18 janeiro 2006

D'zrt

Parece que o primeiro lugar do top de vendas de música portuguesa está ocupado pelos D'zrt. Sou sincero: não fazem o meu género. Mas, por favor, não é preciso tanta exaltação, como a que por aí se vai sentindo. Decerto que a melodia pode não ser muito elaborada, as letras oscilam entre o simples, o rasco e o panfletário e o próprio grupo não tem cara de banda de música. So what? Deixem a rapaziada cantar à vontade, eles amealham uns tostões e as nossas crianças ficam entretidas. Claro que, depois do espanto inicial, o choque dá lugar à inquietação - e surge a pergunta: como explicar? Alguns avançam pelo golpe publicitário; outros, por seu lado, apontam o baixo nível cultural do povo.
Confesso que não sei bem o que é um golpe publicitário. Se, por norma, tudo aquilo que vende é «comercial» (desde Britney Spears até U2) e tudo o que é comercial é publicitado, então 99,9% da música que ouvimos (lá de fora, sim, mas também a nacional) é um tremendo golpe publicitário. Atenção, não enalteço os D'zrt; mas em capítulo tão relativo e subjectivo como a música (e, em geral, a arte), traçar fronteiras e definir o que é «bom» e «mau» é impossível. Uma música pode ser bem sucedida devido à publicidade (no sentido em que apenas conseguiu vender devido à publicidade) - mas isso não faz dela um golpe de publicidade; um aspirador pode ser um «golpe de publicidade» - porque, tendo um fim (aspirar), pode ser qualificado numa escala ordinal de acordo com a sua eficácia, estando, por isso, sujeito a testes objectivos (e uma boa campanha de publicidade pode «enganar» o público); na música, isso não acontece: se os gostos são função do contexto social em que vivemos - e a publicidade faz necessariamente parte desse contexto social -, então uma obra de arte não é nunca um golpe de publicidade. Um exemplo bastante concreto é o da arte pós-moderna - como a que está em exposição no museu Guggenheim, em Bilbao. Há lá de tudo: desde bugigangas enroladas até vídeos semi-pornográficos, passando por vassouras (não omiti nada: a «obra de arte» em causa é, simplesmente, uma vassoura de plástico castanho; nada mais). É interessante ver a cara das pessoas ao olharem para as obras: espantadas, curiosas, intrigadas. Algumas, mais persistentes, procuram encontrar alguma espécie de sentido naquilo - afinal de contas, se as obras lá estão, alguma razão deve haver. Há, realmente, uma grande razão para o Museu estar a expor coisas daquelas: dá dinheiro. A economia de mercado tem destas coisas. Aparentemente, poucos se apercebem de que, se aquilo é arte, então todos somos tão artistas quanto os «génios» pós-modernos, todos fazemos arte todos os dias e absolutamente todos temos arte em casa, até na casa de banho! Manzoni, por exemplo, autor de «Merda de artista» (caso raro de um título extraordinariamente bem atribuído, ainda que fique a dúvida: está classificar o artista ou a atribuir-lhe a paternidade do rebento?), justificava o sentido profundo da obra no curto e sintético enunciado: «é uma obra de arte, porque é minha». A arte de facto tem destas coisas; e não é - ou não é só - a publicidade que faz com que as pessoas se desloquem aos museus para perder tempo com este tipo de coisas: é, acima de tudo, um meio cultural que valoriza este género de arte. As pessoas vão ver as telas, apesar de já saberem o tipo de arte que as espera; apesar de não encontrarem sentido naquilo, apesar de, provavelmente, não reconhecerem sequer talento aos autores, a verdade é que elas vão. Consomem. E não é um spot que as obriga: vão porque, em última análise, querem realmente ir, seja por que razão for. Aparentemente, até os eruditos «gostam» de... publicidade. Seja lá o que isso for.
Mas, acontece às vezes, perdi-me no raciocínio. Falava dos D'zrt. Não há, dizia, mal qualquer em que a turma dos «Morangos com açúcar» venda discos que nem ginjas. Não é bem assim. Não há, de facto, mal nenhum em que «x» % dos portugueses prefiram D'zrt a Beethoven - a arte é relativa e até os eruditos entram em confronto acerca do que é a «arte» (ok, há casos demasiado evidentes, e é impossível que alguém possa olhar para uma Gioconda e não ver arte naquilo; mesmo quem não gosta não pode deixar de considerar que de facto é preciso talento - muito talento - para fazer uma coisa daquelas); mas quem normalmente ouve D'zrt não é, por norma, um público muito culto. É um caso evidente de correlação entre duas variáveis - a música ouvida e o nível cultural. O lugar dos D'zrt no ranking não levanta problemas a não ser por aquilo que indica. E o facto de uma «boys-band» produzir a música mais ouvida em Portugal e Manzoni ser considerado artista não é, em si mesmo, uma coisa má. Mas é sintomática.
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P.S.- «Mas a mim tanto me faz».

