28 janeiro 2006

Hamas: tragédia ou oportunidade?

O Hamas chegou ao poder. Em eleições livres - e com direito a mais de 70 lugares (num total de 132). Isto significa duas coisas. Primeiro: problemas. Segundo: o Hamas não é, como por aí se dizia, apenas um grupelho terrorista marginalizado; pelo contrário: tem uma forte implementação na sociedade (o que não deixa de ser compreensível: constroem hospitais, prestam auxílio a desfavorecidos, enfim, uma espécie de estado social versão light). E é como se costuma dizer: se um Hamas-associação chateia muita gente, um Hamas-Governo chateia muito mais.
Acontece que o cenário não é tão simples assim. E, ao contrário do que agora se ouve, não são só coisas más; está bem que pior do que as coisas já estavam era difícil, mas a subida do Hamas ao lugar máximo da hierarquia abre algumas novas perspectivas. Em primeiro lugar, o Hamas tem, a partir de agora, responsabilidades. Já não joga por fora, como contra-poder - joga por dentro, como autoridade; uma força externa consegue capitalizar o descontentamento - um poder legítimo é culpabilizado pela má governação.
Claro que é possível - talvez provável, até - que o «programa» do Hamas se resuma a isso mesmo: a destruição do inimigo. Plausível, mas a verdade é que a situação agora mudou. Isto porque, com o Hamas no poder, ataques contra Israel deixam de ser considerados terrorismo para passarem a entrar na categoria da agressão entre entidades políticas. Também se lhe dá outro nome: guerra. Ora, em Israel não há, ao contrário do que acontece aqui na Europa, uma grande quantidade de intelectuais pró-diálogo (não digo que seja bom ou mau; estou a constatar um facto e não a fazer julgamentos normativos). Lá, os nervos estão à flor da pele - e, normalmente, uma opinião pública com a corda na garganta não tem, em regra, as mesmas preocupações com o inimigo que tem uma sociedade que já não sabe o que é a guerra há 55 anos. A reacção militar israelita fica, assim, mais fácil e mais legítima.
Mas um Governo do Hamas abre ainda outro campo que pode ser explorado: um acordo. Isto porque, até agora, um acordo entre os Governos Israelita e Palestiniano era pura miragem. A liderança de um Estado só pode ser efectivada quando há mecanismos que possibilitem ao Governo em acção deter o poderio militar - ou, mais simples, o monopólio da força. E isso até agora não acontecia, com uma Autoridade Palestiniana incapaz de controlar o Hamas, numa eterna dependência. Arafat beijava e abraçava os amigos, prometia paz e prosperidade e o que acontecia? O Hamas rasgava o papel e fazia birra. Agora, isso acabou. A força volta a ter um dono e a autoridade - que antes apenas estava politicamente legitimada - torna-se, neste momento, militarmente legitimada.
Decerto que o diálogo com a Fatah seria mais simples - mas não dava garantias. A partir de ontem, o diálogo pode ser mais difícil, mas é seguramente mais proveitoso. Até porque, nesta nova situação, é mais conveniente para a Palestina seguir a via do diálogo do que entrar numa guerra que não pode vencer. Isto, claro, admitindo que um Hamas mais «polido» e razoável não gera dissensões internas capazes de voltar a desestabilizar a nova ordem agora conseguida. Porque, de facto, as coisas estão agora mais estruturadas e organizadas (politicamente falando, claro) do que antes.
----------
P.S.- E isto são apenas questões externas. Quanto à política interna, essa levanta ainda mais interrogações... e conjecturas.

Comentários

5 Comments:

At sábado, janeiro 28, 2006 2:23:00 da tarde, Blogger Nino said...

Uma análise talvez demasiado optimista mas profunda e fundamentada.

 
At segunda-feira, janeiro 30, 2006 11:00:00 da manhã, Blogger Hugo Monteiro said...

Romano, já existem novas notícias sobre este episódio na Palestina. Houve uma espécie de golpe ou ocupação, não sei precisar. O problema é que, se calhar, eles não sabem como é que a democracia funciona. Alguém lhes devia dar um daqueles livros "Democracias em 6 min" que é a versão de governação das obras sobre abdominais. Primeiro fazem partidos e depois tentam depôr o vencedor? Eu acho que ainda têm muito enraizadas as tradições das "tribos". As eleições não fucionam naquele contexto.

 
At segunda-feira, janeiro 30, 2006 3:34:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Completamente de acordo, Pedro. O Hamas é o tipo de força que se quer "dentro" e não "fora" do poder. Faz lembrar o "abraço de urso" que Miterrand deu aos comunistas do PCF, nos anos 80: levou-os para o poder, iludiu-os, deu-lhes responsabilidades e... ao fim e ao cabo, destruíu-os enquanto força política credível (a melhor coisa que Miterrand fez em toda a sua carreira, a meu ver). Com o Hamas poderá acontecer o mesmo, a menos que surjam dissensões internas ou que um poder estrangeiro (por ex., o Irão) os apoie com armas e dinheiro numa deriva suicidária e auto-destrutiva. Hugo: há sessenta anos também diziam que os alemães e os japoneses "não eram feitos para a democracia"... além de que o Islão, na sua essência, é a mais democrática de todas as grandes religiões.

 
At segunda-feira, janeiro 30, 2006 4:34:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Eu não estou a falar da religião. Mas, sinceramente, os alemães e especialmente os japoneses parecem-me muito mais disciplinados (se lhes posso chamar isso, talvez ordeiros seja mais correcto). Por exemplo nós, portugueses, somos menos disciplinados que estes dois povos, mas consideravelmente mais que os palestinianos. Não quer dizer que sejamos piores, apenas que somos menos submissos. Queria somente comentar o facto de ser possível ou não mantê-los coesos com este tipo de regime. É um caso a estudar.

 
At segunda-feira, janeiro 30, 2006 8:42:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Percebo o que queres dizer, mas repara que em questões de disciplina eles são muito mais rígidos que nós. Lá não existem coisas "relativas", especialmente em questões de ética, moral e de vida em sociedade (e logo, de política, também). Quanto à religião, lá não existe a distinção que aqui fazemos entre a cidade de Deus e a dos homens. E não creio que eles não saibam viver em liberdade e democracia, se as élites corruptas que os governam retirassem a "mão de chumbo".

 

Enviar um comentário

<< Home