31 outubro 2005

Diga lá excelência

Belmiro de Azevedo, no programa «Diga lá excelência»:
«O primeiro-ministro vai governar bem melhor do que se tivesse um companheiro de partido»
«As declarações formais dele [Mário Soares] são antiglobalização, só por isso não posso de modo nenhum votar nele»
«Já fizemos as contas e acho muito mau que o País tivesse alguém com essas ideias tão trocadas numa altura em que as ideologias foram arquivadas. Vivemos à procura de projectos com futuro, à procura de investimentos, bons empregos (...) O dr. Mário Soares não tem o estilo para o programa de globalização que o País tem de aceitar e que, de um modo geral, o primeiro-ministro aceita concretamente»
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Via Jornal de Negócios.

Falar antes do tempo é pouco recomendável

Desculpem: sei que começo a exagerar nos posts acerca de futebol, mas desta vez tem mesmo de ser.
Às 21:36 (intervalo do jogo Sporting x Boavista, que estava então 2-0 para os leões mas que viria a saldar-se pelo empate) um leitor atento dizia no record on-line: «Simples e eficaz... é o que se pode dizer do actual treinador do Sporting». É caso para dizermos: «Eheheh». Lamento a clubite, ouvi dizer que a arbitragem não foi feliz para os esverdeados mas por enquanto deixem-me gozar o momento... «simples e eficaz...» Eheheh, estes sabichões...
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P.S.- Se a «simplicidade e eficácia» do Sporting de Paulo Bento for tão ganhadora como o «jogo bonito, pressão alta e troca de bola contínua» do Sporting do Peseiro acho que não vou perder o sono antes do Benfica x Sporting.
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P.S.2- Enfim, deve ser um novo conceito de simplicidade e eficácia: simples a abrir a defesa e eficaz a perder pontos.

Proteccionismos

Os EUA são um país contraditório. É um facto inegável. Compara-se o moralismo impregnado no discurso americano (ao qual nem o presidente Bush - especialmente este! - escapa) com os actos e estranha-se. Ouve-se de passagem as messagens das cada vez mais poderosas Igrejas «alternativas» e nota-se a diferença entre a rigidez doutrinária em que se baseiam e a indolente absolvição das condutas impróprias dos fiéis. Fartos? Calma, só mais um exemplo. Lembram-se dos direitos alfandegários? E dos subsídios? Juntem os termos - e combinem com a palavra «agricultura». Era aí que queria chegar.
Fez-me sempre alguma confusão perceber como era possível que um Estado como os EUA permitisse o escandaloso esquema de subvenção aos seus agricultores e impusesse barreiras alfandegárias tão rígidas, chegando ao ponto de pagar para que nada fosse produzido (ou, então, pagava para que as colheitas fossem deitadas fora) até que tomei conhecimento do gigantesco «lobby» que por lá - como cá - toma as rédeas. Clinton não conseguiu resistir - contingências da democracia -, Bush nem tentou combater.
Eis que, de um momento para o outro, caem alguns muros e o supreendente acontece: Washington quer menos direitos alfandegários - 55 a 90%, para ser exacto. Mas calma, não é tudo: Washington também propõe diminuir os subsídios dos seus agricultores - 60%, margem considerável. Demasiado simpáticos? Not really. Uma condição é imposta: os parceiros europeus têm de seguir a mesma linha.
OK, tudo certo então, não? A Europa aceita, baixa as subvenções e as tarifas, os preços de produtos agrícolas baixam, os cidadãos compram mais a menor preço, os pobrezinhos do terceiro mundo (perdão, países em vias de desenvolvimento) facturam, o papão Globalização é esquecido e toda a gente vai feliz para casa. Certo? Errado. Bruxelas não aceita. Bruxelas não aceita? Convém consubstanciar: a França não aceita. Deamn it! Mais: a França quer que outros Estados europeus também não aceitem. É bonito: quanto mais meninos faltarem à aula comigo menor é a probabilidade de a professora marcar falta.
Claro que Paris e Chirac, sempre solidários com os velhos ideais, não se deixam amedrontar - e prometem de imediato compensar os pobres exportadores que não têm onde colocar os seus produtos com «impostos de solidariedade». Não interessa que o dinheiro oferecido seja de longe (de muito longe...) muito menos eficaz que a abertura do mercado, ou que a caridade fraterna não possa atingir os verdadeiros focos de pobreza sem passar pelo crivo - e pelas mãos... - dos líderes «populares» e «democraticamente eleitos» (como Chávez ou, numa escala menor, Mugabe, que discursou há dias acerca da fome no mundo). Não: aquilo que verdadeiramente importa é mostrar a solidariedade - ainda que seja só para inglês ver (ou, num registo mais anglófilo, for american to watch).
Não há problemas: os EUA fizeram o mesmo - e fazem ainda. Não há inocência - fazem o que é melhor para eles, não estão seguramente a pensar nos pobres do outro lado do globo. A França está no seu direito de preferir manter o status quo a tomar medidas drásticas. Não se lida facilmente com a pressão, é certo. Mas expandir visões é urgente. Abrir fronteiras. Juntar o útil ao agradável - e melhorar a economia nacional ao mesmo tempo que se contribui para uma melhor Ásia e uma melhor África. Não há aqui piedade: comprar fora é melhor para nós - porque compramos mais barato - e melhor para os outros - porque vendem mais caro. Os mentecaptos que todos os anos se comprazem a bater nas montras de McDonald's durante cimeiras do G-8 ainda não perceberam que não é de menos Globalização que os países pobres necessitam - mas de mais Globalização. Não é de menos investimento estrangeiro que precisam - é de mais investimento. Claro que não é de um dia para o outro que os mais paupérrimos Estados africanos vão começar a tirar partido disto - uma agricultura familiar, rudimental, de subsistência não pode, fácil de ver, competir em mercados competitivos, mesmo que o baixo custo de produção seja uma vantagem. Mas, como se costuma dizer, grão a grão...

Símbolos



Gosto dos dois mas tenho uma especial admiração pelo segundo, por razões que também nunca consegui perceber bem. Talvez seja por por um dia o ter visto a implorar ao árbitro para não expulsar um jogador da equipa adversária, ou talvez seja por ser um jogador de inegável qualidade (atestada de forma inequívoca pelos títulos de melhor marcador da Premier League de todos os tempos, melhor marcador de sempre do Newcastle, melhor marcador de sempre do Blackburn, único jogador com mais de 200 golos na Premier League); talvez seja ainda por ser um dos poucos jogadores que não se recusam a jogar nestas condições, com a cabeça rachada e quatro dedos fracturados. Hoje ambos marcaram. É bom. E merecido. Especialmente para o capitão.

30 outubro 2005

Não deixar escapar

... este excelente post n'O Acidental. Para quem se perguntava o porquê de o Henrique Raposo ser o meu favorito, aqui está uma óptima explicação. Lucidez, sensatez, contundência, sabedoria. É tudo menos acidental.

