02 outubro 2005

Religião e ciência - conflito ou complementaridade?

Li na sexta-feira, num blogue relativamente recente, um Post que me interessou bastante. Pensei em deixar um comentário no blogue em causa mas decidi-me por dar uma resposta um pouco mais elaborada. Aqui está ela.
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Este Post aborda um assunto claro: a relação entre a ciência e religião.
É importante clarificar isto para afastar desde já interpretações enviezada: uma coisa é debater a existência de Deus; outra, bem diferente, é analisar a compatibilidade entre o conhecimento científico e os dogmas religiosos.
Entram em conflito, ou, por outro lado, complementam-se?
São contraditórios - e por isso inconciliáveis - ou apenas distintos, na medida em que tentam explicar diferentes «ordens» de fenómenos?
Sublinhar isto é importante: se a existência de um ente superior não está sujeita a discussão - por se tratar de uma questão de existência ou não de fé (e a fé escapa à esfera do racional) -, o choque - pelo menos aparente - entre a teologia e a ciência pode, creio eu, ser debatido mesmo entre crentes e laicos.
O Rui pensa, se é que interpretei correctamente o seu Post, que a ciência não entra no domínio da religião uma vez que esta se debruça sobre as questões «metafísicas» (espero não estar a usar um adjectivo abusivo) da existência: o sentido da vida, o futuro do homem, etc., enquanto que a outra abrange apenas a área do «cognoscível» (termo dúbio e que pode dar azo a interpretações erradas). De qualquer forma, a minha opinião é completamente diferente.
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Creio que muito dificilmente estarei enganado se afirmar que todas as religiões - sem excepção - têm em comum alguns aspectos: crença num ser superior e muito poderoso (ainda que a omnipotência no seu sentido mais lato apenas seja apanágio das religiões monoteístas), formulação de uma cosmogonia própria (história da criação do universo e do ser humano), um conjunto de histórias e contos (como os trabalhos de Hércules ou o Dilúvio Universal) e um quadro de valores éticos.
A ciência por seu lado, tem como objectivo criar quadros teóricos que permitam explicar a realidade, estabelecendo relações de causa-efeito. Deve fornecer explicações racionais dos fenómenos observados e criar um quadro lógico e coerente cujas previsões se adequem aos dados obtidos empiricamente.
É aqui que «a porca torce o rabo»: para os fenómenos, ciência e religião fornecem explicações diferentes. Exemplos? Vários: a origem do homem (criacionismo versus darwinismo), as órbitas dos planetas (modelo heliocêntrico versus modelo geocêntrico), a criação da terra (a criação em 6 dias versus o princípio do uniformitarismo de Lyell), entre muitos outros.
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Claro que se pode argumentar - como se costuma fazer - que as crenças bíblicas (estou a usar o exemplo concreto da religião cristã mas o raciocínio é válido para qualquer outra) não são relatos verídicos mas antes histórias em registo metafórico e hiperbólico.
Contudo, não é isso que acontece. Pelo menos até agora, a posição da Igreja tem sido de desconfiança em relação a tudo aquilo que vai contra os dogmas cristãos a de vacilante aceitação quando as teorias científicas em questão começam a ser aceites de forma mais ou menos unânime não só na comunidade científica mas também na sociedade em geral.
Um exemplo ilustra bem o que acabei de dizer.
No século XIX, quando Darwin apresentou a sua teoria da selecção natural, esta foi prontamente rejeitada pela Igreja. Porquê? Porque ia contra aquilo que dizia a Bíblia.
Quando as mentalidades mudaram - e se tornava difícil continuar a fechar os olhos à evidência - a Igreja acedeu por fim a aceitar que Adão e Eva não terão passado, muito provavelmente, de filhos de símios.
Os catecismos da altura faziam, contudo, uma ressalva: apesar da ascendência felpuda do ser humano, na impossibilidade da ciência da altura identificar o mecanismo por detrás da evolução humana era prova irrefutável da mão Divina do Senhor. Ou seja, Deus podia não ter criado o homem mas sem dúvida que tinha mexido os cordelinhos.
Infelizmente, poucos anos depois os notáveis avanços da genética vieram explicar quais os mecanismos por detrás da evolução humana - e a Igreja não tardou a descobrir que era razoavelmente difícil ver uma Ordem Divina por detrás de algo de nome tão abjecto como «ácido desoxirribonucleico».
