30 novembro 2005

Cepticismo e suspeição






Einstein, Heisenberg, Freud, Marx e Godel; respectivamente pioneiros na descoberta de um mundo mais relativo, incerto, oculto, subjectivo e indeterminado.

Desvios

A forma como Soares respondeu à pergunta «Ainda defende o diálogo com os terroristas?» é inteligente: dá voltas e mais voltas até conseguir acantonar-se no chavão do «sou a favor do diálogo», o que, em boa verdade, não quer dizer absolutamente nada. É a favor do diálogo com quem? Com os terroristas? Então podia ter respondido afirmativamente à primeira pergunta. E fica ainda a indagação: se Soares quer falar com os terroristas, quem propõe como negociador? Ele mesmo? Então a opção pelo diálogo entende-se: se «dialogar» com Soares for uma situação semelhante a entrevistá-lo, então as negociações seriam bastante profícuas para o Ocidente: uma parte fala e a outra cala.
Honra lhe seja feita: safou-se muito bem na pergunta acerca da Globalização.

Oh não

... a Judite de Sousa acabou de lhe perguntar a sua opinião acerca dos «grandes problemas mundiais»...

Soares na televisão

Mário Soares está, neste momento preciso, a dar uma entrevista a Judite de Sousa na RTP1. Acabou de dizer que não quer falar de Manuel Alegre mas, mesmo assim, não deixou de mandar a farpa: «O Manuel Alegre era candidato... mas depois deixou de ser candidato...»
Diz também que não são as sondagens que elegem presidentes e que por isso não está preocupado com elas. A primeira parte da frase é inatacável; a segunda é ridícula, porque, como é óbvio, não deriva da primeira. Realmente, as sondagens em si não elegem presidentes - mas permitem aferir da vontade dos portugueses de votarem num candidato (aliás, representam uma probabilidade de voto). Se o Dr. Mário Soares não se importa com as sondagens, está no seu direito, mas nessa linha de raciocínio não vejo razões para que ele se preocupe com as manifestações de apoio que recebe na rua (e que tanto tem enfatizado) - porque não são elas que determinam a eleição de um Presidente. No limite, o candidato não deveria sequer preocupar-se com a opinião que os eleitores têm dele, porque não é a opinião das pessoas que elege um Presidente, mas somente os seus votos.
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P.S.- É tramado entrevistar o homem...

Do poeta

Quando, perante a mais que certa candidatura de Cavaco, o PS procurava desalmadamente um nome capaz de representar o partido, Manuel Alegre foi o único que se oferecer.
Timidamente, quase escondido, lá foi dizendo que podia ser candidato, que isso estava dependente da vontade do partido mas que, apesar de tudo, era um cenário a ponderar.
Contudo, ficou sempre a sensação de que o seu nome seria alternativa de recurso: Guterres era uma carta fora do baralho, Vitorino seguia-lhe o caminho e não parecia haver mais ninguém com nome suficiente para desafiar Cavaco; o nome do poeta surgia, portanto, naturalmente - mas apenas como «arma de reserva».
Apareceu depois, e de forma um tanto inesperada, o «velhinho» Mário Soares. A imprensa falava, o partido suspirava e Soares não confirmava nem desmentia - o que, de certa forma, acabava por confirmar as especulações.
Quando a candidatura foi assumida - e o PS a apoiou de imediato - a ferida já fora aberta: Soares e Alegre estavam de costas voltadas. Para usar a expressão do célebre Tino de Rãns (ou Rans...) o PS usara Manuel Alegre «como um preservativo», descartando-o quando dele deixou de precisar.
Contudo, as coisas não correram tão bem como o antigo Presidente esperaria: o ânimo que se gerara não era particularmente acentuado, as pessoas não pareciam entusiasmadas e os estudos de então davam como certa uma vitória do futuro opositor logo à primeira volta.
Foi neste cenário de desânimo que (re)apareceu Manuel Alegre.
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Manuel Alegre é uma figura por quem tenho uma contida simpatia.
Tem uma aura de «homem honrado» que uma luta contra o fascismo só reforça e tiques de «velho romântico» que aprecio, ainda que em doses pouco moderadas.
Por isto, mas não só por isto, a sua campanha tem-me desiludido.
Desiludo-me ainda mais com o facto de aquilo que a mim me desaponta ser o que mais votos lhe tem rendido: a capitalização de uma situação que, em boa verdade, lhe «caiu do céu».
De facto, um dos seus grandes trunfos ao longo da campanha tem sido a afirmação da sua independência face aos partidos - algo que já foi ensaiado por Cavaco Silva mas de forma bastante grosseira.
Isto é no mínimo estranho: Alegre desde o início que deu a entender que só se candidataria quando o PS o apoiasse.
Mais: desde o início que fez a pouco digna figura de «pedinte indigente», pedindo apoios para uma candidatura que desejava mas que pensava não ser capaz de levar a bom porto sem uma boa rectaguarda política.
Candidatou-se sem o apoio partidário? Claro: mas não por opção.
A fervorosa ostentação de independência neste contexto surge, por isso, tingida de oportunista hipocrisia.
Numa altura em que a descredibilização da política enquanto actividade é uma ideia cada vez mais arreigada, ele tem sabido manter a a aura de «homem honrado» que antes referi - ora atacando os partidos (muitas vezes o seu próprio, e de forma pouco correcta) ora invocando os «velhos valores desaparecidos» que ele tão bem representa.
Mas há mais: o poeta tem também sabido explorar bem a faceta de «amigo traído» - que lhe rende tantos mais votos quanto pior estiver a imagem de Mário Soares.
Enquanto Soares se afunda nas sondagens e se perde em ataques que só desgastam, como as acusações de ignorância a Cavaco Silva ou as pedantes e ufanas afirmações de «cultura humanista», perdendo com isto a «simpatia» que a velha ideia de «bom avôzinho» ainda lhe poderia conceder, Alegre mantém-se em alta.
Uma situação que não desejava e que ao princípio se lhe poderia aparecer como um óbice - o distanciamento face ao PS e a «zanga» com o amigo - acabam por se revelar bastante proveitosas - e ele aproveita.
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Quem não conhecesse o personagem ficaria agora curioso - e perguntaria: mas não foi ele que tantas e tantas vezes esteve com o PS em tomadas de posição que pouco se identificavam com a matriz originalmente socialista do partido?
Não foi ele que durante muito tempo acatou várias soluções do partido mesmo quando estas iam contra as suas convicções pessoais?
Não abdicou da independência em favor da unidade?
Afinal de contas, não é Manuel Alegre uma figura profundamente partidária - no sentido em que ele agora rejeita essa associação?
A resposta simples é um rotundo «sim».
Nesta campanha, Manuel Alegre tem mostrado que o poeta é, afinal de contas, muito mais político do que fazia parecer.

É verdade. Ele é candidato



















Olhem bem para esta cara. Agora imaginem o nosso país se este homem fosse Presidente... Já viram? Já pensaram? Isto de permitir que qualquer cidadão se candidate à presidência tem cada coisa...

29 novembro 2005

O homem só




Ninguém disse que ser treinador é fácil. Lidar com a pressão, ouvir os adeptos atrás do banco a dar os seus “conselhos”, ser responsabilizado sempre que o avançado não marca um golo de baliza aberta. Decididamente ser treinador é uma tarefa complicada.
Ronald Koeman é um desses mártires que se dedicam a liderar as atribuladas naus que são as equipas de futebol. Koeman foi um grande jogador, um dos melhores do seu tempo. Ainda hoje faz parte da única equipa campeã europeia pelo Barcelona, e foi também campeão europeu pela Holanda. Decididamente Koeman foi um grande jogador.
Koeman também teve uma ascensão meteórica no banco. Ao fim de poucos anos, já era treinador do Ajax e campeão holandês. Decididamente Koeman teve um excelente início de carreira.
Hoje Koeman orienta o meu clube. É a sua primeira experiência, enquanto treinador, fora da Holanda. Tenho de admitir que fiquei entusiasmado com a sua vinda para o Benfica. Pensei que depois de um ano “pragmático” com o Trap, merecíamos um ano de “futebol total” ao bom estilo de Cruyff. Decididamente merecíamos isso.
Todavia, aquilo que eu vejo é um Benfica a praticar um futebol mau e sem soluções. Dir-me-ão os mais entendidos que tal situação se deve ao facto de termos 6 jogadores essenciais lesionados. Digo eu que isso é apenas uma parte do problema, da competência da equipa médica, pois um jogador só deve voltar á competição quando estiver a 100% e não a 50%; e não considero essa uma resposta válida pelo facto de este ser o Benfica, e não devíamos depender tanto de duas ou três individualidades. Levanta-se aqui a questão da qualidade do plantel. Claramente que jogadores como Beto, João Pereira, Carlitos e demais “vedetas” apenas têm lugar no Benfica do “Football Manager”. Decididamente há jogadores neste plantel que não têm categoria para representar o Benfica.
Mas é aqui que entra o treinador. Koeman é quem orienta a equipa e não se pode dar ao luxo de “inventar” soluções. Ele deve olhar para o que tem e não ser demasiado criativo. Koeman poderia perfeitamente adoptar um estilo mais prático e fiel aos seus princípios de jogo mesmo com o Simão lesionado. Não havia necessidade de jogar com 9 defesas contra o Lille, nem com o Petit e o Beto ao mesmo tempo. Mas Koeman tem medo. Koeman não confia nos seus “virtuosos”. Koeman tem um discurso muito ofensivo, mas em campo é o que é. Lembrem-se do jogo em Manchester, e que o SLB o poderia perfeitamente ter ganho, se o treinador tem arriscado um pouco mais. Koeman não tem culpa do plantel que tem mas assumiu a responsabilidade de o gerir, e agora não pode fugir. Koeman orienta o campeão nacional, e este deve-se portar como tal em todos os jogos. Deve jogar como campeão em Portugal e na Europa. Koeman é hoje um homem só pelo simples facto de não ter sabido agregar os adeptos em torno de si, e tudo isto porque o que nós esperávamos dele era uma equipa alegre em campo, e tudo aquilo que ele nos deu foi "Trapattoni II". Koeman desiludiu-me e nem com a desculpa dos lesionados lá vai. Mas quero mudar de opinião, quero que a equipa que ganhou no Dragão apareça mais vezes. Quero que o Benfica ganhe. Decididamente Koeman está condenado a provar que eu estou enganado.

Interessante

A «Super Interessante» deste mês (a que só tive acesso hoje, e durante escassos minutos) traz como tema de capa o livre arbítrio humano. Rápido folhear dá a ideia de que o interesse do assunto acaba por ser mitigado pela aparente confusão entre determinismo e inevitabilidade. Leitura mais calma permitirá conhecimento mais profundo do que por lá se escreve e, quem sabe, um novo post.

