29 setembro 2005

Orientação política

Encontrei um site engraçado que propõe um teste de orientação política.
Ele fornece um inquérito composto por algumas dezenas de perguntas; com base nas respostas dadas, o programa situa o inquirido num gráfico cujos eixos "y" e "x" correspondem, respectivamente, à postura do indivíduo em relação à economia (mais ou menos liberal) e em relação às questões sociais.
É a localização no gráfico que permite, por fim, "catalogar" (não gosto do termo, mas é o mais indicado nesta situação) a pessoa e inseri-la num dos "grupos políticos": liberal, capitalista, socialista, anarquista, democrata, etc.
Eu fui classificado como «centrista», ainda que a aproximar-me dos "republicanos" (um pouco desviado para a esquerda - 45% social permissive - e um tudo ou nada puxado para cima - 55% economic permissive).
Vale o que vale, mas acaba por ser divertido.

Leitura recomendada

«Os intelectuais e o liberalismo», de Raymond Boudon.
Curto (cerca de 140 páginas) mas bastante interessante.
Em vez de focar em demasia a vertente mais debatida do liberalismo - o liberalismo económico - o autor faz antes um esboço daquilo que é o «pensamento liberal» (desde Stuart Mill a Hobes) e procura as razões pelas quais ele é tão pouco popular entre os intelectuais (os europeus, principalmente, mas também - e cada vez mais - os próprios americanos). Recomendado a todos os que apreciam a leitura em geral e ao americano e ao lisboeta em particular. Porque sei que vão gostar.

26 setembro 2005

De olhos bem fechados...

Quando um célebre «arrastão» varreu a praia de Carcavelos, as reacções foram bastante diversas.
De um lado reuníram-se aqueles que viram no sucedido uma prova da ineficácia policial do estado; do outro lado, juntaram-se os que de súbito encontraram uma evidência das más políticas de integração e do racismo dos portugueses.
Os argumentos destes últimos, contudo, rapidamente deixaram de ser necessários: poucos dias depois, já não havia necessidade de procurar explicações para o «arrastão» porque, simplesmente, não ocorrera nenhum «arrastão».
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Admito que a questão tenha sido exagerada.
Admito também que o contingente criminoso não se tenha cifrado nos propalados quinhentos assaltantes - apesar de me ser difícil imaginar o cenário proposto pelo BE, no qual os distúrbios foram apenas causados por meia dezena de jovens (neste blog a posição é similar).
No entanto, o «arrastão» teve o condão de alertar a sociedade para dois graves problemas: a criminalidade crescente entre os «brandos costumes» dos portugueses e - não menos importante - o seu branqueamento.
Com efeito, foi a partir dessa altura que as televisões começaram a transmitir imagens dos assaltos nas linhas de comboio, a mencionar os elevados índices de criminalidade na zona da Grande Lisboa (os gangs aumentaram 460% nos últimos 7 anos...) e a dar conta do «outro lado» de Portugal (aqui podem ter um bocadinho do «outro lado»). Ao mesmo tempo, blogues variados (como este) tinham na criminalidade matéria suficiente para vários Posts diários.
Subitamente, as pessoas começaram a reparar: afinal, Portugal não era um país assim tão seguro.
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A criminalidade - e o seu aumento quase exponencial - é um facto.
Então, e sendo este um problema tão grave, por que razão não toma a classe política uma posição firme em relação a ela?
Por que razão continua esta questão permanentemente arredada dos programas eleitorais dos partidos?
A resposta é só uma: na nossa sociedade falar da criminalidade é tabu. É um discurso interdito.
Isto porque falar da criminalidade implica fazer referência a certos elementos que devem estar ausentes de uma discussão «politicamente correcta», a saber: imigração, minorias étnicas, etc.
Num país que sofre de um complexo «anti-direita» bastante agudo, o mais correcto, perante fenómenos como a criminalidade, é assobiar para o lado, repetir a velha ladainha dos desintegrados e rejeitados e prosseguir o caminho, perorando por mais e melhores reformas sociais, mais integração, mais lares recreativos, menos impostos e mais casas para os desenraizados*.
De facto, a lógica é engraçada: se mais compreensão não significa menor criminalidade, o problema não é do método empregue mas sim do facto de ainda não estarmos a «compreender» o suficiente o criminoso.
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A questão torna-se cada vez mais perigosa - e o feitiço pode voltar-se contra o feiticeiro.
Esta indulgência irracional mais não está a fazer que dar eco a certas vozes que, a pouco e pouco, estão a conseguir capitalizar a frustração de cidadãos que, ao constatar que os maiores partidos não os defendem dos criminosos, se viram para quem lhes propõe medidas drásticas - mas eficazes.
Os exemplos começam a ser muitos: blogues nacionalistas proliferam pela blogosfera; os sites racistas espalham-se como nunca se espalharam antes; cada vez mais jovens começam a seguir associações políticas de extrema-direita, porque «é fixe» e porque «é diferente» e porque «eles vão acabar com os pretos». Alguns destes jovens começam também a criar os seus blogues (a escrita é um verdadeiro atentado à gramática e os argumentos são de uma imbecilidade atroz - em casos extremos as crianças chegam a fazer referência a Adolf Hitler - mas o velho adágio «Deus, Pátria e Família» está lá).
É este o risco que corremos.
Possivelmente, estamos à beira de um momento de viragem - em que os partido «da moda» entre os jovens vão deixar de ser os de extrema-esquerda para passarem a ser os de extrema-direita.
Francisco Louçã que se cuide: há muitos Le Pen por aí à caça de jovens descontentes...
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*é um assunto complexo; sem dúvida que voltarei a ele mais tarde.

