29 novembro 2005

Ainda os crucifixos

Como diz o Rodrigo Moita de Deus, «não há razão nenhuma para existirem crucifixos pendurados nas salas de aula». Mas também «não há razão nenhuma para o assunto ser prioridade do ministério da educação».
É evidente que há outros pontos onde a identidade cristã se manifesta: não se trabalha aos domingos, há férias no Natal, é feriado na Páscoa - mas entre as duas questões há diferenças substanciais. O dia de descanso semanal é um direito dos trabalhadores; que seja no domingo e não numa segunda ou numa terça é irrelevante mas o dia mantém-se por questões de hábito; já o Natal e a Páscoa são realmente feriados religiosos - mas são muito mais que isso. A época de Natal é tradicionalmente reservada a jantares familiares, etc. O seu significado extravasa largamente o simbolismo religioso; mais: o Natal é, em minha opinião, mais pretexto para reunião que efectiva celebração; de facto, não é por se saber hoje que a data de nascimento de Jesus Cristo não foi exactamente a que se pensava que o Natal deixou de ser celebrado nessa mesma data.
Datas que possam inicialmente ter tido significados religiosos estão hoje demasiado enraizadas nas populações para que se pense em mudá-las. A diferença entre isto e o sofisma dos crucifixos é óbvia: não vindo daí qualquer mal ao mundo, os crucifixos nas salas de aula não têm razão de ser; retirá-los não causa qualquer problema - pode até ser proveito se isso permitir calar meia dúzia de imbecis que não têm mais nada que fazer ao tempo. Já a mudança de calendário traria alguns problemas e a medida não traria nada de proveitoso. Se é para mudar, ao menos que se mude para melhor - e isto não acontece no caso dos crucifixos, que foi exactamente aquilo que tentei focar no post anterior, ou seja, não havendo nenhuma razão para os tirar das salas, também não há nenhuma razão para eles lá estarem. A sua presença é completamente irrelevante. É um óptimo tema para arranjar alguma polémica entre religiosos e jacobinos mas é um «não-problema», não afecta absolutamente ninguém. Se tirar os ditos das paredes satisfaz assim tanto os meninos do «República e laicidade», então tirem-nos. Que sirva, ao menos, para que possamos deixar de ouvir falar deles. Para quê tanto alarido?

Comentários

4 Comments:

At terça-feira, novembro 29, 2005 12:59:00 da tarde, Blogger ana paula said...

de facto este assunto está a receber mais atenção do que a que realmente merece. Acho correcta a retirada(não das tropas) dos crucifixos dos estabelecimentos de ensino público. Mas daí a pegar em meia dúzia de Cristos crucificados e fazer assunto da ordem do dia... O laicismo é violado em questões preponderantes, para quê fazer de "pequenêses"deste género para nos fazer lembrar que, de vez em quando, os do poder ainda se vão lembrando que estamos num estado laico?

 
At terça-feira, novembro 29, 2005 2:22:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Concordo com a retirada dos crucifixos... mas não acho que laicismo seja sinónimo de ateísmo de Estado. As religiões fazem parte da identidade de um povo, como a arte, a música e o desporto, por exemplo. E se o Estado não tem pudor em envolver-se nestes últimos - muitas vezes, de forma inapropriada -, porque é que não há de conviver pacificamente com as diferentes religiões e reconhecer-lhes a devida importância? Se é normal o Presidente da República ir a um jogo de futebol - embora nem todos os portugueses gostem de futebol, note-se -, porque é que não pode assistir a uma cerimónia católica, budista ou muçulmana sem que um grupo de fanáticos histéricos desate aos berros? Até nisto ficamos atrás dos anglo-saxónicos: no Reino Unido e nos EUA, as leis da liberdade religiosa e da separação entre Igreja e Estado foram feitas com a intenção de evitar que o Estado interferisse com as religiões. As nossas (da Europa continental de tradição francesa) foram feitas com a intenção de evitar que Deus saia para o espaço público. É uma forma doentia de encarar a religião, reveladora de ignorância, fanatismo e desrespeito pela diferença. E ainda para mais profundamente anacrónica (justificar-se-ía, em parte, se vivessemos no século XVII), pois as numerosas comunidades religiosas têm feito notórios progressos no sentido da sã convivência entre diferentes crenças.

 
At terça-feira, novembro 29, 2005 6:02:00 da tarde, Blogger Elise said...

A questão dos crucifixos é apenas o início. A seguir vão questionar as festas de Natal nas escolas públicas e outras acções semelhantes.

Mas a questão dos feriados é importante - por coerência e congruência. Estamos perto do 8 Dezembro por exemplo.

 
At terça-feira, novembro 29, 2005 10:19:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Também não acho que o laicismo seja sinónimo de ateísmo do Estado. Falta de tempo não me permite mais que esta resposta exígua mas posso recomendar este post do aforismos: http://aforismos-e-afins.blogspot.com/2005/11/cruzes-2.html.

abraço a todos

 

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