27 fevereiro 2006

Um ano depois




















Parabéns. E força com isso.
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P.S.- Boa escolha, os reforços.

O último resquício de actividade cerebral

... ou: o elo que faltava para unir filogeneticamente o homem a... digamos, uma porta.

Já dizia Paul Dirac: se os factos não se ajustam à teoria, tanto pior para os factos

A Directiva Bolkestein já levou Ilda Figueiredo, do PCP, a pôr em causa um dos fundamentos da ciência económica - particularmente os benefícios da concorrência na determinação de preços mais baixos. Foi hoje, na SIC Notícias. Parabéns.
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P.S.- Já agora: os «quizzes» voltaram.

Gripe das aves














Com armazéns vazios, não restou aos tripeiros outra coisa que não recorrer ao aviário proscrito. Azar: a peça estava contaminada.

25 fevereiro 2006

Preso por ter cão, preso por não ter

Pulido Valente traçou o retrato triste de uma nação tristonha e incapaz. Em vinte e tal jogadores seleccionados por Scolari, apenas cinco ganham o pão em clubes portugueses. É a miséria nacional. Passando os olhos pelo onze inicial holandês (Nistelrooy e Van der Sar, do Manchester; Robben, do Chelsea; Meyde, do Inter; Van der Vaart, do Hamburger; Bommel, do Barcelona; Seedorf, do AC Milan, entre outros) topamos logo com a ligação intrínseca entre o desenvolvimento da pátria e o local de emprego dos craques nacionais.
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P.S.- Há dois anos, oito jogadores do onze inicial luso jogavam em clubes nacionais. Portugal estava assim tão bem em 2004?

24 fevereiro 2006

Alguém sabe

... o que aconteceu a este blog? Já vão oito meses sem postar.

22 fevereiro 2006

Quem dá tudo o que tem, a mais não é obrigado


No rescaldo de mais uma gloriosa vitória europeia, surge-me à cabeça um nome: Beto.
Beto é o jogador mais mal amado pela massa adepta desde os tempos do Zahovic. A multidão exaspera com os seus passes falhados, bolas perdidas e a sua extrema inutilidade em campo.
No entanto, eu acho que não é justo reclamar com o Beto. Ele não é um jogador particularmente técnico nem brilhante. É um mouro de trabalho. Não se cansa.
É também evidente que ele não joga nada, nem tem categoria para jogar no Benfica.
No entanto não é legítimo exigir-lhe muito mais. Ele não pode dar mais. Eu sei que é triste, mas ele não joga mais nada, e não é por assobiar o homem que ele vai jogar melhor. Simplesmente não dá. É pena…

21 fevereiro 2006

Mais pérolas

Do intelectual que está agora a comentar o jogo Benfica x Liverpool na SIC Notícias. «A partir do momento em que a luta a meio campo crescia, deu para perceber que qualquer equipa que arriscasse um pouco mais podia tirar dividendos. Mas também poderia sair prejudicada». Também quero ser teórico da bola.

Pérolas

De Gabriel Alves: «O Liverpool joga num 4x2x3x2 que se pode transformar num 4x3x3». (Suponho que devido ao que se chama de «atacante invisível»).
De Koeman: Beto a titular. Vá lá, pelo menos puxa pelos adeptos. Quanto mais não seja por apelar aos assobios.

Cinco manias

Instado pelo Mestre André a entrar no jogo, aqui vão cinco manias.
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Regulamento: Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do «recrutamento». Ademais, cada participante deve reproduzir este «regulamento» no seu blogue.
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1ª mania: só consigo ler o jornal enquanto encho a barriga; se o semanário chegar a casa a horas pouco propícias, o melhor é esperar pelo lanche ou pelo jantar para passar os olhos pelas páginas.
2ª mania: complicar o que é fácil; complicar ainda mais o que já é complicado.
3ª mania: as mãos nos bolsos ao andar. É inconsciente.
4ª mania: corrida ao fim da tarde; faça chuva ou faça sol.
5ª mania: preparar tudo ao pormenor para depois nunca seguir o plano. Apesar de ser recorrente, não aprendo e continuo a planear tudo ao pormenor - com os mesmos resultados.
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Passo este desafio a:
4) Joana Amaral Dias (vá lá...)
5) Manuel da Grande Loja (pessoalmente, não tenho grande interesse; mas presumo que, na impossibilidade de lhe ver a cara, o conhecimento das mais recônditas idiossincrasias do grão-Mestre permitirá acalmar os furores de Pacheco Pereira, que recentemente tem vindo a alimentar a relação de amor/ódio que desde sempre ligou o Abrupto à Grande Loja).

O direito à idiotice

David Irving, historiador britânico, foi hoje condenado a três anos de prisão pelo Tribunal Regional de Viena (segundo o diário digital). No centro da acusação estavam as teses de Irving segundo as quais o Holocausto não passou de um embuste. O historiador alegava que a maioria das mortes nos campos de concentração decorreram de causas naturais - e chegou a apelidar Hitler de «amigo dos judeus».
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Ainda com a polémica dos «cartoons» bem fresca, convém relembrar uma coisa: na Áustria, este tipo de coisas é ilegal (e penso que a restrição não é exclusiva da Ástria, na Europa central). Há leis que proíbem a negação do holocausto (ou até «cartoons» a ridicularizá-lo). Está no papel, e ainda que o ridículo da condenação salte à vista, a sua legalidade está assegurada. Os limites da liberdade de expressão estão, neste caso, bem balizados pela legislação em vigor. Azar, Irving. Até 2009.
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Contudo, e para lá do aspecto formal da condenação, há outro ponto que interessa debater: a própria lei que condena a negação do Holocausto.
Irving não foi o primeiro e não será seguramente o último a fazê-lo. Mas a criminalização do revisionismo histórico não me parece, por si só, motivo para cadeia. A proibição da circulação de ideias - por muito idiotas ou imbecis que sejam, ou possam ser (como é o caso manifesto desta) - pode prevenir a sua difusão mas não lhes corta a raíz; ao impedir que uma ideia, uma teoria ou uma imagem seja expressa, está-se a cortar a possibilidade de ela ser combatida por outros argumentos. E apenas os argumentos podem refutar as teorias falsas e rebater as opiniões incorrectas. Ao votar determinadas opiniões à censura, estamos a imunizá-las - porque continuarão a germinar mas, desta vez, sem a possibilidade de serem falsificadas ou desmistificadas. Cá em Portugal, temos partidos trotskistas; não é por isso que o trotskismo está no poder - não há demagogia que resista à economia, nem teorias bolorentas que resistam à história.
Se Irving, ou qualquer outro, pretende negar o Holocausto, então e depois? Que seja livre de o dizer. A liberdade de expressão é também a liberdade de dizer idiotices e enormidades, de cair no ridículo e de ser imbecil - e, desde que não haja incitamento à violência, qual é o mal?
Aliás, e segundo li, há muito que Irving caiu em descrédito. Claro que não seria esse descrédito a justificar a indulgência em relação ao revisionismo - pelo contrário, é o facto de o revisionismo estar na origem do descrédito que a tolerância - de idiotice, sim, da imbecilidade, também - não se parece revestir de consequências nefastas.
E já agora: quando se evite discutir o passado, consegue-se, quanto muito, afastá-lo um pouco. Esquecê-lo, dificilmente. Apagá-lo, nem por sombras.

