14 fevereiro 2006

O «Freitas» deles

Comentários

7 Comments:

At terça-feira, fevereiro 14, 2006 1:47:00 da manhã, Blogger Sofocleto said...

Donde, se eu fosse contemporâneo e vizinho de Voltaire e lhe dissesse que a mulher dele era uma p*ta de m*rda, que ele era um c*brão do c*r*lho, e que o filho dele era um p*neleiro nojento, Voltaire daria a sua vida para defender a minha liberdade de expressão.

 
At terça-feira, fevereiro 14, 2006 9:57:00 da manhã, Blogger dos ∫antos said...

"Donde, se eu fosse contemporâneo e vizinho de Voltaire e lhe dissesse que a mulher dele era uma p*ta de m*rda, que ele era um c*brão do c*r*lho, e que o filho dele era um p*neleiro nojento, Voltaire daria a sua vida para defender a minha liberdade de expressão."

Só há um pequeno problema: falta a parte desse discurso em que a liberdade de expressão é realmente usada.

 
At terça-feira, fevereiro 14, 2006 11:24:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Sofocleto, está a confundir coisas. Aquilo por que Voltaire lutou foi pelo direito à expressão, não pelo direito à ofensa gratuita ou à injúria.

Por exemplo, se não fosse por homens como Voltaire, o Sofocleto não poderia escrever no seu blog coisas como estas:

«Parece que o pior já lá vai para João Paulo II. O seu estado de saúde tem progressivamente melhorado nas últimas horas. Já se baba menos e as fezes estão mais consistentes».

 
At terça-feira, fevereiro 14, 2006 8:26:00 da tarde, Blogger Sofocleto said...

A questão é precisamente essa pedro. Onde acaba ou começa o insulto? Quem ou como se definem as fronteiras? E há fronteiras? Uma expressão pode ser simultaneamente um gracejo inocente para uns e um insulto insuportável para outros.

É por isso que o «liberdade de expressão» é sempre relativa.

 
At quarta-feira, fevereiro 15, 2006 12:27:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Qualquer opinião é potencialmente ofensiva. Depende de quem diz, do que é dito e de quem recebe a mensagem. Proibir a expressão pelo facto de esta ser ofensiva levaria a que proibíssemos 90% do que é dito. Os analistas deixariam de poder dar a sua opinião para não ferir o ego dos analisados, deixariamos de poder contar piadas, não haveria lugar para muitas opiniões divergentes.
A liberdade de expressão consiste no direito de cada um poder exprimir opiniões potencialmente ofensivas - e qualquer opinião é ofensiva; apenas varia o número de pessoas que essa ofensa atinge, bem como o grau de desconforto que causa. E se um muçulmano se sentir ofendido por eu dizer que sou católico? E se uma loira se sentir ofendida por eu contar uma piada de loiras? O argumento de que qualquer opinião pode ser motivo de insulto insuportável levar-nos à proibição completa da expressão.

A lei impõe restrições que se prendem fundamentalmente com o bom nome das pessoas. Impede a ofensa gratuita, a calúnia, a difamação. Se chamar filho da p*ta a Voltaire estou a insultá-lo. Se eu fizer um desenho de Maomé com uma bomba no turbante, não estou a insultar muçulmanos. Porque nada no desenho liga um muçulmano determinado ao terrorismo. Um muçulmano é, antes de ser um muçulmano, um indivíduo. A sua identidade não se esgota na sua comunidade, assim como a minha não se esgota nas minhas preferências políticas, na minha cor, no meu credo ou na minha classe social. Um insulto, para ser insulto, tem de ser direccionado. Mesmo em casos deste género (ainda que apenas em casos-limite) a lei pode actuar, se for claro que está em causa o bom nome de algum indivíduo.

A liberdade de expressão não é «relativa». Se a possibilidade de eu me exprimir está dependente de ofender alguém, então não há liberdade de expressão de todo. A liberdade de expressão é um valor absoluto (ainda que tenha limites, porque pode ser usada para fins ilícitos - o que é diferente de ser «relativa») porque é o único valor capaz de permitir a coexistência de civilizações díspares. Se uma não tolera a outra e acha que tudo o que esta faz é ofensivo, a liberdade de expressão - a aceitação da diferença de opiniões, por muito idiotas, imbecis, blasfemas ou patetas que possam parecer - é o único valor harmonizador.

P.S.- o que também é diferente do «multiculturalismo» progressista do BE.

 
At quarta-feira, fevereiro 15, 2006 7:35:00 da tarde, Blogger Sofocleto said...

pedro romano:
«A liberdade de expressão não é «relativa». Se a possibilidade de eu me exprimir está dependente de ofender alguém, então não há liberdade de expressão de todo. A liberdade de expressão é um valor absoluto - ainda que tenha limites»...


Brilhante!

 
At quarta-feira, fevereiro 15, 2006 10:52:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Sofocleto, ganhe juízo. Volte a ler, com cuidado, o que eu escrevi: «A liberdade de expressão é um valor absoluto (ainda que tenha limites, porque pode ser usada para fins ilícitos - o que é diferente de ser «relativa») porque é o único valor capaz de permitir a coexistência de civilizações díspares. Se uma não tolera a outra e acha que tudo o que esta faz é ofensivo, a liberdade de expressão - a aceitação da diferença de opiniões, por muito idiotas, imbecis, blasfemas ou patetas que possam parecer - é o único valor harmonizador». Quando digo que um valor é absoluto quero dizer que é um valor fundacional da nossa civilização. Coisas como a liberdade, dignidade humana, direito à vida. São valores sobre os quais estão erigidas as nossas sociedades - as ocidentais; como é óbvio, não podemos afirmar que um valor é absoluto no sentido de ser uma espécie de «axioma» de todas as civilizações (uma pessoa pode simplesmente rejeitá-lo; tal como eu posso negar o enunciado 2+2=4 - basta não aceitar os axiomas ou rejeitar as leis da lógica).
O direito à dignidade humana também é (penso que concordará) um valor absoluto. Isso não impede que haja prisão para quem mata outro ser humano, ou para quem agride um semelhante.
O facto de um valor ter limites não implica que não seja absoluto. A contradição apenas se verificaria se o 'traçar' desses limites fosse relativo.

 

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