10 novembro 2005

Godos, Alanos e Suevos

Uma coisa que sempre me intrigou numa determinada camada de sociólogos é a sua habitual aversão aos números. Geometria causa náuseas; cálculo incha as varizes; álgebra dá voltas ao estômago. Infelizmente, tal desprezo pela matemática não implica que os cientistas sociais pensem duas vezes antes de interpretar estatísticas a respeito dos mais variados temas.
Muito provavelmente, o campo em que a leitura errada de estatísticas mais ocorre é na Sociologia criminal. A receita é simples: pobres cometem mais crimes que ricos; por cada rico que comete um crime, «x» (com «x» maior que 1...) pobres infringem a lei. Isto traduz-se facilmente num coeficiente de correlação - que indica a medida em que o nível monetário de uma pessoa está relacionado com a probabilidade que esta tem de cometer um roubo. O passo de génio vem a seguir: passa-se da correlação para a causalidade. No final, ficamos com a bonita conclusão: o crime é causado pela pobreza; eliminar o crime é eliminar as suas causas, ou seja, a pobreza. Nalgumas variantes, a conclusão é levada ainda mais além: uma pessoa não pode ser culpada do crime quando aquilo que esteve na origem do crime foi algo por que ela não é responsável - mais concretamente o seu nível social. Não interessa que por cada pobre a roubar haja centenas de pobres que não roubam: a teoria é bonita, elegante e «correcta».
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Os recentes distúrbios na cidade de Paris, em França, são agora invocados pelas alas mais progressistas como exemplos do que fracas políticas de integração, má condição social, elevadas taxas de desemprego e precárias habitações podem fazer. De novo a velha lógica da cadeia de acontecimentos: Governo toma políticas «y»; políticas «y» fomentam degradação, empobrecimento, etc.; estas más condições causam o crime. Logo, o crime é culpa do Governo. (Poder-se-ia prosseguir interminavelmente através desta longa cadeia de causalidades e perguntar o porquê de o Governo seguir determinadas políticas, e de seguida o porquê desse porquê, e logo depois um porquê seguinte. Não parece muito inteligente.)
Há ainda a tese da exclusão. Os imigrantes são excluídos da sociedade. A sociedade tem o dever de os integrar - mas não integra. Têm todo o direito de se manifestarem de acordo com a sua cultura. Isto inclui destruir viaturas, escolas, agredir pessoas, atacar polícias, instalar o caos. E receber o subsídio de desemprego. Sim, apesar de tudo a França não é só coisas más.
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Portanto, a receita é simples. Em primeiro lugar, mais subsídios para as «vítimas da sociedade» que há dois dias mataram um idoso (não nos esqueçamos de que a pobreza causa o crime, e combater o crime é combater as suas causas). Em segundo lugar, mais emprego para os «excluídos» (sim, do que eles precisam - e o que eles querem, apesar de grande parte dos «destruidores» não ter idade para trabalhar - é emprego). Em terceiro e último lugar, menos racismo e xenofobia contra os «esmagados pela civilização». Neste ponto o ministro da administração interna francês deve fazer o seu mea culpa e pedir desculpa a quem chamou de «escumalha»; é que são pessoas sensíveis que podem relacionar o epíteto com a sua raça ou religião. Cruzes, credo.
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Fica assim consumada a bestialização completa do ser humano. O homem não tem responsabilidades porque é um mero animal que responde - qual cão de Pavlov - ao que o meio o faz fazer. Não tem capacidade de decisão ou consciência que lhe permite julgar algo. Fantástico, como é que nunca me lembrei disto?
Temos portanto uma situação em que um grupo de meliantes (bastante extenso, diga-se em abono da verdade) destrói postos de trabalho como forma de protestar contra a falta de emprego, queima escolas para mostrar como o acesso ao ensino é difícil para eles, liquida viaturas com o fito de clarificar a sua posição quanto à equidade de oportunidades que exige, etc.
Claro que não se lembraram de trabalhar; nem de tentar integrar-se; nem de abdicar do subsídio de desemprego pago pelas pessoas cujos carros queimaram e fornecido pela Nação que agora afirmam odiar. É uma forma de protesto bastante peculiar e inovadora.
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Não pretendo com isto dizer que o Estado se deva subtrair à integração das minorias.
Muito simplesmente, o Estado não se pode responsabilizar pela integração activa dessas minorias. Integração pressupõe vontade de integração. Não se integra à força. Aquilo que pode e deve ser exigido é que as condições que possibilitam uma integração salutar estejam presentes. Contudo, cabe ao indivíduo optar pela via a seguir. De modo idêntico, uma empresa pode criar boas condições de trabalho mas não pode, em absoluto, obrigar um empregado a trabalhar - a produtividade de cada um está, em última análise, dependente do indivíduo.
Em todo o caso, este «terrorismo urbano» está condenado ao fracasso. Desta vez, o «politicamente correcto» não vai conseguir levar a melhor pela simples razão de que os franceses deixaram-se de contemplações para com atitudes bárbaras como estas. As sondagens recentes acerca da popularidade de Sarkozy provam isso. Além disso, um movimento de luta só pode ter sucesso quando há uma meta a atingir. Ora, isso não acontece. Aqueles vândalos não procuram alcançar um objectivo, como mais emprego ou menos desigualdade. Há, simplesmente, o impulso de destruir. E o que conseguem com isso? Uma opinião pública menos tolerante, uma segurança mais apertada e uma polícia mais atenta. E, desta vez, o discurso do «coitadinho» vai custar mais a digerir.
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P.S.- A velha questão Modelo social europeu/Liberalismo é estéril. Os modelos económicos podem ser mais ou menos eficazes na criação de emprego, produção de riqueza, etc., mas as repercussões que tais mudanças podem ter nos variados sectores de uma sociedade - cultura, política, etc. - não obliteram a integração de quem efectivamente se quer integrar. Ambos os modelos permitem essa integração. Aliás, reformulo: nenhum dos modelos exclui essa integração. A culpa do que acontece em França deve ser atribuída, mais do que à «falência do Estado social» ou às «políticas liberais», aos visigodos que destroem a cidade sem razão alguma.
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P.S.2-Recomendo isto.