Acima da lei

Num país com «complexo de direita» como é o nosso (enfermidade bem patente na carga pejorativa que um rótulo de «direita» acarreta) há, por vezes, um discurso que pura e simplesmente não se pode (man)ter. Assim, não é lícito estar contra o aborto - quem o faz é reaccionário -, não é aceitável encontrar nos EUA o mínimo motivo de interesse - quem o faz é terrorista, capitalista e, em última análise, um idiota sem cura -, não é razoável discutir a presença do Estado em certas actividades económicas - quem o faz é um explorador burguês de visões estreitas e algibeiras largas - e, por último, é completamente proibido fazer menção aos seguintes termos: etnia, raça, cor, comunidade e, em menor grau, opção sexual.
Infelizmente, há de facto males que estão relacionados com etnias e comunidades. Exemplos? Alguns. E mais alguns. Eventualmente, mais alguns. Face a situações destas, de imediato vêm a terreiro os habituais defensores da integração, do apoio, das casas pagas, dos subsídios e da inimputabilidade cultural - neologismo criado agora mesmo que designa a atitude que visa desculpar tudo e mais alguma coisa desde que diferenças culturais possam ser encontradas. Torna-se, a partir desse momento, impossível fazer seja o que for para lidar com problemas deste género e calibre. Aumentar o policiamento? De imediato a acusação de xenófobo pende sobre algumas cabeças; dar mais poderes à polícia? Mais adjectivos: fascista, militarista, racista; investigação? Mas que despautério, desconfiar das pessoas!
Não, a explicação é só uma e puxa argumentos à velha cartilha: o homem rouba porque é explorado, porque não está integrado e porque não é pago; mata, assalta e viola porque está longe da família, não é aceite na comunidade e é sistematicamente alvo de piadas racistas e xenófobas; intruja, mente e burla porque não foi educado, vem de um meio social desfavorecido e teve uma infância difícil.
Nada disto é contestável. Qualquer comportamento tem razões - sociais, genéticas, culturais. O erro reside, contudo, em dois pontos. Primeiro, ao presumir-se que a boa vontade anula e permite limar qualquer comportamento criminoso (ou «incivilidade», como agora se convencionou chamar...); esquece-se um dos mais elementares e básicos métodos de modificação de comportamentos: a disuassão, que nem sequer é equacionada. Segundo, olvida-se que do «outro lado» há pessoas com direitos e liberdades, que pagam impostos e que esperam que o Estado cumpra a sua função mínima: a preservação da segurança daqueles que o alimentam. Sinto-me, aliás, um pouco ridículo a tentar argumentar numa questão que me parece de elementar bom senso. Até porque aqueles que pugnam pela absolvição do criminoso com base no código genético ou na herança cultural são os mesmos que não detêm a sua mão quando o criminoso em causa é um marido violento - apesar de também o machismo e a violência doméstica terem raízes culturais. É a pertença a uma sociedade que determina os nossos direitos e deveres - e não é um B.I. diferente que permite exigir os primeiros e passar por cima dos segundos.
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P.S. No caso que citei a única medida tomada pelas autoridades foi... dar casas novas à comunidade cigana em questão. Engraçado, de facto, mas este é um problema que já tinha abordado, ainda que de uma diferente perspectiva, aqui.

29 outubro 2005

COntinuam a descer



«Mr. Adriaanse you said that you'd leave if that was what the supporters wanted. What do you have to say now?»
«I never said that»
«You never said that?»
«I never said that»

Sinais dos tempos

Idosas envolvidas em contrabando de droga.

Ele avisou

Santana Lopes a comentar as presidenciais na SIC Notícias. Lamentável: cheguei tarde e pouco apanhei do seu discurso. Espero mais aparições. Ele bem tinha dito: «Vou andar por aí...»

28 outubro 2005

Eutanásia

Eutanásia: sim, não, sim mas com reservas? pergunta-se aqui. Os resultados saldam-se, por enquanto, num empate entre a primeira e a segunda alternativa, obtendo a última 1/5 das preferências.
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Penso que há uma condição fundamental para que um direito tenha esse nome - a possibilidade de se abdicar dele; caso contrário, não é um direito - mas um dever.
O direito à vida não é excepção. Fora de uma visão religiosa da vida, esta tem apenas o valor que cada um - o que a vive - lhe dá. Este deve ter a possibilidade de, se assim o desejar, colocar cobro à mesma com a ajuda de médicos que possam tornar a ocasião o menos dolorosa possível.
Dir-se-á - e com razão - que há pessoas que conseguem ultrapassar problemas físicos muito delicados e ter uma existência feliz. Hawking, que não move um músculo mas, apesar disso, é um dos mais brilhantes físicos do planeta, será um exemplo paradigmático.
Dir-se-á também que uma vida limitada tem o mesmo valor que uma vida plena, sem problemas físicos ou incapacidades motoras ou cognitivas.
Poderemos facilmente encontrar exemplos que corroboram as duas teses - mas encontraremos muitos mais que a refutam.
Por exemplo: qual é o pai - ou mãe - que, podendo escolher entre um filho saudável e um deficiente, opta pelo primeiro? E qual o cego que recusa uma operação para adquirir visão sob o argumento de que não é uma deficiência que lhe retira uma parte do gozo da vida?
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Convém também reconhecer que a eutanásia está bastante mais presente do que habitualmente se julga.
Os exemplos são muitos. Por exemplo, é regra comum nalguns países deixar que recém-nascidos com gravíssimos problemas de nascença morram quando a perspectiva de vida que se lhes afigura é demasiado tenebrosa. Não se promove a eutanásia - antes se deixa a doença debilitar cada vez mais a criança até que esta ceda às pressões biológicas.
Noutro caso, é também costume deixar morrer idosos sem família que vegetam em lares quando estes dão sinais evidentes de saúde muito precária. Também desta vez não se pratica a eutanásia - simplesmente deixa-se de tentar fazer reanimação ao terceiro ataque cardíaco.
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Há muitos casos iguais a estes. Pratica-se uma eutanásia de «omissão», ou seja, deixa-se de praticar uma acção cujo fim vai ser efectivamente a morte de uma pessoa.
Posto isto: não será mais justo, indolor e humano admitir que uma pessoa possa ter assistência médica especializada em casos dramáticos de limitação de vida humana?

Ok

Tendo em conta que mais de 30% recusam trabalho oferecido pelo centro de desemprego, não posso dizer que não concorde com isto.

Nota

Como certamente já repararam, inseri algumas alterações no template do nosso blog. Os links estão agora dividos em quatro grandes categorias: «Blogs obrigatórios», «Blogs recomendados», «Outros blogs de referência» e «Blogs de CS». O critério que utilizei para determinar o quadrante em que coloquei cada blog não leva em conta apenas a concordância entra as minhas ideias e as que aí se expressam - caso contrário dificilmente estariam o Causa Nossa e o Bichos carpinteiros colocados onde estão. Em vez disso, preferi sublinhar a importância e o relevo que alguns assumem, a frequência com que são colocados posts, o renome dos autores, etc.
Na primeira categoria encontram-se aqueles que tenho por hábito consultar logo pela manhã. Da Semiramis gosto das análises e do rigor - tem por hábito mostrar números, algo que me agrada; no Blasfémias aponto o interesse do debate que por lá se costuma gerar e a forma inteligente como defendem as suas ideias - com as quais, de resto, não me identifico completamente. Referência também ao Causa Nossa - a participação de Vital Moreira não deixa ninguém indiferente -, ao Abrupto de Pacheco Pereira e ao O Insurgente - adoro o estilo. Não me esqueço também da sabedoria do Paulo Gorjão no Bloguitica, da eterna teoria da conspiração na Grande Loja do Queijo Limiano e dos sempre interessantes O Acidental e O Sinédrio.
No segundo escalão estão os blogs que consulto todos os dias, ainda que com menos afã, e no terceiro está um conjunto que visito de forma mais espaçada. Certamente que alguns mereceriam figurar noutro escalão mas a irregularidade da postagem - como acontece com o excelente Esplanar - ditou a manutenção na terceira divisão.
Por último, temos os «Blogs de CS», que, como o nome indica, pertencem a alunos do curso de Comunicação Social da U. Minho (em virtude de ter terminado o estágio e, como tal, já ter abandonado a nossa companhia, o Filipe foi «promovido»)
De destacar ainda o aparecimento de última categoria: os «Blogs de campanha», onde se encontram as páginas não-oficiais (pelo menos é o que afirmam...) de vários candidatos a Presidente da República. O último a ser lançado, A Kriptonita, já fez o favor de nos linkar.

