03 novembro 2005

Sonhos

Tive sempre um fraquinho pela Física. Apesar das naturais limitações, tentei, durante bastante tempo, ler qualquer coisita acerca do tema - deixando, de preferência, as contas e os números de lado. «Breve história do tempo», de Hawking, é um bom livro. «Universo numa casca de nós» é melhor. «Mais rápido que a luz», do português João Magueijo, é igualmente uma boa obra. De autores menos conhecidos, como Gribben e Ferguson, li também um par de livros.
Infelizmente, todos padeciam do mesmo mal. Começavam, invariavelmente, de forma bastante simples. De forma geral, conseguiam explicar razoavelmente bem o princípio subjacente à Relatividade restrita e as implicações desta. Depois vinha a Relatividade geral e a curvatura do espaço e do tempo. De nariz torcido conseguia-se ultrapassar a questão mas quando a mecânica quântica aparecia no caminho o caldo entornava-se. Não adiantava andar à volta de funções de onda e colapso das mesmas, incertezas de Heisenberg e equações de Schrodinger: no final, tudo aquilo parecia demasiado confuso e irreal. Para complicar ainda mais as coisas, os autores costumavam enunciar as várias «perspectivas da mecânica quântica», nas quais se alinhavavam o positivismo da escola de Copenhaga, o realismo de Einstein e mais uns quantos pontos de vista que não retive. Em relação a isto, o mais abstruso, indecifrável e incompreensível livro que me atrevi a ler (sem infelizmente saber ao que ía) foi «Grande, pequeno e a mente humana», de Roger Penrose. Contudo, isto era apenas o começo. Depois as coisas começavam a ficar verdadeiramente feias. Vinha a supersimetria e a supergravidade. Um pouco à frente apareciam as 14 dimensões da teoria das cordas, as quebras espontâneas de simetria. A partir deste momento qualquer leitura que me aventurasse a continuar era apenas impelida por um estranho e mórbido desejo de auto-flagelação intelectual.
Por tudo isto, «Sonhos de uma teoria final», de Steve Weinberg, é um verdadeiro achado. Aliás, uma pérola. Em primeiro lugar porque não explica as coisas simples que facilmente se encontram noutros livros; em segundo porque se abstém de tentar esplicar aquelas que indivíduos de capacidade intelectuais limitadas como as minhas não poderiam de forma alguma aspirar a entender. Aquilo em que o autor verdadeiramente inova é no pensamento por detrás do cientista. O reducionismo, por exemplo, tema de grande controvérsia mas por que sempre me interessei, está extraordinariamente bem defendido. A parte do choque religião/ciência (posta em moldes ligeiramente diferentes, muito por força das novas descobertas da física) está igualmente bem concebida. A procura da unificação das quatro forças fundamentais numa teoria última e fundamental é defendida de forma tenaz e inteligente.
Não é um livro de física - é um livro sobre física. Não é um livro que explica a física - é um livro que pensa a física. E, acima de tudo, uma leitura de prazer inesgotável.

Comentários

3 Comments:

At domingo, novembro 06, 2005 9:59:00 da tarde, Anonymous Sem0g said...

Sim senhor, gostei. Andas a escrever coisas muito interesantes, quem nao te conhecer ate pensa que es uma pessoa culta, inteligente e dotada de qualidades sociais...x)

 
At domingo, novembro 06, 2005 11:43:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

eheheh, sabe como é senhor Semog, o que interessa não é o que tu lês mas sim aquilo que os outros pensam que tu lês... :P

 
At domingo, novembro 06, 2005 11:49:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Ah, sim, esqueci-me: cuidado com o duende do...

 

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