18 dezembro 2005

Politicamente correcto

No Prozacland o politicamente correcto está em debate: são estes dois os posts a que me refiro. Há ainda outro post - que por razões técnicas (suponho) não consigo linkar - interessante. Na impossibilidade de colocar hiperligação, deixo aqui a citação: «Eu diria que uma das razões por que algumas pessoas gritam a inferioridade moral dos europeus nestes casos é para não deixar ouvir as vozes que perguntam: "Os europeus ganharam porque eram intrinsecamente superiores?" Essas vozes ecoaram e ecoam dentro da cabeça de muitos peruanos e de muitos africanos. Porque é que foram os europeus a controlar o mundo? Esta questão não está respondida na cabeça de praticamente ninguém. Apenas existe na cabeça das pessoas o axioma de que todos os homens são iguais. Acredito nesse axioma. Todos teremos a ganhar se o provarmos a partir de axiomas mais auto evidentes. Em vez de calarmos estas perguntas».
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Bem, se provarmos o axioma a partir de outros axiomas ele deixa de ser um axioma - e passa a ser um teorema; mas isso é outra estória. A «igualdade» dos homens é ponto quente: à partida uma evidência, é porventura causadora das mais agudas fracturas entre a biologia e a sociologia. E, claro, é politicamente incorrecto falar de vantagens inatas de «x» sobre «y». De certa forma, tanto «x» como «y» são produto de uma sociedade e as diferenças que entre eles se encontram devem-se ao meio em que foram criados. Se em questões físicas os moderados ainda fazem concessões - e admitem que é possível que o facto de os grandes corredores de fundo serem todos negros possa ser explicado por diferenças genéticas (como as diferentes percentagens de fibras rápidas/fibras lentas nos músculos de brancos e negros) - quando o comportamento, ou, de forma mais geral, todo e qualquer processo cognitivo, é trazido para o terreno, não há biólogo ou fisiologista que aguente. «Racista» é, normalmente, o epíteto utilizado; «sexista» também faz parte do léxico argumentativo e «idiota», «mentiroso» e «pseudo-cientista» também são adjectivos recorrentemente invocados. Por alguma razão insondável, o comportamento humano não precede de nenhum sistema físico - ou, precedendo, este é igual em todos os homens, e apenas desse prisma se pode entender que quaisquer diferenças possam ser directamente atribuídas à influência social.
Mas atenhamo-nos ao exemplo transcrito: os europeus conquistaram os africanos porque eram superiores? Há muitas respostas. Uma afirma que os europeus são hoje mais avançados que os africanos porque os exploraram. A argumentação falha, porque apenas desloca a pergunta para outro lado, reformulando-a: por que razão então conseguiram os europeus explorar os africanos? O avanço tecnológico pode explicar, mas de novo a questão é apenas desviada: o que é que fez com que os europeus fossem mais avançados que os africanos? Esta linha de explicações mais não faz do que passar a batata quente para outro.
Há, portanto, algo a escapar. Por alguma razão aparentemente insondável, os europeus tiveram uma vantagem que lhes permitiu conquistar os africanos.
Estou certo de que tal não se deve à inteligência. O clima e geografia africanos, extraordinariamente favoráveis à propagação de doenças, permitem explicar alguma coisa, e decerto que muitos outros factores não serão de desprezar na análise do fenómeno. Mas, é um facto, o «politicamente correcto» limita à partida qualquer estudo verdadeiramente científico em certos domínios. Não se trata de chegar a conclusões erradas - trata-se de eliminar à partida determinado tipo de conclusões que cientificamente parecem pertinentes mas que por não se adequarem à politicamente correcta «igualdade» entre todos os homens são de imediato colocadas de parte.
Alguns teóricos dizem que ao pormos sequer a hipótese de certos povos serem mais inteligentes, mais agressivos, mais tímidos, mais criativos ou mais sensíveis podemos estar a legitimar um novo Holocausto. Afinal de contas, a superioridade germânica foi um dos mitos hitlerianos invocados durante a II Guerra. Interessante, mas errado: os apologistas dessa lógica arriscam-se a ter de se vergar perante o primeiro génio que lhes aparecer à frente. Se «x» é germânico e acredita que os judeus devem ser dizimados porque são intelectualmente inferiores - e invoca para isso estatísticas que demonstram uma média de QI de 150 para os alemães e de 120 para os judeus - então um acto coerente, perante um judeu que, fugindo à média, tenha um QI de 160, seria aceitar subordinar-se a ele.
O espírito da aplicação das leis é precisamente o contrário: para pessoas diferentes, as mesmas exigências. Por exemplo, os requisitos mínimos para um cidadão poder entrar no exército (prestar determinadas provas físicas e atingir certos resultados) não são colocados em função da raça do aspirante - ainda que, como é óbvio, um jovem de ascendência teutónica tenha mais facilidade do que um descendente de asiáticos. A aplicação de uma lei não está, de forma alguma, dependente da existência ou não de diferenças entre aqueles a quem ela se aplica.
Não estou advogar a superioridade de raça alguma sobre outra em determinados aspectos; como disse, simplesmente penso que essa possibilidade é cientificamente plausível - e até provável. A «axiomatização» de «igualdade dos homens» leva, evidentemente, a demonstrações logicamente consistentes mas que não se aplicam à realidade, porque o axioma pode estar errado.
Este «quase-movimento» do «politicamente correcto» está ainda presente em muitos outros pontos. Tem estado presente nos últimos quatro anos, depois do 11 de Setembro - a culpa é dos que exploram, não dos terroristas; tem estado presente em França, particularmente quando se aceita excisões com base numa inegável «igualdade cultural» segundo a qual as culturas não são melhores ou piores, apenas diferentes (o que é verdade, porque conceitos como «melhor» e «pior» só podem ser utilizados depois de muito bem definidos, mas daí a aceitar transgressões de uma lei nacional vai uma grande diferença). Que ele condicione políticas e leis é gravíssimo - mas ainda assim compreensível, porque políticas precedem sempre de uma qualquer maneira pessoal de ver a realidade; que ele invada o território da ciência e hipoteque o conhecimento é, além de grave, ridículo.

