15 janeiro 2006

Criminalidade

Penso que foi Rudolph Giuliani quem implementou em Nova-Iorque um apertadíssimo sistema de combate ao crime que se baseava numa espécie de «tolerância zero» aos criminosos (salvaguardadas as devidas distâncias, os criminosos de lá são quase tão problemáticos quanto os condutores de cá, o que em boa parte abonava em favor da medida em causa). Foi uma tomada de posição corajosa e determinada que, não obstante ter tido impacte nas estatísticas criminais, não foi vista com muito bons olhos, nem pelos intelectuais americanos nem pelos comentadores europeus. Os criminosos, esses, também não receberam as notícias com entusiasmo. Compreensível.
As coisas por aqui ainda não chegaram a esse ponto, mas, convenhamos, já faltou mais. Os crimes violentos multiplicam-se, as agressões proliferam, andar à noite em certas zonas de Lisboa e Porto é quase um atentado à inteligência, o «Correio da manhã» faz manchestes e notícias com a desgraça alheia, os miúdos são assaltados dia sim, dia não, a polícia já nem pode entrar em determinadas áreas mais complicadas. O crime, por fim, banalizou-se. Do mais abjecto homicídio ao mais indigente vandalismo, do mais violento espancamento ao mais vil assalto, não há palavra que se ouça de quem de direito. Entre a resignação, laxismo ou irresponsabilidade, não sei qual apontar.
Exposto o problema, proponham-se soluções. Primeiro: abandonar a auto-mutilação da sociedade de bem-estar tão cara à Esquerda caviar, para quem não há bandidos, só vítimas. Entendamo-nos: é óbvio, lógico e sensato admitir que o criminosos tem razões para fazer o que fazem. Acreditar, digamos assim, que há qualquer coisa por detrás do seu comportamento. É igualmente lógico, sensato e óbvio admitir que não é o cidadão inocente que tem de pagar por isso (raciocínio extensível às minorias étnicas). Segundo e último ponto: dar às forças da autoridade os meios de que necessitam. E este problema é, mais do que financeiro, cultural. É completamente inaceitável que seja aberto um processo a um polícia por simplesmente empunhar a arma, seja em que situação for (é verdade, por incrível que pareça). É absurdo que um agente policial tenha medo de usar a força contra um criminoso por receio de acabar com uma acusação a pender sobre os ombros. E é incompreensível o discurso da vitimização do criminoso que, concomitantemente, persiste em ver os polícias como os maus da fita (ainda se lembram da «carga policial indiscriminada»?).
Se as coisas continuarem assim quem se poderá espantar se cada vez mais pessoas marcarem presença nas manifestações «contra a criminalidade» da insípida Extrema-direita portuguesa? Caso para dizer: volta Giuliani, que estás perdoado.

Comentários

5 Comments:

At domingo, janeiro 15, 2006 1:03:00 da manhã, Blogger on said...

Os piores cegos são os que não querem ver...
Estamos fartos de discutir isso no Prozacland. Infelizmente muitas pessoas razoaveis na maior parte dos assuntos comportam-se em relação a este de uma forma completamnte irracional...

 
At domingo, janeiro 15, 2006 11:38:00 da tarde, Blogger Elise said...

giulliani mandava equipas swat para controlar certas zonas dos ghettos. e qualquer criminoso era condenado à máxima pena possível. a política musculada resultou.

para além disso ele baixou os impostos para atrair investimento. giulliani 2008? ;)

 
At segunda-feira, janeiro 16, 2006 2:08:00 da tarde, Blogger Bruno JSM said...

Se esperas resolver isto apenas com mais reforço policial, estás muito mal enganado. Só com isso não vais la.
O problema, como tu bem sabes e referes no post, é financeiro e cultural. É toda uma conjuntura que cria estas situações.

Ainda há uns tempos ouvia um psicologo a dizer que a maioria dos criminosos-adolescentes poderiam ser deixar de existir se o acompanhamento psicologo fosse feito desde que eles revelam essas tendências, que como ele disse, é bem cedo. Na escola primária.

 
At segunda-feira, janeiro 16, 2006 2:09:00 da tarde, Blogger Bruno JSM said...

ok, e a parte do "muito mal enganado" foi um lapso. Não liguem ao "mal".

 
At quarta-feira, janeiro 18, 2006 12:31:00 da manhã, Blogger Rui Afonso said...

Tema pertinente mas que, infelizmente, mais uma vez, não vai ter eco. As forças policiais (e não só) têm cada vez menos poder, cada vez menos meios, cada vez mais processos internos por tentarem cumprir o seu dever. Tudo em prol dos direitos dos cidadãos (dos cidadãos criminosos, entenda-se, porque os outros continuam a ser assaltados, violentados, violados, assassinados).

 

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