20 fevereiro 2006

E que tal um jogo de futebol?

Acerca do conflito com a ETA, Zapatero disse que «o diálogo e a negociação são os únicos caminhos para resolver o conflito».

Politicamente correcto

«1. O politicamente correcto é (foi) a oficialização da vitória dos anos 60, da “Nova Esquerda”, dos revolucionários sem revolução, como diria Nelson Rodrigues. O termo surgiu na academia americana depois da fúria, durante os decadentes anos 70.
2. O politicamente correcto está ligado a duas coisas: a culpa pós-colonial e a deferência total pela vitimização de minorias. A minoria é sempre uma vítima. O Ocidente é sempre culpado; o Outro é sempre um anjo. Eis, sucintamente, o politicamente correcto.
3. O pior: há uma proibição de crítica em relação ao elemento que representa a fusão das duas componentes: o Outro que vive no Ocidente, isto é, as minorias étnicas e religiosos que vivem em estados ocidentais. A ordem é esta: não se pode criticar qualquer manifestação conduzida por não-brancos a viver no Ocidente. E, com isto, os caros politicamente correctos julgam que estão a ser tolerantes. Lamento! Isto não é tolerância; é suspensão do juízo crítico em nome de uma concepção bíblica de culpa. Não, muito obrigado. Gosto muito da bíblia, mas é só para ler.
4. O politicamente correcto é um eficaz auto-politicamente. Politicamente Correcto é auto-censura baseada na cor da pele. Não, muito obrigado. Isto é racismo simpático, orientalismo invertido, racismo altruísta. O politicamente correcto é o velho paternalismo europeu em roupagens cool. É o velho fardo do homem branco revestido por uma overdose de culpa. Quando a culpa passar (sim, meus caros, ela não é eterna) descobriremos que o velho paternalismo nunca foi erradicado.
5. Sim, auto-censura. Hoje, todos temos medo de pensar em certas coisas. Todos temos medo de criticar o Outro. É o medo de sermos apelidados de racista. Este racista, constantemente atirado à cara das pessoas por tudo e por nada, é o fascista do politicamente correcto. Antigamente, quando a Esquerda era mesmo de Esquerda, todos aqueles que não concordavam com a Luz na terra eram apelidados de fascista. Era a linguagem do Comintern: havia esquerdistas e fascistas. Mais nada. Hoje, quem ousa pisar os dogmas do politicamente correcto corre o risco de ser apelidado de xenófobo. Foi isso que sucedeu com os cartoons. Há um novo Comintern. E mais eficaz. Não é preciso uma URSS no financiamento. Basta a culpa.6. O argumento, a razão e o juízo foram substituídos pela emoção da culpa. Peço imensa desculpa, mas já tenho emoção que chegue».
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Mais uma do Henrique Raposo.

17 fevereiro 2006

O melhor cartoon


É este aqui. Via timshel.

Não quebre esta corrente

Anda por aí uma espécie de carta-corrente a convidar cada blogger a enumerar cinco manias suas e apelando ao reenvio da missiva. A coisa, que de início até passou por brincadeira, tornou-se um caso sério, e até muita gente crescidinha já embarcou na graçola. É tudo? Não: no 19 meses depois apelou-se à participação do... João Miranda. Se ele responder, aqui fica a garantia de que, caso me chegue às mãos semelhante convite, eu próprio instarei a Joana Amaral Dias (!) a revelar os seus cinco segredos mais profundos.

16 fevereiro 2006

86

«O assassínio de Gaspar Castelo-Branco pelas FP 25 de Abril teve uma única causa: a coragem de um alto funcionário do Estado português que tomou uma decisão exemplar - contra ameaças, pressões, a opinião pública e a falta de apoio da tutela. Recordá-lo vinte anos depois é recordar o que foi (e que existiu) o terrorismo em Portugal.
Otelo Saraiva de Carvalho, fundador, dirigente e cúmplice das FP, foi entretanto amnistiado pela mesma democracia à qual não reconhecia legitimidade. Hoje é um empresário de sucesso: o capitalismo nem sempre trata mal os seus bastardos.Não sei de onde lhe veio o capital. Sei, porém, que o dinheiro reunido pelas FP nos assaltos a vários bancos - em nome (muito a propósito) da libertação das massas - nunca mais apareceu.Em tribunal, Otelo compararou a morte de Gaspar Castelo-Branco e de outras vítimas das FP 25 ao "terrorismo" do Estado português, responsável pelo desemprego, por salários em atraso e pela crise económica. Eduardo Prado Coelho e Boaventura Sousa Santos foram testemunhas abonatórias de Otelo. Mário Soares foi o Presidente da República que o amnistiou.Hoje, estes e outros culpam a "arrogância" do Ocidente pelo terrorismo islâmico.
Gostaria que não fosse assim, mas é. Gostaria de esquecer, mas não posso.A história fará justiça aos homens que, nas palavras de Tocqueville, não trocaram a liberdade pelos seus benefícios
».
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Um dos melhores da blogosfera: Pedro Picoito, do Mão Invisível.

15 fevereiro 2006

Notas futebolísticas sobre a equipa da palestina tendo em vista um campeonato Euro-Árabe


(é uma equipa que dá tudo dentro de campo. uma equipa de sacrifício)
1. Têm pouco respeito pela integridade física dos outros jogadores
2. Têm um futebol explosivo
3. Abrem buracos na defesa
4. São capazes de resolver um jogo com uma bomba fora da área
5. Com eles não vale a pena pôr o autocarro à frente da baliza
Rodrigo Moita de Deus, no aspirina B.
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Eu acrescentaria que a jovem promessa da esquerda vai explodir esta época. E que o médio defensivo da direita corre tanto que acaba o jogo completamente rebentado.

Quem diria?...