Não gosto de me colar

... mas para quê escrever quando outros têm mais jeito do que nós?
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P.S.- Ainda que a versar sobre outro tema, recomendo também este excelente Post do Henrique Raposo.

«Alegre é fixe»

Não posso dizer que estava à espera - porque não estava - mas a verdade é que nunca pus completamente de parte a hipótese do Poeta avançar. Depois de uma história da qual o velhinho Soares não sai muito bem, parece que, afinal, sempre vai haver quatro candidatos pela Esquerda - ou cinco, se contarmos com o «eterno» Garcia Pereira.
Pessoalmente, acho que é um cenário único (e muito vantajoso) aquele com que Alegre se depara: sem ser um «peso pesado» da política, consegue obter (pelo menos nas sondagens) um resultado bastante apreciável; não sendo um «moderado», reúne o respeito de sectores muito matizados da sociedade, inclusive à direita (vejam o que se diz aqui, aqui ou até aqui) - algo a que Soares não pode, na presente situação, aspirar; aparecendo apenas agora como candidato, depois de uma «escaramuça» (não me ocorre termo melhor) com o amigo de longa data, traz a aura do «lutador ferido» - algo de que os portugueses tanto gostam.
Por enquanto, não arrisco prognósticos; mas permitam-me a pergunta: se é verdade que esta candidatura é boa para a Esquerda (porque permite evitar a vitória de Cavaco à primeira volta - é o que nos dizem as sondagens), será que ela não se tornará nefasta para aquele que considerou que «com Alegre, a ida de Cavaco para Belém seria um passeio»? Afinal de contas, 5% de diferença não é uma margem impossível de esbater em poucos meses... A segunda volta - a ter lugar - pode, afinal de contas, um protagonista surpresa.
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P.S. Já se começa a ouvir dizer que a candidatura de Alegre não traz problemas a Soares, pois vai apenas captar a Extrema-Esquerda - e esse não é o eleitorado do antigo Presidente da República. Engraçado, agora que penso no nome da nova mandatária da candidatura desse senhor... Quer dizer: Soares não acredita em bruxas (como, por exemplo, ser ultrapassado por Alegre) mas que as há... Dá vontade lembrar o velho poema popular:
«Pára raios nas Igrejas
São para lembrar aos ateus
Que um crente, por mais que o seja
Não tem confiança em Deus»

