04 setembro 2005

Vira o disco e toca o mesmo

Ponto prévio: Sei que o furacão Katrina já serviu de matéria prima para um post neste blog; mesmo assim - e apesar da algaraviada opinante que por agora prolifera por toda a blogosfera -, gostaria de, também eu, deixar aqui a minha visão acerca da questão.
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Quando soube do furacão Katrina, confesso que não me apercebi de imediato da gravidade da situação - o que certamente também terá acontecido à maior parte das pessoas.
Com o passar do tempo, contudo, tornou-se óbvio que a questão não só era bastante séria como ameaçava originar uma verdadeira calamidade.
As imagens que começaram então a chegar apenas confirmaram o cenário: morte devastação, perdas humanas e financeiras, localidades destruídas e ruas submersas. Num momento trágico, chegou-se ao ponto de comparar a situação de New Orleans à que ocorreu na Ásia há alguns meses (um tal de "Tsunami" - decerto estarão lembrados). Creio que todos nos recordamos da forma como a comunidade internacional - e em especial a imprensa, bem como alguns "opinion-makers" - se reportaram à questão asiática.
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Fiquei, portanto, espantado quando, através da blogosfera, tomei conhecimento dos comentários que alguns vultos da nossa praça se dignaram a emitir. Os comentários em questão, de tão imbecis que são, não merecem sequer ser aqui reproduzidos - e por questões de higiene recuso-me também a fazer referência aos blogs que tiveram o despudor de parir tão aberrantes cogitações - mas o pensamento base é este: a culpa do furacão é de Bush, que pouco fez para o prever, que não disponibilizou os meios necessários para o combater e que não cumpre o protocolo de Quioto (note o leitor mais distraído que a emissão de gases para a atmosfera implica, necessariamente, uma Natureza mais instável - ao que nós chegámos!).
Numa análise mais geral, as culpas são, indirectamente, de todos os americanos, uma vez que são eles os responsáveis pela eleição de Bush e, como tal, pela perpetuação no poder do «segundo político mais perigoso do mundo a seguir a Hitler» (não, não me enganei nas aspas, alguém teve realmente a lata de dizer uma coisa destas). Faltou, obviamente, acusar Bush de ser crente e de ser contra o aborto, bem como de não ser homossexual e usar gravata.
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Há uma coisa que tem de ser dita, atinente à parte científica da coisa: há a impossibilidade teórica de prever com suficiente antecedência este tipo de fenómenos.
A questão é simples: um furacão - como um tornado ou um terramoto - origina-se devido a variações de parâmetros meteorológicos muito subtis (pressão, temperatura, nível da água, posição da lua, etc.). Ora, "subtil" não quer dizer "pequenas diferenças": "subtil" quer dizer "ínfima" - por exemplo, uma diferença de 0,1 graus pode constituir a fronteira entre um verão plácido e uma catástrofe ambiente.
O corolário é simples: se não pudermos saber com exacta precisão as condições iniciais de um sistema, não poderemos prever, de todo, a sua evolução. Este é uma propriedade encontrada em alguns sistemas que os físicos (e matemáticos) designam de "caos" - a possibilidade de variações minúsculas induzirem a resultados completamente diferentes.
Enfim, talvez o texto se comece a tornar aborrecido. Vamos, então, a um exemplo prático: é mais fácil prever a posição exacta de Marte daqui a 30 milhões de anos do que prever a ocorrência de um tornado nas próximas duas semanas. Acertar uma previsão (ainda que num intervalo de tempo muito mais curto) é, portanto, uma questão de sorte. E a sorte, como dizia Dumas, é como uma cortesã: tanto nos abre a porta de casa como nos vira as costas. Estranho? Definitivamente, mas verdadeiro.
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E a morosidade das forças especializadas a prestar auxílio aos desalojados e aos feridos? E toda a falta de preparação que em Nova Orleães se notou aquando da catástrofe? E a falta de meios? E os recursos?
