21 março 2006

Até um dia

Ter um blogue é um vício. Começa-se a postar semanalmente, quando algo de interesse especial surge, e acaba-se a a escrever sobre o mais irrelevante dos assuntos, perdendo horas e horas a esmiuçar os recantos da blogosfera em busca do último artigo de algum autor favorito, e a actualizar constantemente dezenas de caixas de comentários na ânsia de recebermos uma resposta ou ver os desenvolvimentos da última discussão.
Estes últimos dez meses de blogue foram excelentes. Conheci muita gente (ainda que apenas virtualmente) tive discussões intermináveis e debates interessantíssimos, assisti a polémicas acesas - algumas esclarecedoras, outras nem tanto -, formei várias opiniões, mudei algumas e consolidei muitas outras; e, mais importante, diverti-me imenso. Também deu para aprender muita coisa. A blogosfera é um mundo fascinante – um vício, sim.
Apesar de tudo, até os vícios têm fim. E um dos meus vícios – este blogue – acaba aqui, dez meses e mais de 300 posts depois. O interesse esfriou, o tempo escasseia e tenho razões para crer que nos próximos tempos as oportunidades vão ser cada vez menos. Escrever aqui também serviu para conhecer os meus limites. Que ainda são muitos. Citando o Karloos, sinto, neste momento, que tenho muito que aprender, que tenho muito mais para ler do que para escrever. Vou perder o prazer de escrever e discutir; em compensação, vou ganhar o tempo correspondente para fazer muitas outras coisas, incluindo algumas mais sérias e prementes. Da forma como as coisas estavam, o custo de oportunidade de ter o blogue revelava-se incomportável.
A todos os que por aqui passaram, a todos os que comentaram e linkaram – desde os mais anónimos até alguns dos VIP da blogosfera –, obrigado. O blogue acaba mas tenciono continuar por aí – a visitar e, quando se justifique, a comentar. Quando tiver tempo. Os vícios nunca passam completamente.
Termino deixando uma referência aos meus bloggers favoritos. São muitos, e uma olhadela às listas aqui ao lado dá para ficar com uma ideia. Referir todos é impossível; não mencionar pelo menos o Tiago Mendes e o Luís Aguiar-Conraria seria injusto. Foi óptimo constatar que ainda havia – há – na blogosfera gente capaz de juntar a inteligência à honestidade intelectual, não embarcando na lógica de barricada e pensando pela sua própria cabeça. Foram ponto de paragem obrigatório quando procurei opiniões sensatas e descomprometidas.
Um último obrigado a todos. E agora, olhem, vou à minha vida!

19 março 2006

Há cada um...

Em França, as coisas estão a aquecer. Literalmente. A nova lei que facilita os despedimentos nos primeiros anos de emprego é o motivo dos protestos, das manifestações e do vandalismo.
O cenário repete-se ciclicamente e, quando se dá, a sociologia de casa de banho tem o rótulo na ponta da língua: mais um Maio de 68. Aconteceu com os jovens desintegrados que expurgaram as mágoas nos carros alheios há uns meses e acontece agora, com os meninos da segurança no trabalho. Não me entendam mal: eu também quero segurança no trabalho. Mas, entre um trabalho precário e não ter trabalho algum, alinho pelo segundo sem pensar duas vezes. E, num país em que a taxa de desemprego chegou a ser superior a 30% na faixa etária dos 20 aos 30, desculpem lá, mas o que havia antes não era segurança no emprego, mas sim um desemprego certo e seguro.
Aparentemente, os meninos em França não pensam assim. E, na luta pelo direito à segurança (segurança sem emprego, que vale o que vale) - possivelmente inspirados nas manifestações anti-globalização, esses momentos de êxtase da Esquerda moderna -, sairam à rua, partiram uns vidros e umas monstras, atiraram umas pedras e gritaram meia dúzia de palavras de ordem. Um conceito inovador de revolucionários, portanto: se antes havia o estilo robinwoodesco - tirar aos ricos para dar aos pobres -, desta vez a ideia é destruir a propriedade dos próprios pobres e da classe média. Numa síntese: «x» destrói a propriedade «y» como forma de protesto contra uma lei que lhe retira as possibilidades de ter segurança num emprego «z» - que não é um fim em si, mas sim um meio de ganhar dinheiro que permitirá, mais tarde, ter direito à propriedade (digamos, «y», por exemplo).
Aguardemos ansiosamente os comentários do Bloco de Esquerda e do PCP aos acontecimentos em França.