Evidências



Não é real... mas podia ser.
(Via Blogotinha descobri o interessante site que permite fazer estas malabarices)

Levanta-te e ri

Estou habituado a ouvir barbaridades de determinado sector político mas desta vez a imbecilidade roçou o grotesco. Reza a destituída crónica que a admiração que Cavaco Silva nutre por Duarte Pacheco, ministro de Salazar, não indica outra coisa que não a evidente e despudorada tendência fascista do candidato à presidência da República.
Poderíamos, obviamente e se quiséssemos, fazer referência àquele baluarte da paz e bastião da justiça que inspirou ideologicamente um partido de cujas cinzas nasceu a actual associação da qual a escritora é importante dirigente mas um olhar à caixa de comentários do blog no qual a publicação foi gerada traz à memória dos mais esquecidos dados assaz interessantes.
Primeiro: o Ministro em causa deu início à construção do IST, iniciou a modernização dos serviços de correios e telecomunicações do país, inaugurou as comunicações radiotelefónicas entre a Madeira e o Continente e determinou o estudo da nova rede de transportes urbanos de Lisboa. Um péssimo Ministro, de facto.
Segundo: felizmente, a lista de amigos de Mário Soares - Miterrand, Arafat, Otelo, entre outros - é de longe mais recomendável.
Terceiro: um silogismo interessante; Veiga Simão foi Ministro do regime; quem apoia, admira ou emprega alguém do regime é fascista; Veiga Simão foi Ministro de um Governo socialista; logo, o Governo socialista era fascista.
Quarto: a estátua de Duarte Pacheco foi inaugurada por... Mário Soares (informação que não consegui confirmar).
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É completamente irresponsável a forma como se tenta associar Cavaco ao fascismo. Revela falta de seriedade, integridade e caractér. Demonstra mesquinhez e descredibiliza quem tem por hábito afirmar-se moralmente superior. Felizmente nem todos são idiotas ao ponto de comer a informação formatada que por vezes se quer impingir. Graças a estas postadas fenomenais, é muito provável que Cavaco não tenha de abrir a boca para dar razões às pessoas para votarem nele - a Joana Amaral Dias já faz isso muito bem por ele.

27 outubro 2005

Depois desta acredito no Pai Natal

O tratamento das insuficiências cardíacas e das coronárias entupidas de um Estado grande, lento, volumoso e ineficaz não consiste num progressivo embrutecimento ou num engordar desregrado que lhe dilua as maleitas mas sim numa dieta rigorosa que lhe traga agilidade e numa operação cirúrgica que lhe extirpe o câncer. A opinião não é minha - é dela.

E você, já tem o segundo ano?

Atravessar as passadeiras não tem nada de estranho. É, aliás, uma coisa bastante natural, faço-o quase todos os dias e é uma actividade que poucas vezes me traz problemas. A única coisa que hoje estranhei foi a presença de um ser sisudo que calcorreava a travessia a meu lado mas que, ao contrário de mim, fazia este trajecto vezes sem conta, uma espécie de prazer mórbido (líbido urbano?) que apenas consegui interpretar devidamente quando li nas suas costas a palavra «Caloiro» e vi, no outro lado da rua, meia dúzia de indivíduos vestidos de preto a incentivar devidamente a assexuada criatura. Esta acatava as ordens e mantinha-se placidamente a interromper o trânsito enquanto que os seus envelhecidos colegas se justificavam perante os condutores indignados com a situação: «sabe como é, ele está na passadeira!». Ora aí está, na passadeira, pois claro. Não há nada como chegar ao segundo ano da universidade. É que as desculpas às vezes até parecem inteligentes.

26 outubro 2005

Unilateralismo

Não, não: temos de os compreender!

Curioso

Já tinha ouvido criticar Cavaco por muitas coisas. Agora pelas privatizações? E eu que pensava que o argumento maior dos seus opositores era precisamente o estatismo e o excessivo papel que o «seu» Estado desempenhava na economia. Mas mais sinais abundam: pelo menos aparentemente, para a cronista em causa a esquizofrenia de um pequeno batráquio - digamos, um sapo - torna-se patente quando este afirma que já não é girino - não sou o que sou mas o que um dia fui e o facto de já não o ser não tem implicações de maior para o que de facto sou ou deixo de ser.
Vá lá, vá lá, pelo menos desta vez não foi preciso recorrer ao velho truque do «leitor devidamente identificado»...

25 outubro 2005

Nem tudo é Mau

Sabemos que hoje Portugal atravessa uma das suas maiores crises económicas de sempre. Crise essa agravada pelo aumento da dívida externa e pela situação caótica em que se encontram as contas do Estado e as finanças públicas.
Ora, na semana passada o ministro da Finanças, Teixeira dos Santos, apresentou um orçamento digno dos governos mais centristas e direitistas (porque não dize-lo: Centro-direita), que relembra os de Manuela Ferreira Leite, e nos deixa a supor que se calhar as medidas da ex- ministra das Finanças não fossem tão duras ou desnecessariamente severas. Pois, no dito orçamento o ministro prevê um aumento das exportações de 5,7 %.
Á primeira vista muitos duvidam que tal seja possível. A nossa economia é muita débil e necessita tanto das relações externas, quanto de ser protegida internamente. Contudo, há casos que, felizmente, fogem a essa situação de mesquinhez e incapacidade criativa e empresarial.
Falo, por exemplo, da “Casa dos Queijos”. “A Casa dos Queijos” é um consórcio de nove produtores da Serra da Estrela ao Alentejo e vai avançar fortemente para a exportação dos seus queijos, numa primeira fase, e numa outra, produtos como os enchidos, mel, azeite e compotas. Tudo isto só é possível graças ao trabalho empreendedor do seu sócio-gerente, João Carlos Pessoa, que conseguiu reunir uma série de contactos nacionais e internacionais que permitiram esta negociação. Foram negociações muito difíceis e morosas, e só há três semanas as autoridades brasileiras deram luz verde à exportação.
“O nosso queijo não chegará barato ao Brasil”, refere o empresário, sendo € 75, o preço base. Restaurantes de luxo brasileiros e outros especializados em comida portuguesa, de São Paulo e do Rio de Janeiro; as grandes cadeias de distribuição e demais importadores apressaram-se a fazer encomendas. Salienta o responsável que há uma “receptividade absurda aos queijos”.
O “slogan” utilizado pelo grupo para sensibilizar os brasileiros, é “Cabral estava nos devendo essa”. O próximo passo para o grupo serão os EUA.
Noutro campo, mas também digno de realce situa-se Rui Nabeiro e a Delta Cafés.
A Delta é hoje uma das principais marcas de café em Espanha e após as negociações com a Ibersol e a Café das Indias, viu reforçada a sua posição no mercado espanhol, pretendendo atingir uma quota de mercado igual a 15 %, de entre mais de 700 marcas, já que essas são duas redes de restauração que fornece, entre outras, a Pizza Hut, a Burger King, ou as bem espanholas “boutiques de café”.
Nabeiro também pretende atingir a França, onde tem ainda uma presença algo fraca. Contudo a empresa está determinada em tomar de rompante o mercado francês, e não esqueceu a Ásia: Rui Nabeiro quer levar o café português à China.
E, eu pergunto, Porque não?
É bom saber que ainda temos bons exemplos de empresários empreendedores e que gostam de tomar riscos. Sei que não são estes os únicos casos, mas sei também que não há muitos como eles.

Desresponsabilização

Espanta-se o Henrique Raposo (o meu favorito d'O Acidental, diga-se de passagem) com a inocente benevolência de um Estado que permite coisas como estas. Entendo a indignação - mas porquê o espanto? A inconsciência humana e respectiva inimputabilidade perante os seus actos está desde há muito - mas cada vez mais - enraizada na nossa sociedade - desde o homem que processa a companhia tabagista pelo cancro de pulmão até ao criminoso de navalha que viola e mata porque está desenraizado na sociedade, passando, claro, pelo condutor ébrio cuja culpa se encontra apagada pelo facto de ser impossível resistir a um óptimo vinho depois do jantar.
«Cómico ou ridículo»? Os dois, provavelmente, mas também evidência óbvia da influência - que se manteve ao longo dos anos - de uma certa escola de pensamento francês que tanto agradou a muitos intelectuais - dos quais Foucault foi apenas o rosto mais visível - que rejeitava o «ser» como motivo de acção. Não era o homem que fazia - era a sociedade (através das famigeradas «estruturas») que o fazia fazer; não havia vontade - havia o inconsciente Freudiano, a alienação Marxista e a sociedade de repressão. De igual forma não havia responsabilidade, pensamento racional ou intenção; não havia premeditação nem consciência activa; nem ética nem congeminação. E, claro, não havia culpa.

