15 novembro 2005

Valores

Acabei de ouvir o comunicado de Jacques Chirac à Nação francesa.
De um discurso que a RTP apenas seleccionou algumas partes, retive uma passagem; não me lembro - nem consigo citar correctamente de cabeça - mas falava de criar «valores e referências» para os jovens.
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Ouvir um político falar de «valores e referências» ao mesmo tempo que ouvimos sociólogos a falar de «pós-modernidade» e «relativismo» causa arrepios na espinha.
Como conciliar a necessidade de valores com a afirmação de que não há valores mais ou menos certos?
Como dizer a um jovem que há coisas correctas e coisas erradas quando, concomitantemente, se ouve que não nos podemos basear nas nossas referências morais e éticas - uma vez que estas não são absolutas?
O que, é afinal de contas, um valor, se não uma mera construção social?
Este caminho - que põe em causa toda e qualquer concepção de sociedade - traz naturais e evidentes problemas.
Primeiro, tudo é aceitável. Permite-se a excisão do clítoris e a violência familiar com base numa aceitação da diferença de ideias e divergências culturais; tenta-se compreender o terrorismo e procurar as suas causas no seio da nossa própria sociedade - o que pode ser legítimo para um sociólogo, porque cientificamente pertinente, mas desastroso para um político (apesar de também o nazismo ter tido as suas causas, parece hoje em dia irrisório que os Aliados tivessem procurado «entender» o nazismo); envergonhamo-nos do nosso passado e lamentamos a nossa história, olhando-a como uma página negra.
Em segundo, estas ideias - que muitas vezes ultrapassam a ténue linha que separa a aceitação da diferença da exaltação da diferença - acabam, naturalmente, por produzir a crise de valores de que Chirac fala. Que honra - ou simples prazer - tem um jovem em pertencer a um mundo (o Ocidental) que oprimiu povos, esmagou civilizações e escravizou pessoas? Que motivação tem alguém para praticar o bem ou ser solidário quando isto deixa de ser considerado uma virtude e passa a ser olhado como produto de uma concepção religiosa (cristã) que não é absoluta? Que satisfação traz o sentimento de pertença a uma cultura quando se diz que não há nada de especial em lhe pertencer? Como orientar o comportamento quando não há modelos a seguir ou preceitos a recolher?
No meio de tudo isto, as elites, que deviam ter um papel de condução, escondem-se. Tentam confundir-se com um povo a que não pertencem - porque é maneira de «sacudir o capote» - ou diluem-se em posições vagas e pós-modernas que deliram com Derrida e acham imensa piada à aceitação do «outro» simplesmente porque é diferente.
A Esquerda mais extremista, que tem sido um dos grandes pontos de difusão desta «escola», acaba por promover aquilo que de certa forma condena, ao fazer o jogo de um capitalismo que se nutre exactamente da falta de valores.
Numa sociedade em que tudo é aceitável, tudo se pode vender. Numa sociedade em que não há valores a servir de guia, também não há capacidade para conter o mercado. É portanto natural que ele degenere e crie construções funestas - então, mas se perante um capitalismo, que se move com base no indivíduo, se diz que este não deve orientar o comportamento com base numa ética (qualquer que ela seja)!
A isto tudo acrescenta-se a dificuldade de implementar normas ou novos códigos. Confunde-se, por exemplo, o nacionalismo com fascismo. O ideal nacionalista, que não é, de qualquer forma algo que me estimule muito, permite dar um sentido e uma identidade ao indivíduo. Permite que ele tenha motivação para trabalhar com afinco pensando no bem estar nacional; ou permite que ele respeite o vizinho ou o colega com base num mútuo sentimento de pertença; ou permite, até, que, se tudo o mais falhar, ele tenha ao menos orgulho naquilo que é.
É o nacionalismo um valor relativo? É, claro. Como todos os outros, releva duma construção social. Mas, apesar de não o podermos fundamentar com base em preceitos morais absolutos, ele pode ser de uma utilidade extrema. Se não impomos sequer regras morais, como legitimar regras sociais?

Comentários

2 Comments:

At terça-feira, novembro 15, 2005 4:32:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Nacionalismo: ponto extremista; em importância. E a fronteira com o fascismo: tocam-se, mas há um resto de território explorar, TODO o resto. Foi importante para a Alemanha, no pós-guerra; é-o, ainda hoje e se o aliarmos, depois das regras, à cultura intrínseca – da «noite de copos» –, no Japão.

 
At terça-feira, novembro 15, 2005 5:54:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Usei o nacionalismo como mero exemplo; se é verdade que o nacionalismo é parte integrante (ou tem sido ao longo da história do século XX) da maior parte dos regimes que se designam de forma bastante genérica como «fascistas», não é menos verdade que ele se expande para uma área política bastante mais alargada. Aliás, lembro-me agora de um candidato à presidência que, vindo da área «socialista», não tem pejo em afirmar o seu nacionalismo.

 

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