aos acontecimentos em França.

Comentários

5 Comments:

At domingo, março 19, 2006 11:06:00 da tarde, Blogger Sofocleto said...

O FIM DO EMPREGO

Este texto é um excerto de um artigo de Fernando Dacosta publicado na revista Visão 625-24/02/05. Subscrevo-o na totalidade.

Prevê-se que em cada cinco crianças nascidas hoje, três jamais arranjarão emprego estável.

Corrompida, a liberdade imergiu-as em novas (outras) desigualdades, indignidades, como as do crescente, insaciável «triângulo negro» da precarização, escravização, exclusão. Direitos penosamente conquistados (na saúde, na assistência, no trabalho, no ensino, no lazer, na cultura) estão a ser dissolvidos em cascatas de perfumado cinismo light. Os jovens que entram no mundo do emprego fazem-no a prazo, a contrato volátil, vendo-se, sem a mínima segurança, impedidos de construir uma vida própria, entre zappings de subtarefas e de pós-formações ludibriadoras.

O problema não tem no sistema vigente, o que poucos ousam admitir, solução visível. Enquanto isso há quem, para se confundir (confundir), culpabilize por ele a baixa taxa de natalidade e, lestamente, se proponha incentivá-la – incentivá-la para aumentar o número de crianças abandonadas?, para disparar a percentagem de jovens sem ocupação?, para renovar de carne fresca e farta os canhões, as camas, os catecismos, os esclavagismos? Prevê-se, com efeito, que em cada cinco crianças nascidas hoje em Portugal, três jamais arranjarão emprego estável.

A queda, por exemplo, de descontos para a Previdência (que tanta ondulação provoca) não advém da falta de trabalhadores com vontade de fazê-los – aos descontos; advém, sim, da falta de trabalho para serem feitos. Há já mais de 600 mil desempregados «seniores» e de 80 mil jovens à procura do primeiro emprego (40 mil licenciados), sem que ninguém, ao que se observa, se dinamize com isso. Nesta fase, as teses «coelheiras» só iriam agravar, não resolver, os problemas demográficos existentes.

Subir a idade da reforma para os 70 anos (aos 50 um trabalhador começa a ser tratado pelos superiores e colegas como um estorvo), aumentar os horários laborais ( a produção tornou-se não insuficiente mas excessiva para o mercado), congelar os salários líquidos (enquanto a inflação os baixa) como defendem certos especialistas (que preservam, no entanto, para si retribuições e reformas milionárias) apenas desarticulará o mecanismo social que a humanidade vem, penosamente, construindo no sentido de tornar a existência mais digna e solidária.

As velhas gerações, a sair de cena, agarram-se às influências que julgam, julgavam, manter, merecer. Disfarçando desesperos, socalcam sem resultados patéticas vias sacras de cunhas, súplicas, empenhos, hipotecas, tráficos. As crispações que não sentiram quando, décadas atrás, iniciaram as suas carreiras (eram de outro tipo as, então, sofridas) experimentam-nas agora em relação à insegurança inquietante dos filhos e netos. Ingénuas, acreditaram que bastava, como no seu tempo, um curso superior para se ficar protegido, promovido. Fizeram os seus tirá-lo sem reparar que as universidades se transformaram de clubes VIP em fábricas massificadoras, cada vez mais vazias de elitismos internos e poderes externos.

Só os filhos-família de famílias dominantes (na direita, no centro e na esquerda, na economia, na política e nos lobbies) dispõem de privilégios garantidos, defendidos.

 
At terça-feira, março 21, 2006 12:40:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Sofocleto, você maça-me. Posso ler o mesmo texto na caixa de comentários do Insurgente e do Blasfémias. Para um tipo de esquerda, até que frequenta muitos blogues de direita. Em todo o caso, dou-lhe a resposta que lhe costumam dar por essas bandas:

«Sofocleto de que substância ilícita não prescinde?»

 
At sábado, março 25, 2006 2:46:00 da manhã, Blogger Hugo Monteiro said...

Sofocleto, estude Sociologia. Vai ver que o mundo deixa de ser o demónio num instante. Quero dizer, ele não deixa de ser mau(ou pouco justo), você apenas vai deixar de dizer ingenuidades como essa...

 
At segunda-feira, março 27, 2006 12:31:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

permitam-me pedir-lhes aos dois que dêem uma resposta mais concreta a sofocleto. s discordam das suas opinioes, por favor apresentem, como alternativa, as vossas, sem necessidade de ataques pessoais e referências arrogantes a opções políticas de ambos os lados. (cada um defende os seus ideais e uma discussão educada de ideias é preferível a falatórios sem mais que ataques/contra-ataques perfeitamente ocos)

 
At sexta-feira, abril 28, 2006 3:18:00 da tarde, Blogger bolotavoadora said...

Amigo gostei muito do teu blog. Se conheceres alguem na minha freguesia, ou mesmo a qualquer blogger interessado em preservação do ambiente, divulga o meu blog. Obrigado. Continua o bom trabalho. Um abraço.

 

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