24 outubro 2005

Poder & Influência

Sexta-feira, dia 21 de Outubro, 17:04. O Insurgente recomenda o blog O Bom Senso. Nada de prosa trabalhada ou grande criação literária, apenas uma hiperligação encimada pelo garrafal «Leitura recomendada». Visito. Leio. Releio. Comento e acabo por colocar nas hiperligações d'O Número Primo. Um bom blog, sem dúvida. Mas há um antes e um depois, que o Counter Statistics não deixa passar em claro. Antes desta citação, a média de visitas diárias era 35; no dia em causa, o número de visitas ascendeu a 449.
N'O Citadino faz-se o paralelo entre as opiniões de José Pacheco Pereira e João Pereira Coutinho. Dois pensadores que leio com enorme prazer mas cujas opiniões neste caso não poderiam estar mais afastadas. Nada que me espante - mas é interessante o facto de ter tomado conhecimento desta divergência através de um blog1. É uma espécie de serviço público - ou jornalismo cívico, nas palavras de Dan Gillmor - a que posso ter acesso mesmo não comprando o Público e o Expresso.
Não que a influência dos blogs mais conceituados apenas se me tenha revelado nesta situação - as famosas «Micro-causas» são cada vez mais um factor de pressão e de informação (J. Manuel Fernandes do «Público» que o diga...) - mas os números - no primeiro caso - e a utilidade - do segundo - são impressionantes. E por isso cada vez mais me fascino com os blogs. O contraditório a que muitos dos meios de comunicação vulgares não dão lugar; as perspectivas diferentes; o debate - que se processa a um ritmo quase alucinante - e o esgrimir de argumentos e ideias; as regras democráticas - as ideias contam mais que uma cátedra ou uma coluna num jornal; as utilíssimas hiperligações, as citações. Esta lista podia alongar-se com centenas e centenas de outros exemplos - mas citá-los a todos é moroso e redundante. Uma coisa contudo, é inelutável: a blogosfera está a tornar-se, definitivamente, mais influente, útil e actual.
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1. Simpatizo mais com a opinião de J.P. Coutinho - que me parece de longe mais sensata e ponderada. Não vejo Pacheco Pereira como mais um dos arautos da «histeria colectiva» - até porque é uma pessoa normalmente bastante ponderada - mas neste ponto acho que ficou francamente mal na fotografia.

22 outubro 2005

Oposição

Ponto número: os Executivos e as suas acções não são todos iguais.
Há Governos cuja acção é ou foi considerada pela maioria do pessoal especializado - como os economistas - boa ou razoavelmente boa de uma forma geral. De forma análoga, há também Governos cuja acção foi ou é vista pelo pessoal especializado como «má» ou, pelo menos, bastante insuficente.
Uma coisa, contudo, atinge a todos - os bons e os maus - por igual: a contundência da crítica - nomeadamente a crítica feita pela Oposição.
Ouvimos as sessões do Parlamento, lemos os jornais e ouvimos os deputados dos partidos e de imediato temos uma certeza: as medidas do Governo são más, perigosas e quase insultuosas.
A crítica mantém-se mesmo quando algumas das medidas em causa se revelam, posteriormente, eficazes: os socialistas culpam o PSD pelo estado do país e os sociais-democratas fazem o mesmo em relação ao PS - e aqui surge a grande contradição.
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Esta questão radica na forma como os partidos portugueses fazem Oposição.
A lógica é «criticar tudo o que mexa»; estar contra tudo o que o Governo propuser, demonstrar os «enormes inconvenientes» das novas medidas, usar todo e qualquer argumento para deitar abaixo e defender exactamente o oposto daquilo que o partido no poder preconiza.
É uma óptima forma de ganhar votos - mas demonstra uma enorme falta de responsabilidade: procura-se amealhar mandatos às custas do país.
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As consequências deste comportamento são notórias: é extraordinariamente difícil a um Governo implementar medidas impopulares.
Qualquer tomada de posição está automaticamente sujeita a crítica - ainda que descabida - e a margem de manobra do Governo diminui.
Sob este prisma, implementar uma «boa» medida pode ser eleitoralmente mau: a Oposição imediatamente «cai em cima» do Ministro que a promoveu e cria uma situação de pressão que a oponião pública, muitas vezes «encarneirizada» pelos media, tende a exacerbar.
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Por razões como estas, tenho apreciado bastante a presidência de Marques Mendes.
Evita criticar quando é óbvio que as políticas em causa são bem ponderadas e não cai na lógica do «bota abaixo». Tenta ser ponderado nas tomadas de posição e sensato nos apontamentos.
Isto beneficia o Primeiro-Ministro, que pode escolher em consciência, sem medo da retaliação irresponsável duma Oposição que apenas critica como forma de ganhar votos, os portugueses, que são os que mais beneficiam de «boas políticas» e a própria Oposição, que se credibiliza. De facto, quem realmente tem a ganhar com uma «nova Oposição» - mais responsável e credibilizada, que critica apenas o que está mal e - é Portugal.
É pena que apenas um partido tenha consciência disto.
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P.S.- Não posso deixar de fazer referência a este excelente post da Quadratura do círculo.

21 outubro 2005

Mais vale tarde que nunca

Diz-se no Blasfémias que o Super-Mário não é bem um blog porque, entre outras coisas, «nem sequer agradece os primeiros links, como é da praxe». Desconhecia a prática mas, como neste humilde blog ainda prezamos a educação, aproveito a efeméride (sim, «O Número Primo» assinala hoje 6 meses de vida) - e porque a gratidão não prescreve - para agradecer a todos os que nos linkaram: O Insurgente, A Arte da Fuga, Do Portugal Profundo, O Jumento, Câmara Corporativa, Letters from Elise, Politica XIX, Tomar partido, Voando à Deriva, Mondo Piccolo, O Carvalhadas, Pato Marreco, e a todos os blogs de CS. Espero sinceramente ter a oportunidade de agradecer a muitos mais blogs nos próximos tempos.

Temos Candidato. Teremos Presidente?

É oficial. O Professor Aníbal Cavaco Silva apresentou ontem à noite a sua candidatura à Presidência da República. Será o representante de toda a direita portuguesa se bem que, como o próprio referiu, se encontre actualmente desvinculado do seu partido, e por isso mesmo completamente imune a pressões.
Que Cavaco representa o candidato mais coerente e capaz, penso que unânime. Foi o chefe do único governo (em 30 anos de III República) que governou de forma estável e segura, cumprindo os seus mandatos. É também um reputado professor de Economia, astuto e perspicaz, sendo considerado por grande parte da população como o único homem capaz de dar a volta à situação em que o país se encontra.
Cavaco Silva está (na minha opinião) a gerir esta candidatura há dez anos. Desde o dia em que perdeu para Sampaio, que o ex- primeiro-ministro está a pensar em Belém. A forma como geriu a sua imagem, as poucas entrevistas dadas, o desaparecimento da cena política e partidária, e, acima de tudo, o regresso às funções que anteriormente desempenhara: professor académico.Com este regresso às aulas em 1996, Cavaco demonstrou que não necessitava da política para sobreviver, sendo hoje este um ponto muito interessante.
Hoje em dia muito se discute à volta dos “políticos profissionais”, que são na sua maioria indivíduos que se apegaram de tal modo ao cargo político que não o conseguem deixar. No Mundo Socialista temos muitos casos deste tipo sendo o actual candidato (fortemente) apoiado pelo PS às Presidenciais, um crasso exemplo.
Começam aqui as distinções entre os dois. Continuam noutros parâmetros, mas neste momento não me interessa divulgá-las. Até porque já o fiz em anterior post neste blog (“Duelo de Titãs”) e porque outros têm-no feito bem melhor do que eu. O que a mim me interessa é falar do Professor.
Não tenho problemas de maior em declarar neste espaço o meu apoio a Cavaco Silva. Cavaco já deu mostras de ser um homem íntegro, capaz, e acima de tudo competente. E, hoje em dia, aquilo que az falta no nosso país e nas instâncias governativas é alguém que alie a competência à lucidez, e que não tenha receio de aplicar as medidas que acha mais justas sem se sujeitar a pressões externas, a apegos partidários e a crises de consciência, como aquela que Sampaio teve quando dissolveu a Assembleia no ano passado.
Cavaco é um homem respeitador da estabilidade governativa e, portanto, é ridículo afirmar-se que o voto nele é um voto em prol da instabilidade governamental. Cavaco saberá respeitar o raio de acção do governo e contribuirá para o trabalho de desenvolvimento e recuperação económico-social.
A meu ver o voto mais inteligente é o voto em Cavaco Silva, por tudo aquilo que deixei anteriormente explícito. Quem não concordar tem toda a liberdade em se opor. Mas será que alguém o conseguirá fazer? Será que alguém conseguirá desenvolver um pensamento coerente e responsável contra a candidatura do Professor? Acho muito difícil…

20 outubro 2005

Ajuda

Pastilhas Rennie. Alguém tem?
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P.S.- Eu disse que ia actualizar o blog ainda hoje...

