03 novembro 2005

Presidencializar o quê?

Já muito se disse acerca da candidatura de Cavaco. De facto, já toda a gente está farta de ouvir falar de Cavaco. A comunicação social não dá descanso. Os comentadores não dão descanso. Nem os seus opositores dão descanso - e são estes, aliás, aqueles que mais têm contribuído para que Cavaco continue nas capas de jornais quando este, em boa verdade, nada tem dito de verdadeiramente relevante.
De qualquer forma, surge agora nova arma de arremesso: instigar o medo, no eleitorado, de Cavaco presidencializar o regime. Não sei se será proveitoso - falar ainda mais de Cavaco neste momento, numa altura em que a imagem dos adversários está cada vez mais desgastada com estas alfinetadas sistemáticas, não me parece boa política. O feitiço poder-se-á virar contra o feiticeiro.
Em todo o caso, a tentativa está condenada ao insucesso. Em primeiro lugar, porque Cavaco apoia a actual divisão de poderes. Um artigo da sua autoria foi, aliás, publicado no Expresso há alguns meses, no qual o ex-Primeiro-ministro dizia, de forma clara, que era a favor da limitação de poderes do Presidente da República. Em segundo lugar, porque, felizmente, Cavaco não vai ficar calado para sempre - e decerto que, quando falar, terá uma palavra a dizer sobre o assunto. Nessa altura, os que congeminaram teorias da conspiração não deixarão de ser vistos com maus olhos. Persistirão na mentira? Continuarão a acusar Cavaco de querer dar mais poderes ao Presidente e dominar os poderes que pertencem actualmente ao Governo? Nada mais errado: Cavaco tem, apesar de tudo, uma imagem de credibilidade junto dos portugueses, que lhe permitirá combater boatos. E sejamos honestos: será que Cavaco precisaria realmente de presidencializar o regime para impor reformas profundas? Evidente que não: Sócrates já faz isso muito bem por ele. Neste contexto, Cavaco será apenas um apoio - de valor inestimável - para um Governo que precisa urgentemente de implementar reformas estruturais e impopulares.
Até novas indicações, tentativas como esta são, além de irresponsáveis e desesperados «Planos B», verdadeiros tiros no pé.

Comentários

2 Comments:

At quinta-feira, novembro 03, 2005 4:15:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

É estranho e perturbador ver uma figura como Soares a fazer isto a ele próprio e a arrastar pessoas consigo, que muito provavelmente não lhe dizem negam por ser quem é. Parece óbvio o que afirmou Marcelo Rebelo de Sousa a propósito das capacidades de Soares, nas suas Escolhas, esta semana: «pela mesma razão que eu já não nado metade que há 10 anos. A idade não perdoa».
E por muito que me custe ao romantismo - plantado em Alegre -, Cavaco parece-me, friamente, o mais indicado.

 
At sexta-feira, novembro 04, 2005 1:40:00 da tarde, Blogger Mendes Ferreira said...

excelente. assino por baixo. abraço.

 

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