O circo está de volta

A 9 de Outubro milhões de Portugueses (os que ainda resistem) vão às urnas, pois esse dia é dia de eleições autárquicas.
Nas eleições autárquicas decide-se o futuro do poder local. Em Portugal, a ideia de poder local remonta aos tempos da Constituição de 1911, tendo sido posteriormente retomada pela de 1976. A ideia de poder local representa a noção de que o Estado central não deverá ter um papel exageradamente decisivo na vida quotidiana das localidades. Atribui-se a essas localidades o poder de administrarem os seus próprios interesses através de órgãos representativos constituídos por locais, que melhor compreendem a realidade do município/ freguesia., sendo por isso mesmo mais aptos a resolverem os problemas dos seus concidadãos.
As relações entre o Poder local e o Estado têm diferentes vertentes, entre as quais se podem destacar:
. A cooperação entre os dois poderes de modo a melhor resolverem os problemas locais;
. O Estado distribui verbas às autarquias, fiscaliza o cumprimento da lei, tendo de resto o poder local total autonomia;
. O poder local, democraticamente eleito, tem como responsabilidade fazer chegar ao Estado as preocupações e necessidades das populações por eles representadas.
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Ora, nós sabemos que estas noções, ainda que pertinentes, não são completamente válidas no nosso país. A promiscuidade é evidente dentro de determinadas autarquias, tal como a obscuridade relativa ao rápido enriquecimento de alguns vereadores que, entre outros processos menos claros, levam o “tuga” a desconfiar da boa vontade destes indivíduos que, de quatro em quatro anos, se oferecem para “levar o concelho para a frente”. Têm sido extremamente escrutinados e avaliados os casos particulares de determinados autarcas que insistem em ficar agarrados ao poder, quando é evidente que não têm legitimidade para tal. Vejamos alguns desses casos:
. Fátima Felgueiras: A Fatinha foi apanhada a meter para o saco e, foi de férias para o Brasil. Quando chegou o período eleitoral, a ilustre autarca aproveitou uma falha da lei para regressar pois, e isto é legal, um indivíduo que faça parte de uma lista eleitoral não pode ser preso em tempo de campanha. A boa senhora regressou, apanhou uma boleia da Portela até ao Tribunal de Felgueiras, e depois saiu para gáudio dos milhares de tristes e analfabetos felgueirenses que ainda a apoiam. E parece que ganha…
. Avelino Ferreira Torres: Este honrado autarca distinguiu-se pelo trabalho fenomenal desenvolvido no Marco de Canaveses. Afinal, não são todos os presidentes de câmara que podem dar cabo de um banco num estádio de futebol (com o seu nome), perseguir árbitros, desviar fundos para o clube da terra, ordenhar vacas na TV, e ainda terem a hipótese de ganhar as eleições para a câmara… vizinha. É que o bom Avelino prepara-se para deixar o Marco e, qual filho pródigo, entrar triunfal em Amarante.
. Isaltino Morais: O autarca modelo, cometeu um pequeno e, segundo o próprio, insignificante erro quando, estava o governo de Durão Barroso no início, o amigo Isaltino se esqueceu de falar numas contas suas na Suiça que, ao que tudo indica, até estavam em nome do cunhado. Deixou o governo e decidiu resignar-se com a vida camarária. Mas, o furacão Marques Mendes dificultou-lhe os planos, ao recusar apoiar a sua candidatura.
. Valentim Loureiro: O Major, Presidente da Liga Portuguesa de Futebol, Presidente da Metro do Porto e Presidente da Câmara de Gondomar teve um mandato complicado, com as acusações de corrupção envolvidas no processo “Apito Dourado”. Ao contrário do Avelino, Valentim ainda não foi condenado, é apenas arguido. Mas, tal como Isaltino, também viu a manta de apoio do PSD escapar-se-lhe por entre os dedos, quando o Presidente recusou misturar a sigla do Partido com os seus cartazes de candidatura.
