22 janeiro 2006

Presidenciais 2006

A fiar nas sondagens o próximo Presidente da República vai mesmo ser Cavaco Silva. Algumas considerações:
----------
1. Vencedores: Cavaco Silva, Jerónimo de Sousa, Manuel Alegre (ordem arbitrária). Derrotados: Mário Soares, o Bloco de Esquerda, Mário Soares e, por arrasto, o PS. Surpresas: a diferença entre Manuel Alegre e Mário Soares, entre Mário Soares e Jerónimo de Sousa, e entre Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã; a vitória tangencial (e apenas bastante provável, por agora) de Cavaco Silva.
----------
2. Não entendo as teses de António Vitorino e Marcelo Rebelo de Sousa, que acabaram agora de dizer na RTP1 que Manuel Alegre teria sido uma melhor escolha do PS. A diferença de votos entre Soares e Alegre é avassaladora, certo. Mas a questão é outra: será que algumas das causas da grande votação de Manuel Alegre não são inerentes ao próprio estatuto da sua candidatura? Por outras palavras: com Alegre e Soares a votação socialista dessa área atingiu mais de 30%; caso o candidato apoiado tivesse sido Manuel Alegre, haveria apenas um candidato desta área - porque Soares nunca se candidataria - e muito dificilmente Alegre acabaria com uma votação de 30%. Creio eu (até porque sem um «discurso anti-sistema» - em que se baseou a sua candidatura - a massa política do poeta reduz-se a uma densidade ao nível das pipocas).
----------
3. Não sei o que é um movimento de «alargamento da cidadania». Não sei o que é «o abrir de um novo espaço de intervenção». Convinha, pois, que os responsáveis da segunda candidatura fossem capazes de consubstanciar os conceitos em algo mais palpável, mais substancial. Se for possível, claro.
----------
4. Não vou ganhar a BlasfemAndWin. Isso é certo. Mas ainda posso, segundo os meus cálculos, ficar nos 50 primeiros lugares. Ou talvez não. Quem me manda a mim apostar em Mário Soares em segundo?...
----------
5. O «Choque Tecnológico», prometido pelo PS, está cada vez mais perto. Depois do choque de hoje, já só falta o «tecnológico».
----------
6. Cavaco Silva ainda não falou. Tomou-lhe o gosto na campanha?
----------
7. Presumo que este tenha sido o último dia de vida de um dos melhores blogs que já tive o prazer de visitar: o Pulo do Lobo.
----------
8. A votação de Francisco Louçã supreende-me. É o líder que melhor comunica, o candidato com melhor intervenção em debates, aquele que mais entusiasma nos comícios, o mais telegénico. O extremismo não explica tudo; realmente, explica muito pouco: a votação do Bloco de Esquerda nas legislativas conseguiu exceder estes parcos 4/5%. Mesmo admitindo que desta vez o voto de protesto não tenha tido eco, por muitas alternativas (e porque uma figura individual de candidato presidencial não causa o repúdio que o bloco central tem vindo a granjear junto dos eleitores de centro), fica sempre a imagem de que a votação foi baixa. Demasiado baixa. Não entendo, confesso.
----------
9. O candidato «simpático» está, neste momento, a fazer o discurso mais intolerante de todos. A velha ladainha das políticas de direita, dos pobres e excluídos, da instabilidade política, etc. O PCP mudou o formato, trocando a cassete pelo DVD, mas o conteúdo é o mesmo. Seria talvez sensato que alguém explicasse a Jerónimo que, por muito que lhe custe, o povo pode, realmente, não querer um Presidente de Esquerda.
----------
10. Garcia Pereira é uma paródia absoluta. O momento em que criticou o PS por ter rejeitado apoiar a sua candidatura foi sublime. Mr. Bean tem concorrência.

Comentários

15 Comments:

At domingo, janeiro 22, 2006 11:42:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Sou optimista, e penso que o resultado de Louça se explica pelo facto de os portugueses terem finalmente percebido a verdadeira natureza da personagem: um moralista da pior espécie, demagogo, extremista e defensor de uma ideologia totalitária (por muito que ele n goste de dizer que é trotskista).