Ainda os crucifixos

Como diz o Rodrigo Moita de Deus, «não há razão nenhuma para existirem crucifixos pendurados nas salas de aula». Mas também «não há razão nenhuma para o assunto ser prioridade do ministério da educação».
É evidente que há outros pontos onde a identidade cristã se manifesta: não se trabalha aos domingos, há férias no Natal, é feriado na Páscoa - mas entre as duas questões há diferenças substanciais. O dia de descanso semanal é um direito dos trabalhadores; que seja no domingo e não numa segunda ou numa terça é irrelevante mas o dia mantém-se por questões de hábito; já o Natal e a Páscoa são realmente feriados religiosos - mas são muito mais que isso. A época de Natal é tradicionalmente reservada a jantares familiares, etc. O seu significado extravasa largamente o simbolismo religioso; mais: o Natal é, em minha opinião, mais pretexto para reunião que efectiva celebração; de facto, não é por se saber hoje que a data de nascimento de Jesus Cristo não foi exactamente a que se pensava que o Natal deixou de ser celebrado nessa mesma data.
Datas que possam inicialmente ter tido significados religiosos estão hoje demasiado enraizadas nas populações para que se pense em mudá-las. A diferença entre isto e o sofisma dos crucifixos é óbvia: não vindo daí qualquer mal ao mundo, os crucifixos nas salas de aula não têm razão de ser; retirá-los não causa qualquer problema - pode até ser proveito se isso permitir calar meia dúzia de imbecis que não têm mais nada que fazer ao tempo. Já a mudança de calendário traria alguns problemas e a medida não traria nada de proveitoso. Se é para mudar, ao menos que se mude para melhor - e isto não acontece no caso dos crucifixos, que foi exactamente aquilo que tentei focar no post anterior, ou seja, não havendo nenhuma razão para os tirar das salas, também não há nenhuma razão para eles lá estarem. A sua presença é completamente irrelevante. É um óptimo tema para arranjar alguma polémica entre religiosos e jacobinos mas é um «não-problema», não afecta absolutamente ninguém. Se tirar os ditos das paredes satisfaz assim tanto os meninos do «República e laicidade», então tirem-nos. Que sirva, ao menos, para que possamos deixar de ouvir falar deles. Para quê tanto alarido?

28 novembro 2005

Dirac



Paul Dirac: «Se os factos não estão de acordo com a teoria, tanto pior para os factos».

A ler

Um interessante post acerca de emprego e formação. Já aqui temos (mais) uma boa razão para não votar Soares (não é o discurso em si que me assusta - é o que ele quis dizer com o discurso; em poucas palavras: o sentido do discurso).

Acordar melhor

Apesar de tudo, acho que há ainda melhores formas de começar o dia que esta. Não é que não goste da Angelina - gosto, claro, mas não é com ela que chegamos ao zénite da beleza. (Quanto a Hayek, também acho que é muito ensossa. Falta algum pormenor, que não consigo bem definir. Um pouco como aquele Anders Andersson que passou pelo Benfica, que era um bom jogador, certinho, bom posicionamento, bom passe, mas um pouco banal. Cumpria quase sempre - o que era bom - mas nunca espantava ninguém).
De beleza francesa Laetita tenho opinião muito favorável. Há ali qualquer coisa. Um brilho, uma intriga que prende como poucas. Saussure diria que é um problema de estrutura; que é a disposição das peças que causa um processo significativo bastante intenso. Não sei se é a estrutura, mas que é intenso, lá isso é.
Mas há ainda outras. Como esta, absolutamente electrizante, por exemplo. É realmente muito difícl ficar indiferente a isto. Quem disse que os produtos americanos já não são o que eram?
Sim, na Europa também se fazem coisas boas. Por esta tenho uma fixação especial, confesso. Deve ser o toque germânico, provavelmente. Mas não há dúvidas de que imagens como esta são impressionantes.
Nas ilhas também há autóctones de relevo. Apesar dos problemas de saúde, tem sabido manter o encanto. Se não fosse aquela artificialidade, poderia bem estar no topo - e, quem sabe, talvez eu chegasse ao ponto de ouvir mesmo as suas músicas.
E há ainda as latinas. É verdade, ainda estão aí para as curvas.
Apesar de tudo, há uma pessoa que consegue bater toda a concorrência. Tem um brilho que encadeia as outras. Apesar de não gostar desta pornografização do blog, não posso deixar de compartilhar com os leitores a magnificência desta musa. É fácil, é a quarta da primeira fila, a contar da direita. Ah, e sou imparcial: é minha namorada.

Aviso

(Nota prévia: este post poderá não interessar aos leitores que não fazem parte do curso de comunicação social da Universidade do Minho).
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Avisa-se desde já que o Torneio de Futsal de ComSoc terá início amanhã. As regras são as tradicionalmente usadas no futebol de salão mais a revolucionária regra (que vai se testada pela primeira vez neste torneio) que ficou bem explícita nas fichas de inscrição que todos os participantes assinaram: «Abaixo do joelho é tudo bola» (a organização, de que faço parte, relembra aos jogadores que o pequeno preço de inscrição tem como contrapartida a inexistência de seguro desportivo).
As duas primeiras equipas a disputar o grande prémio final (assinatura de uma revista ainda por definir) serão as equipas «Os coxos» (equipa mais jovem mas na qual muito orgulhosamente me incluo) e outra equipazeca de segunda categoria formada na sua maioria por caloiros e cujo nome não consigo, neste momento, precisar.
A segunda jornada terá lugar sexta-feira próxima (horário por determinar) e a terceira, que encerrará a fase de grupos, realiza-se segunda-feira dia 5 de Dezembro.
Aproveito o ensejo para avisar desde já a equipa do GACSUM (a segunda equipa a abater) de que muito dificilmente poderão ter qualquer hipótese de levar de vencida o meu conjunto (como diz o Mourinho, «mind games»...), que tem treinado afincadamente com o intuito de se apresentar na melhor forma.
Aos meus colegas de equipa (Marcos Sabino, Rui Rocha, Phillipe Vieira, Alberto Teixeira e Carlos Ferreira «Tricky») relembro que para amanhã (9:30) está agendado treino de conjunto, a ter lugar no empapado complexo desportivo da rodovia (recolher obrigatório à meia noite e meia, não esquecer). Quem chegar atrasado será de pronto remetido para o sempre acolhedor banco de suplentes.
Até lá, um bem haja.
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P.S.- Rumores recentes dão a entender que os professores Aníbal Alves, Moisés Martins, Jean Rabot, Pedro Portela e Paulo Nossa estão em vias de constituir uma equipa para participar a partir da fase de «bota fora». Vitória sobre esta equipa (que tem nas suas fileiras dois antigos jogadores federados, vale a pena não esquecer) equivale a passagem automática às cadeiras de Semiótica, Teorias da comunicação, Sociologia, Geografia humana e Métodos de Investigação II.

A semana

Bruno Alves faz n'O Insurgente um apanhado dos factos mais marcantes dos úiltimos dias. Não podia concordar mais com o que diz a respeito do omnipresente «menino-guerreiro»...

27 novembro 2005

Concisão e clareza

Ordenando o material académico dou de caras com a (relativamente...) velha sebenta de Semiótica - «A linguagem, a verdade e o poder - Ensaio de Semiótica geral», de Moisés Martins. O tratado marcou de tal forma a minha vida (e as minhas noites em época de exames) que não consigo deixar de colocar aqui uma das minhas passagens favoritas. Ponham os olhos nesta «pérola» da página 51 - a definição de Semiótica e da teoria standard:
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«A semiótica visa uma antropologia estrutural do imaginário (no seu sentido metapsicólogico) humano. Ora esse imaginário é assemântico ou não subjectivado. A matéria prima da Semiótica é uma substância que não é uma substância de conteúdo, mas um puro medium imaginário entre a regulação biológica e a idealidade, indizível, do absoluto. Se o conceito de estrutura é o conceito formal de base da semiótica, o do imaginário como carne é o seu conceito substancial de base (...) A teoria standard trata como semas, ou melhor, como classemas que asseguram as isotopias discursivas globais do esquema narrativo, os semas interoceptivos profundos, categorizantes e abstractos, articulados pelo quadrado semiótico, que não são unidades de conteúdo («valores» no sentido linguístico do termo). Petitot prefere falar de pregnâncias tímicas assemânticas, em vez e em lugar de semas interoceptivos profundos. Entre as instâncias da semântica e da sintaxe, há uma terceira instância: a proprioceptivodade das pregnâncias, e uma nova conversão, a do tímico assemântico em semântica interoceptiva.»

Crucifixos

Podendo desagradar a muita gente - especialmente católica, naturalmente -, retirar os crucifixos das escolas está em conssonância com o Estado laico que é Portugal.
Pessoalmente, pouco me afecta. Desconfio que também em nada irá alterar a vida dos alunos das escolas. Desconfio ainda de que os próprios professores, os funcionários e outros que ganham a vida a trabalhar nas escolas sofram revés ou ganhem ânimo com tal medida.
Não: de facto, a única coisa que isto pode prevenir é que algum aluno mais incauto acabe por apanhar com um crucifixo na cabeça em caso de sismo. De forma análoga, a presença dos mesmos não traz nada de mais e é perfeitamente inócua: não influencia ninguém nem deixa de influenciar. Não está em causa o impacte da religião na vida das pessoas: está em causa a falta de impacte que um mero símbolo da mesma (não) tem numa sala de aula.
Gera-se assim, de uma forma insólita e sob um pretexto ridículo, mais uma «guerrinha» entre a organização «República e Laicidade» (da qual faz parte o insuspeito Fernando Rosas), que encarna o jacobinismo e tem como razão de vida a redução da Igreja à sua expressão mais ínfima e insignificante e a própria Igreja Católica - as reacções têm sido exageradas e um pouco mais de contenção não faria mal (ainda hoje um conhecido dizia-me que durante a missa o padre fizera protestara contra a retirada dos crucifixos ironizando e dizendo que «um dia destes os professores não podem ser catequistas»); a veemência dos protestos acaba por empolar uma questão.
É admissível que alguém pense que as escolas não deveriam ter crucifixos; é admissível que alguém pense que as escolas deviam ter os crucifixos. Não sei se será saudável que pessoas empenhem o seu tempo em lutar pela permanência ou retirada dos mesmos.
Resumindo e concluindo: será que uma medida tão anódina deveria, entre pessoas sérias, suscitar tantos problemas?

Uma boa razão...

... para um homem estar mais inclinado para ser alto comissário da ONU para os refugiados do que para ser candidato à presidência da república.