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Falemos a sério. Porventura estes não serão os piores casos, apenas os mais mediáticos. Mas, não deixa de ser enervante para o restante povo, que sistematicamente estes cromos (à falta de melhor termo) surjam por altura das eleições. O caso de Fátima Felgueiras é demasiadamente anormal e aberrante. Uma cidadã é investigada por suspeição de desvios de fundos municipais, em prol (sobretudo) do clube da terra (que até já fechou as portas). Alguém do tribunal avisa-a com antecedência da intenção do Ministério Público em executar a ordem de Prisão preventiva. A dita foge para Madrid e ainda consegue voar para o Brasil, onde se aguenta mais de dois anos, dando entrevistas, passeando na Praia, enviando advogados brasileiros a Portugal (para quê, não sei). Ora, será que a ingenuidade dos felgueirenses é tanta, que não vejam que a Dra. Fátima governou-se no Brasil com dinheiros concelhios; não é por demais evidente que a Presidente esteve-se nas tintas para os seus eleitores e fugiu logo que pôde; não é também evidente que o concelho de Felgueiras é dos mais pobres do Distrito do Porto, com uma taxa de Desemprego elevada! Mas, e mesmo assim, é fácil ouvir certos iluminados referirem-se à autarca como uma “senhora que fez tudo por Felgueiras” e acrescentarem coisas espantosas como: “Se roubou, roubou para Felgueiras”. Isto é extraordinário.
Todos os candidatos acima referidos foram “dispensados” pelos seus partidos, mas tal como aconteceu com Daniel Campelo em Ponte de Lima, o regresso pode estar a apenas alguns anos de distância, ou será que o PP, sedento de poder, deixará escapar em 2009 uma câmara como a de Amarante, câmara pela qual o Partido não tem candidatos este ano? Isto, claro, se Ferreira Torres ganhar a referida autarquia.
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Uma outra situação que me incomoda um pouco, é o facto de por esta altura os Partidos Políticos comportarem-se como clubes de futebol que procuram colocar os seus jogadores excedentários. Ora veja-se o exemplo do PS em relação a João Soares. Politicamente falando, Soares é uma nada, um zero à esquerda. Mas, é o filho do Mário Soares, o grande resistente da ditadura e hipotético futuro Presidente da República, e por isso Sócrates tem de o “colocar a rodar”. Depois de Sampaio lhe ter cedido a câmara de Lisboa, o Joãozinho nada mais conseguiu, tendo-a perdido para o Santana. Depois tentou a presidência e conseguiu ficar atrás do Manuel Alegre. Agora, é candidato à Presidência da Câmara de Sintra. Será que os habitantes de Sintra vão aceitar um incompetente, que não consegue fazer nada além de dizer que é filho do Mário Soares? Já Fernando Gomes fora derrotado por Rui Rio no Porto, exactamente por esta razão.
Outros há que procuram as autárquicas como forma de afirmação política, como Manuel Maria Carrilho que nunca havia manifestado tendências autárquicas, e de repente quer fazer-se passar por homem extremamente preocupado com a condição dos Prédios da Baixa Lisboeta. Haja alguma decência!
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Tudo isto origina o descrédito dos portugueses. Não há um só Português (políticos incluídos) que acredite em 50 % por cento daquilo que os seus representantes e governantes lhes dizem. O respeito pelas instituições já não existe, e a esperança é cada vez menor. O pior é que existe a opinião generalizada que o Mundo da Política está completamente corrompido, e que essa mesma corrupção começa de baixo, nas Juntas, nas Câmaras e só depois em S. Bento e Belém. No outro dia, ouvi alguém aludir ao Presidente da Câmara do meu concelho como um “incompetente”, mas que não é muito mau porque “rouba pouco”. E isto é fascinante!
O cenário não é completamente negro. Acredito que por todo este Portugal existam vários Presidentes de Câmaras competentes, honestos e trabalhadores. Quero por isso referir alguns nomes de bons autarcas (acho eu), que têm feito um trabalho pautado pela seriedade, pela competência e até por alguma independência: Fernando Seara em Sintra, Rui Rio no Porto e Luís Filipe Menezes em Vila Nova de Gaia. Estes são, na minha óptica, bons presidentes que têm conseguido fazer algo em prol do bem-estar da população local. No caso de Rui Rio, penso até que os Portuenses deveriam estar agradecidos a este homem que devolveu ao Porto uma certa honra e dignidade que anteriormente a Invicta não possuía aos olhos daqueles que a olhavam de longe.
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Para terminar, gostaria de falar dos dois concelhos que me estão mais próximos: Amares (onde resido) e Braga (onde já residi e onde passo grande parte do meu dia). Ambos são concelhos socialistas, e ambos assim deverão ficar, restando apenas a dúvida se com maioria na Assembleia Municipal, ou não. Aliás, esta dúvida impõem-se mais em Amares do que em Braga, pois na cidade dos Arcebispos reina o mesmo autarca há 30 anos e assim deverá continuar.
Isto levar-me-ia a comentar a necessidade de restringir a duração dos mandatos autárquicos, mas o Post vai longo e eu tenho de escrever outro para o “blog azul”.