O Irão elogiou Freitas do Amaral...
As palavras são do embaixador do Irão em Lisboa: «O ministro Freitas do Amaral teve uma posição que deve ser destacada. Disse coisas muito positivas e muito lógicas». «Que liberdade é esta que vocês têm que vos permite dizer o que querem de outros santos de outras religiões?». Desculpem, mas aquilo que nós dissemos de Maomé não é nada comparado com aquilo que vocês acabaram de dizer do nosso MNE. Isso sim, é uma blasfémia. Não querem pedir desculpa?

14 fevereiro 2006

Uns para os outros

«No Irão um jornal qualquer lançou um concurso de caricaturas anti-semitas. O que me deixa indignado. Penso mesmo convocar uns amigos para ir ali à embaixada do Irão, no Restelo, pegar-lhe fogo. Dizem-me que o Governo do MNE Freitas não levará muito a mal. Fazendo fé no dr. Canas, serei, quanto muito, condenado por abuso de liberdade de imprensa».
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P.S.- A respeito do jogo de futebol que Freitas do Amaral propôs, tenho uma dúvida: os jogadores portugueses podem benzer-se ao entrar em campo. Ou isso também ofende?

Disciplina britânica

No seu bichos carpinteiros Joana Amaral Dias decidiu presentear-nos com um vídeo de soldados ingleses a espancarem adolescentes. Passemos por cima do facto de JAD não estar interessada, desta vez, em descobrir as «causas profundas» e as «estruturas sociais» que se ocultam por detrás do comportamento dos soldados - nem a situação o pedia nele ela é propriamente um exemplo de coerência. Mas, apesar da prontidão com que a notícia veiculada pelo «News of the world» foi retransmitida no bichos carpinteiros, JAD mostra-se agora menos lesta a dar conta dos desenvolvimentos. Bem, não há problema, eu faço isso por ela: Blair anunciou a abertura de um inquérito e, supresa, hoje o «Expresso on-line» diz que... Um dos soldados ingleses suspeitos de agressões a civis iraquianos já se encontra detido, anunciou um porta-voz do Ministério da Defesa dos Estados Unidos. Mais do que a existência criminosos em todo o lado, aquilo que de facto parece estar a confundir (perturbar?) a autora do post é o facto de, ao contrário de Teerão ou Damasco, Londres condenar os seus. É essa a diferença entre o Ocidente actual e o Médio Oriente actual (por muito que alguns não a queiram ver). E não deixa de ser irónico que o título (já de si irónico) do post em causa - «Disciplina britânica» - acabe por ajustar-se de forma perfeita àquilo que agora está a acontecer. Enfim, diferenças. A realidade, às vezes, é uma coisa muito chata.

O «Freitas» deles

13 fevereiro 2006

Vai-te embora, pá

Começa a ser demais. Agora, Freitas do Amaral veio dizer que «as agressões do Ocidente ao Oriente têm sido maiores que as agressões deles contra nós». Não satisfeito, acrescentou ainda: «Quem tem sido os maiores agressores nos últimos tempos somos nós... portanto eu acho que nos cabe a nós tomar a iniciativa».
E que tal se o Governo tomasse alguma iniciativa em relação a este gajo?

12 fevereiro 2006

Um olhar imparcial

Ana Gomes, que há dias defendeu que «o que está em causa é o aproveitamento da liberdade de expressão por uma direita, xenófoba, defensora da Europa 'clube cristão', apostada em fomentar o ódio religioso», já escolheu o seu traje para o Carnaval.

O Irão também quer desculpas

A Embaixada do Irão enviou uma carta ao «Expresso» a exigir (surpresa...) um pedido de desculpas. Espero que Freitas do Amaral não tenha lido o jornal - ficava logo com ideias, certamente. Mas adiante. As razões do protesto são óbvias: a publicação das caricaturas do Profeta num «texto analítico» do semanário (sábado anterior) são «a demonstração da sua vontade de provocar os muçulmanos residentes em Portugal e os milhões de muçulmanos residentes no mundo, mas também a criação de um grande choque cultural entre o Islão e o Ocidente». E a carta continua: «não podemos, em nome da liberdade, insultar a religião e a fé dos outros».
Só alguns pontos a reter:
1) O número de muçulmanos que foram humilhados pelo «Expresso» foi de milhões e milhões. A Marktest já veio repreender o jornal por este lhe ter escondido a verdadeira triagem, ocultando assim os milhões e milhões de exemplares que, todos os sábados, envia, à socapa e por correio azul, a «milhões de muçulmanos residentes no mundo».
2) A publicação das caricaturas são a demonstração da vontade de criar «um grande choque cultural entre o Islão e o Ocidente». O que é uma chatice, porque por aquelas bandas a última coisa que se deseja é um choque cultural entre o Ocidente e o Islão. Ahmadinejad que o diga.
3) «Não podemos, em nome da liberdade, insultar a religião e a fé dos outros». Eu diria mais: não podemos, em nome da Liberdade, tolerar a «licenciosidade» ocidental. Enfim, a confusão semântica da Embaixada tem explicações: só se pode usar correctamente uma palavra quando se a conhece.
4) Ana Gomes e Vitalino Canas, do PS, António Filipe, do PCP, Daniel Oliveira e Joana Amaral Dias, do Bloco de Esquerda (e inquilinos dos blogs Aspirina B e Bichos carpinteiros), entre outros intelectuais da nossa praça, já prometeram fazer uma manifestação contra a xenofobia e intolerância europeia em frente à Embaixada de Irão em Lisboa. Apenas através da tolerância e do diálogo podemos ultrapassar este conflito, que tem vindo a ser instigado pelos EUA, pela extrema-direita europeia, pelo grande capital, pelo José Pacheco Pereira, pelo Pato Donald e pelo João Ratão. Felizmente, há sempre senhores deste género para acalmar os ânimos. O Islão é uma religião de paz. Imaginem se não fosse!

11 fevereiro 2006

Um dia triste

Infelizmente, os boatos confirmam-se. É uma grande perda para a blogosfera - que vê partir aquela que era, na minha opinião, a sua representante mais brilhante - e, claro, para a família e amigos. Ficámos todos mais pobres. Obrigado por tudo, Joana.

Semiramis

O Semiramis é um blog de referência. O Semiramis é um dos melhores blogs de direita (bem, dei-lhe o meu voto) e o melhor blog individual, sem sombra de dúvidas. O Semiramis é um posto obrigatório de passagem para qualquer blogger que se prese. A autora do Semiramis é simplesmente uma das pessoas mais inteligentes, brilhantes, cultas e independentes que já tive a oportunidade de ler.
Infelizmente, desde alguns dias para cá que o Semiramis está parado. Abandonado. Mudo. Sobre a OPA, nada. Sobre os cartoons, nada. Estranho. Boatos que agora começaram a surgir na caixa de comentários do último post dão conta da morte da autora. Como ninguém (a não ser, supõe-se, os amigos mais íntimos e os familiares) conhece a sua identidade, os boatos continuam iguais a si mesmos - boatos. Não há forma de confirmar; também não há forma de desmentir. Espero que não passe de brincadeira de mau gosto.

