12 novembro 2005

O que pensam eles?

Quando os principais candidatos presidenciais lançaram as suas candidaturas e discursaram perante as pessoas, não faltou quem visse neles um longo desfiar de generalidades banais.
O que, de facto, não fugiu muito à verdade: todos os candidatos se preocuparam em fazer apelo a uma data de coisas com que, em boa verdade, qualquer português dotado de um número razoável de neurónios concorda - como a preserverança, a força em horas difíceis, entre outros.
De igual modo, todos eles afirmavam a sua integridade, coragem e sabedoria.
Com efeito, e passadas algumas semanas, pode-se dizer que as diferenças expressas nas várias candidaturas encontraram-se mais ao nível da forma que ao nível do conteúdo; se por um lado Alegre propunha um «contrato social», Louçã e Jerónimo apresentavam-se como as únicas garantias da sempiterna busca de uma sociedade mais «justa e fraterna»; se o antigo Presidente Soares fazia referência à sua inteligência e combatividade, o antigo primeiro-ministro invocava a sua integridade e independência.
As diferenças não se encontravam nos discursos - que eram efectivamente banais e pouco substanciados - mas sim nas personalidades.
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Nada disto surpreende. Nas presidenciais, ao contrário do que acontece nas legislativas, não há um «programa» no sentido mais lato do termo.
Um presidente não é um primeiro-ministro e não faz sentido que no anúncio de uma candidatura se façam promessas ou estabeleçam objectivos que os poderes do cargo a que se aspira não permitem cumprir.
Assim, aposta-se na imagem. Um Cavaco sério, quase sisudo, a ler um discurso de forma quase robotizada e um Soares bem-dispostos, simpático e até brincalhão. Um Alegre esperançoso, romântico e a entrar na sala do hotel Altis enquanto se recitava um poema, a dar conta da sua costela nacionalista.
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Claro que, mais cedo ou mais tarde, teriam de aparecer as inevitáveis perguntas: mas, afinal, o que pretende este ou aquele candidato? Sim, estabilidade, sim, equilíbrio, mas isso é comum a todos. O ponto de choque é saber o que distingue na prática um do outro? Que fará um que o outro não possa fazer? Quais são as opiniões de cada um em casos concretos?
Para isto seria necessário conhecer as suas posições. Posições em relação a situações actuais. Posições face a questões de hoje, que, ou perturbam os portugueses, ou, não os perturbando directamente, exercerão efeito sobre eles mais cedo ou mais tarde.
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E quais são, então, essas questões?
Tenho algumas ideias.
Ponto um: gostaria de saber o que pensa cada um acerca da globalização. Não estou a «picar» os soaristas - creio, efectivamente, que esta é uma questão importantíssima. Cada vez mais. E sobre medidas proteccionistas para evitar a concorrência do Leste - nomeadamente da China -, que há a dizer? É importante clarificar isto.
Ponto dois: terrorismo internacional. Medidas, tomadas de posição? Hoje, o «Expresso» trazia na primeira página uma notícia a dar conta de referências a Portugal em diálogos entre terroristas. Já não se pode fugir à questão - ela está aí e não vai desaparecer facilmente.
Ponto três: a propalada «falência do modelo social europeu». Não me coloco de qualquer lado nesta questão, pelo menos por enquanto - até porque teria bastantes dificuldades - mas isto deve ser debatido. Blair já propôs soluções mas os seus colegas continentais não apreciaram. A curto prazo, o tamanho e eficácia do Estado será um assunto quente - e isto será, provavelmente, algo que poderá diferenciar melhor os candidatos.
Ponto quarto: reformas, transições, cortes, orçamentos. As medidas do Governo: apoia, concorda, discorda, aceita, tolera, suporta, odeia, abomina? Não se pode fugir a isto; dado que um Presidente é essencial para a acção do Governo, qualquer candidato deveria ser bastante explícito acerca deste tema.
Óbvio que há mais coisas a debater - como a situação francesa - mas creio que estes quatro pontos são absolutamente fundamentais.
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P.S.- Claro que já todos temos ideias acerca do que cada um pensa acerca disto; mas é importante que sejam os próprios a afirmar - e defender - as suas ideias.

Comentários

1 Comments:

At sábado, novembro 12, 2005 8:02:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

De facto. Penso até que o debate política externa deveria ser mais abrangente; melhor: mais específico na abrangência do tema: Mas sim: urge debater; e defender.

 

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