15 setembro 2005

Honestidade ou aproveitamento?

Tenho seguido com atenção e interesse a discussão que se gerou na blogosfera acerca de uma possível relação entre o não cumprimento do protocolo de Quioto, por parte dos EUA, obviamente, e o aparecimento de furacões.
O mote veio da parte do blogue «Bichos Carpinteiros» e não ficou sem resposta - dada por parte da «direita portuguesa» (que, para Joana Amaral Dias, é representada por blogues como este, este, este e este). De um lado, há os que advogam pela hipótese da existência de uma relação causa-efeito entre poluição e catástrofes; do outro lado, há os que a contestam.
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A discussão está, desde o início, viciada: estamos a tratar de um tema científico.
Quando falamos de um assunto como este, estamos à partida limitados por um evidente óbice: não somos especialistas - mas leigos. Não sendo especialistas, temos apenas duas soluções: ou defendemos posições assumidas já por alguns cientistas credenciados que estudam o fenómeno em causa ou usamos esperteza saloia e entronizamo-nos a nós mesmos como pseudo-especialistas.
Joana Amaral Dias escolheu a primeira alternativa: citou autores - cientistas renomados - para defender a sua tese: os Estados Unidos estão, de certa forma, a contribuir para a multiplicação destas tragédias ao não cumprir o protocolo.
Não pretendo rebater: como já foi salientado noutros blogues, não só não há provas científicas de relação causa-efeito como existem cientistas que estão fortemente contra essa possibilidade.
Aquilo que pretendo fazer notar - algo que salta aos olhos - é o aproveitamento que se faz de dados da comunidade científica para atingir fins políticos. Note-se uma coisa: aos olhos de Joana Amaral Dias, ambas as teorias (as que vão no sentido de relacionar Quioto com os furacões e as que vão no sentido oposto) se apresentam ao mesmo nível.
Ambas têm partidários e ambos têm dados que as apoiam.
Ambas são confirmadas nalguns casos e refutadas noutros casos.
Um técnico pode, em consciência, comparar os argumentos de um lado e do outro e emitr um juízo de valor, porque tem capacidades que lhe permitem avaliar as evidências que apoiam cada teoria. Podendo estar errada, a sua opinião será sempre baseada num conhecimento de causa, que logo à partida lhe permite fazer avaliações.
Não conheço os limites dos conhecimentos de Joana Amaral Dias. Contudo, suponho que não estarei longe da verdade ao afirmar que ela deve perceber tanto de meteorologia quanto eu percebo de interacções electromagnéticas entre neutrinos e quarks.
Isto leva-nos à pergunta: se ela não tem qualquer forma de julgar qualquer das teorias, ou seja, se não pode, em consciência, optar, de forma fundamentada, por uma delas - porque lhe falta a capacidade de avaliação que só um saber técnico propicia, por que raio defende ela uma posição relativamente à outra? Ainda por cima, porquê de forma tão acérrima?
Na verdade, a única coisa que ela pode fazer neste momento é esperar; como todos nós, esperar até que a comunidade científica alcance um consenso. Esperar até que um saber tecnicamente fundamentado atinja uma unanimidade que lhe permita - a ela - ultrapassar a óbvia indecisibilidade da questão aos olhos de um leigo. Até essa altura, todas as posições que ela defender acerca deste problema serão nada mais nada menos que uma mera profissão de fé.

Comentários

1 Comments:

At quarta-feira, setembro 21, 2005 4:51:00 da tarde, Blogger AA said...

Caro Pedro Romano,

O que escreve aqui não é mais do que bom senso.

Mas gostava de ressalvar que lá no A Arte da Fuga não temos de facto uma posição científica definida, muito pelas razões que aqui enuncia:

nfelizmente para a posição política de JAD, não há provas ou conclusões científicas que comprovem qualquer das relações. Há "hipóteses"— conjecturas— que tanto podem ser postuladas com base fortes evidências físicas ou mero wishful thinking. Hipóteses não são factos— não têm qualquer validade científica até que sejam provadas— o que não quer dizer que não tenham de ser investigadas.

A nossa leitura política é contudo muito diferente da que defende JAD...

Cumprimentos,

AA

 

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