Comentários

4 Comments:

At domingo, dezembro 18, 2005 11:00:00 da tarde, Blogger on said...

Caro Pedro,
espero apresentar uma resposta razoavel em breve para a questão da superioridade europeia. Mas primeiro vamos levantar todos os fantasmas dos seus túmulos para os podermos exorcizar.

 
At domingo, dezembro 18, 2005 11:55:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Nem eu pretenderia coisa diferente.
Li agora o que escreveu na caixa de comentários do seu blog e penso que se ajusta ao que eu disse no post acerca do tratamento político não discriminatório ou discricionário de diferentes pessoas. Se isso é a «igualdade» a que se refere, então não vejo diferenças entre as opiniões.

A razão que expus para a superioridade europeia foi apenas o avançar de uma possbilidade que me parece razoável; admito perfeitamente outras razões, e não pretendia fazer disto um debate histórico-antropológico. Não tenho a pretensão de ter a resposta definitiva desse problema - e também por isso ficarei à espera do futuro post que refere para que possamos continuar a troca de ideias.

Cumprimentos

 
At segunda-feira, dezembro 19, 2005 4:24:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Como sempre, estou de acordo contigo. Quanto a apurar a razão porque a Europa é mais rica que a África, e de saber porque é que a primeira conquistou a segunda, creio que a resposta é simples: no século XV, os Europeus eram já mais avançados - do ponto de vista tecnológico, económico e político - que os povos da África Negra. E hoje continuam a ser. E o "atraso" da África Negra já vem de há muito e não se deve à conquista europeia (pelo contrário, a presença europeia deveu-se ao atraso de África, que permitiu aos países europeus conquistarem o continente). Quando os europeus deram início à colonização da África sub-sahariana, os seus habitantes viviam num nível civilizacional semelhante (ou inferior, em alguns casos) ao dos celtas europeus do século III a.C.. E sem as conquistas europeias e a influncia ocidental, provavelmente ainda estariam nesse estado civilizacional.

 
At segunda-feira, dezembro 19, 2005 4:29:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

p.s.: pessoalmente, penso que o "atraso" civilizacional face aos Europeus e aos Asiáticos se deveu ao seu isolamento do resto do mundo. Durante séculos, o interior de África esteve vedado aos "estrangeiros" e a parte mais civilizada e avançada do continente era precisamente a que estava em contacto com a Ásia (e claro, o Magrebe). Ou seja, as cidades mercantis da costa oriental africana, entre o Corno de Ouro e Zanzibar.

 

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