15 setembro 2005

Honestidade ou aproveitamento?

Tenho seguido com atenção e interesse a discussão que se gerou na blogosfera acerca de uma possível relação entre o não cumprimento do protocolo de Quioto, por parte dos EUA, obviamente, e o aparecimento de furacões.
O mote veio da parte do blogue «Bichos Carpinteiros» e não ficou sem resposta - dada por parte da «direita portuguesa» (que, para Joana Amaral Dias, é representada por blogues como este, este, este e este). De um lado, há os que advogam pela hipótese da existência de uma relação causa-efeito entre poluição e catástrofes; do outro lado, há os que a contestam.
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A discussão está, desde o início, viciada: estamos a tratar de um tema científico.
Quando falamos de um assunto como este, estamos à partida limitados por um evidente óbice: não somos especialistas - mas leigos. Não sendo especialistas, temos apenas duas soluções: ou defendemos posições assumidas já por alguns cientistas credenciados que estudam o fenómeno em causa ou usamos esperteza saloia e entronizamo-nos a nós mesmos como pseudo-especialistas.
Joana Amaral Dias escolheu a primeira alternativa: citou autores - cientistas renomados - para defender a sua tese: os Estados Unidos estão, de certa forma, a contribuir para a multiplicação destas tragédias ao não cumprir o protocolo.
Não pretendo rebater: como já foi salientado noutros blogues, não só não há provas científicas de relação causa-efeito como existem cientistas que estão fortemente contra essa possibilidade.
Aquilo que pretendo fazer notar - algo que salta aos olhos - é o aproveitamento que se faz de dados da comunidade científica para atingir fins políticos. Note-se uma coisa: aos olhos de Joana Amaral Dias, ambas as teorias (as que vão no sentido de relacionar Quioto com os furacões e as que vão no sentido oposto) se apresentam ao mesmo nível.
Ambas têm partidários e ambos têm dados que as apoiam.
Ambas são confirmadas nalguns casos e refutadas noutros casos.
Um técnico pode, em consciência, comparar os argumentos de um lado e do outro e emitr um juízo de valor, porque tem capacidades que lhe permitem avaliar as evidências que apoiam cada teoria. Podendo estar errada, a sua opinião será sempre baseada num conhecimento de causa, que logo à partida lhe permite fazer avaliações.
Não conheço os limites dos conhecimentos de Joana Amaral Dias. Contudo, suponho que não estarei longe da verdade ao afirmar que ela deve perceber tanto de meteorologia quanto eu percebo de interacções electromagnéticas entre neutrinos e quarks.
Isto leva-nos à pergunta: se ela não tem qualquer forma de julgar qualquer das teorias, ou seja, se não pode, em consciência, optar, de forma fundamentada, por uma delas - porque lhe falta a capacidade de avaliação que só um saber técnico propicia, por que raio defende ela uma posição relativamente à outra? Ainda por cima, porquê de forma tão acérrima?
Na verdade, a única coisa que ela pode fazer neste momento é esperar; como todos nós, esperar até que a comunidade científica alcance um consenso. Esperar até que um saber tecnicamente fundamentado atinja uma unanimidade que lhe permita - a ela - ultrapassar a óbvia indecisibilidade da questão aos olhos de um leigo. Até essa altura, todas as posições que ela defender acerca deste problema serão nada mais nada menos que uma mera profissão de fé.

