24 novembro 2005

Guetos

Não tenho grande apreço pelas pomposamente chamadas marchas «gay pride» - literalmente «marchas do orgulho gay». Sim, os manifestantes têm todos especial fixação por gente do mesmo sexos, querem ser aceites, ter direitos e serem considerados gente normal. Ok, então não ajam como se fossem diferentes; não transformem uma luta legítima numa fantochada que acaba por «guetizar» o movimento e, sobretudo, não se esforcem tanto por ostentar uma diferença coisa que, afinal de contas, querem que que seja encarada como normal.
Agora, ao que parece (e segundo descobri aqui), há mais uma minoria que garbosamente «afirma a diferença». É verdade, há um canal para negros no Brasil. O «The Guardian», da velha ala canhota (e que ainda recentemente fez uma interpretação hilariante daquilo que aconteceu em Paris), diz que «o primeiro canal de TV negro do Brasil enfrenta legado de 300 anos de escravidão», para de seguida explicar que a estação é um grande passo na luta contra a discriminação racial no país. Exacto: se o branco não põe o preto na televisão, o preto cria uma televisão onde não deixa entrar o branco.
Eu, que não sou sociólogo, só gostaria de perguntar o que se diria se os minorcas criassem uma estação de rádio, os narigudos fizessem manifestações (que se poderiam apelidar carinhosamente de manifestações «dólmen nasal») ou as loiras começassem a imprimir jornais («Sim, somos loiras, e gostamos disso»).

Comentários

2 Comments:

At sexta-feira, novembro 25, 2005 12:54:00 da tarde, Blogger ovelha_negra said...

ok, quanto à televisão para negros, acho isso uma estupidez. Só promove a ostracização. O que deveriam fazer era lutar por quotas nas televisões que não refletem de todo a realidade brasileira. Basta olhar para as novelas que nos chegam cá.

Quanto`aos desfiles de orgulho gay, discordo totalmente de ti. Esses desfiles são feitos para mostrar à sociedade que os homossexuais existem, que não são dois ou três. E que não há mal nenhum em serem-no. São demonstrações de Orgulho por serem como são. Uma confrontação à sociedade que teima em não os aceitar e descrimina-los.

 
At sábado, novembro 26, 2005 4:40:00 da tarde, Blogger Joao Galamba said...

Caro Pedro,

A logica de barricada e de facto preocupante, mas mais grave e aquilo que as motiva. O que levara tanta gente a reclamar o direito a diferenca? Eu acho que e a insatisfacao com a formalidade da lei e constatacao que na realidade a igualdade formal serve de pouco. O mundo em que vivemos e um mundo em que o valor da igualdade e da dignidade humana sao fundamentais. Estas reaccoes revealam isso mesmo: um descontentsmento entre ideia e realidade.

Um abraco,
Joao Galamba

 

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