Comentários

8 Comments:

At quinta-feira, novembro 10, 2005 2:59:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Estou de acordo contigo, excepto num ponto: o modelo social francês é demasiado rígido e dificulta a criação de emprego e a ascensão social (tal como o nosso, aliás). Se os pais destes selvagens tivessem beneficiado de um sistema que "puxasse" por eles - como o americano -, talvez não existisse tanta violência. Embora, tal como ja escrevi no meu blog, quem quiser integrar-se integra-se. Os portugueses, os turcos e outros estrangeiros conseguiram fazê-lo em França, embora muitas vezes tenham sido discriminados. Quanto aos visigodos - embora não tenha nada a ver com o teu post -, repara que eles até nem eram dos bárbaros mais destruidores. O saque de Roma (410) foi uma reacção à estupidez do governo imperial e ao racismo do chamado "partido romano" que tomou conta do aparelho do Estado, e não se deveu apenas à cobiça dos Visigodos. Um rei dos godos chegou mesmo a dizer que queria "defender Roma [leia-se, a civilização, a cultura e o Estado romano] com a força dos Godos". Já os Vândalos, os Alanos e Hunos eram de facto bárbaros destruidores.

 
At quinta-feira, novembro 10, 2005 7:14:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Sei que os Visigodos se aliaram aos romanos para combater os Hunos nalgumas frentes mas não invoquei o seu nome de uma forma cientificamente rigorosa porque aquilo que queria transmitir era a ideia de «bárbaros» que normalmente se associa aos Visigodos. A diferença de grau em relação aos outros é historicamente pertinente mas, penso eu, pouco relevante neste contexto.

 
At quinta-feira, novembro 10, 2005 7:54:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Sim, eu sei... foi só um "aparte" :)

 
At quinta-feira, novembro 10, 2005 8:24:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Só intelectuais por aqui. Têm a mania que percebem de tudo que até irrita

 
At quinta-feira, novembro 10, 2005 9:39:00 da tarde, Anonymous  said...

Isso é porque se calhar porque não percebes nada. É tramado, não é? És como um burro a olhar para um palácio!

 
At quinta-feira, novembro 10, 2005 11:06:00 da tarde, Blogger Nino said...

A esquerda há-de acordar da utopia. Tarde demais.

 
At sexta-feira, novembro 11, 2005 2:23:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

A sublinhar. E o primeiro ponto do Filipe, que me parece de vital importância; embora o «quem quiser integrar-se integra-se» não é espelho tão real como se quereria do que se passa, por exemplo, nas escolas francesas, onde são desencorajadas as universidades aos de 2ª e 3ª geração, em favor dos técnicos, pela simples razão de serem isso mesmo. Não é uma justificação ou contraponto: é mais uma linha do mesmo texto.

 
At sexta-feira, novembro 11, 2005 2:57:00 da tarde, Anonymous "menina" said...

Fascinas-me sabes?

 

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