10 fevereiro 2006

Rave party

Uma rave party muçulmana.

Quando pensava que já tinha visto tudo...

... dou de caras com isto. O post merece link e citação. Aqui ficam as partes mais interessantes.
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«Na Rússia, Zhirinovsky afirmou que os cartoons ofensivos constituem uma planeada "psyop" (operação, na qual, informação fabricada para influenciar a opinião pública é disseminada em território inimigo) levada a cabo pelos Estados Unidos com o objectivo de provocar um contencioso entre a Europa e o Mundo Islâmico».
Comentário: Quem diria: ao fim e ao cabo eram os americanos que estavam por detrás de isto tudo. (Para quem não conhece, Zhirinovsky é um cientista político que há coisa de um ano defendeu que o «11 de Setembro» tinha sido planeado pelos EUA para legitimar a invasão do Iraque).
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«Os três cartoons mais ofensivos que causaram a indignação nem sequer foram publicados no jornal "Danish Jyllands-Posten" mas foram acrescentados e distribuídos por imãs dinamarqueses que circularam as imagens pelos seus irmãos nos países muçulmanos – segundo o London Telegraph».
Comentário: como é óbvio, foram os americanos que pediram aos imãs dinamarqueses que pusessem a circular as imagens nos seus países de origem. Apenas um ingénuo poderia pressupor que os autores da brincadeira tivessem sido líderes muçulmanos.
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«É também muito suspeito que Muçulmanos na cidade de Gaza e noutros lados tenham tido acesso a um fornecimento completo de bandeiras dinamarquesas para queimar em frente dos media mundiais logo que a controvérsia rebentou».
Comentário: e aqui está a prova cabal do envolvimento americano. Que outra potência teria poderio económico suficiente para pôr a circular, num país estrangeiro, milhares e milhares - sublinho: milhares e milhares - de bandeiras da Dinamarca? De referir que as bandeiras em causa não eram bandeiras quaisquer: a haste era de um plástico de boa qualidade e o pano é impermeável à água. Não, não há outra conclusão possível.
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No final, o autor do texto deixa a interrogação no ar: «Será que existe de facto uma enorme maquinação por forma a preparar um ataque ao Irão?».
Comentário: é que não há outra hipótese...
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Ou seja, a culpa da polémica dos cartoons é... dos EUA. Mas que originalidade.

Eu apoio o Irão!

Depois do muito dignificante pedido de desculpas do nosso MNE aos fundamentalistas muçulmanos parece-me óbvio que mais cedo ou mais tarde a mesma via - a da compreensão e do respeito - não poderá deixar de ser aplicada ao resto da malta lá da zona, nomeadamente ao Irão. Porque, parecendo que não, isto das especificidades culturais não é brincadeira, e, afinal de contas, quem somos nós para impor os nossos valores aos estrangeiros? Se eles querem o nuclear, em que medida isso nos diz respeito? É preciso respeitar o outro; e, além do mais, se o «outro» diz que a energia não é para fins militares, não há razões para duvidar. Temos de ser tolerantes. Presumir que a energia nuclear pode ser usada para fins militares é ceder à xenofobia e ao facilitismo racista, e nisso não podemos cair. Todas as civilizações estão em pé de igualdade. Aliás, como dizia Ângelo Correia no «Prós e Contras» de segunda-feira, terrorismo e intolerância não são apanágio exclusivo do Oriente; aliás, as imagens televisivas têm vindo a mostrar que o «muçulmano médio» é um tipo tolerante e civilizado (por cá, infelizmente, os «etarras» pululam pelos campos verdejantes e os tipos do IRA são cada vez mais numerosos). Ah, sim, e não nos esqueçamos nunca dessa última frase de Ângelo Correia, um verdadeiro iluminado das correntes intelectuais mais sábias da nossa cultura: «impedir o Irão de ter armas nucleares quando o Ocidente as possui é moralmente muito complicado».
É interessante, caro Ângelo Correia. Mas não há moral que resista a uma bomba atómica.

09 fevereiro 2006

Pedro Mexia no seu melhor

«Numa democracia, as pessoas não têm o direito de protestar com actos de violência. E o conceito de actos de violência inclui apelos directos ao homicídio (como os que ouvimos na boca de alguns muçulmanos ingleses).
No Ocidente, valem as regras do Ocidente. As regras que estão plasmadas nas nossas constituições, na nossa legislação e nos nossos costumes. Quem não aceita essas regras básicas - quem acha nomeadamente que pode apelar ao homicídio por delito de opinião - não tem lugar nas nossas comunidades. Temos o dever de tolerar opiniões intolerantes, mas não temos o direito de tolerar actos intolerantes e criminosos.
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«Não há civilizações «superiores» em abstracto. Mas há sociedades organizadas de modo globalmente mais justo e mais decente. A Dinamarca (em 2006) é uma sociedade mais justa e mais decente do que o Irão (em 2006). Não numa abstracção «civilizacional» mas no concreto dos direitos, liberdades e garantias, do nível de vida e das condições necessárias à dignidade humana. Os ocidentais que dizem o contrário disto estão em simples denegação sectária. Ninguém prefere viver no Irão do que na Dinamarca. É apenas nesse sentido que a Dinamarca é «superior» ao Irão. Mas esse sentido não é coisa de somenos».
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Desculpem lá. Mas é mesmo assim.

Dar uma ajudinha


Na imagem, Freitas do Amaral expressa o seu repúdio pela xenofobia ocidental.
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Via O Espectro (legenda minha).

Já agora

... e só para que conste: Freitas do Amaral também não fala em meu nome.

