28 dezembro 2005

Ao desbarato (ou Um post draftado há muito tempo mas que com alguma boa vontade ainda vai a tempo)

Quando as cinco «grandes» candidaturas foram oficializadas - e à medida que nas sondagens Cavaco açambarcava contínuas maiorias enquanto Mário Soares continuava a desiludir - Manuel Alegre parecia assumir-se como o candidato que teria mais hipóteses de fazer frente ao antigo primeiro-ministro.
Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã eram - e são - «candidatos-partido». As suas candidaturas permitem-lhes ganhar visibilidade, «aparecer na tv» e repisar os respectivos projectos partidários; por isso mesmo, as suas votações congregam votos de uma reduzida área política, que numericamente tem metas situadas entre os cinco e os oito pontos percentuais.
Já Mário Soares aparecia em cena desgastado, projectando uma imagem esbatida e ultrapassada; não entusiasmava ninguém e alguns erros bem no início (a começar logo pelo timing da apresentação da candidatura e o discurso que então proferiu) não auguravam uma caminhada triunfante.
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Restava assim Manuel Alegre.
E dificilmente as circunstâncias lhe poderiam ser mais favoráveis: aparecia com uma imagem de «lutador traído» (ainda por cima por outro candidato, o que lhe permitiria roubar directamente alguns votos) e surgia como um homem independente de partidos (numa altura bastante delicada para a imagem pública dos políticos); era uma pessoa conhecida, respeitada e com um passado de luta contra a ditadura (algo de que, até aí, apenas Mário Soares se podia ufanar); tinha boa imagem, boa capacidade comunicativa e até uma veia patriótica que lhe poderia roubar alguns votos a uma Direita que via em Cavaco a única possibilidade.
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Desde então, e em pouco tempo, Manuel Alegre deitou tudo a perder.
Não é que tenha feito uma pré-campanha «assim-assim»; foi, em todos os aspectos, uma campanha efectivamente má.
A estratégia começou a revelar-se falha logo quando o recurso à técnica da vitimização foi por demais evidente. Um herói ferido não lamenta a sua má-sorte - luta por ultrapassá-la. Ora, não foi essa a imagem que Manuel Alegre deu, chegando ao ponto de se embrenhar numa questiúncula pouco edificante (e até um pouco caricata) com uma empresa de sondagens, ameaçando-a com um processo.
As tiradas poéticas também se tornaram, com o passar do tempo, palavras vazias. Lugares-comuns como «a minha candidatura permitiu um alargamento da cidadania» ficam bem num manifesto ou num comício - mas não são ideias ou projectos sobre os quais edificar uma candidatura, porque politicamente vazios pouco substanciais.
O mito do «homem independente» foi também desfeito. Alegre foi ingénuo ao pensar que Jerónimo, Louçã e Soares deixariam passar incólumes anos e anos de filiação partidária (PS), durante os quais foi conivente com políticas pouco famosas e votações conturbadas na Assembleia.
Além disto, seu desconhecimento de alguns assuntos foi notório em várias ocasiões. Por exemplo, quando debateu com Francisco Louçã uma possível demissão de Alberto João Jardim. Ou, pior ainda, quando, frente a Jerónimo de Sousa, afirmou que dissolveria a Assembleia se as águas fossem privatizadas - quando ele mesmo havia votado uma proposta na mesma Assembleia que abria portas à gestão privada das águas.
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Houve, contudo, um ponto estratégico em que Manuel Alegre e o seu staff descuraram: a orientação ideológica do discurso do candidato - principalmente nos debates.
Desde o início que este ponto foi mal planeado.
Com Cavaco, Alegre tentou jogar ao centro, acenando com a cabeça e evitando entrar em despique. Perdeu assim aquela que era uma das suas grandes vantagens: a imagem do «homem de esquerda» que não se resigna, que luta por aquilo em que acredita. Ao privilegiar o pragmatismo em detrimento da utopia, Alegre acinzentou-se; no momento em que devia atacar os «socialistas desencantados» que votavam em Cavaco, tentou fazer o jogo «empata» do adversário - e estes eleitores apenas viram mais uma razão para votar no «técnico das finanças».
Depois, quando tentou ganhar a Esquerda, fê-lo de forma atabalhoada. Declarando a Jerónimo que muitas das coisas que este dizia «estão no meu manifesto»; ou dando largas a Louçã para que este, de forma capciosa, lhe desconstruísse o discurso, descascando a parte de fora até mostrar que «lá dentro» estava um «caroço» bastante partidário e ligado ao PS e respectivas políticas.
E assim, incrivelmente, o candidato da Esquerda que estava mais bem colocado revelou-se um flop. Desbaratou o capital com que partia e hipotecou até uma razoável margem de crescimento da sua percentagem de votos (que estava dependente da forma como conseguiria marcar a diferença em relação a Cavaco - e com isso atrair algum do eleitorado socialista que vota no social-democrata - e do número de votos que poderia roubar a Soares - algo que não seria muito difícil, especialmente depois do último debate deste).
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P.S.- Já tinha este post draftado há algum tempo. Escrevi-o um dia depois do último debate (Cavaco e Soares, lembram-se?) mas acabei por me esquecer de o colocar em tempo devido. Em todo o caso, aqui fica.

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