António Guterres, alto comissário da ONU para os refugiados, visitou o Paquistão. A actriz Angelina Jolie fazia parte da comitiva.

26 novembro 2005

A figura

Lembro-me de há tempos ter visto Santana Lopes na televisão (SIC Notícias, se bem me lembro) a comentar as eleições presidenciais. Referiu na altura que poderia haver candidatos mais bem posicionados e que o no espaço mais à Direita poderia ainda surgir outro candidato (José António Lima disse ironicamente, em relação a estas declarações: «adivinhe-se quem...»).
Hoje, o inenarrável PSL faz outra vez furor com um texto publicado no «Expresso» - «a lei de Gresham (um ano depois)».
Não pretendo rebater aqui os argumentos de PSL quando defende que a a «moeda menos má» (o seu Governo) foi substituído por uma moeda bem pior (o de Sócrates, evidentemente). Os «factos» - como ele lhes chama - carecem, nalguns casos, de interpretação idónea e acertada e são, noutros casos, mal expostos - falar de crescimento económico, PIB, exportações, importações, impostos, défice, etc., sem falar das condicionantes conjunturais (como, por exemplo, o preço do petróleo) é desonesto.
De facto, o Governo que liderou foi um Executivo à sua imagem e semelhança: errático, muitas vezes perdido e frequentemente desnorteado. Os «episódios», como Sampaio lhes chamou, sucediam-se dia após dia. Chegavam a raiar o rídiculo e o anedótico. O caso em que PSL sentiu necessidade de emitir um comunicado para refutar uma fantochada lateral (questão envolvendo uma sesta antes de um compromisso oficial, se bem me lembro) foi paradigmático: PSL sabia que toda a gente sabia de que matéria ele era feito.
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Desde então, Santana apenas tem dado razão àqueles que sempre o viram como um político pouco sério. O célebre discurso do «vou andar por aí» só confirmou uma personagem virada para si, absolutamente incapaz de assumir erros e que se julga um César perseguido por traidores que saltam de cada esquina escura e de todos os recantos isolados; uma figura que se vê como vítima de tudo - excepto da sua própria incompetência - e que se recusa a entender que o seu tempo acabou; que já não faz parte deste filme; que não passa de um fantasma que, felizmente, já não consegue assombrar ninguém.
Depois desse discurso, das monótonas - e recorrentes - intervenções desculpabilizantes , dos textos, das análises «cuidadosas e imparcias» feitas na televisão, este artigo não traz nada de novo. É redundante e só penaliza o próprio PSL. Quem o leu prestou mais atenção à intenção com que foi escrito do que aos argumentos apresentados.
Entretanto, ele vai continuar por aí. Para mal dos seus pecados.

Uma comédia trágica

Excelente crónica de João Pereira Coutinho. Hoje, no «Expresso».

25 novembro 2005

(in)Justiça

No Jornal de Notícias lê-se que Sampaio criticou «a forma como o Governo anunciou medidas, como a redução das férias judiciais e a perda de acesso dos juizes ao subsistema de saúde do Ministério da Justiça».
Queria anúncios em carta pessoal, lacrados e aromatizados com fragrância de limão? Queria avisos solenes na televisão com pedidos de desculpa anexados? Bem, ironizo, e talvez injustamente: o próprio Governo admitiu que se podia ter feito mais qualquer coisita no momento de explicar a premência - e a urgência - de certas medidas. Não estava, julgo, a pensar neste caso em concreto, mas estas coisas acontecem. Apesar de tudo, a classe ficou, no final da estória, bastante mal vista, ao tentar fazer passar para a opinião pública que os seus protestos tinham origem em razões bem menos nobres do que aquelas que invocavam.
Mas o Presidente da República acrescentou ainda que «as reformas não podem esperar, e, sem consenso, ficarão sempre aquém, pelo menos, da sua boa execução». É verdade, mas a Justiça não precisa duma reforma «de retoques», precisa duma reforma quase revolucionária. No panorama nacional, ela é um caso à parte. Não se pode dizer que funcione mal - ela é (quase) completamente ineficaz. É morosa, excessivamente burocrática e extraordinariamente incipiente. A «Casa Pia» é só uma amostra, é apenas a questão mais mediatizada e publicitada, uma entre muitas. A Justiça pura e simplesmente não funciona. Está pior que o Ensino. Está pior que a Saúde (algo que não é fácil de conseguir). Prejudica todos, até as empresas - e a incapacidade da Justiça é, também, uma das explicações para a pouca apetência estrangeira pelo investimento empresarial em Portugal. Os processos arrastam-se, as escutas são invalidadas, os suspeitos fogem, os inocentes permanecem meses a fio em prisão perventiva, os crimes prescrevem. Parece demasiado mau para ser verdade, mas não é exagero, é o que se passa por cá. E o que vai continuar a passar-se, enquanto não se mudar alguma coisa. E aí, muito provavelmente, os juízes têm razão: a questão é mais profunda do que aquilo que alguns teóricos querem fazer crer. Em Portugal, a Justiça não precisa de um lifting: precisa de transplantes e transfusões. Sob pena do paciente não sobreviver.

Gráficos





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Via Blasfémias tomei conhecimento de uma função oculta do BlogPulse. A boa ideia é aqui copiada mas com palavras-chave diferentes.
O primeiro gráfico espelha o uso da palavra «bolo rei»; curiosa coincidência: a palavra foi usada de forma intensiva na altura em que Cavaco Silva anunciou a sua candidatura. Interessante.
O segundo gráfico tem um máximo que não consigo de forma alguma explicar. Se alguém puder dar uma ajuda...
Depois, «Dinis Maria» - máximo absoluto na altura em que o vídeo «familiar» do candidato foi lançado e dois ou três máximos relativos que correponderão, possivelmente, a alturas mais quentes da campanha.
Por último, «Nova Orleães». Elucidativo.

Coisas complicadas

Esta situação é inadjectivável. Estou a adjectivar a situação?
Aquela afirmação é inqualificável. Estou a qualificar a afirmação?

Ilibado
















"As queixas por agressão sexual apresentadas contra Cristiano Ronaldo, futebolista internacional português ao serviço do Manchester United (Liga inglesa), foram definitivamente retiradas, confirmou hoje a Scotland Yard em comunicado.
Cristiano Ronaldo, 20 anos, deslocou-se voluntariamente à polícia para ser interrogado, a 19 de Outubro, onde manifestou a sua inocência.
No início, duas mulheres denunciaram a alegada violação, ocorrida num quarto do hotel Sanderson, em Londres, acusando Cristiano Ronaldo e outro homem. No entanto, uma delas retirou a queixa pouco depois da abertura do processo."*
Eu só posso dizer que fico feliz pelo facto de um dos nossos mais brilhantes futebolistas ter conseguido vencer estas acusações, num país em que o sensacionalismo é por demais evidente. Ronaldo é jovem, irrequieto, mas para a próxima terá de ter mais cuidado quando estiver num meio social, pois é um alvo apetecível.
Cristiano Ronaldo terá de aprender a driblar os oportunistas, de modo a poder continuar a marcar os seus golos e a marcar presença no Teatro dos Sonhos.

Cuidado criancinhas

... porque daqui a cinco minutos o «tio» Bibi sai cá para fora...

24 novembro 2005

Guetos

Não tenho grande apreço pelas pomposamente chamadas marchas «gay pride» - literalmente «marchas do orgulho gay». Sim, os manifestantes têm todos especial fixação por gente do mesmo sexos, querem ser aceites, ter direitos e serem considerados gente normal. Ok, então não ajam como se fossem diferentes; não transformem uma luta legítima numa fantochada que acaba por «guetizar» o movimento e, sobretudo, não se esforcem tanto por ostentar uma diferença coisa que, afinal de contas, querem que que seja encarada como normal.
Agora, ao que parece (e segundo descobri aqui), há mais uma minoria que garbosamente «afirma a diferença». É verdade, há um canal para negros no Brasil. O «The Guardian», da velha ala canhota (e que ainda recentemente fez uma interpretação hilariante daquilo que aconteceu em Paris), diz que «o primeiro canal de TV negro do Brasil enfrenta legado de 300 anos de escravidão», para de seguida explicar que a estação é um grande passo na luta contra a discriminação racial no país. Exacto: se o branco não põe o preto na televisão, o preto cria uma televisão onde não deixa entrar o branco.
Eu, que não sou sociólogo, só gostaria de perguntar o que se diria se os minorcas criassem uma estação de rádio, os narigudos fizessem manifestações (que se poderiam apelidar carinhosamente de manifestações «dólmen nasal») ou as loiras começassem a imprimir jornais («Sim, somos loiras, e gostamos disso»).

Uma cura para África

Um óptimo texto de Ricardo Reis. Não chega, claro. Mas é uma ajuda.

O direito à diferença

Via Falta de Tempo descobri este artigo de Carlos Alberto Montaner, no «El Independent». Aqui ficam alguns excertos.
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«Temos tendência para ver o Irão como um país pobre e atrasado do Terceiro mundo - e isto é um erro. Trata-se de uma Nação enorme, maior que a França, Inglaterra e Itália combinadas, com 68 milhões de habitantes e uma produção diária de quatro milhões de barris de petróleo, o que lhe permite acumular uma grande quantidade de reservas e tornar a sua balança económica muito favorável. Possui também uma grande quantidade de técnicos e cientistas formados em Universidades ocidentais e tem ao seu alcance armas nucleares, tarefa em que se tem empenhado abertamente, ignorando os apelos da comunidade internacional».
«O Presidente Ahmadinejad, com uma desfaçatez que devemos agradecer, dado que assim ficamos sem dúvidas acerca das suas reais intenções, declarou duas coisas. A primeira é que «Israel deve ser riscado do mapa». A segunda é que «o mundo deve dar-se conta de que Israel não é o único objectivo do Irão - é apenas o primeiro». Algo que não ignoram os argentinos que em 1994 sofreram um brutal atentado em Buenos Aires, quando iranianos destruiram com uma poderosa bomba o edifício da «Asociación Mutual Israelita», e o que sofrem todos os dias os habitantes de Israel, árabes e judeus, com os atentados perpretrados por assassinos suicídas financiados, entre outras capitais, a partir de Teerão».
«O assunto é muito claro: ante os nossos olhos uma daquelas nefastas personagens que inevitavelmente conduzem a humanidade ao matadouro vai destilando o seu ódio. É um fanático convencido de que está destinado a mudar a história do mundo e tem na sua memória a remota grandeza da Pérsia». «Defende uma causa sagrada (e o restabelecimento planetário da supremacia do Islão) e mobiliza os recursos para perseguir os seus planos violentamente. Só lhe falta mesmo um rídiculo bigodinho debaixo do nariz».
«Não é difícil prever o que a médio prazo pode acontecer no Médio-Oriente. Um Irão dotado de armas nucleares (...) capaz de levar os mísseis a praticamente todas as grandes cidades da área, protegido por um exército de milhões de soldados, tratará de conquistar o seu «espaço vital» mediante a intimidação dos vizinhos, como um passo prévio com o intento de destruir Israel».
«Tampouco é difícil prever o resultado final: o Irão não conseguirá atingir o objectivo final mas a destruição deixada por esse conflito será infinitamente maior do que provocada pela II Guerra Mundial»
E, no final: «E, sobretudo, é hora de actuar».