08 fevereiro 2006

O papel da imprensa

Em mais do que tempo de rescaldo eleitoral, surge como necessário investigar a profundidade de uma questão particular: Qual o impacto da comunicação social no resultado das últimas eleições presidenciais?
Para aqueles que vêem em Cavaco Silva como uma fiel representação do perigo capitalista, a comunicação social foi determinante para a sua vitória. Dirão eles que se não fosse esta maldita imprensa governada e gerida a partir dos interesses económicos, em que por um preço se “fazem” presidentes da República, Cavaco não se teria encontrado a passada semana com Bill Gates como presidente eleito. Dirão que as televisões criaram uma imagem messiânica de Cavaco, pintando-o, aliás como Francisco Louça – em mais um dos seus acessos de raciocínio – como o salvador da pátria, dando destaque a comentadores que diziam que ele era o único capaz de ganhar, porque Alegre é um poeta, Soares está acabado, Louçã só serve na oposição e que Jerónimo é ainda muito vermelho. Dirão ainda que as televisões deram sempre mais destaque à campanha de Cavaco e às suas iniciativas.
Os jornais também não escapam à fúria da esquerda. Contestaram as poucas páginas dadas às suas campanhas, e a constante monopolização da campanha. Destacam que as redacções são pouco, ou nada, imparciais e que os editores são todos uns capitalistas de direita. A rádio passa pela mesma reprovação por parte desta claque descontente com 50.6% dos eleitores que foram votar no passado dia 22.
Nem os centros de sondagem escaparam à crítica. A estes, as campanhas derrotadas criticam o timing, sempre incorrecto, de divulgação de sondagens, todas falsas, que davam vitória à primeira volta para Cavaco Silva. Diziam eles que Cavaco nunca ganharia à primeira volta e que esta era mais uma tentativa por parte de uma, desesperada, candidatura em influenciar os portugueses a votar no “novo” D. Sebastião.
Mas também a candidatura vencedora não está contente. Em boa hora, afirmou que a sua campanha estava a ser alvo de constantes atentados vindos de todo lado e que a comunicação social dava cobertura a tudo isto. A culpa de as pessoas poderem vir a pensar que o bom professor apenas percebe de números era de imprensa, que relatava quase na totalidade os discursos dos adversários.
Diga-se, no entanto, em abono da verdade que esta campanha foi bem menos violenta para com os media dos que as outras. Se calhar porque já sabia que ganhava, era apenas uma questão de à primeira ou à segunda, mas com um candidato que não gosta de fazer campanha, convém ganhar à primeira.
Na minha muito modesta opinião, de quem começa agora a perceber os meandros da comunicação social, devo dizer que, a meu ver, ela foi bastante imparcial e profissional. Acima de tudo profissional. Claro, que havia televisões ou jornais que davam a entender que a sua preferência ia num determinado sentido, mas isso acontece sempre. Como dizia Heisenberg, não há forma de sermos completamente imparciais nas nossas análises e observações.
Alguns dirão que esta ( a controvérsia gerada em torno de alegado favorecimento da imprensa a um candidato) é uma falsa questão. Nos Estados Unidos, por exemplo, na véspera das eleições os principais jornais dizem qual o candidato que apoiam. Em 2004, jornais de referência como o “Washington Post”, o “New York Times” e até o meu querido “Boston Globe” declararam apoio a John Kerry. Ganhou? Não. Algum elemento do partido Republicano queixou-se? Não.
Não estou com isto a fazer apologia à falta de imparcialidade dos media. Acho que ela é essencial. Não será, contudo correcto, condenarmos uma redacção por ela apoiar um candidato. Se esta afirmar a essa vontade, e por isso avisar o público, não haverá maneira de os criticar. Ao fim e ao cabo, são apenas indivíduos, eleitores como todos nós que têm uma opinião acerca dos destinos do país.
Provavelmente, aqueles que se queixam agora são os mesmos que defenderam a integridade da comunicação social aquando das legislativas de 2005 em que houve uma cobertura da campanha, na opinião de alguns mais entendidos do que eu, completamente parcial, com o assassinato da carreira do bom Santana. A imprensa é, para uns, considerada a culpada da vitória esmagadora de Sócrates e do resto da esquerda.
Até as autárquicas do ano passado podem ser analisadas à luz desta realidade. Não haja dúvidas que a cobertura, principalmente televisiva, dada às campanhas dos candidatos bandidos foi determinante para a vitória de todos, menos do Avelino que também era aquele que tinha menos tempo de antena.
Não podemos negar o papel que a comunicação tem nos dias de hoje. Nós somos indivíduos cada vez mais sedentos de informação, e recorremos aos media para saciarmos essa vontade. Claro, que esta dependência face à imprensa aumentou o seu poder e reforçou o seu estatuto. Se há oferta é porque há procura. Se o Mário Soares se zangou com os jornalistas foi porque se apercebeu do impacto negativo que a sua candidatura estava a ter nas pessoas, e culpou a comunicação social por tudo isso.
Cada vez mais os políticos terão que desenvolver uma relação amistosa com a imprensa. Não servirá de nada criticar a imprensa. Santana fê-lo e reformou-se. Os políticos terão que perceber que hoje em dia a comunicação é “o” grande poder, e se eles querem chegar ao coração das pessoas é através dela, e não dos grandes comícios e discursos do antigamente.
É esta a política do século XXI: Uma política de braço dado com a imprensa.

Dizer isto também é bom senso

Diogo Freitas do Amaral nunca deixará de ser o menino exemplar do salazarismo e o discípulo dilecto de Marcelo. Perante a histeria muçulmana, que é um acto político de intimidação do Ocidente, escolheu a subserviência. Este "súbdito", como ele um dia a si mesmo se descreveu, não hesitou em condenar as caricaturas dinamarquesas (que não passam de um pretexto), porque ofendem a "sensibilidade religiosa" do Islão e porque incitam a "uma inaceitável guerra de religiões". Como se a "rua" que se manifesta, se manifestasse espontâneamente com conhecimento de causa e como se quem incita à "guerra de religiões" não fosse o próprio Islão. Freitas finge que não vê o carácter deliberado e fabricado de um "movimento", que chegou ao mundo inteiro em pouco mais de uma semana, e colabora em paz de espírito com os piores fanáticos. Nem desprezo merece.
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Vasco Pulido Valente, n'O Espectro.

07 fevereiro 2006

Liberdade de expressão

Que fique bem clara a minha posição: a censura é intolerável. A decisão de não publicar os cartoons, a ter lugar, não poderia partir de um Governo, de uma lei ou de um despacho. O bom senso estaria, precisamente, em abdicar voluntariamente de um direito, no sentido de evitar uma situação... evitável. E da qual sairemos todos prejudicados. Tendo razão, o jornal dinamarquês não foi razoável. E a razoabilidade só poderia ter sido posta em prática pelos próprios cartoonistas.
Entretanto, surgiu agora na blogosfera uma nova tese: a liberdade de expressão é um valor absoluto que não pode estar sujeito ao crivo do bom senso. De forma geral, «apelar ao bom senso é acima de tudo um acto de falta de humildade com tiques colectivistas». Isso fez-me pensar um pouco - e lembrei-me então de quando, após um membro da «colectividade» ter feito uso da sua liberdade de expressão, amigos e colegas acorreram a pedir desculpa pelo acto. Disse-se então que foi cometido «um erro e, porque não dizê-lo, uma incorrecção», um «post que ultrapassa os limites do aceitável. Quanto tal acontece, o que as pessoas dignas fazem é pedir desculpa, sem reservas.Ninguém está livre de errar; mas o maior erro é persistir em não reconhecer que se agiu incorrectamente». Liberdade de expressão? Sensatez? Cruzes, credo.

