18 outubro 2005

Numa sala de aula

Menino Tonecas: Senhor professor, quando começa a aula?
Professor: Hoje não há aula.
Menino Tonecas: Não há aula? Mas como não há aula?
Professor: Não há aula, é como lhe digo. É a greve, não ouviu falar? Marcámos uma greve e hoje é o ensaio geral.
Menino Tonecas: Quer dizer que o professor é como os alunos e não quer trabalhar, é isso?
Professor: Oh menino Tonecas, não seja insolente! É óbvio que não é isso que se passa! O menino está a tentar compreender coisas complicadas de pessoas adultas. Se perguntar aos seus paizinhos vai ficar a saber que as greves são instrumentos de luta dos trabalhadores; é a única forma que nós temos de fazer valer os nossos direitos e impedir que a sociedade entre em colapso com as medidas que o Governo quer implementar.
Menino Tonecas: Ai é? E que medidas são essas?
Professor: Oh! são tantas, menino Tonecas, tantas... Imagine o menino que eles querem aumentar a idade de reforma, impedir as progressões automáticas das carreiras e obrigar-nos a passar mais horas nas escolas.
Menino Tonecas: Mas ó senhor professor, eu ouvi um economista na televisão a dizer que, como a esperança média de vida está a aumentar, a idade de reforma também tem de acompanhar esta mudança, porque senão vai haver cada vez menos pessoas a trabalhar para sustentar cada vez mais gente. É verdade, não é?
Professor: Bem... é, é verdade. Mas e as pessoas, menino Tonecas, e as pessoas?! E os professores que estão agora quase caducos, sem forças e sem esperanças... Acha que devíamos obrigá-los agora a suportar a tortura de mais cinco anos de trabalho?!
Menino Tonecas: Não, não é isso. Mas imagine que nada se faz. O que vai acontecer, se bem entendi, é que as reformas vão chegar para esta geração de professores que está agora a reformar-se mas daqui a dez anos não vai haver ninguém em condições de se reformar porque pura e simplesmente não vai haver dinheiro. Não estará a ser um pouco egoísta, senhor professor?
Professor: Ora, não seja ridículo. O que importa não é a economia mas sim as pessoas... essa é uma grande diferença entre nós e eles.
Menino Tonecas: Mas eu pensava que a economia afectava a vida das pessoas... Não acha que...
Professor: O menino está a viciar a discussão. Não me diga que também acha que obrigar os professores a ficarem mais tempo na escola é uma boa medida!
Menino Tonecas: Eu não vejo qual é o mal, se o horário não exceder o previsto por lei...
Professor: Ah! grande imbecil! Então e a qualidade do ensino? Então e a degradação que tal medida implicaria?
Menino Tonecas: Está a querer dizer que a presença dos professores no local de trabalho piora a qualidade de ensino?...
Professor [visivelmente irritado]: Você é um fascista, jovem! E a progressão de carreiras, também é a favor?!
Menino Tonecas: Professor, pense comigo. Imagine dois funcionários, um privado e outro público – por exemplo, um professor. Imagine que dois trabalham o mesmo tempo – por exemplo, vinte anos –, com a mesma produtividade. Imagine agora que a produtividade do segundo foi insuficiente para ele ser promovido; o professor, por sua vez, foi automaticamente promovido, tenha ou não sido produtivo. Consequentemente, vai ganhar mais. E de onde vem o dinheiro que ele ganha «a mais»? Exactamente do bolso do contribuinte, que é como quem diz, do trabalhador privado.
Professor: Onde quer chegar, menino Tonecas?
Menino Tonecas: Só quero dizer que, segundo este modelo – que me parece correcto –, o professor é beneficiado em relação ao privado (porque para a mesma produtividade ganha cada vez mais) e o privado é prejudicado em relação ao professor, porque vai ser obrigado a pagar do seu bolso um aumento de produtividade «virtual» do trabalhador público. De facto, o professor está a explorar o privado!
Professor: As coisas não são assim.
Menino Tonecas: Não?
Professor: Não.
Menino Tonecas: Quer explicar porquê?
Professor: Cale-se, menino Tonecas.

Comentários

4 Comments:

At quarta-feira, outubro 19, 2005 1:33:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

;) Boa

 
At quinta-feira, outubro 20, 2005 11:39:00 da manhã, Blogger Al Mutamid said...

Fico contente em saber que não és um dos arrependidos em votar PS.
O facto do Teimoso estar a fazer tudo ao contrário do que prometeu para ti não tem importância.
Óptimo. Gosto de ver o teu contentamento.
Qualquer dia chegamos à situação cubana. O médico depois de sair do hospital vai conduzir um táxi para poder sustentar a família,
Muito bem e louvável.
Ainda não reparaste que o Teimoso está a fazer de todos nós pobres? E cada vez mais afastados dos níveis europeus?

 
At quinta-feira, outubro 20, 2005 1:07:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Prolongar a idade de reforma faz de «todos nós pobres»?

 
At quinta-feira, outubro 20, 2005 8:43:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Muito bom!

 

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