Deixem-me deixar bem explícita a minha opinião: não sou anti-americano, mas também não sou pró-americano, razão pela qual não me sinto minimamente constrangido por condenar o que quer que nos EUA me pareça incorrecto. Não sei se houve falta de meios, ou lentidão de processos: neste ponto, manifesto a minha ignorância - não por falta de informação mas sim pelas contradições que tenho verificado na imprensa de hoje. Se as autoridades tinham capacidades para dar melhor resposta aos problemas dos habitantes de New Orleans do que aquela que efectivamente deram, então de facto há responsabilidades com que alguém terá de lidar - o que não significa que eu pense que as coisas seriam diferentes se o furacão tivesse passado não pelo continente americano mas pela nossa pequena Europa...
Mas a questão não é esta. O evidente berbicacho é a contradição em que alguns caem quando, arvorando-se em detentores da superioridade moral, exigem determinadamente ao Governo dos EUA que faça isto e aquilo, lamentando que não tenha feito aquilo e aqueloutro, e criticando a impunidade de que Bush goza perante o seu povo, embrenhando-se numa guerra ilegítima quando o dinheiro para coisas sérias começa já a escassear (ideia patenta na afirmação cada vez mais ouvida: "os americanos são estúpidos"; porquê? "Porque votaram no Bush, e não sabem o que é melhor para eles").
Mas contradição, dizia eu. Porquê? Porque estas são as mesmas pessoas que peroram pelo reconhecimento da soberania dos estados (fica por deslindar se a "soberania de uma nação" a que se referem é o desejo dos líderes "idóneos" e "verdadeiros" ou a vontade dos povos que por eles são dominados) e pelo "respeito das decisões de cada país naquilo que à sua política interna diz respeito" - África e Médio Oriente incluídos. Em pratos limpos e linguagem clara: os líderes africanos podem matar o povo à fome - estes têm o seu "timing" de desenvolvimento próprio, e não nos podemos impor a eles - e os líderes muçulmanos podem matar as mulheres que são violadas - afinal de contas há diferenças culturais a respeitar - mas o crápula do Bush deve lidar com as situações internas não à sua maneira mas à maneira dos intelectuais do velho continente. É só coerência.
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No momento em que escrevo isto, uma nova teoria veio à baila: a elevada percentagem de negros observada nas imagens indica o racismo que grassa pelos EUA. Enfim, mais uma "pérola" - ao melhor estilo da bloquista Ana Drago - vinda do insuspeito e "moderado" Vital Moreira. (Para se repetir a "cassete" só faltou mesmo a velha ladainha da "demagogia, racismo, xenofobia e populismo").
A teoria de Vital é tão abstrusa que muito me espantei ao verificar que houve pessoas que se deram ao trabalho de a refutar (aqui e aqui).
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P.S.- O Post está um pouco desconexo mas são quase quatro da manhã e as horas começam a pesar. Escreveria mais tarde mas, uma vez que vou estar impossibilitado de postar nos próximos dias, preferi aproveitar a ocasião.

Comentários

2 Comments:

At domingo, setembro 04, 2005 11:20:00 da tarde, Blogger Nino said...

Brilhante.

 
At segunda-feira, setembro 05, 2005 10:47:00 da tarde, Blogger Phillipe Vieira said...

romano deixa-me aqui dizer-te abertamente que para mim, cidadão norte-americano, é gratificante ler aquilo que um europeu escreve acerca dos EUA, quando essa opinião é devidamente imparcial e distante. Não peço que digam bem, mas que apenas sejam imparciais ao ponto de evitarem certas "baboseiras" como aquelas que eu tenho tido a oportunidade de ler.

Não sou o Presidente do Clube de Fãs do Bush, mas caramba, o homem não é o culpado por tudo aquilo que tem acontecido. Ok, ele é o "Prez", mas não se esqueçam que o sistema político americano é devidamente imparcial e descentralizado, sendo que a cidade de New Orleans situa-se no estado do Louisiana, que tem o seu governador (neste caso uma senhora) e acidade que tem o seu "mayor". Também eles teriam poderes para fazerem muito mais.

Bom, fica bem e continuação de boas férias.

 

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