25 janeiro 2006

E fica a vénia

A circular pelo google (numa das curtas pausas enquanto estudo para a frequência de Geografia Humana) dei de caras com um extraordinário post de Luís Aguiar Conraria, que merece reprodução integral. Leiam tudo e, se possível, os respectivos comentários, aqui. Vale a pena.
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Recebo uma bolsa de estudos do Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior. Apesar de ser uma bolsa bastante generosa, é tão dispendioso estudar nos EUA que me vi obrigado a ser teaching assistant. Comecei em Setembro de 2002, no meu segundo ano de doutoramento. No primeiro ano passei por alguns testes de "aptidão pedagógica". Dois testes, para ser mais preciso. Como o inglês não é a minha língua mãe, sujeitei-me a uma entrevista com o objectivo único de avaliar a minha capacidade de expressão oral. Tive depois de simular 30 minutos de uma aula para avaliaram as minhas capacidades pedagógicas. Com a experiência que levava do Minho não foi difícil passar este teste. Quem chumbou, a maioria, teve de passar o mês de Agosto em acções de formação (remuneradas). Antes do início das aulas, todos os novos teaching assistants tiveram mais três dias de acções de formação. Discutiu-se o código de conduta da universidade, alguns .case studies., visionámos vídeos reais de boas e de más aulas.
Para o último dia estava reservado o melhor. De manhã, enquanto éramos filmados, cada um de nós teve de simular 15 minutos de aula. No fim recebíamos, por escrito, as críticas dos nossos colegas. À tarde, em conjunto, visionámos os vídeos de cada um, e discutimos as críticas que tínhamos recebido. Terão sido poucos os aspectos que não foram cobertos. Colocação de voz, uso correcto e não caótico do quadro, como evitar estar sempre à frente dos alunos quando estes tentam copiar algo do quadro, as nossas reacções a perguntas mais estúpidas, etc.
A meio de cada semestre, entregamos uns inquéritos aos alunos. Somos avaliados numa série de itens: uso correcto do quadro, disponibilidade para responder a perguntas, assiduidade, etc. O mais interessante são as perguntas de campo aberto, onde temos a ocasião de ver os nossos pontos fracos. Ao longo do ano são imensas as workshops opcionais dedicadas a professores e assistentes sobre técnicas de ensino.
Os inquéritos são, posteriormente, entregues ao coordenador dos teaching assistants. Esse coordenador irá filmar as aulas dos teaching assistants mais problemáticos, analisando com eles quais os aspectos que podem, e devem, ser melhorados. No fim do ano, outros inquéritos são distribuídos. Os alunos avaliam os professores e os teaching assistants, com perguntas que cobrem diversos aspectos pedagógicos. Os docentes são avaliados com base nestes inquéritos.
São poucas (nenhumas?) as universidades portuguesas que têm estas preocupações pedagógicas. Talvez por isso os meus melhores mestres tenham sido os do ensino secundário. Estes têm de passar por um estágio no início da carreira e, nalguma fase das suas carreiras, também acabam por ser orientadores de estágio. Poderia destacar vários professores que tive no liceu, mas seria injusto com muitos outros. Refiro apenas dois. O professor Rito, de matemática, e a dra. Dora Caeiro, de história. Claro que tive bons professores na universidade. A dra. Maria dos Anjos Saraiva, que me devolveu o gosto pela matemática, o doutor Adelino Fortunato, que quase me roubou da Macroeconomia para a Economia Industrial.
Acho sempre notável que alguns professores se recusem a ser avaliados pelos alunos. O principal argumento é o medo do espírito mesquinho e de vingança dos estudantes, a par com a subjectividade que qualquer avaliação encerra. E o contrário? Não é verdadeiro? Quantos de nós não conhecem casos de pura mesquinhez de alguns professores quando avaliam os alunos? E a subjectividade na avaliação dos alunos, não existe? Pessoas que se recusam a ser avaliadas, deviam, por coerência intelectual, recusar-se a avaliar, pelo que não deviam ser professores.