 
At segunda-feira, janeiro 23, 2006 1:03:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

Sublinho-te a quase totalidade dos pontos, ou parte deles. Penso-te as pipocas como demagogia, tendo em conta todo o historial de Alegre.
Filipe, não percebo por que teimas em deitar abaixo de todas as formas e feitios, quase fixadamente, um senhor que é um excelente economista. Com provas dadas - até a nível académico - disso mesmo.
À parte isto, parabéns pela vitória do candidato apoiado. Espero que não peça de novo para desobstruir a via na base da pancada.

 
At segunda-feira, janeiro 23, 2006 2:01:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Presumo que não, isso também não faz parte das competências do Presidente da República...

 
At segunda-feira, janeiro 23, 2006 1:13:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Não gosto do homem... acho que ele é desonesto do ponto de vista intelectual. E a sua postura moralista irrita-me... a esse respeito, adorei a resposta que lhe deu o Manuel Alegre, na recente mini-polémica dos beijos às estátuas. Além de que o meu conceito de "excelente economista" não se aplica a quem defende soluções estatizantes e de aumento da despesa pública, como ele preconiza. Mas confesso, se calhar deixo a minha aversão pela personagem influir no juízo que faço da mesma...

 
At segunda-feira, janeiro 23, 2006 4:14:00 da tarde, Blogger ZéLuís said...

cocnordo ctg em ks todos os pontos. n foi o "moralismo da pior espécie" que fex o louça perder votos mas penso que a demagogia transferiu-se para o Alegre.


Um presidente da república de direita eleito, democraticamente, em portugal é algo que não faz parte da tradição lusitana. e a tradição manteve-se. é só fazer as contas:
5.529.117 ( número total de votos) : 2 = 2.764.558,5

2.745.491 ( número de votos de Cavaco)

Os votos brancos e nulos entalam o consenso na eleição de Cavaco. a juventude popular acaba por manchar o livro de memórias de cavaco silva k nunca poderá dizer teve do seu lado a maioria absoluta dos portugueses como PR.

 
At terça-feira, janeiro 24, 2006 12:25:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Hugo: precisamente, o homem é um excelente economista. Estranhamente, defende a redução da idade de reforma, menos impostos, mais taxas sobre as impresas (para estimular as exportações, supõe-se), etc.; diz que quer mais emprego e, paradoxalmente, todas as medidas que defende seriam conducentes a um aumento da taxa de desemprego, nomeadamente o aumento do salário mínimo, a rigidez do código laboral, a imigração desregrada. Como não quero pôr em causa a credibilidade da Instituição que o doutorou com 18(!) valores, só posso dizer que ele é desonesto e demagogo.

Zé Luís, não percebi: o Cavaco teve menos de metade dos votos? Explica lá isso melhor.

 
At terça-feira, janeiro 24, 2006 9:51:00 da manhã, Blogger ZéLuís said...

Pedro: O cavaco teve menos de metade do votos, mas mais de metade de votos expressamente válidos, uma vez que, segundo a lei, os votos nulos e brancos não contam como votos válidos. Ou seja, na prática votar em branco de nada serve, é o mesmo que ficar em casa.

Pode ser que daqui a 5 anos Cavaco seja eleito PR com a maioria dos votos dos eleitores - se for candidado...pois temo que se vá gerar uma forte oposição a Belém e não vai haver milagre para uma reeleição.

 
At terça-feira, janeiro 24, 2006 10:41:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Oh Zé Luís, segundo essa lógica nenhum Governo tinha maioria absoluta... Aliás, o voto em branco tem um significado - protesto. Se uma pessoa, sabendo que o Cavaco está à frente nas eleições, opta pelo branco, nulo ou abstenção, é sinal de que também não está muito preocupada com isso. E de forma análoga se poderia dizer que o Jerónimo e o Louçã também não deveriam ter direito a subvenção estatal, porque de facto não açambaracaram os votos de pelo menos 5% dos portugueses :) É uma questão relativa

 
At terça-feira, janeiro 24, 2006 5:04:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Ou então, há a possibilidade de ter ideias, demonstradas nos 18 valores, diferentes das que funcionam melhor ou pior nos dias que correm. Mas, ei!, eu não li a tese. E não posso tirar ilacções tão clarividentes como as tuas.

