08 setembro 2005

Os três mosqueteiros

Após algumas semanas (meses?) de especulação, eis que se começam a perfilar alguns candidatos para ocupar o cargo de Presidente da Répública. Louçã, Mário Soares e o camarada Jerónimo são as opção - pelo menos para já.
Sim, como já repararam, por agora é apenas a vigorosa juventude da esquerda que assume a responsabilidade. Curiosamente, algumas destas candidaturas - duas delas, pelo menos - assumiram como objectivo a luta inexorável contra a direita galopante, que, repita-se aqui, «não pode ocupar a cadeira presidencial!» (palavras do camarada que no compeonato findo acabou fisicamente limitado por uma incómoda lesão no aparelho vocal).
O inimigo é comum a todos mas - pasmem-se! - ele ainda não apareceu: a direita fascizante, avara, beligerante, liberal e capitalista ainda não se apresentou a combate. Claro, claro, esqueço-me do «professor», de quem agora muito se fala; ah!, mas notem contudo que um homem não é de ferro, e não será de todo descabido o cenário que proponho: o dito «professor», ao ver o fervor que os seus putativos opositores colocam nos seus discursos ainda antes da campanha começar, começa a pesar os prós e os contras da sua eventual candidatura e chega à sagaz conclusão de que o quentinho da botija de água quente, o prazer de uma noite bem dormida e os descomprometidos e ociosos dias de uma reforma bem merecida são, talvez, bens demasiado valiosos para serem sacrificados em favor de uma mera candidatura presidencial. Para além disso, para que serve um presidente? Sim, Sampaio deu o exemplo: a visita guiada à Cova da Moura, a condecoração dos U2, mas duvido que Cavaco seja desse género. Talvez o incentivo fosse maior se em S. Bento residisse um certo menino guerreiro; pelo menos haveria sempre a possibilidade de, a todo o momento, Cavaco, qual adolescente a jogar Quake II, utilizar a mais poderosa das armas - a bomba atómica (dissolução da Assembleia, obviamente) - e divertir-se a ver os efeitos.
De qualquer forma, Cavaco ainda não confirmou a candidatura - é ainda um mistério. Até lá, alimentarei a secreta esperança de poder ver Manuel Monteiro a afirmar-se como o candidato de toda a direita!*
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Tem também marcado a actualidade a veia poética de Mário Soares, que, ao anunciar-se candidato, declamou Fernando Pessoa: um interessante poema que fazia eco das insuficiências de Jesus Cristo como economista. Soares esqueceu-se, contudo, de dizer que muito dificilmente Fernando Pessoa apoiaria uma eventual candidatura de Jesus Cristo à Presidência da República.
Há, aliás, uma outra questão que não posso deixar passar em branco: o evidente erro de raciocínio do solerte candidato quando puxa da velha cartilha humanista e afirma que é a favor de uma economia que ponha «as pessoas em primeiro lugar».
Ora, acontece que a economia é uma prática - ou ciência - cujo objectivo final é obter a saúde financeira de um povo. A um Ministro da Economia pede-se que seja capaz de estimular alguns sectores por forma a aumentar a receita, tomar medidas de modo a diminuir os gastos inúteis, fazer investimentos que estimulem a eficiência, etc. Mas o que acabei de enunciar não são os fins últimos da economia: tudo isto é apenas um meio de fazer com que o povo de uma dada região tenha meios - dinheiro, leia-se - para subsistir. Ou seja, a economia é algo que permite a melhoria da qualidade de vida das pessoa através da sua saúde monetária. Não há economia para as pessoas e outra economia per se: o que pode é haver uma má economia e uma boa economia, consoante ela consegue - ou não - atingir os seus objectivos.
Aquilo que Soares fez foi, isso sim, colocar-se contra aqueles que advogam pelas medidas difíceis que exigem sacrifícios - mas que a médio e longo prazo se revelarão mais acertadas. Quando disse que para ele as pessoas estariam primeiro, o que queria dizer era que, na sua concepção, não é lícito pedir sacrifícios às pessoas para melhorar a economia porque ela não é um fim em si; mas, lamentavelmente, esquece-se de dizer que ao enfraquecermos a economia estamos, em última análise, a hipotecar o nosso futuro económico, e a alimentar amanhãs pouco sorridentes.
A um Presidente da República exige-se não só sensatez e isenção mas também realismo, carácter e força de vontade para apoiar medidas impopulares... Foi uma péssima partida este discurso.
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Mas, de qualquer forma, diz-se que o debate económico não vai ser travado por Soares: esse papel caberá ao revolucionário Louçã. A teoria é plausível se lhe olharmos para o currículo como economista, mas completamente descabelada se pensarmos naquilo que o seu partido defende. Parece-me claro que o seu discurso estará a priori extremamente limitado e condicionado pelas posições que o Bloco de Esquerda perfilha a nível económico. Com efeito, é bonito atacar, por exemplo, o aumento da idade da reforma perante alguns jovens imberbes, mas duvido muito que Louçã tenha a desfaçatez de defender a tese perante um reputado economista como Cavaco Silva. Não devemos esquecer que Cavaco, apesar de ser figura calma e de bom trato, não é completamente desprovido das mais vulgares características humanas, pelo que nem ele conseguirá conter uma valente gargalhada quando Louçã propuser «o aumento da produtividade» como forma de ultrapassar a notória discrepância entre a riqueza criada e o capital consumido em Portugal (fruto da cada vez mais avançada esperança média de vida).
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P.S.- Apenas mais uma coisa: Louçã, como referi, propõe o aumento da produtividade. É engraçado, principalmente se tivermos em conta que o B.E. é realmente um partido que apela à capacidade de sacrifício do trabalhador, à sua responsabilização, ao trabalho árduo, à criação de valores (como o trabalho, o dever, etc.) entre os jovens, e repudia completamente as greves avulsas e desregradas, os buzinões sistemáticos, a «desobediência cívica», etc. Felizmente que nos acampamentos dos jovens do Bloco há «workshops» de artes circenses; assim, quando a malta concordar com estas medidas já se sente bem integrada na pele de «palhaço».
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*Espero que a ironia desta frase seja notória!

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