Uma breve explicação

*Este post foi escrito juntamente com o seguinte; ao verificar que ele se tornava demasiado comprido, decidi publicá-los separadamente. São suficientemente independentes para serem lidos individualmente e assim evita-se massacrar a cabeça de quem não tem paciência para este tipo de posts: os que tiverem pachorra, leiam; os que não tiverem, façam o favor de passar à frente.
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Gostaria de explicar uma questão sobre a qual já me debrucei mas que acho importante clarificar: a impossibilidade de prevermos certos fenómenos - como, por exemplo, furacões. Faço-o porque durante os últimos dias tenho ouvido bastantes comentadores - alguns deles bastante respeitados e com certas responsabilidades- ironizarem com o facto de a «grande potência que são os Estados Unidos» não serem capazes de «prever com antecedência suficiente uma catástrofe desta natureza». A tese é absurda, e passo a explicar o porquê.
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Desde há bastante tempo que os cientistas conhecem algumas leis que permitem, de certa forma, «prever o futuro». As leis do movimento de Newton, por exemplo, fornecem um conjunto de equações que nos dão o desenvolvimento futuro de um sistema. Tudo o que temos que fazer é introduzir os dados (que são o estado inicial do sistema) e resolver a equação.
Mas vamos a um caso concreto: queremos calcular o tempo que um objecto demora a atingir o solo. Basta-nos inserir os dados (distância do objecto ao centro da terra, resistência do ar, etc.) e voilá! temos o tempo exacto. Poderíamos, se quiséssemos, utilizar o mesmo processo para calcular a trajectória de um cometa, a posição final das bolas de bilhar depois de uma tacada ou a velocidade que uma bola adquire após receber um pontapé. E sim, também podemos usar as mesmas leis para calcular o desenvolvimento futuro da meteorologia.
A nossa capacidade de prever o futuro está, portanto, subordinada a duas condições: o conhecimento prévio das leis que regem os fenómenos físicos e o conhecimento das condições iniciais do sistema cujo desenvolvimento pretendemos prever.
Na prática, contudo, há sempre limitações de ordem empírica: não podemos - pelo menos por enquanto - conhecer com absoluta precisão as tais condições iniciais do sistema; contudo, os desvios dos resultados são, normalmente, directamente proporcionais ao «erro» na medição das condições iniciais. Isto significa que para calcularmos, por exemplo, a trajectória de um cometa, não precisamos de conhecer a sua massa (nem a massa do corpo à volta do qual ele orbita) com erro nulo: se conhecermos estes parâmetros com um erro pequeno, podemos esperar resultados muito pouco desviados do valor real. Ou seja: o resultado é tanto mais aproximado da realidade quanto melhor for o nosso conhecimento dos dados. O Universo é bastante justo.
O problema é que, em alguns fenómenos, esta proporcionalidade não se verifica. Por vezes, um pequeno erro induz a diferenças abissais entre o resultado que obtemos e a realidade observada. Façamos uma comparação:
- Calculamos a massa da lua por forma a podermos determinar a sua posição daqui a dois anos. Sabemos que a nossa medição não é completamente correcta, e admitimos que haja um erro de algumas dezenas de milhares de toneladas. Fazemos o cálculo e obtemos um valor para a posição esperada. Dois anos depois, vamos comparar o valor obtido com o valor observado e constatamos que a diferença é praticamente nula - apenas alguns metros de desvio. Não surpreende: para um erro pequeno na inserção dados (dezenas de milhares de toneladas é um «erro pequeno» a esta escala), o resultado apenas sofre um ligeiro desvio.
- Tentamos agora fazer o mesmo com a meteorologia. Somos, contudo, um pouco menos ambiciosos: tentamos calcular o tempo (meteorológico) daqui a um mês numa cidade. Inserimos os dados (pressão do ar, temperatura, humidade, etc.) e as equações dizem-nos que dentro de daqui a um mês vai ter lugar um terrível temporal (por exemplo, de grau 6 - escala criada por mim neste preciso momento). Admitimos, contudo, um ligeiro erro na medição do famigerado «estado inicial» e pressupomos que o resultado terá também um desvio ligeiro em relação à realidade: o temporal poderá situar-se entre os graus 7 e 5. Esperamos e... nada. Nenhum temporal. Nem uma pinga. Mas o inverso pode também acontecer: podemos prever uma estação de acalmia e dar-se um temporal.
É a isto que chamamos «caos»: pequenas diferenças induzem a grandes disparidades. Esta fenómeno sintetiza-se bem numa única frase, dita por um cientista de cujo nome agora não me recordo: [num sistema caótico] «o bater das asas de uma borboleta pode provocar uma inundação no outro lado do globo terrestre».
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Claro que podemos usar outros métodos para «prever» acontecimentos. A estatística, bem como as probabilidades, permite fazê-lo. Só que isso é um método grosseiro. Equivale a dizer que nos próximos duzentos anos Lisboa vai provavelmente ser vítima de um forte terramoto pelo simples facto de em média haver um grande terramoto naquela zona a cada 400 anos e, nos últimos 200 anos, nenhum abalo dessa magnitude ter sido registado. Enfim, vale o que vale.
Importa salientar que o aqui escrevi não é ficção científica - é algo que desde há muito faz parte do quotidiano de qualquer matemático ou meteorologista. Aos que desejarem informar-se acerca desta questão, recomendo «Deus joga aos dados?» de Ian Stewart.

