21 dezembro 2005

O humanista

Mário Soares, definitivamente um democrata e um humanista, revolveu memórias antigas e expôs ao país os esqueletos do armário de Cavaco: as culpas no número de desempregados, as culpas no valor do défice, as culpas na má administração dos fundos europeus. Pior ainda: Cavaco é economista. E a malta das ciências tem a horrível mania de falar de coisas abstractas, como números. Não que Soares se sinta diminuído. Em boa verdade, ele próprio tem também o «bichinho» dos números - mais concretamente os números de telefone dos amigalhaços europeus que lhe faziam confidências tenebrosas acerca da parca tagarelice do antigo primeiro-ministro.
Mais há mais: Cavaco é rústico; nunca leu Dante, Petrarca ou Homero; não ouve Mozart nem come de boca fechada; não conhece D. Afonso Henriques nem percebe as maravilhas do dorso de uma tartaruga dos Galápagos. Além disso, Cavaco não tem espírito democrata. E Soares, um caso raro de respeito, integridade e tolerância, aproveita a deixa e assume-se como o bastião da «união dos portugueses».
Entendem-se os ataques: em debates com sabor a tertúlia, Soares quer mais sangue e menos chá; título disputado com regras dá prestígio - mas ganhar à Boavista é mais saboroso. À procura de um centro que perdeu ao longo dos anos, Soares tem de correr por fora, empurrando quando o árbitro não olha e jogando duro quando este lho permite. A figura humanista é, afinal, multifacetada - e sabe, quando as circunstâncias o propiciam, aplicar a judiciosa canelada.
Ideias próprias? Poucas. Ficámos, pelo menos, a saber as suas ideias acerca das ideias de Cavaco Silva. O grande e verdadeiro problema de Cavaco é debater os temas que os entrevistadores propõem e não os temas que ele, o velhinho Mário, acha que Cavaco deveria debater. Cavaco não fala, está calado. Cavaco não dialoga, refugia-se no silêncio. Cavaco é uma esfinge. Cavaco é um fantasma. Já em relação às suas - de Soares - opiniões, essas, podem esperar - «já lá vamos, já lá vamos». Importante é Cavaco. Cavaco. Sempre Cavaco. Soares esbraceja, insulta e ridiculariza. À espera de ter atenção. Faz birra, quer falar «e ele não fala». Sim, Mário, já entendemos. Mas seria melhor que, antes de entrar em conversa - com quem quer seja - aprenda as mais elementares regras da boa educação e decência. E acaba por ser irónico que alguém que desejava «dialogar com os terroristas» não consiga, ao fim e ao cabo, dialogar com um concorrente.

Comentários

3 Comments:

At quarta-feira, dezembro 21, 2005 10:51:00 da tarde, Blogger Al Mutamid said...

Excelente síntese do debate.
Eu só acrescentaria que foi confrangedor ver o desespero e a agonia do "fala-barato".
Um ex-PR falar de um ex-PM dizendo:
"ele"
"não tem conversa"
"eu sei o que me diziam dele quando falava nos Conselhoos Europeus"
mostra bem o nível e a coltura do autor.
Banalidades.
Agora ir para um debate provocar o seu opositor e não dar uma única ideia do seu projecto revela bem as capacidades do candidato socialista.

 
At quinta-feira, dezembro 22, 2005 8:35:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Sr. Pato, a sua "coltura" também se mostra.
Romano, não me parece tão linear. Quando a determinada altura, Soares conseguiu fazer saltar a tampinha do 'Seu Silva', a carinha má das presidenciais de 96 - a do "esbraceja, insulta e ridiculariza" - estiveram visíveis, mesmo que por apenas uma dúzia ou duas de segundos. O carácter do homem não me parece ter mudado, mas ele faz questão em escondê-lo.

 
At quinta-feira, dezembro 22, 2005 8:38:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

E isto dos comentários apenas serem exibidos após "aprovação" é, no mínimo, dúbio para a liberdade de expressão e, ainda, para a fluidez da discussão. Mesmo que o blogue te tenha por "proprietário".
Abraço.

 

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