18 novembro 2005

Retirada ou fuga?

Entre Bush e Kerry, creio ser consensual que a Europa - Esquerda ou Direita - preferia o segundo. Ainda que as diferenças entre ambos se notassem mais na administração interna que na política externa, nomeadamente na questão do terrorismo - e era este ponto que verdadeiramente separava os europeus em relação aos EUA nessa altura -, a verdade é que Kerry transmitia uma imagem de diplomata que Bush, no seu estilo «cowboy», não projectava.
Agora, mais do que nunca, as posições separam-se. O congressista democrata John Murtha fez, aliás, uma proposta no sentido de o Governo americano promover uma retirada imediata do Iraque. Eis algumas citações: «Os nossos militares estão a sofrer, o futuro do nosso país está em risco. Não pudemos continuar o caminho actual. É evidente que a continuação da actividade militar no Iraque não é o melhor para os EUA, o povo iraquiano e a região do Golfo». «Os nossos militares já completaram a sua missão e cumpriram o seu dever. Capturaram Saddam Hussein e todos os seus colaboradores directos».
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Em relação à intervenção no Iraque já tive mais certezas. Apesar de tudo, creio que a retirada, no actual momento, é um erro enorme. Considere-se errada ou certa a invasão, sair neste momento só traria mais problemas. O Iraque, fácil de ver, não é ainda uma região propriamente pacífica. Pode dizer-se que os americanos são os alvos preferenciais - e daí passar-se à ideia de que, se eles se retirassem, os atentados diminuiriam - mas esse ponto é bastante discutível. De facto, a maioria dos iraquianos foi votar (taxa de ida às urnas que faria corar qualquer país ocidental) e, facto a salientar, está razoavelmente melhor do que na altura de Saddam. Não é o povo que faz atentados - é um pequeno grupo de extremistas que sonha ainda com um passado não muito longínquo.
Não esquecer também os perigos que qualquer saída apressada poderia acarretar. Num país sem qualquer cultura democrática enraizada, deixar tudo aos que lá ficam pode ser perigoso (a descolonização dos anos 70 ainda deve atormentar muitas consciências). Implementar uma democracia e um verdadeiro Estado de Direito no Iraque não é coisa para um ano - é coisa para uma década, possivelmente para uma geração. Não se impõe uma democracia: criam-se condições - económicas, culturais, políticas, de segurança - para que haja condições para que ela possa emergir. Demora tempo? Sim. Consome recursos? Claro. Mas os benefícios - a longo prazo - podem exceder largamente os custos. Uma Estado de Direito que funcione de forma democrática em pleno Médio-Oriente pode ser um factor de estabilização.
Dizer-se que o Islão é uma religião que, pela sua génese, é contrária à democracia (como me disse um professor recentemente em debate privado) é completamente errado: uma religião é aquilo que as pessoas fazem dela; será que a Bíblia é hoje em dia seguida à risca, mesmo pelos católicos? Claro que não. Relativiza-se. Diz-se que os seus preceitos têm de ser adequados aos dias de hoje. Também o mesmo poderia ser feito com o Corão. Não há nenhuma religião estruturalmente má ou genuinamente boa: qualquer uma é um conjunto mais ou menos geral de regras transmitidas (normalmente por livros sagrados) passíveis de serem adaptadas (creio que em nenhuma passagem da Bíblia se defende a guerra pela expansão da fé, como aconteceu nas Cruzadas).
Por muito que custe permanecer no Iraque, uma saída neste momento poderia trazer consequências bastante desagradáveis.

Comentários

1 Comments:

At domingo, novembro 20, 2005 1:32:00 da tarde, Blogger Bruno JSM said...

entre bush e kerry, eu continuava a escolher o Nader.

Mas pronto, seguindo em frente. Tenho tentado dar alguma atenção a este assunto, para além do que nos chega atrvés dos jornais e das televisões. E se há uma coisa que acho se tornou evidente, foi que os atentados não são exclusividade de um pequeno grupo de extremistas.
Existem:

- os terroristas: al Qaeda, al Zarqawi, ódio aos EUA, ao mundo ocidental e blá blá blá.

- o exército de libertação Iraquiana: que as tropas americanas deizem ser um inimigo invísivel. Isto por ser constituido pela população. Que não quer lá os Americanos, mas se poder apanhar Al Zarqawi e compinchas, da-lhes a provar do mesmo remédio.

- As tropas Inglesas (e americanas) que simulam atentados para justificar certas coisas. Tal como aconteceu há uns meses, quando dois ingleses disfarçados de árabes tentaram rebentar com uma mesquita mas que foram detidos pela polpulação e os levou para a esquadra. Só foram salvos de um julgamento porque os exército inglês os foi lá salvar.

- O Irão: tem claras vantagens em manter o exércitoAmericano a actuar no Iraque. Enquanto lá tiverem não se podem virar os olhos para este país. E para isso é bom que haja instabilidade!

 

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