16 março 2006

Eu vou!


É já no próximo dia 2 de Junho que Roger Waters vem actual a Portugal no âmbito do festival de música "Rock in Rio".
Sendo um grande fã dos Pink Floyd (para mim ainda a melhor banda de todos os tempos) não posso deixar passar a oportunidade de ver o seu líder ao vivo. Grande parte das fabulosas letras dos Floyd foram escritas por Waters, se bem que na sua sua maioria interpretadas por David Gilmour.
Os Pink Floyd ficarão na história como uma das bandas mais invoadoras de sempre. São considerados a maior referência do rock psicadélico dos finais da década de '60 e inícios da de '70, tendo mais tarde conseguido unir esse estilo de música a um rock mais próximo do blues, formando um som inigualável e, por isso mesmo, belo.
Esse mesmo som tem atingido gerações, fazendo com que a música dos Pink Floyd não conheça barreiras e toque todos aqueles que a ouçam, quer o tenham feito nos anos '70, '80, '90 ou nos dias de hoje. É intemporal.
Também são frequentes as tentativas por parte de grupos mais novos em igualarem o som dos Floyd. No entanto, não se conseguem aproximar do brilho e da pureza da música composta pelo quarteto formado por Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason.
Álbuns como "Meddle" (1971), "The Dark Side of the Moon" (1973), "Wish You Were Here" (1975) e "The Wall" (1979) são marcantes para a história da música e do rock.
A banda desmembrou-se após "The Final Cut" (1981), tendo todos os elementos prosseguido carreiras a solo. Nessa altura se viu que era Roger Waters a alma do grupo, tendo conseguido editar 3 álbuns de boa qualidade, bastante próximos da marca "Pink Floyd". Os restantes não conseguiram tanto sucesso, e em 1987 juntaram-se de novo para lançar "A Momentary Lapse of reason". Waters não gostou de os ver gravar um álbum debaixo do nome "Pink Floyd" tendo processado os membros da banda. Esta situação levou a anos de tensão entre Gilmour, Wright e Mason com Waters. Roger acbou por desistir do processo, e o trio lançou ainda "Division Bell" em 1994, e a digressão mundial "Pulse" que os trouxe ao Estádio José Alvalade em Agosto de 1995, tendo esgotado os estádio em duas noites consecutivas. Feito inigualável.
A banda juntou-se no passado mês de julho para participar no "Live 8". Foi a priemeira vez que os quatro tocaram juntos em mais de 20 anos.
Waters veio a Portugal em 2001 no âmbito da "In the Flesh Tour", esgotando o Pavilhão Atlântico duas noites seguidas. Ele regressa agora para o "Rock in Rio", num dia que conta com as presenças de Jota Quest, Rui Veloso e Carlos Santana.
A actuação de Waters deverá incidir mais sobre a sua carreira a solo, mas não deverá passar por cime de músicas míticas dos Floyd, como "Wish you were here", "Hey You", "Comfortably Numb", "Time" entre outras.
Aliás, será provavelmente pela possibilidade de recordar essas músicas ao som de um dos membros originais dos Floyd, que muita gente irá ver o concerto de Roger Waters.
Eu vou!