14 setembro 2005

Ontem na RTP1

Infelizmente, não consegui ver o Prós e Contras de ontem até ao fim. Foi pena. O tema era interessante e os intervenientes conseguiram manter o debate aceso. De facto, já era hora de uma discussão séria acerca dessa enfermidade de que Portugal tanto padece - a corrupção autárquica.
Gostei particularmente da coragem da Maria José Morgado - definitivamente, a juventude comunista deu-lhe fibra. Marcou posição e evitou os discursos timoratos que costumam caracterizar os representantes da Justiça neste tipo de intervenções. O depauperado Ruas acabou por fazer o papel de «advogado do diabo», puxando frequentemente da cartilha do «coitadinho» e insurgindo-se contra a «generalização abusiva» que, na sua perspectiva, estava a ter lugar.
Fico ansiosamente à espera de um «apito dourado» das Autarquias...
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P.S.- A tirada da apresentadora («certamente que a partir de hoje o Paulo Morais vai ter mais cuidado quando passear na rua» - cito de cabeça) é que era desnecessária...

13 setembro 2005

Os protestantes e os Protestantes

Facto: no primeiro trimestre de 2005 as greves em Portugal atingiram o redondo número de quarenta, envolvendo 4753 pessoas; a «brincadeira» saldou-se num total de 7629 dias de trabalho perdidos.
Mais factos: a actividade sindical dá emprego a centenas de pessoas; em termos percentuais, Portugal é dos países da UE que a mais sindicalistas dá emprego.
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Esta é uma atitude que, de tão arreigada estar na sociedade, já se tornou quase genética. Em situação de crise, a solução é só uma: reclamar, reclamar, reclamar. São necessários sacríficios? O português faz birra e sussurra: «o vizinho primeiro, se faz favor».
No fundo, é uma questão de mentalidade. Na Suíça, por exemplo, referendou-se, na década de 70, uma semana de trabalho mais curta; a população votou «não».
E cá, o que se faz? A produtividade é escassa? A população envelhece e o número de trabalhadores é cada vez menor? Não há problema, os outros que tratem disso. Fazemos greves, protestamos por tudo e por nada e esperamos que os problemas se resolvam por si mesmos - ou que venha alguém resolvê-los por nós.
O paradoxo é esse: somos exigentes com os outros mas condescendentes com nós mesmos. Será que o cidadão que reclama do político, do patrão e do vizinho esforça-se, em primeiro lugar, por ser um bom cidadão? Será que tenta rentabilizar o trabalho, ser pontual e cumpridor? Será que paga os seus impostos, chega ao trabalho a horas e paga as suas dívidas?
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As consequências deste comportamento são óbvias: aqueles que pouco trabalham querem trabalhar ainda menos e aqueles que mais trabalham são vistos com maus olhos.
É isso que acontece com os grandes empresários portugueses - por exemplo, Belmiro de Azevedo. As explicações que grande parte do povo dá para a sua riqueza são bastante matizadas - vão desde a avareza até à corrupção, passando pela mentira e pelo roubo - mas excluem sempre palavras como trabalho, esforço, empenho e capacidade.
Percebe-se porquê: é mais fácil atribuir a fortuna do outro à sorte ou à malvadez do que às suas capacidades próprias, porque, de certa, forma, ajuda a explicar o porquê de «nós» não estarmos em idêntica posição; no fundo, a culpa não é nossa - mas das circunstâncias. Esta mesquinhez de pensamento nota-se particularmente bem em certas comunidades de emigrantes portugueses: se o vizinho tem um fiat punto, é um gajo porreiro; se tem um BMW, anda metido na droga. Tão simples quanto isso.
Esta é uma mentalidade retrógrada, decerto.
Mas a tal «mentalidade retrógrada» ajuda a explicar as diferenças entre alguns países. Nos EUA, por exemplo, a fortuna tem uma conotação completamente oposta: ela é sinal de qualidades morais, pois o sucesso e a riqueza revelam uma pessoa esforçada e capaz. Devemos, contudo, abrir um pequeno parênteses: não é a fortuna em si que é merecedora de respeito: aquilo que verdadeiramente é exaltado é a capacidade de um homem de criar fortuna, de ter sucesso e se diferenciar da mediocridade reinante. Por isso, um herdeiro de uma grande propriedade ou um magnata do petróleo não são vistos da mesma forma que um grande industrial - o típico «self-made man»: um herdou o poder, enquanto que o outro teve de batalhar para o obter. A posição social é, portanto, um «atestado de competência», um «garante de virtudes», por provar «empiricamente» que o sujeito é alguém trabalhador, honesto e capaz de fazer sacrifícios. Enquanto que nós por cá dizemos que «fulano é bom rapaz» - porque, apesar de não trabalhar, ser mandrião e pouco cumpridor, vai connosco ao futebol e é bom a emborcar umas cervejas -, eles, por lá, dizem que «fulano é um homem respeitável» - porque foi capaz de subir na vida devido ao seu esforço e trabalho e porque dinamizou a economia e empregou pessoas.
É evidente que há causas para isto - as heranças religiosas, como o calvinismo e metodismo, e a presença de um sistema liberal, no qual as capacidades de cada um contam mais do que a cunha ou o conhecimento de alguém influente -, mas o que importa salientar é exactamente esta capacidade de valorizar a excelência; os americanos estão mais preocupados em lutar pelo que desejam do que em rebaixar aqueles que têm sucesso onde eles fracassaram. Não sou um «indefectível» dos EUA, mas neste ponto tenho de admitir que admiro o seu exemplo.
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Um dos maiores problemas da sociedade portuguesa é, portanto, a mentalidade.
Não só não queremos ser bons como não queremos que ninguém o seja.
Queixamo-nos de tudo mas pouco fazemos para alterar a situação.
Queremos que os políticos tragam fórmulas da salvação que melhorem a sociedade mas não conseguimos sequer melhorar-nos a nós mesmos.
O corolário é, como não podia deixar de ser, bastante simples: trabalhamos pouco e mal, lamentamos os pequenos problemas e desatamos em prantos pungentes quando somos obrigados a fazer pela vida. Entretanto, criticamos os Belmiros e os Champalimoud's deste país - sem contudo termos a noção de que, se os empregos por eles criados não existissem e os seus (avultados) impostos não fossem pagos, a nossa situação estaria muito pior. Triste condição. Inegável paradoxo.