Perigo

O Jornal de Notícias diz-nos hoje que Portugal está entre os países europeus que apresentam um risco-país mais elevado. Foi ultrapassado pela Eslovénia e República Checa e alcançado pela Hungria. Entre outras coisas, o estudo em causa salienta que o comércio de Portugal com os (PALOP) é muito arriscado, uma vez que estes países apresentam um «rating» de pagamentos muito elevados. «Estes países necessitam de uma série de reformas governamentais que permitam um desenvolvimento regular e sustentável das empresas». Ou seja, para comercializar é preciso empresas desenvolvidas - estranho, há líderes que acham (como aquele Hugo qualquer coisa) que as empresas são coisas más. Felizmente, por essas bandas a economia prospera.

Cadilhe

Uma interessante entrevista de Miguel Cadilhe.

Quatro seguidos



Apesar de tudo a Bola de Ouro só pode ter um vencedor este ano...

23 novembro 2005

Posts do dia

Este post para quem se interessa por jornalismo; este e este para quem se interessa por estas coisas (não subscrevo!); este para quem se interessa por política e este para quem gosta de aviões.

Irra!

Mesmo com 15% de indecisos, Cavaco Silva vai à frente com 57% das intenções de voto. É o que diz a sondagem do «Público», a publicar amanhã.

Comentário

...a este post, no Blasfémias. Não sendo um liberal (pelo menos no sentido estrito do termo), concordo, pelo menos em princípio, com as posições defendidas.
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Aborto: sim, depende do estatuto a atribuir ao feto; crime a partir do momento em que se considera que este tem direitos, aceitável até essa altura.
Serviço militar: em princípio, voluntário. Se o número de voluntários for insuficiente, rever este ponto.
Suicídio: Direitos implicam a liberdade para se prescindir deles. A vida é um direito.
Eutanásia: Idem; se alguém não está em condições de exercer um direito (como o suicídio) não se deve penalizar quem possibilita ao visado atingir o objectivo.
Consumo de drogas: Sou contra, mas por uma questão prática; se o indivíduo estiver pronto para assumir as consequências, que esteja à vontade. Se no fim vai à procura de caridade, afirma que a toxicodependência é uma doença e que não tem culpa de precisar de roubar para viver... que seja proibido - liberdade pressupõe responsabilização.
Bons costumes: sim, a comunidade define e quem não gosta deve ter a liberdade para pegar na trouxa e fundar outra comunidade.
Adopção por homossexuais: em princípio não deveria ser feita distinção entre hetero e homossexuais. Mas o maior interessado, neste caso, é a criança. Questão em aberto.
Poligamia: Tudo bem, desde que seja consentido.

Ó dr. Carreira das Neves

... eu até acho que a Igreja deve ter toda a liberdade para determinar quem é ou deixa de ser sacerdote. Que seja ela a escolher quem guia os fiéis e quem lê os salmos; quem veste a sotaina e quem discursa no púlpito; quem entrega a óstia e quem ouve as confissões. Que justifique isso com a palavra divina ou com os textos sagrados; que defenda a decisão com base em Mateus, João ou até em mero preconceito, é-me completamente indiferente. Agora o que acho insólito é que um homem inteligente, culto e laureado como o senhor diga que «a Igreja é feita de homens e mulheres e o homossexual tende mais para se ligar mais ao homem e pôr de lado o sexo feminino». Quer o senhor dizer que também os heterossexuais devem ser excluídos porque têm tendência para se ligarem mais a mulheres e porem de lado o sexo masculino? E mesmo a sua tese é discutível: os homossexuais (homens) têm por norma fortes amizades com o sexo feminino (o mito do «amigo gay» não é mito - é mesmo verdade!). Desejará então a Igreja fundar a sua acção sobre o mais andrógino dos humanos - ou, mais provável (e mais em conssonância com o que o Padre Carreira das Neves diz acerca da discriminação sexual), sobre o mais bissexual homens? É que estes, ao contrário do homossexuais cujo óbice o senhor aponta, não têm preferência quer por homens quer por mulheres.

Problemas

Divergências profundas entre mim e o meu computador impedem-me de postar frequentemente. Por enquanto, vale a sala de informática da Universidade do Minho (ou «laboratório de jornalismo»...). Talvez no fim de semana as coisas melhorem. Talvez.

22 novembro 2005

Zero a zero

Mais necessitado que sequioso de vitórias, o holandês preteriu a qualidade (ainda que intermitente) de um Geovanni em favor da anarquização de um meio campo onde pontificavam estranhos ao sector, enquanto estendia pelas alas defensivas sujeitos mais habituados a outras zonas, quiçá bem mais centrais, do terreno de jogo. A capitania perdeu o Norte e a tripulação cambaleou, com o arqueiro que ainda há pouco matou dois tordos pela equipa de caça nacional (contra a longínqua Cróacia) a fazer uso de flechas embotadas cujas trajectórias são presa fácil para a mais leve das ventanias. O outro, o dos dezoito milhões, puxa, agarra, corre, foge e atropela - marcar é que não marca, e já são muitos jogos sem marcar (se hoje não quebrou jejum não foi por falta de oportunidades mas por falta de talento). Com 5 pontos não há matemática, álgebra ou geometria que hipoteque qualificação, mas acreditar que «isto» chega para vencer britânicos é como acreditar no Vale e Azevedo.

Só para dizer "obrigado"

Num fim-de-semana marcado pela vitória do Braga frente ao Benfica, deixem-me enaltecer o excelente brinde que a direcção do canal “2” deu a todos os fãs da série “24”.
Este fim-de-semana, e pela segunda vez, “a 2” transmitiu uma série inteira de “24” (sem muitas interrupções). Deu quase para acompanhar a série passo a passo. Foram 24 episódios e 24 horas de emoção que passaram pela" 2."
Desta feita passou a 3ª série que conta com a presença de Joaquim de Almeida no papel de Ramon Salazar, um barão da droga. Contudo, o verdadeiro vilão é o malévolo Saunders, um ex-militar que se sente traído e que ameaça os EUA com um vírus mortal. De tudo isto surge Jack Bauer (Kiefer Sutherland), um agente da CTU (Unidade Contra Terrorista) que com a ajuda dos seus amigos consegue derrotar Saunders.
Esta série de culto é única. Em primeiro pelo simples facto de desenvolver toda a história em 24 horas, permite-nos ver tudo aquilo que pode efectivamente acontecer num dia. Em segundo pelo enredo, que é sempre fascinante e onde tudo parece fazer sentido. Em terceiro lugar pelos actores que são de facto muito bons naquilo que fazem. Por exemplo, este é o melhor papel para Sutherland, um bom actor mas que nunca conseguiu superar nomes como Kevin Bacon ou Johnny Depp actores da sua geração, que conseguiram sempre melhores papéis, e uma maior longevidade no cinema. Sutherland está irrepreensível no papel do agente Bauer e o resto quase que funciona por magia.
Nos EUA, já está a passar a 4ª série. Apenas me resta desejar que a “2” não se esqueça de adquirir os direitos e transmiti-la, porque eu e muitos outros estamos desejosos de voltar a dedicar as nossas noites de quarta-feira, das 22:30 às 23:30, aos agentes da CTU na sua missão de salvar o Mundo.

Tempo de compensação

Apesar de não gostar muito daquele barulho de fundo e aquele constante interromper para o aplauso da praxe (tão característico do público), tenho de admitir que gosto do «Prós e contras» (que, de quando em vez - como aconteceu há duas semanas, na análise aos acontecimentos de Paris -, se transforma num «prós e prós»).
Hoje o tema é, parece-me (apanhei o programa a meio), as reformas no Ensino, muito especialmente as aulas de substituição (estamos no intervalo, ainda há tempo para muita coisa...) - as temíveis aulas de substituição. Achei uma imensa piada àquela senhora de óculos (não a ministra, a outra, cuja posição não consegui descortinar) a dizer que «ao falar com as pessoas» notava que elas estavam «desmotivadas, cansadas». Resta saber se elas antes estavam «motivadas e enérgicas» - e, mais importante, se isso se reflectia numa razável qualidade de ensino e numa baixa taxa de faltas. Mas ainda não chegámos ao fim. Com aquele ar de mestre-escola, de quem faz grande revelação em poucas palavras e de dedo em riste, a figura diz ainda que «com professores desmotivados o Ensino vai degradar-se». Ah, bom. E eu que pensava que o Ensino já estava degradado (se um Avelino Ferreira Torres conseguiu chegar à Faculdade...)!
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A questão das faltas é importante mas não fundamental: o Ensino não está mau por causa das faltas - as faltas são apenas (mais) um sintoma desse estado precário. Além de professores empenhados, faltam muitas outras coisas. Por exemplo, respeito. Falta começar a exigir dos meninos um mínimo de civismo, educação e empenho. Sei do que falo: já vi um recorde de toques na bola ser batido a meio de uma aula de psicologia e já tive a infelicidade de apanhar com um pulmão de porco na cara a meio de uma aula de técnicas laboratoriais de biologia (o prevaricador não escapou à devida punição e foi parcimoniosamente bisnagado com água destilada).
Um professor que não pode exigir respeito também não tem por norma dar-se ao respeito. Claro que a este também se exigem competências, qualidades científicas e empenhamento - qualidades muitas vezes ausentes e que urge fomentar (e exigir). As aulas de substituição, entre outras medidas, não vão, provavelmente, resolver grande coisa; se a criançada costuma dormir durante as aulas mais duas horas por semana são mais duas horas de sono. Não sendo, em prática, mais do que paliativos, parece-me que estes podem actuar mais profundamente ao nível das mentalidades. Em primeiro lugar, mostram que faltar acaba por não compensar. Em segundo porque um professor a quem se exige mais costuma, por norma, exigir também mais dos outros. Se o professor é obrigado a trabalhar e a trabalhar bem vai exigir que os outros - os alunos - também colaborem; se o «prof» de educação física já não pode ir para o café enquanto o contínuo dá a bola à rapaziada («o Isaías disse para irem jogar para o campo, ele no fim da aula vem marcar as faltas», como ouvi muitas vezes) talvez comece a pedir algum respeito aos alunos.
Subscrevo também a afirmação da ministra: «Aquilo que estamos a pedir aos professores não é nada de extraordinário». «O desafio dos grandes profissionais são os grandes problemas».
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P.S.1- Aquele Paulo Sucena é insuportável; este tipo de líderes sindicais (ainda para mais depois da greve durante os exames nacionais...) fazem-me lembrar os empresários de futebol: possivelmente necessários mas absolutamente execráveis.
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P.S.2- Gosto desta ministra.
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P.S.3- David Justino está a fazer referência - ainda que de forma subliminar - a um «pacto de regime» entre os partidos para definir rumos em sectores chave (como a educação) ou é impressão minha?