14 março 2006


No dia 12 de Março de 2005, José Sócrates tomou posse como Primeiro-Ministro de Portugal, o primeiro socialista a fazê-lo com maioria absoluta.
Hoje, passado um ano do início da sua governação pode-se começar a esboçar um retracto daquilo que tem sido Sócrates como Primeiro-ministro.
Parece-me a mim que este foi um ano, apesar de tudo, positivo. A pouco e pouco Sócrates habituou-nos ao seu estilo autoritário e rigoroso, contrastando em absoluto com António Gueterres, seu antigo “chefe” e actual Alto-comissário para os refugiados. Sócrates é muito mais activo que Guterres, e repudia a passividade, a ignorância e a estupidez. De facto, quem poderia dizer que Sócrates seria tão diferente do seu mentor?
Foi Mário Soares que, durante a campanha eleitoral, disse que o primeiro-ministro deveria ser alguém capaz de “dar murros na mesa e ter coragem em determinadas situações. Sócrates é o anti-Guterres.”
Sócrates é um PM rigoroso, objectivo e disciplinado. Obriga os seus ministros a contarem-lhe tudo aquilo que se passa nos seus ministérios – organizando para o efeito uma reunião semanal às segundas-feiras – sendo no entanto um defensor exímio de todos eles.
Aliás se há mais algum ponto em que Sócrates divirja de Guterres é exactamente na estabilidade governamental. Muitos foram as reformas no governo causadas por pressões privadas e da comunicação social no tempo de Guterres; ora, Sócrates não se deixa pressionar e protege os ministros até à extensão das suas forças. A única excepção foi Campos e Cunha mas, convenhamos, este não tinha grande vontade de continuar nas suas funções. Mas Teixeira dos Santos – seu substituto – Correia de Campos, Manuel Pinho, Isabel Pires de Lima e até Freitas do Amaral já foram “salvos” por Sócrates em tempos de dificuldade.
Concordando-se ou não com as decisões de Sócrates enquanto PM, é necessário admirar o estilo seguro e imperial com que anuncia essas medidas. Faz às vezes lembrar… Cavaco Silva na certeza das suas resoluções e na confiança que – procura – incutir aos cidadãos. Claro que muitos dirão que beneficia do facto de governar com maioria absoluta, de ter defrontado um opositor em queda – Santana Lopes – e de ter passado em pouco tempo de deputado, a líder da oposição a primeiro-ministro.
Eu, por outro lado, prefiro ver o outro lado da coisa. Prefiro ver a sua capacidade profissional, a audácia de algumas das suas posições e avaliar a confiança que ele me transmite enquanto primeiro-ministro. Claro que ainda não cumpriu algumas das suas promessas eleitorais mas, pelo menos, já as começou a preparar e a por em prática. O plano tecnológico, a venda livre de medicamentos que não necessitem de receita, a OTA e o TGV, medidas na educação entre outras.É indiscutível que num ano, e passando o país por uma irremediável crise económica e social, Sócrates tem trabalhado bem. Tivessem Guterres e Barroso feito o mesmo e se calhar viveríamos bem melhor.
Por paradoxal que pareça, José Sócrates é o primeiro socialista a liderar um governo de maioria absoluta, mas é também o menos socialista de todos os anteriores socialistas líderes de governo, e provavelmente o mais eficaz e eficiente no aproveitamento dos recursos à sua disposição. Dá que pensar…
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Apenas queria acrecentar que em entrevista ao Expresso, Sócrates revelou que a medida que mais lhe custou foi o aumento do IVA. E, sem dúvida, que é essa a medida que lhe traz maiores doses de contestação.

13 março 2006

Berlusconi, um homem que prima pela subtileza

Berlusconi abandonou ontem uma entrevista. À saída, conotou a entrevistadora com a Esquerda - como «é de Esquerda, não deixa as outras pessoas falarem».
Rezemos agora para que nem toda a Direita seja conotada com o camarada Silvio.

11 março 2006

Telmo, tu queima-lhe a casa, pá

Freitas do Amaral chamou ignorante a Telmo Correia.

10 março 2006

Ri-te ri-te, ri-te enquanto podes















Porque quando o Beto te sair ao caminho...

Pode o Benfica vencer?

