18 novembro 2005

O Crime do Carlos Coelho da Silva

Antes de mais quero deixar bem claro que sou um fã incondicional de Eça de Queirós. Para mim Eça foi, é e será sempre o melhor romancista português de todos os tempos. Portanto, foi com natural curiosidade que recebi a notícia de que “O Crime do Padre Amaro” iria ser retractado no cinema.
“O Crime do Padre Amaro” é uma das grandes obras do Eça, lançada em 1875. A história relata a chegada do jovem Amaro a uma aldeia de Leiria, com a missão de tomar conta da igreja local. Lá conhece a jovem Amélia, filha da senhora Joaneira, e apaixona-se perdidamente por ela. Os dois decidem ir contra a sociedade e envolvem-se numa ardente relação amorosa. A obra procura, na minha opinião, debater a problemática da castidade dos padres. Eça indaga se não será o homem feito de carne e osso? Não terá um padre as mesmas necessidades e desejos que todos nós temos? Porquê condená-lo a uma vida tão isolada em termos emocionais?
Contudo, o filme nada tem a ver com isto. Resisti à tentação inicial de ir logo ao cinema pois tinha medo de me decepcionar, mas depois de saber que 100 mil pessoas o tinham ido ver, decidi que tive de ir vê-lo. Hoje arrependo-me profundamente.
O realizador Carlos Coelho da Silva pegou nesta obra e transformou-a numa coisa deplorável. Quem não conhece o livro correrá o risco de pensar que o nosso bom Eça não sabia o que fazia, tendo escrito algo com diálogos tão fracos, e uma história perfeitamente redundante e previsível. Mas tal não é verdade, já que o grande culpado de toda essa redundância não é Eça mas antes o realizador Carlos Coelho da Silva, pela má escolha dos actores, pelas deturpações da história e por bastantes imprecisões.
Sei perfeitamente que esta é uma adaptação livre, mas não posso deixar de lamentar que o filme em nada retracte a realidade do livro, e que muita gente tenha com este filme o primeiro contacto com esta história de ouro da literatura portuguesa.
Uma crítica que é frequentemente feita ao cinema português é o abuso que é feito de cenas de sexo explícito. De facto isso ocorre abundantemente neste filme.
Parece que o mais importante é mostrar os corpos femininos, e que a qualidade do filme virá por acréscimo. Sei que esta observação pode parecer exagerada, mas é uma realidade a que não se pode fugir e que para bem do cinema português deveria ser alterada. Porque não apostar nas qualidades de representação das actrizes em vez de basearem-se apenas na aparência das mesmas?
Para terminar numa nota mais positiva, devo dizer que o filme “Alice” é uma pedrada no charco e assenta a sua qualidade na solidez das actuações dos seus protagonistas. O problema foi mesmo a desilusão que me causou este “Crime do Padre Amaro”. O Eça e o Amaro mereciam mais.

Comentários

3 Comments:

At domingo, novembro 20, 2005 11:29:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Estive à espera até final de menção a um supra-Eça, em jeito de Pessoa a Camões.
O filme, não o vi. Mas não estarás a exagerar na previsão «de todos os tempos»? É que isso é muito tempo; depois tens que tratar de retirar o que disseste, eventualmente. É que, ao contrário do cinema, a literatura portuguesa é prolífera em coisas (muito!) boas.

 
At terça-feira, novembro 22, 2005 12:38:00 da tarde, Blogger Phillipe Vieira said...

reconheço que hoje há EXCELENTES autores, como o próprio Lobo Antunes, o Saramago entre outros.

todavia, o Eça para mim é especial e para mim será sempre o maior. tal como, e para mim, os Pink Floyd serão sempre a melhor banda do Mundo, o SLB será sempre o maior clube do Mundo, o Sean Connery será sempre o melhor 007, entre outros. Sei ser imparcial e reconehcer a valia de outros, porém mantenho a minha opinião e essa pode por vezes ser demasiadamente absoluta, mas eu sou assim. para mim, o Eça será semopre o maior.

o filme é msm mau, e não evidencia de forma nenhuma a qualidade literária de Eça.

 
At quinta-feira, novembro 24, 2005 3:04:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Concordo contigo nas outras três.=o)

 

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