13 setembro 2005

Os protestantes e os Protestantes

Facto: no primeiro trimestre de 2005 as greves em Portugal atingiram o redondo número de quarenta, envolvendo 4753 pessoas; a «brincadeira» saldou-se num total de 7629 dias de trabalho perdidos.
Mais factos: a actividade sindical dá emprego a centenas de pessoas; em termos percentuais, Portugal é dos países da UE que a mais sindicalistas dá emprego.
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Esta é uma atitude que, de tão arreigada estar na sociedade, já se tornou quase genética. Em situação de crise, a solução é só uma: reclamar, reclamar, reclamar. São necessários sacríficios? O português faz birra e sussurra: «o vizinho primeiro, se faz favor».
No fundo, é uma questão de mentalidade. Na Suíça, por exemplo, referendou-se, na década de 70, uma semana de trabalho mais curta; a população votou «não».
E cá, o que se faz? A produtividade é escassa? A população envelhece e o número de trabalhadores é cada vez menor? Não há problema, os outros que tratem disso. Fazemos greves, protestamos por tudo e por nada e esperamos que os problemas se resolvam por si mesmos - ou que venha alguém resolvê-los por nós.
O paradoxo é esse: somos exigentes com os outros mas condescendentes com nós mesmos. Será que o cidadão que reclama do político, do patrão e do vizinho esforça-se, em primeiro lugar, por ser um bom cidadão? Será que tenta rentabilizar o trabalho, ser pontual e cumpridor? Será que paga os seus impostos, chega ao trabalho a horas e paga as suas dívidas?
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As consequências deste comportamento são óbvias: aqueles que pouco trabalham querem trabalhar ainda menos e aqueles que mais trabalham são vistos com maus olhos.
É isso que acontece com os grandes empresários portugueses - por exemplo, Belmiro de Azevedo. As explicações que grande parte do povo dá para a sua riqueza são bastante matizadas - vão desde a avareza até à corrupção, passando pela mentira e pelo roubo - mas excluem sempre palavras como trabalho, esforço, empenho e capacidade.
Percebe-se porquê: é mais fácil atribuir a fortuna do outro à sorte ou à malvadez do que às suas capacidades próprias, porque, de certa, forma, ajuda a explicar o porquê de «nós» não estarmos em idêntica posição; no fundo, a culpa não é nossa - mas das circunstâncias. Esta mesquinhez de pensamento nota-se particularmente bem em certas comunidades de emigrantes portugueses: se o vizinho tem um fiat punto, é um gajo porreiro; se tem um BMW, anda metido na droga. Tão simples quanto isso.
Esta é uma mentalidade retrógrada, decerto.
Mas a tal «mentalidade retrógrada» ajuda a explicar as diferenças entre alguns países. Nos EUA, por exemplo, a fortuna tem uma conotação completamente oposta: ela é sinal de qualidades morais, pois o sucesso e a riqueza revelam uma pessoa esforçada e capaz. Devemos, contudo, abrir um pequeno parênteses: não é a fortuna em si que é merecedora de respeito: aquilo que verdadeiramente é exaltado é a capacidade de um homem de criar fortuna, de ter sucesso e se diferenciar da mediocridade reinante. Por isso, um herdeiro de uma grande propriedade ou um magnata do petróleo não são vistos da mesma forma que um grande industrial - o típico «self-made man»: um herdou o poder, enquanto que o outro teve de batalhar para o obter. A posição social é, portanto, um «atestado de competência», um «garante de virtudes», por provar «empiricamente» que o sujeito é alguém trabalhador, honesto e capaz de fazer sacrifícios. Enquanto que nós por cá dizemos que «fulano é bom rapaz» - porque, apesar de não trabalhar, ser mandrião e pouco cumpridor, vai connosco ao futebol e é bom a emborcar umas cervejas -, eles, por lá, dizem que «fulano é um homem respeitável» - porque foi capaz de subir na vida devido ao seu esforço e trabalho e porque dinamizou a economia e empregou pessoas.
É evidente que há causas para isto - as heranças religiosas, como o calvinismo e metodismo, e a presença de um sistema liberal, no qual as capacidades de cada um contam mais do que a cunha ou o conhecimento de alguém influente -, mas o que importa salientar é exactamente esta capacidade de valorizar a excelência; os americanos estão mais preocupados em lutar pelo que desejam do que em rebaixar aqueles que têm sucesso onde eles fracassaram. Não sou um «indefectível» dos EUA, mas neste ponto tenho de admitir que admiro o seu exemplo.
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Um dos maiores problemas da sociedade portuguesa é, portanto, a mentalidade.
Não só não queremos ser bons como não queremos que ninguém o seja.
Queixamo-nos de tudo mas pouco fazemos para alterar a situação.
Queremos que os políticos tragam fórmulas da salvação que melhorem a sociedade mas não conseguimos sequer melhorar-nos a nós mesmos.
O corolário é, como não podia deixar de ser, bastante simples: trabalhamos pouco e mal, lamentamos os pequenos problemas e desatamos em prantos pungentes quando somos obrigados a fazer pela vida. Entretanto, criticamos os Belmiros e os Champalimoud's deste país - sem contudo termos a noção de que, se os empregos por eles criados não existissem e os seus (avultados) impostos não fossem pagos, a nossa situação estaria muito pior. Triste condição. Inegável paradoxo.

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