01 dezembro 2005

Determinismos

Escrevi há dias que o tema de capa da «Super Interessante» - o destino - era interessante mas fazia confusão entre determinismo e inevitabilidade. Após leitura completa, opinião renovada - e mais bem fundamentada - exige-se.
O artigo está dividido em quatro partes: a concepção de «destino» em várias religiões, ou seja, a inevitabilidade de certos acontecimentos; o determinismo laplaciano; a eterna questão genes/meio social na formação do ser humano; os videntes e adivinhos. O primeiro e o quarto ponto são engraçados mas acessórios; o segundo e terceiro são campos muito mais vastos, interessantes e estimulantes.
Não gosto muito de meter Laplace à conversa em questiúnculas deste género. Não é receio: é simplesmente a convicção de que o seu famoso enunciado não era uma afirmação com fins práticos mas apenas e só a assunção de uma visão de um universo mecanizado cujo funcionamento era totalmente determinado por regras matemáticas - ideia que, aliás, estava em perfeita consonância com o mundo de então. Neste tipo de discussões acho que é sempre de bom tom definir à partida o que se entende por «determinismo»: se olhamos enquanto paradigma que abre portas a uma espécie de «previsão do futuro», então acho que a incerteza quântica é o menor dos seus problemas; se, por outro lado, o encaramos como uma mera posição idealista, então penso que não só não faz sentido trazer a teoria do caos à baila como grande parte das cisões que este problema suscita não têm razão de ser. Além do mais, a teoria quântica (segundo sei, e são conhecimentos de um leigo) pode não ser assim tão indeterminada quanto parece - mas para falar acerca disso teria de entrar com conceitos (como o colapso de função de onda) que, por não dominar, acho melhor não introduzir.
Quanto ao terceiro ponto do artigo parece-me que a revista acaba por se deixar enredar na velha armadilha «sociológica» de rotular aqueles que estudam o comportamento como função de um código genético de «deterministas». A contradição não é difícil de encontrar: aqueles que vêem o homem como uma «tábua rasa» a que se adicionam temporalmente condicionamentos sociais também são, à sua maneira, «deterministas» - a diferença é que neste caso somos determinados pelo que nos é exógeno, enquanto que no caso anterior somos determinados por factores endógenos.
No meio de tudo isto, o ponto mais «quente» não foi falado: livre arbítrio. Causa calafrios só de ouvir.

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