13 novembro 2005

Expressar a diferença

«Estes miúdos já não são mão-de-obra barata e dócil, como os seus pais. É assim mesmo que começa a integração: quer-se mais, o mesmo que todos os outros.»
«A França que proibiu o véu vê agora as chamas. O véu tinha, apesar de tudo, melhor aspecto. O que está em debate é só isto: aceitamos a diferença e damos-lhe todos os direitos ou só a suportamos se ela for tão envergonhada que não se dê por ela. Quando os filhos dos imigrantes tiverem tudo o que nós temos - dinheiro, emprego, futuro, liberdade para vestirem o que querem e falarem como querem sem pedir desculpa - sentir-se-ão bem por cá. Talvez então até comecem, por vontade própria, a dispensar o véu e a afirmação permanente da diferença. Ou talvez não. Enquanto não lhes dermos nada, o que lhes resta é isso mesmo: a sua identidade. Se não são nada para nós, querem, ao menos, ter orgulho disso mesmo.»
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O autor das linhas transcritas é Daniel Oliveira, cronista do «Expresso». Foi publicada hoje no semanário.
Ele começa por dizer que os miúdos não são mão de obra barata como os pais. Que querem mais.
Nada contra e é perfeitamente possível que isso suceda. Mas, evidentemente, um dia mais tarde. Por agora, os miúdos em causa não são nem mão de obra barata nem mão de obra cara. Isto porque, muito simplesmente, crianças de 14 e 15 anos não têm ainda idade para trabalhar. Seja o que for que alimenta a luta de um teenager, não será, com toda a certeza, a luta por um emprego.
Contudo, Daniel Oliveira lembra-nos que não é só emprego que estes jovens não têm - de facto, estes jovens não têm «absolutamente nada». Pelo menos aparentemente, o cronista não está ainda a par do sistema social francês, muito particularmente naquilo que aos imigrantes diz respeito (talvez a sua opinião fosse diferente caso os impostos que financiam subsídios e pensões lhes fossem tributados a ele).
Ele fala ainda do respeito pelas crenças religiosas e invoca a famigerada lei - entretanto revogada - que proibia o véu nas escolas. Aqui, Daniel Oliveira está correcto - mas peca por omissão: não foi só o véu que foi proibido, as cruzes cristãs e (até) as barbas judaicas também sofreram igual restrição. Não foi a expressão da diferença que foi atacada - mas a ostentação dessa diferença como forma de guetização (já agora: também não concordei com a medida)*.
A solução está, portanto, em promover a igualdade e as liberdades individuais para que «eles» tenham o mesmo que «nós». Até que «eles» possam vestir-se e falar como desejam, ter emprego, dinheiro e estatuto.
Correctíssimo: um imigrante ou filho de imigrantes não pode ser discriminado. Acontece que essa discriminação, a ter lugar, não é feita pelo Estado francês - será feita, quanto muito, por elementos da sociedade civil: desde o empregador que tem preferência pelos brancos ao transeunte que se sente ameaçado por um negro e o olha de lado. Ora, neste ponto, terão também de ser os imigrantes a ter uma palavra a dizer. Terão de mostrar que têm vontade de fazer algo; terão de mostrar que, se são dignos dos mesmos direitos, têm também a probidade para cumprir os mesmos deveres. Comportamentos como os que se têm vindo a verificar não permitem ganhar razão - simplesmente dão razão aos que discriminam. Não há, ainda, uma igualdade de oportunidades completamente justa. Mas isso não se verifica apenas em relação aos imigrantes. Na televisão, por exemplo, o peso e altura também condicionam na altura de aparecer em frente de uma câmara. Apesar disso, os baixinhos não destroem carros.
Uma última nota: Daniel Oliveira afirma que a violência é afirmação da diferença. Não sei se será verdade - até porque, se é verdade o que os sociólogos dizem, os jovens não sentem que pertencem a cultura alguma; ora, se não têm modelos de referência, a partir de que identidade se vão afirmar contra uma cultura estabelecida? Apesar disto, admito a possibilidade da destruição ser afirmação. Mesmo assim, nada legitima a violência ou o não cumprimento dos deveres. As causas de fenómenos humanos podem ser sociologicamente interessantes de analisar mas não podem servir de justificação. Caso contrário, teríamos de aceitar que alguém com um complexo de inferioridade batesse no vizinho como forma de ultrapassar o complexo; ou que alguém com uma educação medieval espancasse um negro ou um albino. Além do mais, há uma questão importante que convém não esquecer: do «outro lado» há pessoas que estão a ser prejudicadas sem terem feito mal algum.
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*Ainda dentro do mesmo tema, vale a pena referir alguns casos: na Inglaterra foi proibida a circulação de postais natalícios durante a época - porque poderia ofender as crenças de alguns muçulmanos; na Holanda a construção de uma Igreja numa via por onde passam muito muçulmanos foi também proibida porque poderia ofender minorias étnicas. Na França medidas similares têm sido tomadas. Quem é discriminado?

Comentários

2 Comments:

At domingo, novembro 13, 2005 4:56:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

Começo a ser repetitivo e redundante, canso-me: a sublinhar, em nome de ideias.

 
At domingo, novembro 13, 2005 1:14:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

E eu aceito perfeitamente os teus sublinhados e até alguns dos resurados. Em nome das ideias.

 

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