05 dezembro 2005

Irão e nuclear

Não há forma de saber se o Irão pode vir a tornar-se um perigo. Há indícios - e esses apontam para uma resposta afirmativa. A exploração do nuclear, sob a capa de uma pretensa exploração de alternativas formas de energia concede ao regime de Teerão o poder de que necessita para impor uma política mais agressiva; as afirmações recentes (ainda está bem vivo o célebre «riscar Israel do mapa») indicam a vontade - curiosamente, numa altura em que Sharon, que era visto, mesmo por alguns sectores europeus como elemento de desestabilização no processo de paz, deixa o Likud e se afasta dos grupos israelitas mais à direita. Agora é a vez dos russos entrarem em cena: a venda de mísseis (ainda que alegadamente defensivos) é confirmada, os EUA não gostam e os russos assobiam para o lado.
Sim, se «nós» temos por que razão não deveriam eles ter também? Uma palavra: perigo. Para Israel e EUA principalmente, mas para todos nós por arrasto e, em última análise, para os próprios iranianos. Dar os meios e o poder a quem já conhecemos as intenções - e que intenções! - só revela inocência ou imbecilidade; ou, cenário mais grave, um misto dos dois. De Ahmadinejad já vieram indícios mais que explícitos reveladores das suas intenções; agora, a bola está do lado de cá. A questão está entre aceitar que uma nação liderada por um fanático atinja o ponto limite - altura em que para se conter os seus ímpetos serão necessárias medidas bem mais difícies, onerosas e duras de tomar - e «cortar o mal pela raíz». Podemos estar a cometer um erro, cortando os pés a quem não tem em vista objectivos bélicos? Possível, ainda que extremamente improvável. Mas é com base nesta probabilidade que se tomam decisões. Aquilo que interessa fazer ressaltar é que o enorme perigo que Teerão neste momento representa - ainda que apenas potencialmente - está inflacionado pela enorme probabilidade de este vir a tornar-se um problema. Decerto que os EUA têm poder - mas não representam perigo; e decerto que há Cuba não gosta de muitos Estados ocidentais - mas não tem os meios para se tornar um caso sério (e, neste momento, talvez nem tenha grande vontade). O problema é quando os meios e o desejo de conjugam. Nessas alturas, como diz o povo, «mais vale prevenir que remediar».

Comentários

1 Comments:

At sexta-feira, dezembro 09, 2005 9:08:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Embora concordando com os pressupostos da tua análise (necessidade de agir atempadamente e de distinguir entre quem é perigoso ou não), acho que não dispomos de suficientes informações sobre a verdadeira situação do Irão. Pelo que li na imprensa, o presidente daquele país está cada vez mais isolado da restante classe política persa, e o seu poder encontra-se ameaçado. Por essa razão, creio que essas tiradas demagógicas que ele vem mandando para o ar devem ser interpretadas como "bocas" para consumo interno. Um pouco como o nosso Alberto João, que gosta de entreter o povo da Madeira com frases e atitudes polémicas que, na maioria dos casos, não se traduzem em acções concretas (Alberto João fala muito contra o "colonialismo" de Lisboa, mas na hora da verdade sujeita-se àqueles que controlam a "torneira" dos fundos).

 

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