A inspiração de cada equipa segue uma distribuição normal. Apesar da média e do desvio-padrão variarem, o nível de inspiração mais vezes apresentado (inferido das performances em cada jogo) ajusta-se ao nível médio da curva (o nível médio da curva não implica um nível de exibição mediano; por exemplo, portugueses e alemães têm diferentes níveis médios no que diz respeito à altura). Depois, nas zonas laterais da curva encontram-se as performances um pouco acima da média e um pouco abaixo da média. Nos extremos encontram-se as performances muitíssimo inspiradas (à direita) e as completam depauperadas (à esquerda). Note-se ainda que a qualidade de jogo «real» de cada equipa é dada não apenas pela inspiração mas sim pelo produto da inspiração pelo potencial futebolístico (técnico-táctico e físico-mental, para usar terminologia de Gabriel Alves). Temos assim a fórmula geral que dá a qualidade de jogo de uma equipa: Qx1 = I x Pf (em que «Qx1» representa a qualidade de jogo da equipa «x1», «I» representa a inspiração e «Pf» designa o potencial futebolístico). A equipa que sai vencedora do jogo é aquela que, num dado momento «p», apresenta melhor «Q».
Assim, o Benfica passará a eliminatória se QBenfixa > QBarcelona <=> IBenfica x PfBenfica > IBarcelona x PfBarcelona. Pf são constantes num dado momento «p» (e, naturalmente, Pf do Barcelona é bastante superior a Pf do Benfica). Uma vez conhecidas as constantes, a questão de saber quem sairá vencededor do jogo será passível de ser calculada (ainda que apenas probabilisticamente). Assim, e tomando como axiomas
a) PfBarcelona>PfBenfica
b) Maior «Q» garante vitória
c) Inspiração segue uma CN
chegamos aos seguintes teoremas:
1) O Benfica tem uma possibilidade de ganhar.
2) O Barcelona tem maiores probabilidades de ganhar.
3) Quanto maior a diferença entre os respectivos «Pf's», mais improvável a vitória encarnada.
4) No limite, QBenfica apenas será maior do que QBarcelona em casos extraordinariamente improváveis, quando o lado mais à esquerda da curva de inspiração catalã (correpondente, digamos, a uma exibição muito, muito desinspirada) se conjugar com o lado mais à direita homóloga benfiquista (correpondente, por exemplo, a uma exibição extremamente conseguida).

Quotas

O PS quer impor paridade nas listas eleitorais. Quotas, portanto. Para mulheres.
A defesa deste tipo de medidas baseia-se em argumentos de duas ordens. Primeiro: homens e mulheres têm idênticas capacidades para o desempenho de cargos políticos. Segundo (e derivando do primeiro): como há barreiras sociais que impedem a ascensão das mulheres, a dita deve ser promovida por via legal.
A primeira premissa é aceitável. Já a segunda cai no erro (ingénuo) de considerar garantido que a concessão de «x» lugares para a classe «y» terá como resultado a sua ocupação pelos «x» melhores representantes da classe «y».
Acontece que uma quota não garante qualidade - garante um número. Os entraves sociais à entrada de mulheres na política não podem ser combatidos pela legislação - mas apenas pela educação. A criação de quotas tem, assim, resultados bem diferentes dos esperados. Em primeiro lugar, é uma nova espécie de «proteccionismo» sexual que defende a mediania. Como a participação na vida política passa a estar indexada ao sexo e não às qualidades, está aberto o caminho para a proliferação de políticas medíocres e sem capacidades. Em segundo lugar, as quotas não garantem a defesa dos direitos das mulheres. A situação seguinte permite esclarecer. Um partido ou tem preocupações com as mulheres ou não tem. Se tem, então defenderá os seus direitos quer tenha mulheres nas suas fileiras, quer não tenha. Se, por outro lado, não está para aí virado, então tenderá a preencher as lacunas com «mulheres-fantoche»; o ideal é uma mulher discreta, que faça poucas ondas e não levante problemas. Em terceiro lugar, uma mulher má na Assembleia não é apenas uma mulher má na Assembleia; representa também um elevado «custo de oportunidade», na medida em que está a tirar lugar a um melhor representante que no seu lugar poderia fazer melhor figura. A discriminação positiva acaba, assim, por discriminar negativamente muitos homens de qualidade e, no geral, o povo - os eleitores que são governados.
É verdade que, sem quotas, o critério de qualidade também não está garantido. A diferença, neste caso, é que, não sendo promovido, também não é hipotecado. E essa diferença não é coisa desprezável.
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P.S.- Por razões similares, a criação de quotas para homens - como, por exemplo, nas Universidades - é igualmente aberrante.