18 outubro 2005

Numa sala de aula

Menino Tonecas: Senhor professor, quando começa a aula?
Professor: Hoje não há aula.
Menino Tonecas: Não há aula? Mas como não há aula?
Professor: Não há aula, é como lhe digo. É a greve, não ouviu falar? Marcámos uma greve e hoje é o ensaio geral.
Menino Tonecas: Quer dizer que o professor é como os alunos e não quer trabalhar, é isso?
Professor: Oh menino Tonecas, não seja insolente! É óbvio que não é isso que se passa! O menino está a tentar compreender coisas complicadas de pessoas adultas. Se perguntar aos seus paizinhos vai ficar a saber que as greves são instrumentos de luta dos trabalhadores; é a única forma que nós temos de fazer valer os nossos direitos e impedir que a sociedade entre em colapso com as medidas que o Governo quer implementar.
Menino Tonecas: Ai é? E que medidas são essas?
Professor: Oh! são tantas, menino Tonecas, tantas... Imagine o menino que eles querem aumentar a idade de reforma, impedir as progressões automáticas das carreiras e obrigar-nos a passar mais horas nas escolas.
Menino Tonecas: Mas ó senhor professor, eu ouvi um economista na televisão a dizer que, como a esperança média de vida está a aumentar, a idade de reforma também tem de acompanhar esta mudança, porque senão vai haver cada vez menos pessoas a trabalhar para sustentar cada vez mais gente. É verdade, não é?
Professor: Bem... é, é verdade. Mas e as pessoas, menino Tonecas, e as pessoas?! E os professores que estão agora quase caducos, sem forças e sem esperanças... Acha que devíamos obrigá-los agora a suportar a tortura de mais cinco anos de trabalho?!
Menino Tonecas: Não, não é isso. Mas imagine que nada se faz. O que vai acontecer, se bem entendi, é que as reformas vão chegar para esta geração de professores que está agora a reformar-se mas daqui a dez anos não vai haver ninguém em condições de se reformar porque pura e simplesmente não vai haver dinheiro. Não estará a ser um pouco egoísta, senhor professor?
Professor: Ora, não seja ridículo. O que importa não é a economia mas sim as pessoas... essa é uma grande diferença entre nós e eles.
Menino Tonecas: Mas eu pensava que a economia afectava a vida das pessoas... Não acha que...
Professor: O menino está a viciar a discussão. Não me diga que também acha que obrigar os professores a ficarem mais tempo na escola é uma boa medida!
Menino Tonecas: Eu não vejo qual é o mal, se o horário não exceder o previsto por lei...
Professor: Ah! grande imbecil! Então e a qualidade do ensino? Então e a degradação que tal medida implicaria?
Menino Tonecas: Está a querer dizer que a presença dos professores no local de trabalho piora a qualidade de ensino?...
Professor [visivelmente irritado]: Você é um fascista, jovem! E a progressão de carreiras, também é a favor?!
Menino Tonecas: Professor, pense comigo. Imagine dois funcionários, um privado e outro público – por exemplo, um professor. Imagine que dois trabalham o mesmo tempo – por exemplo, vinte anos –, com a mesma produtividade. Imagine agora que a produtividade do segundo foi insuficiente para ele ser promovido; o professor, por sua vez, foi automaticamente promovido, tenha ou não sido produtivo. Consequentemente, vai ganhar mais. E de onde vem o dinheiro que ele ganha «a mais»? Exactamente do bolso do contribuinte, que é como quem diz, do trabalhador privado.
Professor: Onde quer chegar, menino Tonecas?
Menino Tonecas: Só quero dizer que, segundo este modelo – que me parece correcto –, o professor é beneficiado em relação ao privado (porque para a mesma produtividade ganha cada vez mais) e o privado é prejudicado em relação ao professor, porque vai ser obrigado a pagar do seu bolso um aumento de produtividade «virtual» do trabalhador público. De facto, o professor está a explorar o privado!
Professor: As coisas não são assim.
Menino Tonecas: Não?
Professor: Não.
Menino Tonecas: Quer explicar porquê?
Professor: Cale-se, menino Tonecas.

17 outubro 2005

A ler

O que diz a Joana no Semiramis. Algumas reservas quanto à linearidade da tese mas subscrevo totalmente o último parágrafo.

15 outubro 2005

Desgaste rápido

O repórter d'O Jumento está em forma: veja-se a última grande reportagem (elucidativa, diga-se de passagem) sobre as condições de trabalho cada vez mais precárias a que os enfermeiros estão sujeitos. Assim não pode ser, parecem dizer os cada vez mais envelhecidos enfermeiros, cuja idade de reforma, segundo a tarja XXL que os mesmos içaram, não deveria ser superior a 45 anos, sob pena de a distinção doente/enfermeiro se esbater cada vez mais. Até porque, como os próprios afirmam, «assim não podemos tratar de você».
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P.S.- Deliciosa ironia na última frase do Post em causa.

12 outubro 2005

Infelizmente

... porque eu até gostava dos parágrafos dele. E muito!