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Aquilo que pretendia salientar com isto é o seguinte: a Igreja tem tomado à letra todas as crenças bíblicas até que estas sejam desmistificados pela ciência. Ela não estabelece a priori qualquer distinção entre dogmas «verdadeiros» (no sentido histórico) e dogmas «metafóricos» - ao invés disso, utiliza um critério algo «popperiano» segundo o qual todos os dogmas são verdadeiros até serem refutados.
A religião está, portanto, a recuar perante a ciência.
Não há uma delimitação clara de campos: de facto, uma começa, cada vez mais, a penetrar na zona de acção da outra e a roubar-lhe as explicações que outrora constituíam o seu monopólio.
E, fácil de ver, quanto mais a ciência avança, mais a religião recua. Se há dois mil anos atrás o homem podia ver Deus nas árvores, no chão, nos planetas, no início do mundo, no fogo e até nos outros homens, hoje em dia apenas vê o código génetico das árvores, a estrutura mineral do solo, as leis do movimento de Newton nos planetas, o big bang da Relatividade-geral de Einstein, as forças químicas no fogo e a neurobiologia no homem e no seu comportamento.
Quanto mais a ciência progride, mais nos temos de conformar com uma ideia de religião cuja essência é a simples crença num Deus superior que, a despeito de todo um enorme (e hipotético?) poder, permanece inactivo e oculto.
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Falta ainda refutar outro argumento.
Diz-se no outro blogue que apesar de todo o poder da ciência, ela será sempre incapaz de penetrar num domínio da religião: a questão do sentido da vida. Quem somos, para onde vamos, porque estamos aqui.
É óbvio que a ciência não dá resposta a isso.
Mas isso tem uma explicação: a ciência não concebe o homem como uma entidade que vive com um propósito - isso é uma crença religiosa.
Ao afirmarmos a incapacidade da ciência de compreender o sentido da vida, estamos a incorrer na falácia de procurarmos na religião a explicação para algo que ela própria postula! Um pouco como tentarmos deduzir os axiomas da matemática a partir de um teorema - em termos lógicos, é impossivel.
Duvido muito que a maioria das pessoas pense que a vida das minhocas tem um «sentido», ou que as pedras e os calhaus têm um propósito de vida. Claro que uma pessoa não é uma pedra ou uma minhoca, mas a diferença entre eles - pelo menos ao nível da ciência mais fundamental, a física - não é estrutural mas sim de grau: um homem é biologicamente mais complexo que uma minhoca e tem uma estrutura química muito mais diversificada que uma pedra, mas no fundo tudo se resume a um aglomerado de partículas elementares (átomos, protões, cordas ou o que seja) que se regem segundo as mesmas leis.
É por isso que qualquer argumentação que diferencie campos de acção entre a ciência e a religião com base nesta pretensa lacuna, está a priori viciada, por se basear numa concepção «religiosa» da existência.
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É esta a minha posição. O Rui disse ainda que «ela própria [a ciência] admite não ser ainda capaz de compreender (grande parte do qual não será nunca explicado, na minha opinião)». Acontece que isto não vem ao caso; aquilo que ela não consegue explicar (que é muito, realmente), são questões com que a religião não se preocupa - e que também não explica: a unificação das forças fundamentais da natureza, a geometria do universo ao nível quântico, o funcionamento exacto do cérebro humano, etc., etc. Se repararmos bem, notamos que estas questões só puderam ser postas devido ao desenvolvimento ciêntifico: são perguntas que nada têm que ver com questões religiosas.
Apenas uma última nota, sem real importância para a questão e apenas a título de curiosidade: a grande questão da física actual é aquilo que se chama a «teoria do tudo», que é, basicamente, uma teoria que permita explicar... enfim, tudo. A ideia é descobrir um conjunto de equações a partir das quais todas as outras teorias de todos os outros campos (biologia, psicologia, química, etc.) possam ser deduzidas. Para um crente fervoroso, a descoberta da teoria em questão teria um só significado: conhecer o pensamento de Deus. Mas isso... isso fica para outro Post.

