13 novembro 2005

Os limites das ciências naturais

Via aforismos e afins descobri um blog invulgar. O último post versa sobre os limites das ciências naturais. Vou tentar sintetizar recorrendo a algumas citações:
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«Heidegger foi o primeiro (acho eu) que problematizou a questao do 'Ser' (what do we mean when we say that something is?). Que existem diferentes formas de ser pode ser ilustrado recorrendo a um exemplo: um martelo pode ser visto como um objecto com propriedades fisicas que as ciencias naturais estudam (Heidegger chama a isto 'present-at-hand') ou um instrumento que pertence a uma rede de interesses prácticos relacionados com materiais (pregos, madeira) para determinados objectivos (construir casas, mesas...) utilizado por humanos (Heidegger chama a iste modo de ser 'ready-to-hand'). Aquilo que um martelo verdadeiramente "é" é uma pergunta vazia enquanto nao se especificar qual o objectivo do nosso inquérito. Se for um martelo enquanto objecto temos as ciências naturais, se for enquanto instrumento o seu modo de ser pertence a uma rede complexa de materiais, objectivos, utilizadores... São formas de ser distintas e a maneira de abordar esses dois fenómenos tambem varia. A questão principal consiste em saber se de um 'martelo-como-objecto' podemos deduzir 'martelo-como-instrumento'. Se isto fosse possível poderíamos em princípio ter uma espécie de ciência de Tudo (uma super física ou algo assim).»
«(...) a nossa própria forma de ser. Nós nao somos um organismo, um objecto, ou uma entidade que "é" (este "é" deve ser lido como algo que tem propriedades, algo sobre o qual podemos atribuir desejos, capacidades). Nós somos sobretudo uma permanente possibilidade. Se tentarmos reduzir o fenómeno a algo que não seja este complexo hifenizado, estamos a mudar o fenómeno... e assim deixamos de 'estudar' o fenómeno 'Ser Humano', reduzindo-o a um mero organismo...»
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Parece-me que a questão fundamental aqui prende-se com a definição do «ser» de uma coisa. Através do estudo das ciências naturais podemos, pelo menos em princípio, estudar um objecto (não abordo as dificuldades práticas deste estudo - julgo que isso não vem ao caso; apenas postulo que podemos, em teoria, aplicar os nossos conhecimentos teóricos a um qualquer objecto).
O primeiro erro aqui é pensar que precisamos de várias ciências para descrever o dito - por exemplo, um animal: a biologia para descrever o seu sistema fisiológico, a química para explicitar as trocas a nível celular, a física para analisar as ondas eléctricas em que se funda a actividade cerebral.
De facto, apenas precisamos da mais fundamental de todas: a física. Os conceitos da química e da biologia - e respectivas leis - emergem naturalmente delas. Não estou a afirmar que uma ciência é mais importante que outra: afirmo que umas são mais fundamentais que outras. É destas mais fundamentais que podemos deduzir as menos fundamentais.
Um exemplo: um dos mecanismos que permite a evolução das espécies - a lei darwinista da transmissão à descendência dos caracteres individuais não adquiridos.
Darwin conseguiu elaborar uma teoria que explicava bastante bem a evolução - mas não conseguiu mostrar o porquê de apenas os caracteres (ou características) que nascem com os indivíduos serem transmitidos de geração em geração. A descoberta só foi feita (enfim, mais ou menos) por Mendel, que inaugurou o estudo do que mais tarde se viria a chamar de genética. Em boa verdade, não foi um naturalista como Darwin que explicou os fundamentos da evolução - mas um biólogo, Mendel.
Chegámos ao fundamental? Nem pensar. Anos mais tarde Watson e Crick provaram que o seu modelo do ADN permitia explicar como é que essas características se transmitiam. Do modelo de dupla hélice enrolada - uma conquista da química - «emergiam» naturalmente as leis da genética.
Contudo, podemos actuar como uma criança mimada e continuar a perguntar: «porquê»? Nesse caso, precisamos de ir mais fundo. Se as leis que regem o ADN, sua transmissão e replicação, são as leis da química, temos de procurar o porquê destas leis na física. Hoje, isso já foi feito (pelo menos na maior parte dos casos). A física (especialmente através da física quântica) explica os princípios da química de forma muito eficaz.
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Entrei nestas explicações laterais apenas para de certa forma justificar a seguinte asserção: de um conjunto relativamente curto de leis básicas podemos deduzir todas as outras.
No caso de um martelo, este poderia ser descrito como um conjunto de partículas elementares dispostas de uma certa forma - explicitada através de uma estrutura geométrica; o 'ser' do martelo é dado pela adição dos princípios básicos da física a este «estado inicial» que descrevemos. Daqui se podem deduzir todas as outras propriedades que conhecemos: cor, densidade, forma, peso, rugosidade, brilho - não há lugar para o holismo.
A questão que Heidegger põe - se é que a entendi bem no post, uma vez que nunca li o autor - é falsa porque pressupõe que as propriedades «ready to hand» de um objecto são propriedades desse mesmo objecto.
