08 fevereiro 2006

O papel da imprensa

Em mais do que tempo de rescaldo eleitoral, surge como necessário investigar a profundidade de uma questão particular: Qual o impacto da comunicação social no resultado das últimas eleições presidenciais?
Para aqueles que vêem em Cavaco Silva como uma fiel representação do perigo capitalista, a comunicação social foi determinante para a sua vitória. Dirão eles que se não fosse esta maldita imprensa governada e gerida a partir dos interesses económicos, em que por um preço se “fazem” presidentes da República, Cavaco não se teria encontrado a passada semana com Bill Gates como presidente eleito. Dirão que as televisões criaram uma imagem messiânica de Cavaco, pintando-o, aliás como Francisco Louça – em mais um dos seus acessos de raciocínio – como o salvador da pátria, dando destaque a comentadores que diziam que ele era o único capaz de ganhar, porque Alegre é um poeta, Soares está acabado, Louçã só serve na oposição e que Jerónimo é ainda muito vermelho. Dirão ainda que as televisões deram sempre mais destaque à campanha de Cavaco e às suas iniciativas.
Os jornais também não escapam à fúria da esquerda. Contestaram as poucas páginas dadas às suas campanhas, e a constante monopolização da campanha. Destacam que as redacções são pouco, ou nada, imparciais e que os editores são todos uns capitalistas de direita. A rádio passa pela mesma reprovação por parte desta claque descontente com 50.6% dos eleitores que foram votar no passado dia 22.
Nem os centros de sondagem escaparam à crítica. A estes, as campanhas derrotadas criticam o timing, sempre incorrecto, de divulgação de sondagens, todas falsas, que davam vitória à primeira volta para Cavaco Silva. Diziam eles que Cavaco nunca ganharia à primeira volta e que esta era mais uma tentativa por parte de uma, desesperada, candidatura em influenciar os portugueses a votar no “novo” D. Sebastião.
Mas também a candidatura vencedora não está contente. Em boa hora, afirmou que a sua campanha estava a ser alvo de constantes atentados vindos de todo lado e que a comunicação social dava cobertura a tudo isto. A culpa de as pessoas poderem vir a pensar que o bom professor apenas percebe de números era de imprensa, que relatava quase na totalidade os discursos dos adversários.
Diga-se, no entanto, em abono da verdade que esta campanha foi bem menos violenta para com os media dos que as outras. Se calhar porque já sabia que ganhava, era apenas uma questão de à primeira ou à segunda, mas com um candidato que não gosta de fazer campanha, convém ganhar à primeira.
Na minha muito modesta opinião, de quem começa agora a perceber os meandros da comunicação social, devo dizer que, a meu ver, ela foi bastante imparcial e profissional. Acima de tudo profissional. Claro, que havia televisões ou jornais que davam a entender que a sua preferência ia num determinado sentido, mas isso acontece sempre. Como dizia Heisenberg, não há forma de sermos completamente imparciais nas nossas análises e observações.
Alguns dirão que esta ( a controvérsia gerada em torno de alegado favorecimento da imprensa a um candidato) é uma falsa questão. Nos Estados Unidos, por exemplo, na véspera das eleições os principais jornais dizem qual o candidato que apoiam. Em 2004, jornais de referência como o “Washington Post”, o “New York Times” e até o meu querido “Boston Globe” declararam apoio a John Kerry. Ganhou? Não. Algum elemento do partido Republicano queixou-se? Não.
Não estou com isto a fazer apologia à falta de imparcialidade dos media. Acho que ela é essencial. Não será, contudo correcto, condenarmos uma redacção por ela apoiar um candidato. Se esta afirmar a essa vontade, e por isso avisar o público, não haverá maneira de os criticar. Ao fim e ao cabo, são apenas indivíduos, eleitores como todos nós que têm uma opinião acerca dos destinos do país.
Provavelmente, aqueles que se queixam agora são os mesmos que defenderam a integridade da comunicação social aquando das legislativas de 2005 em que houve uma cobertura da campanha, na opinião de alguns mais entendidos do que eu, completamente parcial, com o assassinato da carreira do bom Santana. A imprensa é, para uns, considerada a culpada da vitória esmagadora de Sócrates e do resto da esquerda.
Até as autárquicas do ano passado podem ser analisadas à luz desta realidade. Não haja dúvidas que a cobertura, principalmente televisiva, dada às campanhas dos candidatos bandidos foi determinante para a vitória de todos, menos do Avelino que também era aquele que tinha menos tempo de antena.
Não podemos negar o papel que a comunicação tem nos dias de hoje. Nós somos indivíduos cada vez mais sedentos de informação, e recorremos aos media para saciarmos essa vontade. Claro, que esta dependência face à imprensa aumentou o seu poder e reforçou o seu estatuto. Se há oferta é porque há procura. Se o Mário Soares se zangou com os jornalistas foi porque se apercebeu do impacto negativo que a sua candidatura estava a ter nas pessoas, e culpou a comunicação social por tudo isso.
Cada vez mais os políticos terão que desenvolver uma relação amistosa com a imprensa. Não servirá de nada criticar a imprensa. Santana fê-lo e reformou-se. Os políticos terão que perceber que hoje em dia a comunicação é “o” grande poder, e se eles querem chegar ao coração das pessoas é através dela, e não dos grandes comícios e discursos do antigamente.
É esta a política do século XXI: Uma política de braço dado com a imprensa.

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