África

Finalmente. Finalmente vejo e oiço um dos gurus da «ajuda a África» sair do cliché moralista e apontar baterias à verdadeira vergonha europeia, sobretudo francesa: uma vaca europeia é protegida com 2.5 dólares de subsídios, enquanto a grande maioria das pessoas em África vive com 1 dólar. Acrescento agora outros números, Sir Geldof: a verba gasta em subsídios agrícolas nos países ricos é 6 superior à ajuda humanitária desses mesmos países. Aqui, sim, tenho vergonha de ser ocidental.
Se os activistas como Geldof continuarem com esta atitude política e realista e não simplesmente moralista, podem contar comigo na próxima manif... Ajudar África não passa pela nossa caridade mas pela nossa abertura comercial. Os africanos não querem paternalismo. Querem trabalhar. Querem uma oportunidade para entrar na dita globalização.
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Não fui eu que escrevi - li. Aqui. Mas já tinha falado disto. Aqui e aqui.

21 novembro 2005

Votações

Fiquei a saber aqui que há um concurso internacional - «Best of the blogs» - que premeia os melhores blogs a nível internacional. Fontes credíveis afirmam que O Número Primo não subiu ao pódio por escassas dezenas de votos, tendo, contudo, ficado classificado bem acima do Abrupto, Grande Loja do Queijo Limiano e Aqui é só gatas (segundo o Blogómetro são estes os três mais visitados a nível nacional). As mesmas fontes afirmaram ainda que o Sporting vai ser campeão nacional esta época (com o jovem Luís Campos ao leme) e que José Maria Martins vai ganhar as eleições para a Presidência da República.

Sharon

Lá fora a notícia já foi dada - no «Le Figaro», «Washington Post», «Financial Times» e «El País»; por aqui também o «Expresso» e o «Público» já dizem alguma coisa. Ariel Sharon, primeiro-ministro israelita, abandona o Likud e prepara-se para formar novo partido. A demissão é acompanhada do pedido ao Presidente Katsav para que este convoque eleições antecipadas.
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P.S.- Isto é importante, não é?

Quê?

O ensino da Física pode estar a chegar ao fim no Reino Unido. Esta quase-tragédia não deixa de ser compreensível: a invulgar quantidade de jovens com aspirações políticas desde cedo precave o futuro e empenha uma carreira científica promissora em nome da mais frutuosa licenciatura em «humanidades».

Ele já desconfiava

No livro «Portugueses IX» Sampaio confidencia que, quando se lhe colocou o dilema de optar entre optou a dissolução da Assembleia da República e a manutenção do mesmo Governo, ainda que liderado por novo primeiro-ministro, escolheu a segunda alternativa «não sem que antes tivesse manifestado à maioria parlamentar as maiores reservas relativamente à solução concreta [nome do primeiro-ministro] que me foi apresentada».
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Já imagino a próxima intervenção de Santana Lopes na SIC Notícias... «Se os mandatos de Jorge Sampaio podem ser considerados positivos? Olhe, eu acho que sim, mas ele pelo menos teve mais de 3 meses para mostrar o que valia, sabe como é, comigo foi tudo diferente, ninguém me respeitou, se me tivessem dado tempo iam ver o que é bom, a sorte é que eu vou andar por aí, de mim não se safam, vou andar por aí, se tivesse sido eu a dissolver a Assembleia era logo um ignorante, um fanfarrão, como foi o Sampaio está tudo bem, é um safado, esse Sampaio, eu só gostava de perguntar às pessoas se tivesse sido comigo, como reagiriam, estas coisas são muito complicadas, quando se é jovem, promissor e trabalhador e se tem um futuro radiante pela frente...»

20 novembro 2005

Breves

Condensado de 24 não permite grandes escritos, hoje apenas recomendo: este post no Desesperada Esperança e este no Portugal dos pequeninos (que remete para o Bloguítica),

Teste

1) Na sombria época medieval, toda a Europa cristã acreditava que a Terra era plana, como afirmam as Escrituras.
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2) No final do século XV o jovem Cristóvão Colombo convenceu os reis católicos, Isabel e Fernando, a financiarem uma viagem marítima para Oeste. Em 1492 viria a atingir a costa americana.
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3) Corpos mais pesados são atraídos com mais força pela Terra do que corpos mais leves.
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Apenas uma (!) destas afirmações é verdadeira.

19 novembro 2005

24

Encontrar-me-ei ocupado a partir das 22h30 de hoje; o serão prolongar-se-á até às 02h45 (segundo informação do canal 2, normalmente fiável) e a actividade será retomada amanhã de tarde. Encontrar-me-ei, durante as vinte horas em causa (24horas - 24x10minutos para comerciais), confortavelmente sentado no sofá da sala. Antecipando já um eventual chamamento do «João Pestana», preparei de antemão cinco chávenas de café e coloquei o velhinho VHS em estado de alerta.
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P.S.- Phillipe, não te preocupes: termino o relatório no domingo à noite.

Bizantinice

O caso das duas alunas da escola de Gaia é verdadeiramente insólito. Tornou-se tema de debate em poucos dias e, coisa de relativa importância, fez-me falhar um palpite. Temos então o doce amor de duas meninas interrompido pela pérfida personagem do director da escola, para quem beijinhos entre meninos e meninas está bom mas se for só entre um dos géneros já causa alguma urticária. Os pruridos ascendem à categoria de homofobia reaccionária, os progressistas (e agora os liberais) protestam, os mais conservadores aplaudem e o resto do povo acha piada - à criançada, porque miúdas com miúdas satisfaz muito fetiche recalcado, e ao puritano professor, porque de facto para tirar as carícias da escola acabou por lá meter os jornalistas.
O slogan «menina não beija» não cai bem em nenhum lado; cheira a descriminação (verdade) e é motivo de escárnio, principalmente para malta jovem que não deixa de estranhar o interminável lapso de tempo que o contínuo Manel demora a arrumar a vassoura na arrecadação da funcionária Maria. Mas também o velho «se não nos xateia, tudo bem» não deixa de ser enganador: as pessoas vêem, falam e comentam. Querer que uma relação homossexual seja igual a uma heterossexual ou é ingenuidade ou utopia (até o velho Herman, figura de orientação sexual mestiça e variável, não resiste à habitual piada «gay» da semana), e pela mesma linha arriscamo-nos a ver um dia destes dois homens de barba feita e apaixonados em animada sodomia no meio da rua, sob o pretexto de não estarem e interferir com ninguém e «aquilo» ser «coisa» do foro privado.
Eu, que não me sinto particularmente chocado com as raparigas, só acho que se deixou chegar as coisas longe de mais. Chamar as suspeitas a recanto sossegado e pedir educadamente que deixassem manifestações de carinho para locais mais privados onde não estejam sujeitas à sanha persecutória de cabecinhas mais antiquadas poderia ser tão eficaz e menos espalhafatoso que uma lei que me parece despropositada e até ridícula. Um pouco de bom senso não era pedir muito: as raparigas evitavam servir de tema a editoriais e a escola não acabava ridicularizada. Um pouco como o «boletim de sáude» que Mário Soares exigia a Alegre: candidato que é candidato deve, por livre inicativa, informar o pessoal do seu estado de saúde; mas será vergonhoso que tenha de ser criada uma lei para os obrigar a isso...

Leitura recomendada

Esta entrevista de Ayaan Hirsi Ali (imperdível) e esta crónica no «Diário Económico».

18 novembro 2005

Futurologia

Recebi hoje no correio um folhetim quadrangular que alertava para os grandes poderes do «Professor Aboubacar», vidente de créditos firmados, que trata de problemas conjugais, financeiros, laborais; também cura doenças incuráveis (não estou a brincar, o panfleto diz mesmo isto), prevê o futuro e consegue promover perdas de peso (até 30 quilos em menos de duas semanas) e até crescimentos forçados («se é baixo, não hesite, o grande Professor Aboubacar tem a solução e pode ganhar 35 centímetros em duas semanas»).
Eu, que não sou vidente, mágico ou guru, também gosto de mandar palpites. Aqui vai um: amanhã o tema do «Política à portuguesa», crónica que José António Saraiva assina no «Expresso» todos os sábados, será a eterna questão presidencial... Soares versus Cavaco. Se não acertar, deixo este blog definitivamente.

On the origin



Charles Darwin, naturalista inglês. Co-autor da teoria da Selecção Natural (o menos conhecido Wallace chegou às mesmas conclusões na mesma altura, ainda que no outro lado do planeta). O seu livro «On the origin of species» foi um sucesso polémico; ao ultrapassar o velho «lamarckismo» explicava de forma bastante satisfatória a evolução das espécies. Nunca os macacos deveram tanto a alguém.

Clinton

Bill Clinton pronunciou-se hoje acerca da questão Iraquiana. O antigo Presidente americano disse que a guerra no Iraque tinha sido «um grande erro» e que, apesar da queda de Saddam ter sido uma óptima notícia, a Administração republicana subestimou o «quão difícil seria unir o país».
Clinton salientou ainda que Bush «cometeu muitos erros, incluindo o desmantelamento total da estrutura que garantia a autoridade no Iraque».