Não me parece que sejam. Repare-se que essas propriedades derivam não só do objecto mas também e em última análise da pessoa em ordem a quem o objecto é disposto: o modo de ser «ready to hand» de um computador difere muito de um engenheiro de informática para um camponês - apesar de o objecto ser o mesmo.
A diferença não deve ser procurada no objecto em causa mas nos seus interpretadores. O «significado» de um objecto deriva sempre dos objectivos, comportamentos e processos mentais da pessoa que o tenta compreender e com ele estabelece relação. Se não houver pessoa - ou alguém com capacidade de pensamento - então resta a descrição física.
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Isto não invalida o que disse antes.
As pessoas podem também ser descritas de forma física, segundo os pressupostos dos parágrafos anteriores. Dessa descrição emerge naturalmente a pessoa como ser consciente e com processos mentais, expectativas e preferências.
A minha ideia é que ambas as formas de «ser» propostas por Heidegger podem ser descritas através das ciências naturais. Simplesmente apenas precisamos de considerar o objecto em si mesmo num dos casos e no outro é-nos necessário levar em conta a entidade que dá valor ao objecto. A intersecção de duas análises a dois objectos - o que observa e o que é observado - dá-nos o «ser em si» e o «ser para o outro».
Não é nada de metafísico: se quisermos saber o tempo que um grave leva a atingir o chão depois de ter sido atirado de um monte, não podemos apenas procurar essa propriedade no grave - precisamos também de conhecer algumas das propriedades do monte, como a altura.
Diz-se ainda que o fenómeno «Ser Humano» não pode ser reduzido a um mero organismo - que ele é uma permanente possibilidade. O que penso é que é da materialidade que a complexidade do ser humano ganha vida. Os processos mentais, o raciocínio e a consciência provêm de estruturas físicas - como o cérebro - que são também dominadas pelas mesmas leis básicas que regem tudo o resto.
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Tudo isto é válido numa perspectiva meramente teórica. Não temos nenhuma teoria final - pelo menos por enquanto - e é pouco sensato pensar que temos o tempo e a capacidade de cálculo para deduzir teorias complexas que expliquem coisas complexas (como a cognição ou a consciência) através duma teoria mais básica. É uma posição «idealista», sem verdadeiro significado prático.
Há ainda outra questão pertinente e estimulante - mas de relevância nula para o pensamento prático - que a questão do carácter da ciência. Modelo, estabelecimento de relação de causa efeito, descoberta de verdade, o quê afinal? Aqui entram em choque duas posições. O positivismo (advogado por Bento de Jesus Caraça, por exemplo), que pretende uma ciência que se funde na capacidade de explicar os fenómenos e os prever eficazmente, e o plantonismo, que teve como seguidores, por exemplo, Einstein. Esta segunda postura afirma a existência de uma realidade oculta por detrás dos factos: o número pi (3,14...) existe mesmo mesmo; a matemática não é criada - é descoberta.
Prefiro a segunda posição. Não consigo conceber um universo que não seja determinado por leis matemáticas por detrás dos factos. Se temos capacidade de as descobrir ou não, isso já é outra estória. Não há aqui nada de divino: é simplesmente a crença numa ordem - que verificamos no nosso quotidiano - e que é expressa matematicamente. A matemática não é um instrumento criado por nós para modelar e explicar o universo (como acontece com a linguagem, que é uma forma imperfeita de reproduzir pensamentos), ela é a verdadeira linguagem em que se expressa o universo. E ele expressar-se-ia dessa forma quer nos existíssemos ou não.
Claro que não consigo demonstrar a validade do raciocínio matemático. Os axiomas por natureza não se demonstram - assumem-se. De igual modo, também não vejo forma de provar a razoabilidade do pensamento lógico. Mas este é o único método de raciocínio que conhecemos. De forma bastante estranha, nunca ninguém tentou fundar uma asserção através de bases não lógicas. Há coisas que podemos pensar como possibilidades mas cuja possível existência não podemos conjecturar. Podemos pensar que existe circunferência cujo perímetro a dividir pelo diâmetro não seja igual ao número «pi» (numa geometria euclidiana, claro) - podemos verbalizar esse desejo; mas não podemos por um momento que seja conceber essa circunferência ou imaginá-la da mesma forma que conseguimos imaginar um mundo em que a força da gravidade não siga a lei do quadrado inverso. Isto leva-me à ideia de que há realidades que não conseguimos conceber. Raciocinamos de forma lógica talvez porque ela esteja impregnada no nosso raciocínio, talvez porque ela constitui as bases do nosso pensamento. Qualquer pessoa, quando posta perante um silogismo simples, assume imediatamente a sua justeza. Não pergunta porquê. Mais: não consegue sequer imaginar uma forma de achar que, se A está contido em B e B está contido em C (premissas), então A pode não estar contido em C (conclusão logicamente falsa).
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P.S.- No final de escrever o post fiz uma pequena revisão. Confesso que não é das coisas mais claras que já escrevi.