11 outubro 2005

A bandida

Sei que muito já foi dito e escrito acerca das eleições autárquicas e das suas variáveis, porém parece-me pertinente analisar apenas mais um caso à luz dos resultados de domingo: o de Fátima Felgueiras.
A autarca de eleição dos felgueirenses conquistou mais uma maioria absoluta, mas esta, tal como as outras, apresenta-se como incompreensível para todos os portugueses, que não os de Felgueiras. Porquê?
Porque há suspeitas de que Fátima Felgueiras desviou fundos concelhios para o tão famigerado “saco azul”, com a intenção de subsidiar o agora defunto, Futebol Clube de Felgueiras. Mas o dinheiro não ia só para o clube, já que a Fatinha não se esquecia de si própria.
Quando a PJ e o Ministério Público decidiram investigar esta repentina onda de riqueza concelhia, descobriram as falcatruas da Presidente de Câmara mais amada do País. A mulher que os felgueirenses mais queriam, tinha-lhes mentido, roubado e sonegado provas da imparcialidade camarária. A Fátima era uma ladra! Mais do que uma ladra, ela tornou-se numa fugitiva, quando através de fontes corruptas do Tribunal, soube que a PJ ia-lhe fazer uma visita para ser interrogada e posteriormente (se tal fosse necessário) posta em Prisão Preventiva e, em sabendo, fugiu do País! Ela foi para o Brasil, fugida da justiça. Justificação? Sim, ela deu uma justificação. Disse que não queira ser presa e portanto preferiu fugir a enfrentar um julgamento, como o comum dos pobres portugueses que não têm dinheiro à parte, nem amigos no Tribunal. Entretanto ela contratou um advogado brasileiro (!!!!?) para vir a Portugal deitar abaixo o sistema judicial português. Devido a esta mulher sem carácter, tivemos de gramar com um brasileiro a criticar a constituição nacional. O Sr. Doutor, não deve estar a par do facto de viver no país mais corrupto da América do Sul. Aliás, para atestar isto basta seguir de perto o Mensalão…
Mas voltemos à nossa querida Fatinha.
A Fátima sempre disse que iria voltar para ser julgada, mas quando ela quisesse. E de facto voltou! Aterrou no Aeroporto Sá Carneiro, após ter avisado as autoridades de que iria regressar. Mas a sua querida filha, Sandra, também avisou a SIC de que a mamã vinha a caminho, e se quisessem a primeira entrevista teriam de abrir os cordões à bolsa. Assim foi. A SIC falou com a Presidente antes da PJ.
Mas pensarão vós que a Fátima se veio entregar, que de facto tinha a consciência pesada, que queira enfrentar o julgamento. Então estão enganados! Com a preciosa ajuda do seu habilidoso advogado, a Fátima vinha exercer o seu direito de imunidade. Imunidade essa adjacente ao facto de ser candidata às eleições autárquicas.
A mulher regressou ao fim de mais de dois anos, brinca com a justiça, tem uma viagem de graça do aeroporto até ao tribunal, e não vai presa? Em Portugal não. Porque em Portugal temos de preservar a integridade do processo eleitoral.
O PS apresentou um candidato fantoche às eleições para garantir a vitória da Fátima. O nosso estimado Primeiro-Ministro não pôs lá os pés, mas o Almeida Santos lá foi dizendo que se visse a Fátima que lhe dava um abraço, e de que a boa mulher só não constava das listas do PS devo às actuais circunstâncias.
E o povo? De certeza que o povo ficou indignado com esta mulher em quem confiaram, em quem depositaram as suas expectativas, que fugiu da justiça com dinheiro da Câmara, que transformou o seu concelho num sinónimo de corrupção e atraso. Claro que o povo fez uma manifestação de protesto! Mas não… Os felgueirenses, ignorantes, decidiram esquecer tudo isso e apoiar a Senhora que anda a ser perseguida pela justiça e pela Comunicação Social. Se a senhora roubou, roubou para Felgueiras. A Fátima é uma santa, um autêntico mártir das causas felgueirenses. Viva a Fatinha!!
Tanto assim é que no passado dia 9, os felgueirenses deram à menina dos seus olhos a maioria absoluta (ela merece… Passou por tanta coisa). Mas os incapazes e inválidos felgueirenses (e refiro-me apenas a quem votou nela) fizeram ainda mais uma coisa: Demonstraram ao país civilizado (onde incluo o Marco de Canavezes e Amarante, mas excluo Gondomar e Oeiras) de que em Felgueiras moram pessoas estúpidas, sem capacidade de raciocínio democrático, que não puniram devidamente uma mulher que lhes roubou, que lhes danificou a imagem perante o país, e que fugiu. Os felgueirenses não souberam dar uso ao seu voto.
Agora vamos ver. Com o fim da imunidade torna-se necessário cumprir o mandado de captura. Que chatice… Lá vai ela para o Brasil! Mas que não se preocupe. Em 2009 os felgueirenses vão cá estar à sua espera!
Uma nota final para dizer à Sra. Presidente, que não lhe fica nada bem criticar o Professor Marcelo Rebelo de Sousa através da televisão. O Professor é pago para tecer os seus comentários, e se alguém lhe paga para isso é porque há pessoas que o ouvem, e que lhe reconhecem bem mais dignidade do que a Fátima Felgueiras, que irá ficar conhecida como a mulher que fugiu para o Brasil, enquanto que o Marcelo será conhecido como um político íntegro, membro da futura Comissão de Honra da candidatura à Presidência do Professor Cavaco Silva e também reputado professor de direito (honoris causa pela Faculdade de Direito do Porto).
Viva Felgueiras! Viva a Fátima!

É mesmo ele?

É impressão minha ou o Miguel Beleza foi para o «Prós e Contras» desta noite com uns copinhos a mais? Marco Horácio que se cuide...

09 outubro 2005

O porcelanas

O discurso de Valentim é um pouco menos imbecil que o de Fátima Felgueiras mas também não deixa ninguém indiferente. Está tudo lá: a delicadeza na forma como tira o microfone ao assessor, a linguagem polida, a subtileza semântica, as figuras de estilo cuidadosamente empregues, o timbre de voz controlado e sibilante. Junto de Valentim, a oratória de um Hulk Hogan soa a James Joyce. O público, por sua vez, faz lembrar os cãezinhos de Pavlov: Valentim grita, a multidão delirante exulta; Valentim abre os braços e a juventude grita; Valentim faz um gesto com a mão e o povo urra; Valentim berra e pugna contra os poderes instalados e contra a «mentira e a calúnia» e as gentes de Gondomar juntam-se em coro como animais açoitados. Primário.

Inacreditável

Fátima Felgueiras excedeu-se: o seu discurso de vitória é simplesmente a coisa mais abjecta, imbecil, ordinária, descabelada, incongruente, anedótica, populista e idiota que já ouvi. Aplaudir uma coisa daquelas é assinar uma certidão de demência mental.
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P.S.- Se alguém (Jardim ou Valentim) conseguir fazer melhor que isto corto os pulsos. A sério.

Um homem de ideias

Avelino Ferreira Torres falou agora na televisão. As razões da sua derrota são, segundo o próprio, «a calúnia», a «difamação por parte da comunicação social», a «mentira», etc., etc. No meio disto tudo ele só tem pena «das gentes de Amarante». O debate de que falei aqui acabou por não servir de grande coisa ao licenciado amarantino. Não posso dizer que me sinto mal com isso.
Ah sim, quase me esquecia: o nosso folclórico personagem disse também que tinha sido derrotado não pelo PS mas pelos media. Afinal, a comunicação social ainda serve para alguma coisa...
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P.S.- Vai ser muito difícil ouvir, esta noite, algum discurso mais hilariante que este. Alberto João vai ter de se esforçar...

Autárquicas - actualização (provisória)

Cá em Braga ganha o «velhinho» Mesquita - também não esperava (infelizmente...) outra coisa. No Porto e em Lisboa mantêm-se os que lá estavam, com o pai do Dinis (e marido da Bárbara) a claudicar enquanto Fernando Assis é ultrapassado por Rui Rio (um tal de Fernando Albuquerque acabou de dizer que o importante vai ser «devolver à cidade os valores que ela já tem, em favor da cidade»; original, no mínimo). Em Sintra nem a violação da lei eleitoral vale a Soares filho - e não se pode dizer que a oposição era grande coisa...
Quanto às Câmaras «do povo», o ex-residente da «quinta das celebridades» Avelino Ferreira Torres é o único a não conseguir reunir os votos necessários para ser eleito; Valentim consegue ser eleito às custas de uma derrota da Justiça (palavras do filho, João Loureiro); Fátima Felgueiras prova que a acção de formação no Brasil foi uma mais-valia; Isaltino ganha as eleições e chega à sede de campanha em cima do capot do táxi do sobrinho, um milionário de renome.
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P.S.1- Pacheco Pereira não perde tempo: enquanto não fala, escreve!

A «fronteira» do ridículo

O Expresso desta semana trazia na primeira página uma foto de um fugitivo do Mali que conseguira atravessar clandestinamente a fronteira espanhola. No mesmo quadro aparecia o rosto de outro presumível fugitivo, encimado por um pungente subtítulo: «Este pai matou-se para o filho ser europeu».
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Não há soluções fáceis para a questão da imigração ilegal. De um lado estão os pobres diabos que tentam a todo o custo entrar numa Europa que lhes proporciona melhores condições de vida (o que também não é muito difícil, tendo em conta as suas proveniências); do outro, estão os países que têm de defender as suas fronteiras sob pena se se verem submergidos por uma inundação humana - e com todos os problemas que daí advêm.
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Aquilo que me causa uma profunda irritação é ouvir as carpideiras do mal alheio (ou «os» carpideiros...) a revoltarem-se contra a existência de fronteiras como a de Ceuta/Melilla com base num proselitismo político cego e pouco inteligente.
De facto, é bonito criticar as fronteiras, os soldados, o arame farpado e os blocos de granito e advogar pela abolição de tudo isso - a tomada de posição é facilitada pela reconfortante certeza de que tão absurda medida não pode nem vai ser posta em prática - ignorando pura e simplesmente (não por esquecimento mas por astúcia) as consequências que daí resultariam.
Ninguém nega o sofrimento dos fugitivos; o que não é sério nem sensato é usar isso como argumento para a entrada desregrada de toda a imigração. É a demagogia mais abjecta e um aproveitamento completamente intolerável, por parte de pessoas de elevadas responsabilidades na nossa sociedade, de problemas horríveis mas insolúveis neste contexto.
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Estas situações repetir-se-iam menos vezes se não tivéssemos uma comunicação social por vezes tão dócil e amestrada. Bastaria aos jornalistas instarem um destes Ghandis dos tempos modernos a avançar com soluções - concretas, exequíveis e que não conduzissem os países ao caos económico - em vez de ouvirem estas ideias completamente passivos e «encarneirizados» pela lógica do «bonito» e do «politicamente correcto». Infelizmente, ainda não vivemos no País das Maravilhas.
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Imperialismo (?)

