06 novembro 2005

Vive la France

Há mais de uma semana atrás dois jovens morreram nas ruas de Paris. Eram perseguidos pela polícia quando se deu o acontecimento. Eram filhos de imigrantes, ou seja, eram cidadãos franceses de plenos direitos, perfeitamente integrados na sociedade e mentalidade Francesas. Mesmo assim sentiram a necessidade de se revoltarem contra o sistema.
As suas mortes provocaram no país de Victor Hugo, uma série de confrontos entre jovens ávidos de vingança, e uma polícia que não estava manifestamente preparada para tal acontecimento. Porque se revoltam os jovens? Porque dois dos seus “amigos” morreram, quando fugiam da polícia. Claro, que ouvir o ministro chamar-lhes de “Escumalha” não lhes deve ter agradado muito.
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Para mim importa saber uma coisa: porque fugiam os jovens da polícia? De certeza que não o faziam por estarem na rua à noite. Fugiam porque haviam cometido um crime e o destino pregou-lhes uma partida.
Ora, aquilo que eu percebo de todo este tumulto gerado em volta das suas mortes é o seguinte: vivia-se em França um regime de paz podre. E, essa paz desmoronou-se quando os rapazes morreram. Quando eles morreram todas as inimizades, todas as revoltas internas se exteriorizaram, e deixaram a nu as deficiências do sistema social francês.
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Não que eu queira culpar a França, mas antes quero alertar para o problema da imigração. A França sempre foi, e nós sabemo-lo bem, um país atraente para a imigração. Desde sempre, a França e o boulevard parisiense atraíram pessoas de todo o Mundo. Eça falou disso em muitos dos seus livros. Ainda hoje, Paris é vista como uma das cidades mais bonitas do Mundo.
Mas, o tempo passou e a grandiosidade da Europa e da França já lá vai. Hoje, a França é apenas uma sombra daquilo que já foi, mas continua a atrair imigrantes. Continua a ser apelativa. Claro que as histórias que se contam a seu respeito ajudam muito, mas deve haver outra razão. E há…
A França foi uma potência colonial, e hoje passa por aquilo que todas as potências coloniais passam ou passaram: o retorno. O retorno de pessoas que viveram nas antigas colónias, e que por razões culturais se identificam mais com a antiga metrópole.
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São pessoas que quando chegam ao seu novo destino revelam um espírito de sacrifício apreciável, abdicando de muito para terem pouco. Mas, são pessoas, que independentemente das pressões, conseguem estabilizar uma vida nos seus novos países, ter bons empregos, juntar dinheiro, e proporcionar melhores condições de vida aos seus filhos. E tudo isto sem nunca, ou pelo menos em grande parte, perderem as suas raízes culturais e espirituais.
E, os seus filhos? Os filhos são, neste caso, franceses de plenos direitos. São educados de maneira europeia, num dos Estados mais laicos do Mundo. Provavelmente nunca foram aos países de origem dos seus pais. Mas sentem-se desenraizados. Sentem-se inadaptados. Sentem-se dominados pelos “senhores”. Sentem-se perseguidos, julgados e inferiores aos olhos da opinião pública. Estão zangados. Alguns revertem essa energia negativa para coisas positivas, e aplicam-se de forma a poderem vencer todas essas “dificuldades”. Porém, outros há que procuram apenas o meio da vitimização, a via mais fácil. Usar a desculpa da morte de dois “dos seus” para partirem para cima da autoridade. Para pelo menos uma vez poderem revoltar-se contra o poder central.
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E, é isto que se está a ver nas ruas dos subúrbios mais pobres de Paris: jovens franceses que não se sentem nem europeus, nem africanos; que não sentem que a França seja um Estado tão laico quanto isso; que se têm tornado indivíduos com uma forte tendência para a vitimização e para a violência, e que ao mínimo contratempo exigem cabeças, acusando de seguida os políticos de os procurarem rebaixar até ao patamar mais baixo da estratificação social.
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Em Portugal, tais acontecimentos ainda não tiveram lugar, pelo menos não com esta magnitude. Há pontos de resistência, mas que a pouco e pouco, irão desaparecer porque os indivíduos ir-se-ão adaptar a Portugal, e à vida na Europa.
Ou, pelo menos assim esperamos, porque a imigração é cada vez menos um problema interno dos países, mas um problema interno da Europa que terá de ser resolvido.

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