09 outubro 2005

A «fronteira» do ridículo

O Expresso desta semana trazia na primeira página uma foto de um fugitivo do Mali que conseguira atravessar clandestinamente a fronteira espanhola. No mesmo quadro aparecia o rosto de outro presumível fugitivo, encimado por um pungente subtítulo: «Este pai matou-se para o filho ser europeu».
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Não há soluções fáceis para a questão da imigração ilegal. De um lado estão os pobres diabos que tentam a todo o custo entrar numa Europa que lhes proporciona melhores condições de vida (o que também não é muito difícil, tendo em conta as suas proveniências); do outro, estão os países que têm de defender as suas fronteiras sob pena se se verem submergidos por uma inundação humana - e com todos os problemas que daí advêm.
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Aquilo que me causa uma profunda irritação é ouvir as carpideiras do mal alheio (ou «os» carpideiros...) a revoltarem-se contra a existência de fronteiras como a de Ceuta/Melilla com base num proselitismo político cego e pouco inteligente.
De facto, é bonito criticar as fronteiras, os soldados, o arame farpado e os blocos de granito e advogar pela abolição de tudo isso - a tomada de posição é facilitada pela reconfortante certeza de que tão absurda medida não pode nem vai ser posta em prática - ignorando pura e simplesmente (não por esquecimento mas por astúcia) as consequências que daí resultariam.
Ninguém nega o sofrimento dos fugitivos; o que não é sério nem sensato é usar isso como argumento para a entrada desregrada de toda a imigração. É a demagogia mais abjecta e um aproveitamento completamente intolerável, por parte de pessoas de elevadas responsabilidades na nossa sociedade, de problemas horríveis mas insolúveis neste contexto.
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Estas situações repetir-se-iam menos vezes se não tivéssemos uma comunicação social por vezes tão dócil e amestrada. Bastaria aos jornalistas instarem um destes Ghandis dos tempos modernos a avançar com soluções - concretas, exequíveis e que não conduzissem os países ao caos económico - em vez de ouvirem estas ideias completamente passivos e «encarneirizados» pela lógica do «bonito» e do «politicamente correcto». Infelizmente, ainda não vivemos no País das Maravilhas.
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