26 setembro 2005

De olhos bem fechados...

Quando um célebre «arrastão» varreu a praia de Carcavelos, as reacções foram bastante diversas.
De um lado reuníram-se aqueles que viram no sucedido uma prova da ineficácia policial do estado; do outro lado, juntaram-se os que de súbito encontraram uma evidência das más políticas de integração e do racismo dos portugueses.
Os argumentos destes últimos, contudo, rapidamente deixaram de ser necessários: poucos dias depois, já não havia necessidade de procurar explicações para o «arrastão» porque, simplesmente, não ocorrera nenhum «arrastão».
----------
Admito que a questão tenha sido exagerada.
Admito também que o contingente criminoso não se tenha cifrado nos propalados quinhentos assaltantes - apesar de me ser difícil imaginar o cenário proposto pelo BE, no qual os distúrbios foram apenas causados por meia dezena de jovens (neste blog a posição é similar).
No entanto, o «arrastão» teve o condão de alertar a sociedade para dois graves problemas: a criminalidade crescente entre os «brandos costumes» dos portugueses e - não menos importante - o seu branqueamento.
Com efeito, foi a partir dessa altura que as televisões começaram a transmitir imagens dos assaltos nas linhas de comboio, a mencionar os elevados índices de criminalidade na zona da Grande Lisboa (os gangs aumentaram 460% nos últimos 7 anos...) e a dar conta do «outro lado» de Portugal (aqui podem ter um bocadinho do «outro lado»). Ao mesmo tempo, blogues variados (como este) tinham na criminalidade matéria suficiente para vários Posts diários.
Subitamente, as pessoas começaram a reparar: afinal, Portugal não era um país assim tão seguro.
----------
A criminalidade - e o seu aumento quase exponencial - é um facto.
Então, e sendo este um problema tão grave, por que razão não toma a classe política uma posição firme em relação a ela?
Por que razão continua esta questão permanentemente arredada dos programas eleitorais dos partidos?
A resposta é só uma: na nossa sociedade falar da criminalidade é tabu. É um discurso interdito.
Isto porque falar da criminalidade implica fazer referência a certos elementos que devem estar ausentes de uma discussão «politicamente correcta», a saber: imigração, minorias étnicas, etc.
Num país que sofre de um complexo «anti-direita» bastante agudo, o mais correcto, perante fenómenos como a criminalidade, é assobiar para o lado, repetir a velha ladainha dos desintegrados e rejeitados e prosseguir o caminho, perorando por mais e melhores reformas sociais, mais integração, mais lares recreativos, menos impostos e mais casas para os desenraizados*.
De facto, a lógica é engraçada: se mais compreensão não significa menor criminalidade, o problema não é do método empregue mas sim do facto de ainda não estarmos a «compreender» o suficiente o criminoso.
----------
A questão torna-se cada vez mais perigosa - e o feitiço pode voltar-se contra o feiticeiro.
Esta indulgência irracional mais não está a fazer que dar eco a certas vozes que, a pouco e pouco, estão a conseguir capitalizar a frustração de cidadãos que, ao constatar que os maiores partidos não os defendem dos criminosos, se viram para quem lhes propõe medidas drásticas - mas eficazes.
Os exemplos começam a ser muitos: blogues nacionalistas proliferam pela blogosfera; os sites racistas espalham-se como nunca se espalharam antes; cada vez mais jovens começam a seguir associações políticas de extrema-direita, porque «é fixe» e porque «é diferente» e porque «eles vão acabar com os pretos». Alguns destes jovens começam também a criar os seus blogues (a escrita é um verdadeiro atentado à gramática e os argumentos são de uma imbecilidade atroz - em casos extremos as crianças chegam a fazer referência a Adolf Hitler - mas o velho adágio «Deus, Pátria e Família» está lá).
É este o risco que corremos.
Possivelmente, estamos à beira de um momento de viragem - em que os partido «da moda» entre os jovens vão deixar de ser os de extrema-esquerda para passarem a ser os de extrema-direita.
Francisco Louçã que se cuide: há muitos Le Pen por aí à caça de jovens descontentes...
----------
*é um assunto complexo; sem dúvida que voltarei a ele mais tarde.

Comentários

0 Comments:

Enviar um comentário

<< Home