A verdadeira revolução


Via Ninno.

06 fevereiro 2006

Ainda acerca dos cartoons

«O Conselho Islâmico Britânico (CIB) já veio dizer que nada tem a ver com esse grupo de pessoas. Deveria fazer uma condenação mais clara dessas atitudes. Parece evidente que quem leva a cabo tais manifestações são os grupos radicais organizados, que aproveitam o pretexto para promoverem a sua agenda. E por isso mesmo, uma organização como o CIB deveria fazer o máximo por se distanciar dessas pessoas. Até por um aspecto que raramente é tido em conta: os imigrantes muçulmanos que, na realidade, querem gozar das liberdades do mundo ocidental, são prejudicados pela condescendência que as autoridades têm perante esses grupos radicais que vêem o Ocidente como a encarnação do Mal. Veja-se o que acontece em França, onde a diminuta mobilidade social condena quem deseja viver em França para beneficiar de um modo de vida mais livre que o das ditaduras islâmicas, no fundo, quem deseja "ser francês", a viver à mercê de quem foi para França, mas que abomina e contraria um estilo de vida que é a base das nossas sociedades. Condena-os a ficar à mercê de quem odeia a liberdade, à mercê de quem, em virtude da condescendência ocidental, impõe nos bairros onde vivem uma "lei" que vai contra a lei do Estado francês, que é intolerável à luz de tudo aquilo em que as nossas sociedades se baseiam».
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«Quando liberdade de expressão entra em conflito com a decência do discurso, o Estado tem que defender a liberdade de expressão. A falta de decência pode ser criticada, abertamente, mas sem ameaças de morte. Quando há uma ameaça de morte, o Estado tem de defender o ameaçado, não quem ameaça.
Não para tomar um lado no debate, mas para proteger os intervenientes da violência e garantir que a discussão (e liberdade de expressão significa discussão e não consenso) decorre em moldes pacíficos.
Não há Estados neutros porque nada é neutro. O liberalismo não é neutro porque exige tolerância mútua e rejeita o recurso à violência. Mas estes são os nossos valores (tolerância, convivência, diálogo não-violento) e há que defendê-los contra quem não os tem: neste caso as associações islamistas. Defendê-los sem vergonha.
A Europa pode aceitar imigrantes islâmicos, que sejam praticantes, que abram e frequentem mesquitas. Eu acho que deve até fazê-lo. Deve, até, digo eu, acolher a Turquia. Mas estes terão que aceitar as regras européias da tolerância mútua, o ideal Ocidental da sociedade cosmopolita.
Antes disso, será, no entanto, preciso que os Europeus comecem também a defender estes ideais porque andamos a viver deles, mas já não os defendemos como uma terceira geração que vive à custa da fortuna que os avós trabalharam duro para acumular sem perceber que um dia acabará o dinheiro. A nós, um dia, se não a defendermos, acabar-se-á a liberdade que os nossos avós acumularam
».
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«Odeio fanatismos, religiosos ou outros. Mas nos tempos em que vivemos será sensato contribuir para o confronto religioso? Aqui penso ser importante distinguir entre ter razão e ser razoável (negrito meu). O jornal dinamarquês e a maioria daqueles que celebram a coragem e firmeza perante valores basilares do nosso sistema politico têm toda a razão em desprezar e rejeitar os fanáticos e suas ameaças ignóbeis -elas sao inaceitáveis, bárbaras, medievais e tudo o mais. Mas para além de tudo isso elas são sobretudo reais, e aí a razão pode pouco e nao há Kantianismo que nos valha. Os valores e os direitos são deste mundo e têm a importância que os humanos lhe atribuem. O problema é que os fanáticos existem, e nós com eles. A publicação dos cartoons pode ter afirmado o valor da liberdade, mas esqueceu-se da segurança, e sem esta a primeira serve de pouco».
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«Para resumir: julgo que o escândalo dos muçulmanos não nos obriga a nada. Os seus protestos não nos devem repugnar. Mas devemos proteger-nos sem hesitações, e sem imaginar que somos superiores».
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«Hoje, quando circulava na marginal da Foz, dois «transeuntes» que se passeavam acompanhados por cães de «elevado calibre» - um rottweiler e um boxer - cruzaram-se. Em vez de seguir em frente, fazendo uso da minha liberdade de circulação, optei pela solução mais segura: atravessei a rua.Certamente que os cidadãos que se fazem acompanhar de cães perigosos não deveriam circular ao domingo numa zona de grande afluência; e, óbvio, teria todo o direito de seguir em frente. Só que fiz um juízo de valor e, dadas as circunstâncias, pareceu-me que o momento não seria o mais oportuno para fazer uma dissertação sobre «liberdades básicas».Em 2002, na Tanzânia, eu e uns amigos fomos «convidados a sair» de uma mesquita, porque supostamente a nossa mera presença foi considerada desrespeitosa. Pareceu-nos, também, que o melhor seria sair discretamente. Ao longo dos mil quilómetros de estrada que fizemos no Quénia e na Tanzânia, desde Nairobi, passando pela planície do Serengeti, até ao Kilimanjaro, houve momentos em que por questões de segurança a nossa opção passou por limitar a «liberdade de expressão». Em duas situações, a nossa expressão de liberdade limitou-se à rápida colocação da Toyota Hiace em movimento... O Ocidente tem conseguido compatibililizar os valores essenciais da liberdade e da tolerância, retirando uma boa parte do atrito que necessariamente se gera quando procurámos conciliá-los. Só que o mundo mudou, e hoje assistimos a um choque de civilizações complexo, que nos deve fazer pensar no modo como agimos, na forma como exercemos as nossas liberdades. De nada nos vale afirmar a liberdade de expressão, como liberdade negativa, se isso põe em causa a nossa segurança. Sobretudo quando na balança a restrição da nossa liberdade, aqui, apenas se limita a utilizá-la com prudência, e o valor que se atinge com esta limitação é a salvaguarda da paz (na linha de I. Berlin). Existem momentos em que temos de saber se seguimos em frente, ou se atravessamos a rua. Eu, da minha parte, prefiro evoluir para uma sociedade que usa as suas liberdades com prudência e inteligência, procurando com persistência ganhar a batalha cultural com o Islão, do que afirmar de uma forma quixotesca a supremacia dos valores ocidentais, que nos está a encaminhar para ódios inultrapassáveis e para uma potencial guerra».