Paquistão atingido por sismo. Dois mil e trezentos mortos - estimativa simpática e, pior, provisória. Tragédia? Sim, claro. Catástrofe? Definitivamente. Uma catástrofe natural - e incontrolável, imprevisível e indomável, como todas as outras deste género.
Mas ao contrário do Katrina, este sismo não tem filiação partidária, não foi criado pelo homem e não foi castigo divino; não foi culpa de um presidente imbecil ou de uma administração negligente e belicista. Este sismo foi, afinal de contas, aquilo que realmente foi: um desastre natural.
Aguardam-se as reacções - se houver - dos evangelistas que ainda há menos de um mês ocupavam o tempo livre a endrominar muito boa gente - nem Quioto teve paz. Mesma resposta ou inversão da lógica e aceitação da triste condição humana que pouco pode fazer contra a força da natureza? Entre as duas, arrisco a segunda. Sim, a coerência é uma coisa bonita, mas só nos anos bissextos. Infelizmente, o Atlântico traça uma linha para lá da qual certos olhares se tornam um pouco desfocados e degeneram em estrabismo bilioso.
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P.S.- Entretanto, estudos recentes demonstram que há uma relação directa entre a capacidade de resposta à fúria da Natureza e o grau de democracia e liberdade de uma sociedade.

Recordes

Tenho a impressão de que hoje o Figo falhou o quarto penalty consecutivo pela selecção (Escócia, Grécia, Suécia e agora o Lichenstein). Será que não há mais ninguém na Selecção habituado a marcar penaltys? Pobre Figo, chega a ser confrangedor - e recorrentemente monótono - ver aquela expressão de melindre depois de ver a bola a NÃO entrar na baliza adversária.

08 outubro 2005

Chiça!

Se o Beto continua a dar provas da sua raça, o final da época vai ser marcado pela septuagésima quinta abordagem do Real Madrid ao jogador do Sporting...

04 outubro 2005

Porque os Árabes não gostam da América

Em consequência de uma investigação por mim levada a cabo, dei de caras com uma publicação datada de 6 de Setembro de 2004, em que se relatava um documentário passado na “Discovery Times Channel”, da autoria do jornalista Thomas L. Friedman e, achando o seu resultado interessante, decidi partilhar o mesmo neste espaço.
A premissa do dito documentário era andar pelas Universidades Árabes e questionar os estudantes e professores das ditas Universidades acerca da razão pela qual 19 jovens árabes decidiram pôr termo às suas vidas, levando consigo mais de 3000 inocentes americanos, no dia 11 de Setembro de 2001. As respostas encontradas por Friedman são, no mínimo, curiosas.
Boa parte dos entrevistados afirmou que a razão pela qual os Árabes contestam os EUA é o apoio que o Tio Sam dá a Israel e a outros ditadores no Mundo Árabe. De acordo com um estudante, todo a gente ficou chocada com o 11/9, mas isso (dizem eles) são coisas que acontecem todos os dias no Mundo árabe.
Outro estudante referiu que a culpa é dos Estados Unidos, pois eles insistem em catalogar os árabes no Médio-Oriente de terroristas. De facto, esta ideia estereotipada por parte dos Ocidentais não é favorável à construção de boas relações entre os países mas, não foram 19 suecos que atacaram os EUA mas sim 19 muçulmanos.
O jornalista aproveita também para referir mais um ponto que me parece pertinente: Os Árabes culpam o mal-estar das suas sociedades nos EUA e na Grã- Bretanha. Ora, esta lógica não se apresenta como correcta, e é até contraditória, pois eles próprios no seu “Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe” (elaborado por eles, árabes) afirmam que querem deixar os seus países devido à incapacidade política e à miséria social, mas também não deixam de dizer que os EUA são responsáveis pelos ditadores das nações árabes.
Uma outra razão pelo ódio contra os Estados Unidos provém de uma gritante lacuna nos sistemas noticiosos árabes. Entre outras coisas, nos dias subsequentes ao 11 de Setembro, correu por essas agências noticiosas árabes a notícia de que a CIA e o Mossad estiveram por detrás dos atentados; noticiaram também que 4000 judeus que trabalhavam no World Trade Center foram dispensados do trabalho nesse mesmo dia; e de que as eleições à presidência em 2000 foram sabotadas, porque Al Gore é judeu e logo não poderia mudar-se para a Casa Branca.
O documentário também refere a natureza dos terroristas. Friedman viajou até à Bélgica, um país em que as disputas entre nativos e muçulmanos têm crescido, partindo do pressuposto de que os nativos acusam os muçulmanos de não se integrarem, e os muçulmanos acusam os seus anfitriões de serem discriminatórios para com eles. Ora, estes muçulmanos desiludidos com a vida europeia são alvos fáceis para as mesquitas radicais que assentaram raiais na Europa. De acordo com Bernard Henri Levy em “Quem matou Daniel Pearl?”, os muçulmanos descontentes e frustados com a vida ocidental são alvos mais fáceis e susceptíveis de serem influenciados pelas mesquitas fanáticas. Levy dá o exemplo do terrorista Ahmed Omar Saeed Sheikh.
O próprio Friedman também dá um exemplo: Mohammed Atta, um árabe culto, que queria ser um fiscal para o planeamento e urbanização, foi “radicalizado” por uma mesquita em Hamburgo e foi, como todos sabemos, um dos “mártires” do 11 de Setembro.
Assim é possível perceber como os árabes vêem os EUA, e qual a sua relação com o país: Odeiam-no, culpam-no de todo o mal que lhes acontece mas esquecem-se, na minha opinião, de que mais do que culpar os outros, deverão ser eles a tomar a iniciativa e procurar a reviravolta social pelas suas próprias mãos, em vez de acatarem como certas e irrefutáveis as “verdades” lançadas pelos seus governos, corruptos e incompetentes que apenas procuram o seu bem e ignoram o da população.
É fácil atirar com as culpas para cima dos outros, ainda por cima quando os “outros” são o país mais rico e desenvolvido do Mundo, mas é mais difícil olhar para dentro e encontrar os verdadeiros podres. Se calhar não olham porque não lhes deixam, se não lhes deixam é porque não nos encontrarmos face a um regime muito aberto, se não é um regime aberto é um regime fechado que “fabrica” e “inventa” inimigos, aos quais acusa de impedir a evolução económico-político-social: os EUA. Portanto, este ódio para com os EUA não é nada mais do que uma tentativa do poder político e religioso local de desviar a atenção dos verdadeiros problemas, dando à população um inimigo para os distrair, usando os media como canal predilecto.
Portanto, esta animosidade face aos Estados Unidos está fundada em princípios erróneos. Na minha opinião, torna-se fácil para o mais abusivo dos países procurar criticar o mais aberto e liberal de todos, e é por isso que os EUA são criticados. Por ser o país mais rico do Mundo, é fácil fazer-lhe exigências e apontar-lhe defeitos.
Quando se critica os EUA por serem fechados, ou imperialistas, é porque não se está a ver o panorama completo. Em mais nenhum país do Mundo é possível estabelecer uma vida económica estável em tão pouco tempo; em mais nenhum país são os imigrantes (que são muitos) tratados com tanto respeito (os portugueses são disso um exemplo). É por isso um país acolhedor com sentido de certo e errado. Claro que não foge aos interesses “escondidos”, mas ainda assim consegue ser mais justo do que os outros, e por isso mesmo é o alvo preferencial das criticas.
Esta não é uma tentativa de vitimização dos Americanos, mas é a outra face da moeda normalmente empregue que cataloga os EUA como os barões do mal, e os muçulmanos como os coitados que apenas lutam para proteger a sua identidade cultural e racial, quando se calhar o que eles querem é alargar a sua esfera de influência, sem qualquer respeito pelo direito à diferença dos demais.
Aliás, no fundo o ódio aos EUA não pode ser tão grande porque todos os estudantes entrevistados por Friedman (todos!) disseram que adorariam estudar e depois trabalhar nos EUA. E esta?

02 outubro 2005

Religião e ciência - conflito ou complementaridade?

