19 novembro 2005

Bizantinice

O caso das duas alunas da escola de Gaia é verdadeiramente insólito. Tornou-se tema de debate em poucos dias e, coisa de relativa importância, fez-me falhar um palpite. Temos então o doce amor de duas meninas interrompido pela pérfida personagem do director da escola, para quem beijinhos entre meninos e meninas está bom mas se for só entre um dos géneros já causa alguma urticária. Os pruridos ascendem à categoria de homofobia reaccionária, os progressistas (e agora os liberais) protestam, os mais conservadores aplaudem e o resto do povo acha piada - à criançada, porque miúdas com miúdas satisfaz muito fetiche recalcado, e ao puritano professor, porque de facto para tirar as carícias da escola acabou por lá meter os jornalistas.
O slogan «menina não beija» não cai bem em nenhum lado; cheira a descriminação (verdade) e é motivo de escárnio, principalmente para malta jovem que não deixa de estranhar o interminável lapso de tempo que o contínuo Manel demora a arrumar a vassoura na arrecadação da funcionária Maria. Mas também o velho «se não nos xateia, tudo bem» não deixa de ser enganador: as pessoas vêem, falam e comentam. Querer que uma relação homossexual seja igual a uma heterossexual ou é ingenuidade ou utopia (até o velho Herman, figura de orientação sexual mestiça e variável, não resiste à habitual piada «gay» da semana), e pela mesma linha arriscamo-nos a ver um dia destes dois homens de barba feita e apaixonados em animada sodomia no meio da rua, sob o pretexto de não estarem e interferir com ninguém e «aquilo» ser «coisa» do foro privado.
Eu, que não me sinto particularmente chocado com as raparigas, só acho que se deixou chegar as coisas longe de mais. Chamar as suspeitas a recanto sossegado e pedir educadamente que deixassem manifestações de carinho para locais mais privados onde não estejam sujeitas à sanha persecutória de cabecinhas mais antiquadas poderia ser tão eficaz e menos espalhafatoso que uma lei que me parece despropositada e até ridícula. Um pouco de bom senso não era pedir muito: as raparigas evitavam servir de tema a editoriais e a escola não acabava ridicularizada. Um pouco como o «boletim de sáude» que Mário Soares exigia a Alegre: candidato que é candidato deve, por livre inicativa, informar o pessoal do seu estado de saúde; mas será vergonhoso que tenha de ser criada uma lei para os obrigar a isso...

Comentários

2 Comments:

At domingo, novembro 20, 2005 1:04:00 da tarde, Blogger Bruno JSM said...

estava tudo a correr tão bem até que: "arriscamo-nos a ver um dia destes dois homens de barba feita e apaixonados em animada sodomia no meio da rua".

O risco é igual ao de veres um casal hetrrosexual a praticar o coito no mei da rua. Aliás, atée é menor, pois os casais homosexuais são em menor número.

 
At domingo, novembro 20, 2005 4:25:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Também não gostaria de ver um casal heterossexual a praticar o coito no meio da rua... Aquilo que fiz foi tentar mostrar, recorrendo a um exemplo insólito, que as convenções sociais, como agora se costuma dizer, não podem ser completamente ignoradas. Em todo o caso também acho que a (falta de) gravidade do acto não justifica qualquer medida por parte do conselho directivo da escola.

 

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