 
At terça-feira, janeiro 24, 2006 6:12:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Essa tese de 18 valores segundo a qual o dinheiro cai do céu já foi demonstrada. Em «Alice e o país das Maravilhas».

 
At terça-feira, janeiro 24, 2006 6:46:00 da tarde, Blogger ZéLuís said...

Oh Pedro. Votar em branco é protesto, abster-se é indiferença. Votar em branco e abster-se devem ter na prática resultados diferentes.

No caso das passadas maiorias absolutas estas teriam lugar à mesma com ou sem os votos em branco ( curiosamente, neste eleição d cavaco isso não acontece)e as subvenções estatais devem recair na percentagem d portugueses votantes, quem se abstem não tem qualquer legitimidade eleitoral.

É lógico que quando os votos se traduzem em representação de deputados e são estes k depois ditam a constituição do governo, não faz sentido contabilizar os votos em branco pk não há deputados "fantasmas" para serem eleitos.
No caso dos referendos, abster-se ou votar em branco tem na prática resultados diferentes - 1abstenção superior a 50% não vincula o referendo e votar em branco pode contribuir para tornar o referendo vinculativo. No caso das eleições presidenciais, uma vez que em causa está a eleição do mais alto cargo da nação penso que este devia ser eleito com mais do que mentade dos votos e não com mais do que os votos dos seus adversários. Para isso é que há a 2 volta em Portugal (pelo menos para já)

É evidente que numa 2 volta poderia acontecer o mesmo problema, ou seja o número de votos em branco ser superior à diferença entre os 2 candidatos,mas isso seria uam hipótese mt remota. No caso de isso acontecer, bem...acho que o PR devia ser aquele que fosse eleito com + votos e o Saramago fosse a 1ºDama em representação dos votos em branco, para k em caso de instabilidade nacional pudesse demitir o Presidente da República e dar-nos um "ensaio de lucidez".

58.868 votos em branco é mt coisa. foi + do k o dobro do garcia pereira. e como o líder da JP não deu apoio ao Cavaco, acho que as minorias deviam ser respeitadas.

 
At terça-feira, janeiro 24, 2006 8:40:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Se as pessoas votaram em branco foi porque não lhes agradava NENHUM candidato, não apenas Cavaco...

 
At quarta-feira, janeiro 25, 2006 3:21:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

Parece-m que o termo a utilizar não é «apenas», mas sim «também».

 
At sexta-feira, janeiro 27, 2006 5:42:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Acho piada aos que dizem que a vitória de Cavaco foi "à tangente" ou que não foi tão significativa como as dos anteriores presidentes. Cavaco venceu umas eleições dificílimas logo à primeira volta, fazendo frente a 4 candidatos (cujas campanhas se limitaram a ataques pessoas a Cavaco, à falta de outras coisas para criticar) de esquerda, incluindo o "pai da democracia" portuguesa. E ainda dizem que não foi uma grande vitória? Até parece que se candidatou contra um Basílio Horta...

 
At sexta-feira, janeiro 27, 2006 11:11:00 da tarde, Blogger Rui Afonso said...

Uma acha para a fogueira. Cavaco Silva teve 2.745.355 votos que representam 50,6% do eleitorado. No entanto, teve mais 334.258 votos que Sampaio, nas últimas eleições, que venceu com 56% (2.411.097).
Já agora, um pormenor: a tão aclamada maioria absoluta de Sócrates teve 2.573.446 votos, menos 171.909 que Cavaco, agora.
Se quisermos tirar legitimidade a Cavaco Silva, teremos que tirar a todas as últimas eleições, pois os votos dos outros candidatos, somados aos nulos e brancos sempre ultrapassaram os do vencedor (exceptuando, claro, nas duas maiorias absolutas, em legislativas, de Cavaco Silva).
Suponho que até um economista de esquerda, com tese de 18 valores, terá de dar razão a estes números.

 

Enviar um comentário

<< Home