Pergunto também, qual a defesa dos alunos contra as arbitrariedades dos professores? Lembro-me de, no último ano da licenciatura, ter perdido um valor no exame de "Gestão Financeira" porque a professora não sabia distinguir uma taxa de juro efectiva de uma nominal. Estive uma tarde a discutir com ela este assunto. A minha média final de curso não ficou afectada. Mas podia ter ficado. Aliás, quando isto se passou, eu ainda estava a lutar para chegar ao 15.5 que me daria 16 de nota final. Na altura senti-me mesquinho em discutir uma nota. Hoje, quando percebo que pelo critério de atribuição de bolsas do MCIES (pelo menos na área de economia), quem não tem média de 16 na licenciatura tem muito mais dificuldades em obtê-las. Hoje, quando me lembro que no meu primeiro emprego, em Lisboa, quatro recém-licenciados em economia foram contratados, todos com média de 16. Hoje, quando percebo que se não tivesse tido média de 16 nunca tinha sido contratado pela Universidade do Minho. Hoje, penso que devia ter protestado muito mais.
Em Portugal os alunos não têm o poder para despedir os professores. Não existe esta ditadura dos alunos. Os professores têm medo do espírito mesquinho e de vingança dos estudantes. Claro que pode haver um outro aluno ressabiado e mesquinho. Isso nunca é suficiente para despedir alguém. Mas quantos professores não há que são, pura e simplesmente, detestados por quase todos os alunos? Espírito mesquinho destes? Por favor, sejamos mais humildes. Há professores maus, que dão mau nome aos bons. Se quase ninguém gosta de um professor, então com certeza que estamos perante um mau professor. E mesmo que, por absurdo, se argumente que é um bom professor, de que adianta isso se ninguém gosta dele?
O que é um bom professor? A resposta a esta pergunta não é assim tão complicada. O que é um bom estudante? A resposta à primeira pergunta está na resposta à segunda. Um bom estudante estuda. Um bom professor estuda também. Um bom aluno sabe a matéria que lhe ensinaram. Um bom professor percebe o que ensina. Um bom aluno questiona o professor. Um bom professor estimula as questões do aluno. Um aluno deve ser curioso e fazer perguntas e questionar certezas. Um professor deve ficar contente de cada vez que não sabe responder a uma questão.
Se a principal função de um professor é ensinar os alunos e nenhum aluno gosta dele, porquê insistir? Nem os alunos estão contentes nem o professor se sente realizado. Não era melhor para todos se o professor se dedicasse a exercer o que estudou? Se é professor de economia vá ser economista nalguma empresa, ou organização governamental. Se é professor de química pode ir para um laboratório farmacêutico. Qual é o drama? Tenho consciência que não é fácil avaliar a qualidade pedagógica de um professor. Compreendo também que haverá alguns bons professores que serão injustiçados se um sistema de avaliação pedagógica, com consequência, for levado avante. Mas não nos esqueçamos de quantas injustiças são criadas ao não haver uma avaliação séria dos professores. É injusto para os alunos. É injusto para os pais. É injusto para os bons professores. É injusto para os potenciais bons professores que não encontram colocação nem nas universidades nem nos politécnicos (e, já agora, nem nas escolas secundárias).
Sabemos que muitas instituições de ensino superior são instituições acomodadas. Sabemos também que há muitos professores acomodados e desencantados. A mudança não partirá da universidades e politécnicos. Terão de ser os alunos a ser mais exigentes e reivindicativos. Terão de ser os alunos a revindicar mais qualidade, em vez de menos propinas.
Acredito que resposta à questão .Como se altera esta situação?., está na resposta a outras perguntas:
- Como tornar os estudantes muito mais exigentes?
- Como obrigar as Universidades a escutarem essas exigências?
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É uma perspectiva. Corajosa e responsável, por vir de um professor. Mas a exigência dos alunos para com os professores também tem de ser, muitas vezes, remetida a outros destinatários. Como a eles (nós) mesmos.

