23 dezembro 2005

Dawkins

Mais uma polémica entrevista do conhecido Richard Dawkins. Alguns extractos:
----------
Pergunta: Está preocupado com o estado da educação, principalmente em temas científicos. Se pudesse ensinar todas as pessoas, em que quereria que as pessoas acreditassem?
Richard Dawkins: Gostaria que elas acreditassem naquilo que as evidências indicassem. Gostaria que olhassem para as evidências, as julgassem com base nos seus méritos e não aceitassem coisas com base em revelações internas ou fé (...) Nem todas as pessoas podem avaliar evidências; não podemos avaliar as evidências da física quântica. Por isso, há uma determinada gama de evidências que têm de ser aceites com base em confiança. Eu, por exemplo, tenho de acreditar naquilo que dizem os físicos, porque sou um biólogo. Mas a ciência funciona através de mecanismos de revisão e avaliação entre pares, de forma a que eu possa confiar na comunidade científica (...).
P: Há muitas pessoas inteligente a quem ensinaram ciência de qualidade - e a teoria da evolução - que podem escolher acreditar nalgo religioso que para eles possa ultrapassar a ciência. Que acha disso?
RD: É realmente difícil saber o que fazer acerca disso. Eu penso que é uma traição à ciência. Penso que essas pessoas têm uma agenda religiosa que, por razões apenas conhecidas por elas mesmos, são elevadas acima da ciência.
P: Que pensa acerca do desespero que alguns sentem quando ponderam a selecção natural? A ideia da evolução faz com que alguns pensem que a vida não tem sentido (...).
RD: (...) O universo não nos deve consolação; não nos deve sentimentos reconfortantes. Se algo é verdade, então é verdade e o melhor é vivermos com isso. Mesmo assim, não acho que as pessoas se devam sentir deprimidas. Eu não sinto. Eu sinto-me entusiasmado. O meu livro «Unweaving the rainbow» é uma tentativa de elevar a ciência ao nível da poesia e mostrar como cada um se pode relacionar com a ciência de forma quase espiritual (...) A contemplação do tamanho e escala do Universo, a complexidade da vida - tudo isso é, para mim, fonte de inspiração. Estudar isto faz com que a minha vida valha a pena.
P: Qual o problema de as pessoas acharem a ideia de um Deus muito satisfatória?
RD: Claro que é satisfatória. Não seria fantástico acreditar num amigo imaginário que ouve todos os nossos pensamentos, escuta as nossas preces, conforta-nos, consola-nos, dá-nos vida depois da morte e ainda nos aconselha? Claro que é satisfatório, se conseguirmos acreditar nisso. Mas quem quer acreditar numa mentira?
P: Disse um dia «não chamem 'Deus' à nossa ignorância» - que é, segundo as suas palavras, o que os defensores do «design inteligente» têm feito. Estão a tomar uma área em que somos ignorantes e a nomeá-la Deus. Acha que a ciência irá um dia explicar tudo aquilo que neste momento apenas imaginamos?
RD: Não tenho resposta para isso. Mas estou igualmente excitado com ambas as perspectivas. Gosto da ideia de podermos entender tudo e também aprecio a ideia de a ciência ser uma questão permanentemente aberta e em contínuo desenvolvimento.
P: Tem criticado a ideia de vida depois da morte. Qual é o mal de um doente terminal de cancro acreditar nisso?
RD: Oh, não há realmente problemas acerca disso. Nunca quereria desiludir alguém que acreditasse nisso. Eu importo-me com aquilo que é verdade para mim próprio, mas não quero andar por aí a dizer a doentes terminais que as suas esperanças não têm fundamento. Se pudesse ter uma conversa com um possível bombista-suicida que pensa que depois do atentado vai acabar no céu, então tentaria dissuadi-lo. Não diria: «não vês que o que fazes é mau?». Diria antes: «Não imagines sequer que vais parar ao paraíso. Não vais. Vais acabar digerido pelo chão».
P: Como se sentiria se a sua filha se tornasse religiosa?
RD: Isso seria uma decisão sua (...) Ela é livre para fazer o que lhe apetecer. Penso que é uma pessoa demasiado inteligente para fazer isso, mas é uma escolha dela.
----------

Comentários

0 Comments:

Enviar um comentário

<< Home