04 dezembro 2005

A pergunta errada

Jerónimo de Sousa pertence à velha guarda comunista. Pouco atreito a reorientações ideológicas, persiste no caduco discurso do povo oprimido pelos senhores do capital e a crença numa revolução que há-de vir - a História ainda tem um fim. Assim se entende a forma como estabelece a dicotomia esquerda/direita; de um lado o demoníaco poder opressor, entidade criada pela fusão da tirania com o poder do mercado, esse demiurgo de mundos imperfeitos e gerados de iniquidades várias; do outro, a salvação do proletariado, o seu último resíduo de esperança, o garante da sociedade perfeita que há-de vir. A mudança de mentalidades que a queda do Muro poderia ter facultado afinal de contas não se deu: o mercado, o lucro, a produtividade e o capital (curiosamente tudo conceitos sobre os quais as sociedades mais prósperas foram erigidas) são diabolizados - de um lado a esquerda, que defende os pobres, do outro, a direita, que defende os ricos. Portanto, faz todo o sentido que o povo queira uma esquerda no poder; a direita favorece os ricos, oprime os pobres - logo, o povo não votará nunca, em condições normais, na direita. A diferença não reside em afastamentos de grau na forma de ver a economia, cultura, sociedade e defesa: o que há é uma completa e absoluta oposição entre os «bons» e os «maus». É a linearidade levada ao extremo.
É portanto natural que Jerónimo diga, como disse ontem, que «Portugal e os portugueses podem vencer Cavaco Silva». Óbvio: a eleição de Cavaco não é escolha eleitoral: é perigo a derrubar através do poder do povo. Cavaco não é diferente dos candidatos da esquerda: Cavaco é mau; os outros são bons. Na cartilha revolucionária a hipótese de os portugueses querem Cavaco em Belém nem sequer se coloca - a esquerda é boa, a direita é má, quem em consciência vota nos maus?
Camarada Jerónimo, percebo a tese. O problema é que deu a resposta certa à pergunta errada: sim, os portugueses podem impedir a eleição de Cavaco; mas será que os portugueses querem impedi-la?

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