Comentários

6 Comments:

At segunda-feira, outubro 03, 2005 12:43:00 da tarde, Blogger Rui Rocha said...

Está muito boa a tua argumentação, mas de facto apenas nos estamos a referir a um singelo aspecto da questão religiosa. Fica a promessa de futuros posts que "ampliem" o assunto, porque ele é sobremaneira complexo. Vou pôr um link nos comentários do meu post para o teu post, para que haja os (hipotéticos) futuros leitores confrontem ambas as perspectivas.

 
At segunda-feira, outubro 03, 2005 2:51:00 da tarde, Blogger ana paula said...

de facto a tua argumentação é muito coesa. até agora limitava a minha opinião em relação a este assunto à máxima de que dependendo de Deus a Terra seria plana e o Sol giraria em volta da Terra. Podias te debruçar sobre este tema e fazer tipo "o ensaio da Religião e Ciência". Era interessante. Tens de começar por algum lado.

 
At segunda-feira, outubro 03, 2005 3:02:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Caro, acho que não existem incompatibilidades entre o Darwinismo e a crença num Deus Criador. Aliás, a Igreja Católica tem muito mais facilidade em lidar com a questão do que os protestantes puritanos, que interpretam a bíblia de forma literal. O que a Biblia diz é que Deus criou o homem, mas refere como. E porque não através da evolução do ADN e da selecção natural? Mas vou ler com mais atenção o teu texto para depois o comentar no meu blog...

 
At segunda-feira, outubro 03, 2005 3:04:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

CORRECÇÃO: Caro, acho que não existem incompatibilidades entre o Darwinismo e a crença num Deus Criador. Aliás, a Igreja Católica tem muito mais facilidade em lidar com a questão do que os protestantes puritanos, que interpretam a bíblia de forma literal. O que a Biblia diz é que Deus criou o homem, mas não refere como. E porque não através da evolução do ADN e da selecção natural? A Bíblia deve ser lida tendo em conta o contexto em que foi escrita. Mas vou ler com mais atenção o teu texto para depois o comentar no meu blog...

 
At segunda-feira, outubro 03, 2005 7:42:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

P.S.: Além de que a Igreja Católica não tem "dogmas" no que diz respeito à criação do mundo, a não ser, claro está, a crença que este foi criado por Deus (e cuidado com a definição de "dogma", porque não é tão abrangente como o uso que vulgarmente se dá ao termo). Há décadas que o livro do Génesis, bem como a maior parte dos livros do A.T., tem sido interpretado pela Igreja Romana de forma não literal. E isso não porque a Igreja esteja a "recuar" face à ciência, mas sim porque os bispos e teólogos do século XX sabem que não se pode interpretar um texto sem ter em conta as suas condicionantes históricas. Até porque, além disso, para os católicos a Bíblia não é a única fonte da revelação divina. De resto, há mais de um século que a Igreja aceita que a teoria de Darwin pode ter fundamento (e J. Paulo II, há dez anos, disse isso mesmo numa encíclica pontifícia), pois o essencial não é por ela negado: a crença de que o Homem foi criado por Deus. Como o fez não interessa. Já com alguns protestantes norte-americanos, a coisa é diferente, porque esses leêm a Bíblia de forma literal...

 
At quarta-feira, outubro 22, 2008 10:51:00 da manhã, Blogger Dani said...

ainda não entendi no contexto o que quer dizer a complementaridade...

 

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