09 março 2006

Deixem-no sonhar


“Vamos tentar estar na final da Liga dos Campeões”; Luís Filipe Vieira (LFV), Presidente do Sport Lisboa e Benfica


Depois de uma eliminatória tão bem conseguida, em que eliminamos o, digam o que disserem, o campeão europeu, o céu passou a ser o limite. A equipa do Benfica não é das mais fortes do Mundo, como tão sabiamente disse Fernando Morientes, mas tem alma querer e vontade de ir longe na “Champions”, e isso é uma grande ajuda.
Claro que isso por si só não chega. É preciso ter o talento do Barcelona, a competência táctica do Milan, a frieza da Juventus e a eficácia do Lyon.
Mas, não sou daqueles que acha que a equipa do Benfica é constituída por jogadores medianos sem habilitações necessárias para jogar numa competição desta envergadura. O Benfica tem belíssimos jogadores, senão vejamos: Luisão, Anderson e Ricardo Rocha são 3 grandes centrais, com lugar em quase todas as equipas ainda em prova; Léo é dos jogadores que melhor interpreta a função de defesa esquerdo no futebol moderno; Petit e Manuel Fernandes formam um meio-campo forte que apenas peca por não ser muito criativo; Simão encanta a Europa; Geovanni e Robert têm criatividade para dar e vender; Karagounis além de campeão europeu de selecções é um dos jogadores mais experientes nesta prova; e Nuno Gomes é um avançado muito inteligente que por vezes se torna demasiado complicativo e perdulário.
Claro que a equipa do Benfica tem muitas limitações, mas tem também muitas forças e para seguir em frente na prova rainha do futebol Mundial, terá de fazer valer essas forças.
Esta foi uma eliminatória que, olhando para as coisas realisticamente, acabou por ser acessível. O Liverpool não tem uma grande equipa – mas tem grandes jogadores – e nunca conseguiu ser uma verdadeira oposição ao Benfica, que fez dois jogos satisfatórios carimbados com 3 belos golos. Então o de Simão…
Mas, para completar o desejo de LFV será preciso algo mais. Será preciso evidenciar maior qualidade de jogo, será necessário deixar de respeitar tanto o nome dos adversários e os seus terrenos e teremos que ser mais audazes na abordagem aos jogos.
Barcelona, Juventus, Villareal, AC Milan, Lyon, Arsenal e Inter ou Ajax estão na calha, e acreditem que todos eles desejam, à partida, o Benfica, tal como o Liverpool o fazia. Pode ser que depois tenham uma desilusão semelhante à dos reds.
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PS: Só queria referir que caso o Inter elimine o Ajax, apenas 1 equipa (o Arsenal) não latina estará presente nos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Será o ressurgir do futebol “espectáculo” personificado pelo futebol latino? O futebol de passe rápido, ilusão, criatividade, técnica? Eu gostaria de pensar que sim, até porque o próprio Arsenal tem mais jogadores de orientação latina do que o contrário. Senão olhe-se para o 11 inicial do jogo de ontem.

07 março 2006

Macroeconomia e inflação: ensaio acerca das flutuações de valor das condecorações presidenciais