Comentários

6 Comments:

At domingo, novembro 13, 2005 6:30:00 da tarde, Blogger Joao Galamba said...

Caro Pedro,

Nao sei que lhe diga do adjectivo invulgar, tem de explica-lo melhor. Sugiro que de uma olhada aos meu post sobre holismos que pretendem argumentar contra a sua ideia de que a fisica e a ciencia fundamental. Quando diz que de leis basicas se pode deduzir tudo o resto esta a rejeitar o holismo.
http://ometablog.blogspot.com/2005/11/mais-sobre-os-limites-das-ciencias.html
http://ometablog.blogspot.com/2005/11/provocacao-parte-i-cientismo-e.html
Nestes dois posts argumento a favor do holismo porque ha "objectos" cuja relacao com outros "objectos" nao e externa, mas constitutiva da propria forma de ser do objecto. Se isto for verdade (que eu acho que e) vera que o atomismo e as leis basicas que o Pedro defende sao impossiveis pois nao conseguem explicar nem entender determinados fenomenos.

Bem vindo ao debate.
Um abraco,
Joao

 
At domingo, novembro 13, 2005 6:38:00 da tarde, Blogger Joao Galamba said...

So agora li com mais atencao o seu post. Continuo a discordar de quase tudo o que o Pedro escreve. Repare que isto nao desvaloriza a fisica, apenas diz que aha fenomenos que ela nao consegue entender pois a forma como ela aborda os fenomenos ja os distorce (ela assume sempre que o Ser e-o de determinada maneira, isto nao e questionado nem objecto de estudo da fisica...mas da ontologia, que nao e uma ciencia, mas algo que se debruca sobre diferentes formas que fenomenos e objectos podem assunmir).
Como e que da fisica chegamos a fenomenos como o futebol? A certa altura da deducao teriamos que enriquecer a linguagem da fisica com termos como golo, vitoria no compeonato...e assim ja estavamos para alem da fisica. O problema e que ha descontinuidade nas linguagens dos varios campos do saber. As linguagens e pressupostos nao sao inter-traduziveis...Como e que a fisica consegue conceber o fenomeno Ser Comunista ou Socialista? Isto e um fenomeno social que necessariamente relaciona a pessoa com outros e com um universo simbolico que nao tem lugar em fisica. Mas, no entanto, "existem" comunistas e socialistas, eles nao existem em fisica, mas so se defendermos um cientismo absolutista e que isto pode constituir um problema...

 
At domingo, novembro 13, 2005 6:44:00 da tarde, Blogger Joao Galamba said...

se tudo e fisica como e que o Pedro pode fazer juizos sobre comportamentos individuais? Se tudo fosse fisica nem eu nem o Pedro estariamos a escrever estes posts, nem a le-los. O que o Heidegger defende e um pluralismo ontologico, a fisica concebe todo o Ser como monista.
(peco desculpa por erros e eventuais deselegancias, mas estes comments foram escritos a trezentos a hora)

Um abraco,
Joao

 
At domingo, novembro 13, 2005 9:26:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Caro João: «invulgar» no sentido em que se debruça sobre problemas que não se costumam por norma debater nos blogs - pelo menos naqueles que consulto. Não é de forma alguma em sentido pejorativo, até porque são assuntos pelos quais tenho algum interesse (algo que, de resto, pode constatar pela extensão do post que dediquei). Infelizmente também eu tenhp alguns problemas de tempo e por isso não posso responder da forma mais fundamentada. Mas vou ler os posts que recomenda - e reler com mais atençao os seus 3 comentários - e dar uma resposta.
Um abraço

 
At domingo, novembro 13, 2005 11:01:00 da tarde, Blogger Tiago Mendes said...

Pedro: também não concordo com algumas das posições escritas, mas responderei no futuro com mais tempo. Há muito para ler, se estiver interessado... e se tiver tempo, claro. "Até já",

Abraço,

 
At sexta-feira, novembro 18, 2005 2:53:00 da tarde, Anonymous O Setúbal said...

Pedro, vou assumir duas das tuas posições: o reducionismo, ou seja, que qualquer ciência natural se pode reduzir à física; e o platonismo, isto é, que a matemática descreve algo real mas não-físico. O problema é explicar como é que um sistema físico (o homem) interage com algo não-físico? Uma objecção preliminar, eventualmente solúvel, é que tal interacção viola a lei da conservação da energia (esta objecção é uma variante da de Leibniz à relação alma-corpo na teoria de Descartes).
Com este comentário não pretendo invalidar as tuas premissas nem pretendo ter a solução.

 

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