Li na sexta-feira, num blogue relativamente recente, um Post que me interessou bastante. Pensei em deixar um comentário no blogue em causa mas decidi-me por dar uma resposta um pouco mais elaborada. Aqui está ela.
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Este Post aborda um assunto claro: a relação entre a ciência e religião.
É importante clarificar isto para afastar desde já interpretações enviezada: uma coisa é debater a existência de Deus; outra, bem diferente, é analisar a compatibilidade entre o conhecimento científico e os dogmas religiosos.
Entram em conflito, ou, por outro lado, complementam-se?
São contraditórios - e por isso inconciliáveis - ou apenas distintos, na medida em que tentam explicar diferentes «ordens» de fenómenos?
Sublinhar isto é importante: se a existência de um ente superior não está sujeita a discussão - por se tratar de uma questão de existência ou não de fé (e a fé escapa à esfera do racional) -, o choque - pelo menos aparente - entre a teologia e a ciência pode, creio eu, ser debatido mesmo entre crentes e laicos.
O Rui pensa, se é que interpretei correctamente o seu Post, que a ciência não entra no domínio da religião uma vez que esta se debruça sobre as questões «metafísicas» (espero não estar a usar um adjectivo abusivo) da existência: o sentido da vida, o futuro do homem, etc., enquanto que a outra abrange apenas a área do «cognoscível» (termo dúbio e que pode dar azo a interpretações erradas). De qualquer forma, a minha opinião é completamente diferente.
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Creio que muito dificilmente estarei enganado se afirmar que todas as religiões - sem excepção - têm em comum alguns aspectos: crença num ser superior e muito poderoso (ainda que a omnipotência no seu sentido mais lato apenas seja apanágio das religiões monoteístas), formulação de uma cosmogonia própria (história da criação do universo e do ser humano), um conjunto de histórias e contos (como os trabalhos de Hércules ou o Dilúvio Universal) e um quadro de valores éticos.
A ciência por seu lado, tem como objectivo criar quadros teóricos que permitam explicar a realidade, estabelecendo relações de causa-efeito. Deve fornecer explicações racionais dos fenómenos observados e criar um quadro lógico e coerente cujas previsões se adequem aos dados obtidos empiricamente.
É aqui que «a porca torce o rabo»: para os fenómenos, ciência e religião fornecem explicações diferentes. Exemplos? Vários: a origem do homem (criacionismo versus darwinismo), as órbitas dos planetas (modelo heliocêntrico versus modelo geocêntrico), a criação da terra (a criação em 6 dias versus o princípio do uniformitarismo de Lyell), entre muitos outros.
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Claro que se pode argumentar - como se costuma fazer - que as crenças bíblicas (estou a usar o exemplo concreto da religião cristã mas o raciocínio é válido para qualquer outra) não são relatos verídicos mas antes histórias em registo metafórico e hiperbólico.
Contudo, não é isso que acontece. Pelo menos até agora, a posição da Igreja tem sido de desconfiança em relação a tudo aquilo que vai contra os dogmas cristãos a de vacilante aceitação quando as teorias científicas em questão começam a ser aceites de forma mais ou menos unânime não só na comunidade científica mas também na sociedade em geral.
Um exemplo ilustra bem o que acabei de dizer.
No século XIX, quando Darwin apresentou a sua teoria da selecção natural, esta foi prontamente rejeitada pela Igreja. Porquê? Porque ia contra aquilo que dizia a Bíblia.
Quando as mentalidades mudaram - e se tornava difícil continuar a fechar os olhos à evidência - a Igreja acedeu por fim a aceitar que Adão e Eva não terão passado, muito provavelmente, de filhos de símios.
Os catecismos da altura faziam, contudo, uma ressalva: apesar da ascendência felpuda do ser humano, na impossibilidade da ciência da altura identificar o mecanismo por detrás da evolução humana era prova irrefutável da mão Divina do Senhor. Ou seja, Deus podia não ter criado o homem mas sem dúvida que tinha mexido os cordelinhos.
Infelizmente, poucos anos depois os notáveis avanços da genética vieram explicar quais os mecanismos por detrás da evolução humana - e a Igreja não tardou a descobrir que era razoavelmente difícil ver uma Ordem Divina por detrás de algo de nome tão abjecto como «ácido desoxirribonucleico».
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Aquilo que pretendia salientar com isto é o seguinte: a Igreja tem tomado à letra todas as crenças bíblicas até que estas sejam desmistificados pela ciência. Ela não estabelece a priori qualquer distinção entre dogmas «verdadeiros» (no sentido histórico) e dogmas «metafóricos» - ao invés disso, utiliza um critério algo «popperiano» segundo o qual todos os dogmas são verdadeiros até serem refutados.
A religião está, portanto, a recuar perante a ciência.
Não há uma delimitação clara de campos: de facto, uma começa, cada vez mais, a penetrar na zona de acção da outra e a roubar-lhe as explicações que outrora constituíam o seu monopólio.
E, fácil de ver, quanto mais a ciência avança, mais a religião recua. Se há dois mil anos atrás o homem podia ver Deus nas árvores, no chão, nos planetas, no início do mundo, no fogo e até nos outros homens, hoje em dia apenas vê o código génetico das árvores, a estrutura mineral do solo, as leis do movimento de Newton nos planetas, o big bang da Relatividade-geral de Einstein, as forças químicas no fogo e a neurobiologia no homem e no seu comportamento.
Quanto mais a ciência progride, mais nos temos de conformar com uma ideia de religião cuja essência é a simples crença num Deus superior que, a despeito de todo um enorme (e hipotético?) poder, permanece inactivo e oculto.
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Falta ainda refutar outro argumento.
Diz-se no outro blogue que apesar de todo o poder da ciência, ela será sempre incapaz de penetrar num domínio da religião: a questão do sentido da vida. Quem somos, para onde vamos, porque estamos aqui.
É óbvio que a ciência não dá resposta a isso.
Mas isso tem uma explicação: a ciência não concebe o homem como uma entidade que vive com um propósito - isso é uma crença religiosa.
Ao afirmarmos a incapacidade da ciência de compreender o sentido da vida, estamos a incorrer na falácia de procurarmos na religião a explicação para algo que ela própria postula! Um pouco como tentarmos deduzir os axiomas da matemática a partir de um teorema - em termos lógicos, é impossivel.
Duvido muito que a maioria das pessoas pense que a vida das minhocas tem um «sentido», ou que as pedras e os calhaus têm um propósito de vida. Claro que uma pessoa não é uma pedra ou uma minhoca, mas a diferença entre eles - pelo menos ao nível da ciência mais fundamental, a física - não é estrutural mas sim de grau: um homem é biologicamente mais complexo que uma minhoca e tem uma estrutura química muito mais diversificada que uma pedra, mas no fundo tudo se resume a um aglomerado de partículas elementares (átomos, protões, cordas ou o que seja) que se regem segundo as mesmas leis.
É por isso que qualquer argumentação que diferencie campos de acção entre a ciência e a religião com base nesta pretensa lacuna, está a priori viciada, por se basear numa concepção «religiosa» da existência.
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É esta a minha posição. O Rui disse ainda que «ela própria [a ciência] admite não ser ainda capaz de compreender (grande parte do qual não será nunca explicado, na minha opinião)». Acontece que isto não vem ao caso; aquilo que ela não consegue explicar (que é muito, realmente), são questões com que a religião não se preocupa - e que também não explica: a unificação das forças fundamentais da natureza, a geometria do universo ao nível quântico, o funcionamento exacto do cérebro humano, etc., etc. Se repararmos bem, notamos que estas questões só puderam ser postas devido ao desenvolvimento ciêntifico: são perguntas que nada têm que ver com questões religiosas.
Apenas uma última nota, sem real importância para a questão e apenas a título de curiosidade: a grande questão da física actual é aquilo que se chama a «teoria do tudo», que é, basicamente, uma teoria que permita explicar... enfim, tudo. A ideia é descobrir um conjunto de equações a partir das quais todas as outras teorias de todos os outros campos (biologia, psicologia, química, etc.) possam ser deduzidas. Para um crente fervoroso, a descoberta da teoria em questão teria um só significado: conhecer o pensamento de Deus. Mas isso... isso fica para outro Post.