04 fevereiro 2006

Caricaturas

Com o «caso dos cartoons de Maomé» a liberdade de expressão volta a estar na ordem do dia. Como se a dita fosse o capote de legitimidade debaixo do qual se alberga tudo o que queira verberar, criticar, gozar e ridicularizar. Errado, obviamente: a liberdade de expressão protege a livre opinião, salvaguarda o direito (fundamental) da divulgação de ideias que não vão de encontro à crença corrente e popular (e daí a diferença entre este caso e o de Rushdie, que representa a liberdade de um indivíduo exprimir as suas ideias) - mas não é uma carta branca; e ela pressupõe, de quem dela faz uso, duas coisas: assumir as responsabilidades do que se dize e, igualmente importante, alguma dose de bom senso. Decerto que a linha que separa a brincadeira aceitável da provocação explícita é ténue e indefinida, mas há temas e temas. E, se um rastilho a pender de um turbante não é propriamente grotesco (ainda que também não seja o cúmulo da subtileza), a verdade é que a religião é sempre um ponto sensível. Pior: os cartoons não tinham, sequer, grande piada. Pessoalmente, penso que um exemplo que li recentamente na imprensa seria bastante mais cómico - uma foto de Jesus a sodomizar uma criança a ironizar com os escândalos de pedofilia da Igreja Católica. E qual seria a reacção? Não é preciso pensar muito para chegar à resposta. No fundo, a questão resume-se a isto: não foi um sacrilégio, mas era evitável. Só isto já diz muito.
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Entretanto, o jornal responsável já veio a terreiro retractar-se e lamentar o sucedido. Aplauda-se a sensatez mas diga-se a verdade: as desculpas são mais descargo de consciência do que outra coisa qualquer. Os cartoons não criaram fractura nenhuma - apenas aceleraram a cedência do tapume; e, por isso, não é um pedido de desculpas que vai tirar os muçulmanos das ruas a pedir o fecho do jornal. Um Maomé com chifres não é razão de manifestações - é um pretexto para elas. Este episódio era evitável - mas os tumultos eram apenas adiáveis. A semente já lá está há muito tempo, à espera duma situação destas para brotar. E essa é uma das diferenças que distingue uma primeira página de um Maomé terrorista de um Jesus Cristo sodomita: reprováveis - e evitáveis - os dois, pelo despropósito e por tocarem em zonas bastante susceptíveis, apenas no primeiro dá azo a ameaças de morte e de cortes de relações. Se a atitude dinamarquesa foi desajustada, a reacção islâmica foi intolerável. Para mais, vinda de quem vem: um grupelho de fundamentalistas (de gosto capilar duvidoso) que não vê grandes problemas com a destruição dos Budas ou com um 11 de Setembro. Não, daqueles lados não se pode esperar razoabilidade (que raio, não é à toa que lhes chamamos fundamentalistas, afinal de contas).
Agora, o caminho bifurca-se: voltar ao velho complexo de culpa ocidental ou abrir os olhos de uma vez por todas e aceitar que o paradigma habermasiano da comunicação não é garantia de consenso ou solução. Nem tudo se resolve numa tertúlia, especialmente quando o conviva falha o encontro. Há valores que custaram demasiado a defender para que agora os percamos nesta mixórida niilista/multiculturalista. E para que esses valores sejam conservados, é preciso lutar por eles - eles, por si mesmos, não se protegem. Se defender esses valores implicar combate, que seja. Como diz o Henrique Raposo, o «outro» não é uma criança - ou talvez seja, mas nesse caso será uma criança muito perigosa. Conversa e diálogo implicam civismos e vontade; da parte do «outro» não há nem um nem outro. É um caso de concorrência desleal: enquanto matutamos nas várias «vias» - o diálogo, a diplomacia, o nosso relativismo cultural (sim, afinal de contas defender a liberdade ou a igualdade é apenas um valor, e como tal relativo - o «outro» não é necessariamente pior, mas apenas diferente) - do lado de lá imaginam-se as maneiras possíveis de destruir o Ocidente. O caso é ainda mais descabelado do que na fábula: enquanto na estória a raposa ainda consegue iludir o coelho fingindo estar interessada numa amena conversa, neste caso a «raposa» nem se dá ao trabalho de disfarçar. O Ocidente é ainda mais ingénuo do que o coelho. Fantástico.
Neste caso em concreto, é verdade que não há muito a fazer. Mas uma coisa impõe-se: o Governo dinamarquês não pode pedir desculpa. Nem ele, nem outro qualquer. Em primeiro, porque ninguém pode pedir desculpa por um acto de que não é responsável (ou que não foi cometido em seu nome); em segundo - e mais importante -, porque seria um sinal de fraqueza. Não teria efeitos práticos - porque não atenuaria a tensão (quanto muito, acicatá-la-ia: o «inimigo» teria reconhecido, enfim, o seu erro, admitindo-o) mas teria perigosas consequências políticas graves. Daria força aos movimentos extremistas - que assim sairiam como «vencedores» (e são também as demonstrações de poder que dão força aos extremistas, projectando-os) - e daria uma imagem péssima da Europa - de tibieza para os islâmicos e de ingenuidade para o resto do mundo. Nem sempre se deve ceder à birra do menino.
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P.S.- Huntington vai ganhando razão de dia para dia: choque de civilizações.

02 fevereiro 2006

Vasco Pulido Valente

... chegou à blogosfera. Aqui, com a Constança Cunha e Sá.