Comentários

15 Comments:

At quinta-feira, janeiro 19, 2006 4:41:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

Essa ingenuidade perante a publicidade é pura, ou indicaste-lhe o caminho para este post? Quanto ao Guggenheim, a arte pós-moderna apenas chama aos preguiçosos e aos descabidos de qualquer talento a ilusão de poderem, eventualmente, tornarem-se «artistas». Daí o exito: adivinha lá - maior parte da população mundial não é artista (podendo não ser pelas razões acima mencionadas).
A propósito dos D'Zrt, e sem me estender muito, uma boa parte das - perdoem-me as feministas - fãs vê o grupo como se estivesse a assistir a um concurso de beleza masculino. Ora, se isto é, no âmbito da arte, sintomático, o que será no âmbito da sexualidade? Uma colcheia, uma pausa? E o tempo, ternário, quaternário, ou algo mais complexo? Provavelmente não: ainda são de tenra idade e, pelo aspecto da coisa, ainda com muito para aprender.

 
At quinta-feira, janeiro 19, 2006 9:25:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

O que se passa é que o conceito de Arte é completamente relativo. Por exemplo, a Gioconda de que falas é uma pintura muito bem elaborada, gabo-lhe o mérito, mas a mim não me diz absolutamente nada. Considero que é arte, mas não é aquela "Arte" que me fascina, tal como a arte do Guggenheim não dirá nada a muita gente. E admito que há muita coisa nestas areas que me ultrapassa. Ainda outro dia fui ao CCVF e estava lá uma exposição da colecção de Serralves (Arte Contemporânea) e saí de lá com a impressão de que ainda ía ter de comer muita sopa e ler muitos livros para entender aquilo...

 
At quinta-feira, janeiro 19, 2006 9:33:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Precisas de ler muitos livros para perceber que, dali, nada tiras. Não raras vezes.

 
At quinta-feira, janeiro 19, 2006 11:03:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Excelente último comentário Hugo

 
At quinta-feira, janeiro 19, 2006 11:04:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Quanto à Gioconda, tem pelo menos um mérito: não é qualquer um que faz aquilo.

 
At sexta-feira, janeiro 20, 2006 4:41:00 da manhã, Blogger João Martinho said...

eu não ouço música comercial. eu é só de free jazz afegão para cima.

 
At sexta-feira, janeiro 20, 2006 5:46:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

João, isso acrescenta imenso à discussão.