O Crime do Carlos Coelho da Silva

Antes de mais quero deixar bem claro que sou um fã incondicional de Eça de Queirós. Para mim Eça foi, é e será sempre o melhor romancista português de todos os tempos. Portanto, foi com natural curiosidade que recebi a notícia de que “O Crime do Padre Amaro” iria ser retractado no cinema.
“O Crime do Padre Amaro” é uma das grandes obras do Eça, lançada em 1875. A história relata a chegada do jovem Amaro a uma aldeia de Leiria, com a missão de tomar conta da igreja local. Lá conhece a jovem Amélia, filha da senhora Joaneira, e apaixona-se perdidamente por ela. Os dois decidem ir contra a sociedade e envolvem-se numa ardente relação amorosa. A obra procura, na minha opinião, debater a problemática da castidade dos padres. Eça indaga se não será o homem feito de carne e osso? Não terá um padre as mesmas necessidades e desejos que todos nós temos? Porquê condená-lo a uma vida tão isolada em termos emocionais?
Contudo, o filme nada tem a ver com isto. Resisti à tentação inicial de ir logo ao cinema pois tinha medo de me decepcionar, mas depois de saber que 100 mil pessoas o tinham ido ver, decidi que tive de ir vê-lo. Hoje arrependo-me profundamente.
O realizador Carlos Coelho da Silva pegou nesta obra e transformou-a numa coisa deplorável. Quem não conhece o livro correrá o risco de pensar que o nosso bom Eça não sabia o que fazia, tendo escrito algo com diálogos tão fracos, e uma história perfeitamente redundante e previsível. Mas tal não é verdade, já que o grande culpado de toda essa redundância não é Eça mas antes o realizador Carlos Coelho da Silva, pela má escolha dos actores, pelas deturpações da história e por bastantes imprecisões.
Sei perfeitamente que esta é uma adaptação livre, mas não posso deixar de lamentar que o filme em nada retracte a realidade do livro, e que muita gente tenha com este filme o primeiro contacto com esta história de ouro da literatura portuguesa.
Uma crítica que é frequentemente feita ao cinema português é o abuso que é feito de cenas de sexo explícito. De facto isso ocorre abundantemente neste filme.
Parece que o mais importante é mostrar os corpos femininos, e que a qualidade do filme virá por acréscimo. Sei que esta observação pode parecer exagerada, mas é uma realidade a que não se pode fugir e que para bem do cinema português deveria ser alterada. Porque não apostar nas qualidades de representação das actrizes em vez de basearem-se apenas na aparência das mesmas?
Para terminar numa nota mais positiva, devo dizer que o filme “Alice” é uma pedrada no charco e assenta a sua qualidade na solidez das actuações dos seus protagonistas. O problema foi mesmo a desilusão que me causou este “Crime do Padre Amaro”. O Eça e o Amaro mereciam mais.

Retirada ou fuga?

Entre Bush e Kerry, creio ser consensual que a Europa - Esquerda ou Direita - preferia o segundo. Ainda que as diferenças entre ambos se notassem mais na administração interna que na política externa, nomeadamente na questão do terrorismo - e era este ponto que verdadeiramente separava os europeus em relação aos EUA nessa altura -, a verdade é que Kerry transmitia uma imagem de diplomata que Bush, no seu estilo «cowboy», não projectava.
Agora, mais do que nunca, as posições separam-se. O congressista democrata John Murtha fez, aliás, uma proposta no sentido de o Governo americano promover uma retirada imediata do Iraque. Eis algumas citações: «Os nossos militares estão a sofrer, o futuro do nosso país está em risco. Não pudemos continuar o caminho actual. É evidente que a continuação da actividade militar no Iraque não é o melhor para os EUA, o povo iraquiano e a região do Golfo». «Os nossos militares já completaram a sua missão e cumpriram o seu dever. Capturaram Saddam Hussein e todos os seus colaboradores directos».
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Em relação à intervenção no Iraque já tive mais certezas. Apesar de tudo, creio que a retirada, no actual momento, é um erro enorme. Considere-se errada ou certa a invasão, sair neste momento só traria mais problemas. O Iraque, fácil de ver, não é ainda uma região propriamente pacífica. Pode dizer-se que os americanos são os alvos preferenciais - e daí passar-se à ideia de que, se eles se retirassem, os atentados diminuiriam - mas esse ponto é bastante discutível. De facto, a maioria dos iraquianos foi votar (taxa de ida às urnas que faria corar qualquer país ocidental) e, facto a salientar, está razoavelmente melhor do que na altura de Saddam. Não é o povo que faz atentados - é um pequeno grupo de extremistas que sonha ainda com um passado não muito longínquo.
Não esquecer também os perigos que qualquer saída apressada poderia acarretar. Num país sem qualquer cultura democrática enraizada, deixar tudo aos que lá ficam pode ser perigoso (a descolonização dos anos 70 ainda deve atormentar muitas consciências). Implementar uma democracia e um verdadeiro Estado de Direito no Iraque não é coisa para um ano - é coisa para uma década, possivelmente para uma geração. Não se impõe uma democracia: criam-se condições - económicas, culturais, políticas, de segurança - para que haja condições para que ela possa emergir. Demora tempo? Sim. Consome recursos? Claro. Mas os benefícios - a longo prazo - podem exceder largamente os custos. Uma Estado de Direito que funcione de forma democrática em pleno Médio-Oriente pode ser um factor de estabilização.
Dizer-se que o Islão é uma religião que, pela sua génese, é contrária à democracia (como me disse um professor recentemente em debate privado) é completamente errado: uma religião é aquilo que as pessoas fazem dela; será que a Bíblia é hoje em dia seguida à risca, mesmo pelos católicos? Claro que não. Relativiza-se. Diz-se que os seus preceitos têm de ser adequados aos dias de hoje. Também o mesmo poderia ser feito com o Corão. Não há nenhuma religião estruturalmente má ou genuinamente boa: qualquer uma é um conjunto mais ou menos geral de regras transmitidas (normalmente por livros sagrados) passíveis de serem adaptadas (creio que em nenhuma passagem da Bíblia se defende a guerra pela expansão da fé, como aconteceu nas Cruzadas).
Por muito que custe permanecer no Iraque, uma saída neste momento poderia trazer consequências bastante desagradáveis.

Politiquice

Completamente de acordo com o que o Bruno Alves escreve no Desesperada Esperança.

Aproveitar a onda

No «Le Figaro» diz-se* isto:
«Arabic language forums have pounced on of the crisis in the suburbs. "Islamo-nauts" from all over the world, who take part in forums on such sites as tajdeed.net, alsaha.com and alfirdaous.net, have been denouncing the "crusader police forces" and "France, land of the infidel" that fights against the "mujahidin", "zionized", "vile" "France the enemy of Muslims", "colonization".»
«The teargas grenade that was fired into a Clichy-sous-Bois mosque during the night of 30 to 31 October is given prominence as allegedly demonstrating that Muslims are indeed under attack.»
«Anne Giudicelli, who is the director of Terrorisc, a consulting firm, and the author of La Caillera , (published by Jacques Bertoin), worries about these exchanges: "It starts with an explanation that France's Muslims are being attacked, then that they must be defended, and finally that the Muslim world must mobilize for this. Will the next phase be to definitely conclude that France has become a land of jihad?" »
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Já era de esperar que organizações extremistas e potencialmente terroristas tentassem capitalizar em seu favor os acontecimentos que estão a ter lugar em França. Não é difícil. Os jovens, que não têm referências, destroem escolas e queimam carros; primeiro, diz-se-lhes que o fazem porque a França os oprime; depois, diz-se-lhes que têm uma forma de lutar contra ela. Não é difícil ver o fim da estória: a criançada segue o pregador e abraça a crença, que permite, ao menos, pertencer a alguma coisa de que valha a pena fazer parte, ainda que apenas nas suas mentes delirantes (ler também o que foi escrito aqui).
Entretanto, o primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, afirmou hoje que a ameaça terrorista nunca foi tão perigosa em França.
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*Via Elise

17 novembro 2005

Descrédito

Desde há algum tempo para cá que as minhas visitas a este blog têm vindo a fazer-se de forma cada vez mais espaçada. Em virtude de alguns posts pueris (a que cheguei a fazer referência neste blog), mas infelizmente cada vez mais recorrentes, o bichos-carpinteiros foi deixando, pouco a pouco, de fazer parte das minhas consultas diárias para engrossar aquele grupo de blogs que frequento apenas esporadicamente.
Hoje, a meio de uma visita, dei de contas com esta coisa (absolutamente repugnante) e constatei que, desde a minha última visita, o nível não subiu muito.
Com efeito, se fazer referências em tom jocoso ao «bolo rei» ainda pode ser encarado como brincadeiras de mau gosto, e acusar Cavaco Silva de ser figura pouco democrática se pode inserir numa determinada escola de fazer política pouco séria, associações deste género são inqualificáveis. Seriam desculpáveis caso o seu autor fosse um adolescente irresponsável mas não podem ser toleradas quando são escritas por alguém de posição elevada (que é, além do mais dirigente de um partido com lugar na Assembleia); é vilificante para a própria e mancha a candidatura de que faz parte.
Também pode dar-se o caso da personalidade em questão não saber o impacte que o seu blog tem. Estariam assim explicados os posts teenager em tom provocatório (e, de facto, por vezes tenho a sensação que Joana Amaral Dias pura e simplesmente não lê a sua caixa de comentários).
Para já, o bichos-carpinteiros perdeu um leitor - e Mário Soares não ganhou um apoiante.

Adenda

O cenário de que falei aqui - há poucos momentos - pode, afinal de contas, ser ainda pior. É o que se diz por aqui.

Estatísticas

O jornal «Público» (a que só tive acesso a esta infeliz - e tardia - hora) faz hoje primeira página com o desemprego crescente. Título: «Número de licenciados no desemprego duplicou»; subtítulo: «já há 430 mil desempregados, 60 mil com formação superior». Abre-se o jornal e acede-se a mais alguns dados interessantes. Atenção: tudo isto são dados do Instituto Nacional de estatísticas.
  • o desemprego, no terceiro trimestre de 2005, atingia cerca de 430 mil pessoas - o correspondente a 7,7% da população activa.
  • em Outubro de 2005 havia quase meio milhão de pessoas inscritas em centros de emprego.
  • a fase de maior crescimento do desemprego deu-se no período 2002/03.
  • 24,8% do número total de desempregados mantém essa condição durante mais de dois anos.
  • o número de desempregados licenciados ascende a 59600.

Apesar de tudo isto, ainda há quem queira aumentar os subsídios de desemprego (verdadeira lógica da batata: com finanças em mau estado gasta-se mais dinheiro com cada vez mais pessoas) e manter a rigidez do código laboral (não sendo questão sensível, é óbvio que para um jovem é melhor ter um trabalho precário e mal pago que não ter trabalho de todo). Há pouco tempo, foi a vez do Presidente da República de clamar por «mais formação». Sim, do que nós precisamos é mais e mais licenciados, mais pessoas cultas, inteligentes e letradas a engrossar as filas dos centros de emprego. Teria sido mais arguto falar na necessidade de criar mais empregos e estimular a competitividade (nome feio pelas consequências que traz - ou pelas medidas que ela exige). Teria sido mais interessante debater o número de advogados que todos os anos são formados nas nossas universidades (muitos dos quais vão contribuir para estatísticas deste género) enquanto se analisava o número de médicos (a Ordem dos médicos não quer mais vagas porque isso «degradaria o ensino»). Nas licenciaturas de cariz científico, o panorama é mesmo desolador. A solução é ir trabalhar para fora ou mendigar qualquer coisita por aqui, sinal óbvio e inequívoco de que o que de bom se produz pouco é aproveitado e daquilo que de mau se cria muito pouco é desperdiçado. Físico, químico ou biólogo? Não há muito a fazer: porta de saída ou o chão das casas de banho, é pegar ou largar. Já só falta aparecer um qualquer iluminado a dizer que «há vida para lá das estatísticas»...

