31 outubro 2005

Proteccionismos

Os EUA são um país contraditório. É um facto inegável. Compara-se o moralismo impregnado no discurso americano (ao qual nem o presidente Bush - especialmente este! - escapa) com os actos e estranha-se. Ouve-se de passagem as messagens das cada vez mais poderosas Igrejas «alternativas» e nota-se a diferença entre a rigidez doutrinária em que se baseiam e a indolente absolvição das condutas impróprias dos fiéis. Fartos? Calma, só mais um exemplo. Lembram-se dos direitos alfandegários? E dos subsídios? Juntem os termos - e combinem com a palavra «agricultura». Era aí que queria chegar.
Fez-me sempre alguma confusão perceber como era possível que um Estado como os EUA permitisse o escandaloso esquema de subvenção aos seus agricultores e impusesse barreiras alfandegárias tão rígidas, chegando ao ponto de pagar para que nada fosse produzido (ou, então, pagava para que as colheitas fossem deitadas fora) até que tomei conhecimento do gigantesco «lobby» que por lá - como cá - toma as rédeas. Clinton não conseguiu resistir - contingências da democracia -, Bush nem tentou combater.
Eis que, de um momento para o outro, caem alguns muros e o supreendente acontece: Washington quer menos direitos alfandegários - 55 a 90%, para ser exacto. Mas calma, não é tudo: Washington também propõe diminuir os subsídios dos seus agricultores - 60%, margem considerável. Demasiado simpáticos? Not really. Uma condição é imposta: os parceiros europeus têm de seguir a mesma linha.
OK, tudo certo então, não? A Europa aceita, baixa as subvenções e as tarifas, os preços de produtos agrícolas baixam, os cidadãos compram mais a menor preço, os pobrezinhos do terceiro mundo (perdão, países em vias de desenvolvimento) facturam, o papão Globalização é esquecido e toda a gente vai feliz para casa. Certo? Errado. Bruxelas não aceita. Bruxelas não aceita? Convém consubstanciar: a França não aceita. Deamn it! Mais: a França quer que outros Estados europeus também não aceitem. É bonito: quanto mais meninos faltarem à aula comigo menor é a probabilidade de a professora marcar falta.
Claro que Paris e Chirac, sempre solidários com os velhos ideais, não se deixam amedrontar - e prometem de imediato compensar os pobres exportadores que não têm onde colocar os seus produtos com «impostos de solidariedade». Não interessa que o dinheiro oferecido seja de longe (de muito longe...) muito menos eficaz que a abertura do mercado, ou que a caridade fraterna não possa atingir os verdadeiros focos de pobreza sem passar pelo crivo - e pelas mãos... - dos líderes «populares» e «democraticamente eleitos» (como Chávez ou, numa escala menor, Mugabe, que discursou há dias acerca da fome no mundo). Não: aquilo que verdadeiramente importa é mostrar a solidariedade - ainda que seja só para inglês ver (ou, num registo mais anglófilo, for american to watch).
Não há problemas: os EUA fizeram o mesmo - e fazem ainda. Não há inocência - fazem o que é melhor para eles, não estão seguramente a pensar nos pobres do outro lado do globo. A França está no seu direito de preferir manter o status quo a tomar medidas drásticas. Não se lida facilmente com a pressão, é certo. Mas expandir visões é urgente. Abrir fronteiras. Juntar o útil ao agradável - e melhorar a economia nacional ao mesmo tempo que se contribui para uma melhor Ásia e uma melhor África. Não há aqui piedade: comprar fora é melhor para nós - porque compramos mais barato - e melhor para os outros - porque vendem mais caro. Os mentecaptos que todos os anos se comprazem a bater nas montras de McDonald's durante cimeiras do G-8 ainda não perceberam que não é de menos Globalização que os países pobres necessitam - mas de mais Globalização. Não é de menos investimento estrangeiro que precisam - é de mais investimento. Claro que não é de um dia para o outro que os mais paupérrimos Estados africanos vão começar a tirar partido disto - uma agricultura familiar, rudimental, de subsistência não pode, fácil de ver, competir em mercados competitivos, mesmo que o baixo custo de produção seja uma vantagem. Mas, como se costuma dizer, grão a grão...

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