Comentários

11 Comments:

At quinta-feira, janeiro 26, 2006 12:47:00 da manhã, Blogger Hugo Monteiro said...

Sim, muito bonito. Mas gostaria de dizer a esse senhor que "teaching assistant" pode ser facilmente traduzido para assistente de ensino ou professor assistente. Se há coisa que abomino são os estrangeirismos descabidos. Têm a mania que são chiques só por falar inglês...

 
At quinta-feira, janeiro 26, 2006 12:54:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Hugo, ganha juízo.

 
At quinta-feira, janeiro 26, 2006 11:56:00 da manhã, Blogger Bruno JSM said...

opá, realmente este é um assunto muitas vezes negligenciado e diminuido quer pelos núcleos de curso, quer pela comissão de festas (associação de Estudantes).

eu lembro-me de uma vez na UTAD, em que como todos os alunos chegaram à conclusão que o professor era demasiado mau, foram todos ao exame e ninguém desistiu (algo que era habitual), o que fez aumentar a taxa de reprovação da cadeira exponencialmente (se houver desistências não conta), e o respectivo professor foi suspenso 18meses.

Aqui na U.M., nos poucos meses que cá andei ja reparei que seria dificil fazer algo do género. Mas já vi que há uma especie de avaliação que os alunos fazem aos professores, mas não sei até que ponto serão as ideais e qual é o objectivo daquilo. Se é so para uso pessoal do professor ou se serão para uso do departamento pedagógico da universidade.
Mas pelo menos um professor, leu algumas avaliações, falou comnosco e mudou a sua maneira de dar as aulas. Mas foi um em 12...

 
At quinta-feira, janeiro 26, 2006 4:36:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Hugo, por acaso penso que são coisas diferentes. Há muitas palavras e expressões anglo-saxónicas que não têm tradução literal em português. "Chairman", por exemplo, é uma delas.

 
At quinta-feira, janeiro 26, 2006 7:30:00 da tarde, Blogger Olga Pereira said...

Agora percebi a tua tradução, Pedro Romano.. :) Tiveste piada.

 
At quinta-feira, janeiro 26, 2006 10:15:00 da tarde, Blogger Elise said...

certas classes em Portugal são terrivelmente arrogantes: ser avaliado, EU?

Não há meritocracia.

 
At sábado, janeiro 28, 2006 2:15:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Chairman pode ser traduzido para presidente da mesa (é o que está a comandar uma reunião) ou assembleia. E quanto a coffe-breaks e workshops acontece o mesmo? Querer é poder, eles fazem isto apenas porque são preguiçosos...

 
At domingo, janeiro 29, 2006 6:31:00 da tarde, Anonymous LA-C said...

Hugo Monteiro
Esta' enganado. Ja' fui assistente estagiario e assistente da Univ. do Minho, e agora sou Professor auxiliar. Conheco bem a carreira docente. As funcoes de "teaching assistant" que exerci sao bastante diferentes do que aquelas que exerci quer como assistente estagiario quer como assistente.

 
At segunda-feira, janeiro 30, 2006 11:05:00 da manhã, Blogger Hugo Monteiro said...

Então faça o favor de explicar as diferenças... Se não se importar, claro!

 
At terça-feira, janeiro 31, 2006 9:27:00 da tarde, Anonymous LA-C said...

Caro Hugo
Repare que na sua primeira intervenção disse que eu tinha a mania que eu era "chique só por falar inglês".
Na sua segunda intervenção diz que sou preguiçoso.
Ou eu me engano muito ou o Hugo não me conhece de parte alguma para falar assim de mim.
De seguida diz-me que "faça o favor de explicar as diferenças... "

Não lhe vou ensinar regras de boa educação, até porque nem o conheço nem sei se realmente precisa de lições. Mas, naturalmente, que não lhe vou explicar o quer que seja. Isso implicaria uma atitude da sua parte que não adivinho.

Grande abraço

 
At quarta-feira, fevereiro 01, 2006 1:42:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Isto não tem nada a ver com o tema discussão e é só um "aparte": Hugo, de facto, "Chairman" pode significar "presidente de mesa". Mas pode ter outros significados, como algo parecido com um presidente de um conselho de administração, entre outros. É um termo que não tem tradução literal em português e cujo significado varia consoante o contexto. Por exemplo, em inglês não se chamava "President" a Yasser Arafat, mas sim "Chairman of the Palestinian Autority". E com "teaching assistant" passa-se mais ou menos o mesmo: é uma expressão sem tradução literal em português, como fez questão de explicitar - e de forma bastante correcta - o visado pelo teu comentário.

 

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