Crime sem atenuantes

Afinal parece que prisioneiros iraquianos (maioritariamente sunitas) estão a ser torturados. Depois de alguns soldados americanos, os culpados parecem ser os capachos do Governo (maioritariamente xiita).
Posto isto, coisas que não se devem fazer:
1) Desconstruir estes actos e procurar «as razões profundas» por detrás destas torturas;
2) Tentar entender e compreender;
3) (apenas) Condenar, não esquecendo que as naturais divergências entre os sunitas e os xiitas tornam as relações entre eles muito difíceis;
4) Atacar... as causas;
5) Respeitar o «direito à diferença»;
Aguardam-se os próximos capítulos.

Questão de nível

Quando Mário Soares anunciou a sua candidatura não faltou quem de imediato o atacasse com os antigos argumentos. Pai da República? Inimigo da ditadura? Big deal! Mas também nacionalizou, deixou-se enredar no velho credo socialista e acabou por ser um dos responsáveis pelo atraso que Portugal hoje sente - foi o que se ouviu.
Não discutindo os juízos, parece-me que certas coisas se esquecem. Primeiro: Soares foi o opositor de um extremista como Cunhal. Se é por sua causa que Portugal está hoje mal de saúde, é (ou foi) por sua causa que Portugal não está hoje em estado comatoso. Segundo: quem não era socialista nos anos 70? Quem não se deixava seduzir por uma teoria que prometia o paraíso?
Não. O mal de Soares não foi o seu passado - mas o facto de não ter mudado. Hoje, não parece sério culpar a Globalização pelos males de todo o mundo ou lançar as habituais farpas ao «neoliberalismo». Dizer que «o dinheiro aparece, o que é preciso é vontade» é, de igual modo, irresponsável e, para além do mais, um insulto a todos os que hoje estão desempregados por causa de ideias como essa.
Apesar de tudo, não é uma fixação ao passado que me faz perder o respeito por aquilo que foi e aquilo que representou num tempo difícil. Por isso mesmo, custa-me ver uma figura do seu estatuto descer ao nível dos ataques soezes e picardias de mau gosto. Chamar complexado, professor de finanças e inculto a um adversário - enquanto se ouve a sua mandatária para a juventude fazer trocadilhos com o malfadado bolo-rei - muda a imagem do «bom avôzinho» e mostra a face de velhaco solerte. Que vai fazer a seguir? Acusar Louçã de ser economista? Acusar Jerónimo de não ter formação humanista nem formação científica - em boa verdade, formação nenhuma? Acusar Alegre de ser mau poeta? Nem Cavaco merecia oposição tão degradante nem ele merecia descer tão baixo.
Como dizia uma figura popularizada por um cómico da nossa praça (também ele a dar as últimas...), «não havia necessidade»...

Blasfemar

Estado de sítio na blogosfera. CAA (do qual entretante passámos a conhecer o nome) do Blasfémias comete alguns excessos e acaba por ser veementemente censurado aqui; os termos empregues - «miserável sem qualificação», «verme», «imbecil», «lixo», entre outros mimos - não passam, apesar de tudo, de tentativas de vingar insulto com insulto e de.
Não me parece caso para se falar em «tentativa de censura» - antes em falta de educação; também não me parece que se deva dar demasiado crédito a quem acaba por se aviltar a si mesmo com o teor dos posts que escreveu.

16 novembro 2005

Na terceira pessoa

«O Dr.Mário Soares, em vez de mandar os jornalistas falar com o seu porta-voz, poderia muito em fazer de porta-voz de si mesmo, dizendo «sobre isso ou aquilo o Dr.Mário Soares pensa isto ou aquilo». E o prof.Cavaco, em vez de obstruir a boca com pedaços de bolo-rei quando não lhe convém responder, poderia muito bem informar que «o prof.Cavaco não fala porque é feio falar com a boca cheia». A vantagem disto é óbvia: os candidatos à presidência adquiririam um pouco mais de majestade, um pouco mais daquela dignidade inerente ao cargo que pretendem ocupar e, como herdeiros da cadeira de D.João VI, tornariam bem claro que uma coisa é o que são porque ocupam um cargo e a outra o que são como plebeus, que interessa muito pouco. Para gente comum, estamos nós cá todos.»
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Esta crónica de José Júdice é ironia ou brincadeira?

Alfinetada

Candidato à presidência da República afirma querer «abanar as convicções» de um país. Se for eleito, o mais certo é acabar por abanar - e abalar - a economia e as estruturas do país em causa. Diz também que quer «trazer ideias novas». Enfim, ideias actuais, inovadoras.

Critérios

O que significa ser o maior clube do mundo?
O que tem mais adeptos? O que tem mais títulos? O que faz mais dinheiro? O que arrebata mais nos leilões de jogadores? O que tem mais projecção? O que é mais conhecido em todo o mundo? O que tem a melhor equipa? O que é reconhecido pelos adeptos de todo o mundo como o maior clube do mundo? O que é reconhecido pelos treinadores, dirigentes e jogadores de todo o mundo como o maior clube do mundo? O que tem mais sócios? Fica a pergunta.

15 novembro 2005

Não entendem?

Valores

Acabei de ouvir o comunicado de Jacques Chirac à Nação francesa.
De um discurso que a RTP apenas seleccionou algumas partes, retive uma passagem; não me lembro - nem consigo citar correctamente de cabeça - mas falava de criar «valores e referências» para os jovens.
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Ouvir um político falar de «valores e referências» ao mesmo tempo que ouvimos sociólogos a falar de «pós-modernidade» e «relativismo» causa arrepios na espinha.
Como conciliar a necessidade de valores com a afirmação de que não há valores mais ou menos certos?
Como dizer a um jovem que há coisas correctas e coisas erradas quando, concomitantemente, se ouve que não nos podemos basear nas nossas referências morais e éticas - uma vez que estas não são absolutas?
O que, é afinal de contas, um valor, se não uma mera construção social?
Este caminho - que põe em causa toda e qualquer concepção de sociedade - traz naturais e evidentes problemas.
Primeiro, tudo é aceitável. Permite-se a excisão do clítoris e a violência familiar com base numa aceitação da diferença de ideias e divergências culturais; tenta-se compreender o terrorismo e procurar as suas causas no seio da nossa própria sociedade - o que pode ser legítimo para um sociólogo, porque cientificamente pertinente, mas desastroso para um político (apesar de também o nazismo ter tido as suas causas, parece hoje em dia irrisório que os Aliados tivessem procurado «entender» o nazismo); envergonhamo-nos do nosso passado e lamentamos a nossa história, olhando-a como uma página negra.
Em segundo, estas ideias - que muitas vezes ultrapassam a ténue linha que separa a aceitação da diferença da exaltação da diferença - acabam, naturalmente, por produzir a crise de valores de que Chirac fala. Que honra - ou simples prazer - tem um jovem em pertencer a um mundo (o Ocidental) que oprimiu povos, esmagou civilizações e escravizou pessoas? Que motivação tem alguém para praticar o bem ou ser solidário quando isto deixa de ser considerado uma virtude e passa a ser olhado como produto de uma concepção religiosa (cristã) que não é absoluta? Que satisfação traz o sentimento de pertença a uma cultura quando se diz que não há nada de especial em lhe pertencer? Como orientar o comportamento quando não há modelos a seguir ou preceitos a recolher?
No meio de tudo isto, as elites, que deviam ter um papel de condução, escondem-se. Tentam confundir-se com um povo a que não pertencem - porque é maneira de «sacudir o capote» - ou diluem-se em posições vagas e pós-modernas que deliram com Derrida e acham imensa piada à aceitação do «outro» simplesmente porque é diferente.
A Esquerda mais extremista, que tem sido um dos grandes pontos de difusão desta «escola», acaba por promover aquilo que de certa forma condena, ao fazer o jogo de um capitalismo que se nutre exactamente da falta de valores.
Numa sociedade em que tudo é aceitável, tudo se pode vender. Numa sociedade em que não há valores a servir de guia, também não há capacidade para conter o mercado. É portanto natural que ele degenere e crie construções funestas - então, mas se perante um capitalismo, que se move com base no indivíduo, se diz que este não deve orientar o comportamento com base numa ética (qualquer que ela seja)!
A isto tudo acrescenta-se a dificuldade de implementar normas ou novos códigos. Confunde-se, por exemplo, o nacionalismo com fascismo. O ideal nacionalista, que não é, de qualquer forma algo que me estimule muito, permite dar um sentido e uma identidade ao indivíduo. Permite que ele tenha motivação para trabalhar com afinco pensando no bem estar nacional; ou permite que ele respeite o vizinho ou o colega com base num mútuo sentimento de pertença; ou permite, até, que, se tudo o mais falhar, ele tenha ao menos orgulho naquilo que é.
É o nacionalismo um valor relativo? É, claro. Como todos os outros, releva duma construção social. Mas, apesar de não o podermos fundamentar com base em preceitos morais absolutos, ele pode ser de uma utilidade extrema. Se não impomos sequer regras morais, como legitimar regras sociais?

14 novembro 2005

1=2 ?

Tomem nota e sigam com atenção.
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Premissa 1: a,b>0
Premissa 2: a=b
Comecemos por multiplicar ambos os termos por b:
ab=bb
Agora, tire-se aa (ou a ao quadrado) a cada termo:
ab-aa=bb-aa
Estamos neste momento prontos a factorizar os termos:
a(b-a)=(b+a)(b-a)
E, neste ponto, dividir os dois lados por (b-a):
a=b+a
Como a=b, podemos substituir um pelo outro:
a=a+a
Passamos um dos a para o outro lado e:
a=2a
Dividindo os dois termos por a:
1=2
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Onde está o passo errado? Um doce (e um louvor) a quem (me ajudar a) resolver o problema.

Decisões

Li há tempos, num blog cujo nome não consigo agora precisar, que havia dois partidos portugueses que poderiam, com alguns pequenos retoques, servir de receptáculo a uma matriz ideológica liberal.
O primeiro era o PSD; o segundo, obviamente, o CDS/PP. O PSD seria ideologicamente mais maleável - mas carregava o peso da Social-democracia; o CDS seria menos dogmático em termos de economia e dimensão da intervenção estatal - mas o facto de ter uma «doutrina» moral e ética bastante mais conservadora do que o ideal era um óbice de peso.
Pelo menos aparentemente, o CDS não está para aí virado.