O título é pomposo (desnecessariamente pomposo, admita-se) mas o assunto é pertinente. Em 10 anos, Jorge Sampaio conseguiu condecorar mais de 1900 pessoas. Feitas as contas, dá uma média de 190 pessoas por ano, cerca de quatro por semana.
Passar os olhos pela lista de contemplados não abona em favor do Presidente. Uma peneira pouco criteriosa deixou passar de tudo um pouco, desde estilistas (ainda por cima medianos, dizem os entendidos...) até jardineiros, passando por ex-terroristas em part-time. Somar dois e dois não é difícil e a conclusão é clara: ou o mérito pulula em cada esquina ou a exigência não é grande. É economia pura: quando a riqueza não aumenta e muita moeda é cunhada, o valor de cada unidade diminui. Na Alemanha dos anos vinte estavam todos cheios de dinheiro e não podiam comprar nada; agora, o que não falta por aí são «altas individualidas» (as aspas não estão a mais) a abarrotar de medalhas pouco exigentes nos peitos que decidem agraciar. Há coisas...
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Esta banalização das honrarias - ridícula, em absoluto - não é, ao contrário, do que alguns dizem, exclusividade lusa. Também em Inglaterra - terras de Sir Elton John... - as mãos da rainha não são esquisitas na hora de agraciar aqueles que, de uma forma ou de outra, se distinguiram na defesa da pátria.
Esta louvável boa-vontade produziu, infelizmente, algumas reacções pouco simpáticas. Há cerca de um ano, um cantor de segunda recusou entrar no hall of fame britânico. Pobre e mal agradecido? Not really: o músico (cujo nome não recordo) afirmou que a profusão de medalhas, títulos e honrarias era um sinal de que a fasquia estava colocada bem abaixo do nível mínimo. E ele, artista medíocre, sim, mas com uma réstia de orgulho, não teve pejo em dizer «No thanks» à Rainha.
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É verdade que em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Mas quando o Estado concede três olhos a rodos, nem todos poderão ser reis. É a economia.

06 março 2006

Hugh!

Segundo a «Pública» de domingo, Cavaco Silva gostava de puxar os pêlos das pernas das raparigas de Boliqueime.
Espero que entretanto tenha perdido o hábito.

04 março 2006

Vídeo

A ver: este vídeo, de uma psicóloga árabe-americana. Mas vejam tudo mesmo, até ao fim.
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Via Blasfémias.

02 março 2006

Diferenças

Muitos argumentam que Ricardo Quaresma, extremo do FCP, é o melhor jogador da liga portuguesa. Seguindo essa linha de raciocínio, esses mesmos defendem que a sua presença no lote de 23 jogadores que vão à Alemanha é indispensável, sublinhando que para um jogador de tanta classe, o Euro de sub-21 é muito pouco.
Reconheço que Quaresma é um jogador como poucos. Como diria um “brilhante” comentador desportivo, ele tem “arte nos pés”, “a bola faz o que ele quer”. Quaresma é, de facto, um génio.
No entanto a história do futebol está cheia de génios que nunca singraram. Jogadores que tinham todas as capacidades do Mundo, mas que não conseguiram demonstrá-las ao mais alto nível. Sim, Quaresma é um belíssimo jogador na liga portuguesa, mas não foi ele quem esteve em Barcelona e não vingou? Quaresma é o maior talento da selecção sub-21, mas também não é verdade que sempre que tem tido oportunidades na selecção “A” as coisas não lhe têm saído bem?
Uma vez esse grande homem do futebol que é Jaime Pacheco (estou a brincar) disse que jogar nos “sub-21” não é a mesma coisa que jogar com os “grandes”. Há jogadores que simplesmente não conseguem materializar as suas potencialidades nos grandes palcos.
Há, contudo, outros que adoram jogar nesses palcos. E essa situação nada tem a ver com idades nem experiência. Falo, por exemplo, de Cristiano Ronaldo, que aos 21 anos tem Manchester a seus pés, e está em vias de receber de Figo a missão de levar a selecção às costas nos próximos anos. Com apenas 18 anos (creio eu) chegou a Manchester e impôs-se. Foi, evidentemente, alvo de um rigoroso treino físico e mental, mas conseguiu adaptar-se ao futebol inglês, e mais importante do que isso, aprendeu a colocar a sua genialidade em prol da equipa, ao serviço da equipa. Ronaldo é um génio da bola que, ao contrário de Quaresma, nunca se esquece que tem mais 10 companheiros em campo e que tem responsabilidades para com eles.
Vê-se assim que, embora com idades semelhantes, Quaresma e Ronaldo são dois jogadores, embora fenomenais, diferentes. Um tem a maturidade que vai fazer dele um craque durante muitos anos; o outro poderá nunca vir a tê-la e será mais uma “eterna esperança”.
Para quem, como eu, gosta de futebol é simplesmente necessário pedir a Quaresma que “cresça” e adapte as suas potencialidades à equipa, pois ele é um jogador brilhante.
Não seria uma pena que o nome de Quaresma ficasse gravado como "mais uma" belíssimo jogador que "não deu nada..."?