30 novembro 2005

Do poeta

Quando, perante a mais que certa candidatura de Cavaco, o PS procurava desalmadamente um nome capaz de representar o partido, Manuel Alegre foi o único que se oferecer.
Timidamente, quase escondido, lá foi dizendo que podia ser candidato, que isso estava dependente da vontade do partido mas que, apesar de tudo, era um cenário a ponderar.
Contudo, ficou sempre a sensação de que o seu nome seria alternativa de recurso: Guterres era uma carta fora do baralho, Vitorino seguia-lhe o caminho e não parecia haver mais ninguém com nome suficiente para desafiar Cavaco; o nome do poeta surgia, portanto, naturalmente - mas apenas como «arma de reserva».
Apareceu depois, e de forma um tanto inesperada, o «velhinho» Mário Soares. A imprensa falava, o partido suspirava e Soares não confirmava nem desmentia - o que, de certa forma, acabava por confirmar as especulações.
Quando a candidatura foi assumida - e o PS a apoiou de imediato - a ferida já fora aberta: Soares e Alegre estavam de costas voltadas. Para usar a expressão do célebre Tino de Rãns (ou Rans...) o PS usara Manuel Alegre «como um preservativo», descartando-o quando dele deixou de precisar.
Contudo, as coisas não correram tão bem como o antigo Presidente esperaria: o ânimo que se gerara não era particularmente acentuado, as pessoas não pareciam entusiasmadas e os estudos de então davam como certa uma vitória do futuro opositor logo à primeira volta.
Foi neste cenário de desânimo que (re)apareceu Manuel Alegre.
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Manuel Alegre é uma figura por quem tenho uma contida simpatia.
Tem uma aura de «homem honrado» que uma luta contra o fascismo só reforça e tiques de «velho romântico» que aprecio, ainda que em doses pouco moderadas.
Por isto, mas não só por isto, a sua campanha tem-me desiludido.
Desiludo-me ainda mais com o facto de aquilo que a mim me desaponta ser o que mais votos lhe tem rendido: a capitalização de uma situação que, em boa verdade, lhe «caiu do céu».
De facto, um dos seus grandes trunfos ao longo da campanha tem sido a afirmação da sua independência face aos partidos - algo que já foi ensaiado por Cavaco Silva mas de forma bastante grosseira.
Isto é no mínimo estranho: Alegre desde o início que deu a entender que só se candidataria quando o PS o apoiasse.
Mais: desde o início que fez a pouco digna figura de «pedinte indigente», pedindo apoios para uma candidatura que desejava mas que pensava não ser capaz de levar a bom porto sem uma boa rectaguarda política.
Candidatou-se sem o apoio partidário? Claro: mas não por opção.
A fervorosa ostentação de independência neste contexto surge, por isso, tingida de oportunista hipocrisia.
Numa altura em que a descredibilização da política enquanto actividade é uma ideia cada vez mais arreigada, ele tem sabido manter a a aura de «homem honrado» que antes referi - ora atacando os partidos (muitas vezes o seu próprio, e de forma pouco correcta) ora invocando os «velhos valores desaparecidos» que ele tão bem representa.
Mas há mais: o poeta tem também sabido explorar bem a faceta de «amigo traído» - que lhe rende tantos mais votos quanto pior estiver a imagem de Mário Soares.
Enquanto Soares se afunda nas sondagens e se perde em ataques que só desgastam, como as acusações de ignorância a Cavaco Silva ou as pedantes e ufanas afirmações de «cultura humanista», perdendo com isto a «simpatia» que a velha ideia de «bom avôzinho» ainda lhe poderia conceder, Alegre mantém-se em alta.
Uma situação que não desejava e que ao princípio se lhe poderia aparecer como um óbice - o distanciamento face ao PS e a «zanga» com o amigo - acabam por se revelar bastante proveitosas - e ele aproveita.
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Quem não conhecesse o personagem ficaria agora curioso - e perguntaria: mas não foi ele que tantas e tantas vezes esteve com o PS em tomadas de posição que pouco se identificavam com a matriz originalmente socialista do partido?
Não foi ele que durante muito tempo acatou várias soluções do partido mesmo quando estas iam contra as suas convicções pessoais?
Não abdicou da independência em favor da unidade?
Afinal de contas, não é Manuel Alegre uma figura profundamente partidária - no sentido em que ele agora rejeita essa associação?
A resposta simples é um rotundo «sim».
Nesta campanha, Manuel Alegre tem mostrado que o poeta é, afinal de contas, muito mais político do que fazia parecer.

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