Concordância

A Igreja católica está a favor da introdução da educação sexual nas escolas. Aliás, até «aplaude» a coisa. Pelo menos, é isso que se depreende do título desta notícia.
Contudo, no desenvolvimento da notícia aquilo que se lê é que, afinal, a Igreja apenas está satisfeita com o facto desta matéria não ser abordada numa «disciplina específica, mas simplesmente no contexto da educação para a saúde pública». Mais: D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, afirmou temer que «a concentração do assunto na questão da saúde possa induzir os jovens a uma compreensão redutora da sexualidade».
É impressão minha ou o título não corresponde exactamente ao corpo da notícia?

13 novembro 2005

Os limites das ciências naturais

Via aforismos e afins descobri um blog invulgar. O último post versa sobre os limites das ciências naturais. Vou tentar sintetizar recorrendo a algumas citações:
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«Heidegger foi o primeiro (acho eu) que problematizou a questao do 'Ser' (what do we mean when we say that something is?). Que existem diferentes formas de ser pode ser ilustrado recorrendo a um exemplo: um martelo pode ser visto como um objecto com propriedades fisicas que as ciencias naturais estudam (Heidegger chama a isto 'present-at-hand') ou um instrumento que pertence a uma rede de interesses prácticos relacionados com materiais (pregos, madeira) para determinados objectivos (construir casas, mesas...) utilizado por humanos (Heidegger chama a iste modo de ser 'ready-to-hand'). Aquilo que um martelo verdadeiramente "é" é uma pergunta vazia enquanto nao se especificar qual o objectivo do nosso inquérito. Se for um martelo enquanto objecto temos as ciências naturais, se for enquanto instrumento o seu modo de ser pertence a uma rede complexa de materiais, objectivos, utilizadores... São formas de ser distintas e a maneira de abordar esses dois fenómenos tambem varia. A questão principal consiste em saber se de um 'martelo-como-objecto' podemos deduzir 'martelo-como-instrumento'. Se isto fosse possível poderíamos em princípio ter uma espécie de ciência de Tudo (uma super física ou algo assim).»
«(...) a nossa própria forma de ser. Nós nao somos um organismo, um objecto, ou uma entidade que "é" (este "é" deve ser lido como algo que tem propriedades, algo sobre o qual podemos atribuir desejos, capacidades). Nós somos sobretudo uma permanente possibilidade. Se tentarmos reduzir o fenómeno a algo que não seja este complexo hifenizado, estamos a mudar o fenómeno... e assim deixamos de 'estudar' o fenómeno 'Ser Humano', reduzindo-o a um mero organismo...»
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Parece-me que a questão fundamental aqui prende-se com a definição do «ser» de uma coisa. Através do estudo das ciências naturais podemos, pelo menos em princípio, estudar um objecto (não abordo as dificuldades práticas deste estudo - julgo que isso não vem ao caso; apenas postulo que podemos, em teoria, aplicar os nossos conhecimentos teóricos a um qualquer objecto).
O primeiro erro aqui é pensar que precisamos de várias ciências para descrever o dito - por exemplo, um animal: a biologia para descrever o seu sistema fisiológico, a química para explicitar as trocas a nível celular, a física para analisar as ondas eléctricas em que se funda a actividade cerebral.
De facto, apenas precisamos da mais fundamental de todas: a física. Os conceitos da química e da biologia - e respectivas leis - emergem naturalmente delas. Não estou a afirmar que uma ciência é mais importante que outra: afirmo que umas são mais fundamentais que outras. É destas mais fundamentais que podemos deduzir as menos fundamentais.
Um exemplo: um dos mecanismos que permite a evolução das espécies - a lei darwinista da transmissão à descendência dos caracteres individuais não adquiridos.
Darwin conseguiu elaborar uma teoria que explicava bastante bem a evolução - mas não conseguiu mostrar o porquê de apenas os caracteres (ou características) que nascem com os indivíduos serem transmitidos de geração em geração. A descoberta só foi feita (enfim, mais ou menos) por Mendel, que inaugurou o estudo do que mais tarde se viria a chamar de genética. Em boa verdade, não foi um naturalista como Darwin que explicou os fundamentos da evolução - mas um biólogo, Mendel.
Chegámos ao fundamental? Nem pensar. Anos mais tarde Watson e Crick provaram que o seu modelo do ADN permitia explicar como é que essas características se transmitiam. Do modelo de dupla hélice enrolada - uma conquista da química - «emergiam» naturalmente as leis da genética.
Contudo, podemos actuar como uma criança mimada e continuar a perguntar: «porquê»? Nesse caso, precisamos de ir mais fundo. Se as leis que regem o ADN, sua transmissão e replicação, são as leis da química, temos de procurar o porquê destas leis na física. Hoje, isso já foi feito (pelo menos na maior parte dos casos). A física (especialmente através da física quântica) explica os princípios da química de forma muito eficaz.
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Entrei nestas explicações laterais apenas para de certa forma justificar a seguinte asserção: de um conjunto relativamente curto de leis básicas podemos deduzir todas as outras.
No caso de um martelo, este poderia ser descrito como um conjunto de partículas elementares dispostas de uma certa forma - explicitada através de uma estrutura geométrica; o 'ser' do martelo é dado pela adição dos princípios básicos da física a este «estado inicial» que descrevemos. Daqui se podem deduzir todas as outras propriedades que conhecemos: cor, densidade, forma, peso, rugosidade, brilho - não há lugar para o holismo.
A questão que Heidegger põe - se é que a entendi bem no post, uma vez que nunca li o autor - é falsa porque pressupõe que as propriedades «ready to hand» de um objecto são propriedades desse mesmo objecto.
Não me parece que sejam. Repare-se que essas propriedades derivam não só do objecto mas também e em última análise da pessoa em ordem a quem o objecto é disposto: o modo de ser «ready to hand» de um computador difere muito de um engenheiro de informática para um camponês - apesar de o objecto ser o mesmo.
A diferença não deve ser procurada no objecto em causa mas nos seus interpretadores. O «significado» de um objecto deriva sempre dos objectivos, comportamentos e processos mentais da pessoa que o tenta compreender e com ele estabelece relação. Se não houver pessoa - ou alguém com capacidade de pensamento - então resta a descrição física.
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Isto não invalida o que disse antes.
As pessoas podem também ser descritas de forma física, segundo os pressupostos dos parágrafos anteriores. Dessa descrição emerge naturalmente a pessoa como ser consciente e com processos mentais, expectativas e preferências.
A minha ideia é que ambas as formas de «ser» propostas por Heidegger podem ser descritas através das ciências naturais. Simplesmente apenas precisamos de considerar o objecto em si mesmo num dos casos e no outro é-nos necessário levar em conta a entidade que dá valor ao objecto. A intersecção de duas análises a dois objectos - o que observa e o que é observado - dá-nos o «ser em si» e o «ser para o outro».
Não é nada de metafísico: se quisermos saber o tempo que um grave leva a atingir o chão depois de ter sido atirado de um monte, não podemos apenas procurar essa propriedade no grave - precisamos também de conhecer algumas das propriedades do monte, como a altura.
Diz-se ainda que o fenómeno «Ser Humano» não pode ser reduzido a um mero organismo - que ele é uma permanente possibilidade. O que penso é que é da materialidade que a complexidade do ser humano ganha vida. Os processos mentais, o raciocínio e a consciência provêm de estruturas físicas - como o cérebro - que são também dominadas pelas mesmas leis básicas que regem tudo o resto.
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Tudo isto é válido numa perspectiva meramente teórica. Não temos nenhuma teoria final - pelo menos por enquanto - e é pouco sensato pensar que temos o tempo e a capacidade de cálculo para deduzir teorias complexas que expliquem coisas complexas (como a cognição ou a consciência) através duma teoria mais básica. É uma posição «idealista», sem verdadeiro significado prático.
Há ainda outra questão pertinente e estimulante - mas de relevância nula para o pensamento prático - que a questão do carácter da ciência. Modelo, estabelecimento de relação de causa efeito, descoberta de verdade, o quê afinal? Aqui entram em choque duas posições. O positivismo (advogado por Bento de Jesus Caraça, por exemplo), que pretende uma ciência que se funde na capacidade de explicar os fenómenos e os prever eficazmente, e o plantonismo, que teve como seguidores, por exemplo, Einstein. Esta segunda postura afirma a existência de uma realidade oculta por detrás dos factos: o número pi (3,14...) existe mesmo mesmo; a matemática não é criada - é descoberta.
Prefiro a segunda posição. Não consigo conceber um universo que não seja determinado por leis matemáticas por detrás dos factos. Se temos capacidade de as descobrir ou não, isso já é outra estória. Não há aqui nada de divino: é simplesmente a crença numa ordem - que verificamos no nosso quotidiano - e que é expressa matematicamente. A matemática não é um instrumento criado por nós para modelar e explicar o universo (como acontece com a linguagem, que é uma forma imperfeita de reproduzir pensamentos), ela é a verdadeira linguagem em que se expressa o universo. E ele expressar-se-ia dessa forma quer nos existíssemos ou não.
Claro que não consigo demonstrar a validade do raciocínio matemático. Os axiomas por natureza não se demonstram - assumem-se. De igual modo, também não vejo forma de provar a razoabilidade do pensamento lógico. Mas este é o único método de raciocínio que conhecemos. De forma bastante estranha, nunca ninguém tentou fundar uma asserção através de bases não lógicas. Há coisas que podemos pensar como possibilidades mas cuja possível existência não podemos conjecturar. Podemos pensar que existe circunferência cujo perímetro a dividir pelo diâmetro não seja igual ao número «pi» (numa geometria euclidiana, claro) - podemos verbalizar esse desejo; mas não podemos por um momento que seja conceber essa circunferência ou imaginá-la da mesma forma que conseguimos imaginar um mundo em que a força da gravidade não siga a lei do quadrado inverso. Isto leva-me à ideia de que há realidades que não conseguimos conceber. Raciocinamos de forma lógica talvez porque ela esteja impregnada no nosso raciocínio, talvez porque ela constitui as bases do nosso pensamento. Qualquer pessoa, quando posta perante um silogismo simples, assume imediatamente a sua justeza. Não pergunta porquê. Mais: não consegue sequer imaginar uma forma de achar que, se A está contido em B e B está contido em C (premissas), então A pode não estar contido em C (conclusão logicamente falsa).
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P.S.- No final de escrever o post fiz uma pequena revisão. Confesso que não é das coisas mais claras que já escrevi.