01 fevereiro 2006

Não há casamentos grátis

João César das Neves, no Diário de Notícias:
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«Como se sabe, existem nos Estados Unidos vários movimentos cristãos integristas que pretendem impor como científica a visão da Criação ensinada na Bíblia. Tomando a Escritura como um livro de Biologia, afirmam que nas escolas a teoria da evolução de Darwin deve ser substituída, ou pelo menos completamentada, pelo criacionismo. O fundamento invocado para essa proposta, inclusive em tribunal, costuma ser o conceito de liberdade religiosa.
A tolerância de culto constitui, sem dúvida, um pilar fundamental da sociedade civilizada. As terríveis perseguições recentes, que ainda permanecem em tantas zonas do mundo, são infâmias inqualificáveis em qualquer cultura digna. Mas a liberdade religiosa, se dá a cada pessoa e comunidade o direito à sua fé e celebração, não lhe concede a possibilidade de impor essa sua visão particular à totalidade.
Os cristãos integristas, como todos os outros grupos, devem ter autonomia para, no respeito pela lei, acreditar e defender o que quiserem; podem ensinar aos seus filhos o que acharem melhor. Mas só uma compreensão distorcida de liberdade os leva a exigir que as suas opiniões sejam postas em igualdade com os resultados científicos que toda a sociedade subscreve. Liberdade e tolerância não significam imposição de uma atitude minoritária à globalidade.
Tais exageros são certamente fenómenos típicos da América. Ou não serão? De facto, na Europa verificam-se situações paralelas, em que a única diferença é que a lei já pretende impor ao todo a opinião da pequena minoria.
Na sua sessão do dia 18 deste mês, o Parlamento Europeu aprovou a "Resolução sobre a Homofobia na Europa" (P6_TA-PROV (2006)0018). Invocando os direitos humanos e o combate à discriminação, o documento constata que "os parceiros homossexuais não gozam da totalidade de direitos e protecções de que beneficiam os parceiros heterossexuais e que, por conseguinte, são vítimas de discriminação e de desvantagens" (ponto E) e, por exemplo, "insta os Estados membros a adoptarem disposições legislativas para pôr fim à discriminação de que são vítimas os parceiros do mesmo sexo em matéria de sucessão, de propriedade, de locação, de pensões, de impostos, de segurança social, etc.;" (n.º 11).
A homofobia, como qualquer outra forma de violência, opressão e discriminação, é inaceitável e deve ser fortemente combatida. Qualquer cidadão europeu tem o direito de não ser perseguido pelas suas escolhas pessoais e estilo de vida. Mas isto não é combate à homofobia, mas promoção da homossexualidade, insultando toda a Europa, que desde sempre fez e faz naturalmente o que esta lei agora considera discriminação. O Parlamento Europeu, tal como os criacionistas americanos, distorce o conceito de liberdade para impor uma visão aberrante.
A liberdade exige que cada um possa ter a vida que quiser. Mas não força a que todos achem que todas as alternativas são equivalentes; tal como a liberdade religiosa não exige que se ensinem nas escolas as teorias de qualquer seita. Uma pessoa, em liberdade, tem o direito de pensar que a homossexualidade é uma depravação, tal como pode achar que o criacionismo não é ciência. Isso, em si, não significa homofobia e intolerância, desde que não persiga os que pensam de forma diferente da sua. Pelo contrário, é o Parlamento Europeu que, ao consagrar na lei geral a posição abstrusa, viola a liberdade.
Não é discriminação tratar de forma diferente aquilo que é diferente. Os activistas pensam que a homossexualidade é igual ao casamento, tal como os criacionistas acham que o Génesis é ciência. Mas as relações homossexuais, tal como a promiscuidade, incesto, pedofilia e bestialidade, nunca foram consideradas equivalentes à família, até nas sociedades antigas que as tinham como correntes.
Os benefícios que o Estado concede à família, célula-base da sociedade, não são direitos individuais ou simples manifestação do amor mútuo. Eles provêm dos enormes benefícios que a comunidade humana recebe da solidez familiar, no nascimento de bebés, educação dos jovens, trabalho, estabilidade emocional, amparo de idosos. Esses benefícios não podem ser estendidos a qualquer outra relação, só porque alguém a considere igual.
O Parlamento Europeu não é para levar a sério. Ao tentar impor dogmas alheios a toda a legislação dos países civilizados, ao acusar de violação de direitos humanos todas as sociedades modernas, só se desprestigia a si mesmo».
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A analogia de César das Neves é, no mínimo, insólita (e, confesso, difícil de decifrar, uma vez que uma analogia implica necessariamente alguns pontos em comum entre os casos analisados, o que, manifestamente, não é caso). Ele começa o seu texto afirmando que a liberdade de culto não implica a imposição de um culto de uma minoria a uma maioria. Depois, dá uma pirueta argumentativa (não tem outro nome) e estabelece a necessária comparação: se defender os direitos duma minoria religiosa não implica impô-los, então para defender os direitos dos homossexuais não é necessário impor a homossexualidade. Nesse curto parágrafo resplandece todo o brilhantismo de César das Neves, ao ver o direito ao casamento, por parte dos homossexuais, como uma imposição da homossexualidade. Confesso que fiquei intrigado. Tão intrigado que li várias vezes a crónica, na esperança de ver alguma explicação para a associação. Não encontrei. Não espanta: César das Neves não explica, em nenhuma linha - como aliás nem poderia explicar -, o porquê de ligar o casamento à imposição de homossexualidade. Presumo que o próprio César das Neves não o saiba muito bem.
Depois, César das Neves diz: «Os benefícios que o Estado concede à família, célula-base da sociedade, não são direitos individuais ou simples manifestação do amor mútuo. Eles provêm dos enormes benefícios que a comunidade humana recebe da solidez familiar, no nascimento de bebés, educação dos jovens, trabalho, estabilidade emocional, amparo de idosos. Esses benefícios não podem ser estendidos a qualquer outra relação, só porque alguém a considere igual». Suponho (friso o «suponho» - o pensamento de César das Neves é complexo e não é qualquer hermeneuta que é capaz de lhe atingir o brilhantismo) que o parágrafo seja uma tentativa de explicar o porquê de haver um tratamento discricionário para com minorias sexuais: no fundo, só tem direito ao casamento - um «luxo» que a sociedade concede - quem, em troca, «dá algo» à sociedade. Nomeadamente, «bebés, educação de jovens, trabalho, estabilidade emocional e amparo de idosos». Mais um erro, pois identifica (abusiva e erradamente) a sexualidade com o civismo: os homossexuais são parasitas da sociedade, porque não têm filhos, não trabalham, não educam crianças, não tratam de idosos. Mas, convenhamos, a ideia, ainda que caricata, não deixa de ser inovadora: aparentemente, o malthus-darwinista César das Neves defende que apenas quem é útil à sociedade deve ter os direitos constitucionais que a legislação concede. De fora ficam, portanto, os homossexuais, os estéreis, os surdos-mudos, os cegos, os atrasados-mentais. Fica no ar a interrogação: deve ser concedido o direito ao casamento a um homossexual que tenha provado a sua utilidade para a sociedade, como um renomado cientista ou um político brilhante? César das Neves não coloca a questão; presumo que não tenha grande interesse nisso.
O que é incrível nesta crónica é que, em 700 palavras e dez parágrafos, César das Neves não consegue dar uma única boa razão em favor da sua tese. E, entre a desonestidade dos argumentos, a infelicidade da analogia e o despropósito da insólita colagem da homossexualidade à bestialidade e pedofilia, César das Neves acaba por dar de si mesmo uma imagem muito próxima dos «movimentos cristãos integristas» de que fala do que os homossexuais a quem os compara. Irónico.