21 fevereiro 2006

O direito à idiotice

David Irving, historiador britânico, foi hoje condenado a três anos de prisão pelo Tribunal Regional de Viena (segundo o diário digital). No centro da acusação estavam as teses de Irving segundo as quais o Holocausto não passou de um embuste. O historiador alegava que a maioria das mortes nos campos de concentração decorreram de causas naturais - e chegou a apelidar Hitler de «amigo dos judeus».
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Ainda com a polémica dos «cartoons» bem fresca, convém relembrar uma coisa: na Áustria, este tipo de coisas é ilegal (e penso que a restrição não é exclusiva da Ástria, na Europa central). Há leis que proíbem a negação do holocausto (ou até «cartoons» a ridicularizá-lo). Está no papel, e ainda que o ridículo da condenação salte à vista, a sua legalidade está assegurada. Os limites da liberdade de expressão estão, neste caso, bem balizados pela legislação em vigor. Azar, Irving. Até 2009.
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Contudo, e para lá do aspecto formal da condenação, há outro ponto que interessa debater: a própria lei que condena a negação do Holocausto.
Irving não foi o primeiro e não será seguramente o último a fazê-lo. Mas a criminalização do revisionismo histórico não me parece, por si só, motivo para cadeia. A proibição da circulação de ideias - por muito idiotas ou imbecis que sejam, ou possam ser (como é o caso manifesto desta) - pode prevenir a sua difusão mas não lhes corta a raíz; ao impedir que uma ideia, uma teoria ou uma imagem seja expressa, está-se a cortar a possibilidade de ela ser combatida por outros argumentos. E apenas os argumentos podem refutar as teorias falsas e rebater as opiniões incorrectas. Ao votar determinadas opiniões à censura, estamos a imunizá-las - porque continuarão a germinar mas, desta vez, sem a possibilidade de serem falsificadas ou desmistificadas. Cá em Portugal, temos partidos trotskistas; não é por isso que o trotskismo está no poder - não há demagogia que resista à economia, nem teorias bolorentas que resistam à história.
Se Irving, ou qualquer outro, pretende negar o Holocausto, então e depois? Que seja livre de o dizer. A liberdade de expressão é também a liberdade de dizer idiotices e enormidades, de cair no ridículo e de ser imbecil - e, desde que não haja incitamento à violência, qual é o mal?
Aliás, e segundo li, há muito que Irving caiu em descrédito. Claro que não seria esse descrédito a justificar a indulgência em relação ao revisionismo - pelo contrário, é o facto de o revisionismo estar na origem do descrédito que a tolerância - de idiotice, sim, da imbecilidade, também - não se parece revestir de consequências nefastas.
E já agora: quando se evite discutir o passado, consegue-se, quanto muito, afastá-lo um pouco. Esquecê-lo, dificilmente. Apagá-lo, nem por sombras.

Comentários

7 Comments:

At terça-feira, fevereiro 21, 2006 2:57:00 da manhã, Blogger Filipe Alves said...

De acordo. Penso que este tipo de opiniões só devem ser reprimidas quando puserem em causa a ordem pública e as circunstâncias a isso obrigarem. Por exemplo, se quem as emite tiver poder para subverter o sistema democrático (caso dos nazis em 1933) ou ponha em causa a segurança do Estado e dos cidadãos (caso dos imãs radicais que têm sido condenados no Reino Unido por incitarem ao terrorismo). A liberdade não pode pôr em causa a liberdade dos outros.

 
At terça-feira, fevereiro 21, 2006 5:53:00 da tarde, Blogger Elise said...

acho uma aberração que se condene a negação do holocausto. com tantas provas e testemunhos de que o holocausto aconteceu é possível rebater as afirmações dos revisionistas.

 
At terça-feira, fevereiro 21, 2006 6:22:00 da tarde, Blogger Sofocleto said...

Em todos os assuntos devemos manter um espírito aberto:

«Uma última coisa: algumas pessoas dizem: "Com ou sem câmaras de gás, qual é a diferença?" E eu digo que a diferença é enorme. Também porque, primeiro, têm que colocar essa questão não a mim, mas sim às organizações Judaicas. Mas cuidado. Eu não estou a dizer ao povo Judeu. Eu digo às organizações Judaicas, que falam supostamente pelos Judeus individualmente. Devemos perguntar-lhes: "Por que é que insistem tanto nas câmaras de gás? Por que é que em França, se dissermos que as câmaras de gás não existiram, somos levados a tribunal? E condenados, certamente. Como é isso?" Deixem-me dizer-vos que eu percebo as organizações Judaicas muito bem . Porque, se nós não tivermos as câmaras de gás, o milagre das câmaras de gás, deixamos de ter o pilar central do "Holocausto". Nós deixamos de ter esta terrível arma, esta matança química. Sem uma arma específica de extermínio não podemos fazer acreditar as pessoas numa política de extermínio. Porque não existem documentos. Se tivermos a arma, isso sera suficiente. Isso provará que os Alemães decidiram matar essas pessoas metodicamente. E, se nós não tivermos o gás, as câmaras de gás, não encontraremos a justificação para os fantásticos números de 6 milhões. Por isso são necessárias. É algo secreto. É uma espécie de tabu. É por isso que as organizações Judaicas e o estado de Israel não querem que ninguém toque neste tabu. Estas câmaras de gás justificam tudo.»

 
At terça-feira, fevereiro 21, 2006 11:51:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Sofocleto, a verdade é que existem documentos assinados por Himmler e outros altos responsáveis nazis. O próprio Irving admitiu que mudou de ideias em relaçao as camaras de gas, quando em 1991 teve acesso ao diário de Himmler. Portanto, esse senhor que citou nao passa de um grandessíssimo aldrabão e um ser nojento.

 
At quarta-feira, fevereiro 22, 2006 12:27:00 da manhã, Blogger Sofocleto said...

Filipe Alves:

There are some people who maintain these claims of mass murder have never been proven. These people point to the lack of documentation other than the highly questionable and partially discredited evidence supplied by the Soviet Union at the Nuremberg Trials and the unreliable nature of the eyewitness testimonies, many of which have also been discredited. (For example, many former camp inmates, as well as American soldiers, still speak of "gassing" at the Dachau camp in Germany, even though it is no longer held that any [homicidal] gas chamber was ever in use at that camp.)

This VIDEO deals with, among other things, one of those proofs, one piece in a very large puzzle: the supposed gas chamber at the Auschwitz Main Camp.

 
At quarta-feira, fevereiro 22, 2006 1:23:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Sofocleto, você é impagável

 
At quarta-feira, fevereiro 22, 2006 3:53:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Muito bem, também vou entrar na brincadeira: talvez não saiba que o diário de Himmler (cuja autenticidade o próprio Irving reconhece) foi descoberto apenas há alguns anos. Nesse diário, o alto responsável refere o extermínio em massa dos judeus (que considerava necessário para salvar a Alemanha) e os problemas morais que isto levantava aos homens das SS. Faz inclusivé referência à necessidade de inventar uma solução que não minasse a moral dos homens encarregues do trabalho sujo (os fuzilamentos em massa criavam problemas psicológicos aos soldados). Logo, não se trata de provas "apresentadas" pelos soviéticos em Nuremberga, como quer fazer crer. Aliás, Himmler e muitos outros responsáveis das SS renderam-se ou foram capturados pelos anglo-americanos, porque sabiam o que os esperava se caíssem nas mãos dos russos.

 

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