 
At sexta-feira, janeiro 20, 2006 4:27:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Pondo de parte questões de gosto pessoal, qualquer pessoa minimamente sensível à arte considera a Giocanda uma obra prima. Tem engenho, graciosidade e bom gosto estético (ainda que este não nos agrade especialmente). Acho isso indiscutível. A distinção entre arte superior e inferior não é assim tão relativa. Logo mais estamos a defender que o meu preto é o teu branco e vice-versa, quando existe o branco e o preto, ponto final. Pode suceder é que nem todos tenham inteligência para entender a arte. Nem tudo é relativo. Ou seja, a relatividade é relativa.:)

 
At sábado, janeiro 21, 2006 2:26:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Eu nunca disse que não gostava do quadro. Acho que está muito bem elaborado em termos técnicos e estéticos. Mas não tem necessariamente de me "ferir", como fala Roland Barthes acerca do "punctum" (eu acho que ele distinguiu bem os dois termos).
Ou seja, a diferença para mim entre Arte e arte é que a primeira atinge-me e a segunda apenas me desperta interesse. Obviamente esta distinção é feita a nível pessoal. E quanto ao menino da "obra-prima" e do "inquestionável" eu vou-lhe mostrar uma coisinha. Só por causa disso vou fazer um post no meu blog com o meu trabalho de técnicas e vais ver a diferença entre algo que está bem pintado/tirado e algo que diz muito mais que isso.

P.S.: Se acharem que estou a ser presunçoso, usem o nosso extenso catálogo de palavrões. É para isso que ele serve.

 
At sábado, janeiro 21, 2006 2:29:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Um pequeno comentário: esta é uma discussão muito erudita para se ter num post que se chama "D'zrt" :P

 
At sábado, janeiro 21, 2006 4:31:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Tenho muito que estudar e agora não posso responder. Mas vou ler o teu post e mais logo à noite vou postar alguma coisa acerca do conceito de arte, etc., etc.

 
At domingo, janeiro 22, 2006 2:26:00 da manhã, Blogger João Martinho said...

hugo, o meu comentário foi ao post, não à discussão.
mas sim, foi um post parvo e estúpido, porque são esse tipo coisas que me apetece escrever/dizer sempre que falo de música.
não vou começar para aqui a falar de arte pós-moderna, porque acho que não tem muito a ver para o caso.

de facto, tudo o que vende muito é comercial. e de facto, deve-se normalmente a publicidade, seja de que tipo for.
no caso dos d'zrt, o facto da novela que os lançou ser um fenómeno de audiências ajuda a perceber as razões do sucesso. quer queiram quer não, todos os telespectadores que assistem aos morangos com açúcar começam a cantarolar as músicas dos d'zrt, sabem notícias em primeira mão, assistem aos videoclips e conhecem a estória por trás desse grande produ... aliás, projecto. todos sabem que começaram na garagem do sr. rochinha e são todos dreads - o zé milho diz qualquer coisa como '(...) crista/se és beto, 'tás na minha lista'.
e não, não julgo que o público que ouve e vibra com os d'zrt seja menos culto que ouve beethoven. são miúdos, apenas. miúdos que daqui a uns anos se vão rir ou corar da música que ouviam quando eram adolescentes. penso que é mais saudável um adolescete ouvir d'zrt do que beethoven, aliás.
e quem sabe, dez ou quinze anos depois, esse adolescente de hoje que ouvia d'zrt, não estará a ouvir beethoven e a rir-se dos miúdos que ouvem uma parvoíce qualquer da moda.

acho que fui um bocado redundante, mas espero ter acrescentado alguma coisa à discussão, desta vez.

 
At segunda-feira, janeiro 23, 2006 1:16:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Hugo, obrigado por me chamares "menino". Lembra-me a juventude perdida. Quanto ao teu post, fico à espera.

 
At segunda-feira, janeiro 23, 2006 6:12:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Sempre ao dispôr...

 
At segunda-feira, janeiro 23, 2006 6:23:00 da tarde, Blogger Hugo Monteiro said...

Só queria avisar para quando disserem "Hugo", se lembrem que há vários. Digam, se possivel, o nome de familia, uma referência do tipo Júnior/Senior, Doutor/Malaburra ou outra parvoíce do género. Obrigado.

 

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