09 setembro 2005

Diz-me quem defendes, dir-te-ei quem és

Dias Loureiro processa Francisco Louçã e acusa-o de estar a empregar «métodos terroristas». Aparentemente, o convívio e o diálogo com determinados sectores têm vindo a influenciar de sobremaneira o líder bloquista.
Entretanto, Ana Drago já gizou um pequeno texto - que vai apresentar na Assembleia - onde defende «o direito à diferença» e afirma que querer censurar o que um homem diz - ainda que seja mentira - é «tutelar o aparelho vocal de uma pessoa». No mesmo manuscrito a jovem do Bloco reafirma que é «imoral e desumana» a pretensão, de Dias Loureiro, de colocar Louçã em tribunal, uma vez que o seu lugar «não é no banco dos réus mas numa instituição de reinserção social»; isto porque o visado não está integrado na sociedade, vive num mundo imperialista e capitalista e, como tal, o terrorismo é a única maneira que ele tem de se expressar. O comunicado acaba com uma frase lapidar: «e quem discordar da nossa opinião é racista, xenófobo, preconceituoso e envergonha o Estado de Direito».

08 setembro 2005

Os três mosqueteiros

Após algumas semanas (meses?) de especulação, eis que se começam a perfilar alguns candidatos para ocupar o cargo de Presidente da Répública. Louçã, Mário Soares e o camarada Jerónimo são as opção - pelo menos para já.
Sim, como já repararam, por agora é apenas a vigorosa juventude da esquerda que assume a responsabilidade. Curiosamente, algumas destas candidaturas - duas delas, pelo menos - assumiram como objectivo a luta inexorável contra a direita galopante, que, repita-se aqui, «não pode ocupar a cadeira presidencial!» (palavras do camarada que no compeonato findo acabou fisicamente limitado por uma incómoda lesão no aparelho vocal).
O inimigo é comum a todos mas - pasmem-se! - ele ainda não apareceu: a direita fascizante, avara, beligerante, liberal e capitalista ainda não se apresentou a combate. Claro, claro, esqueço-me do «professor», de quem agora muito se fala; ah!, mas notem contudo que um homem não é de ferro, e não será de todo descabido o cenário que proponho: o dito «professor», ao ver o fervor que os seus putativos opositores colocam nos seus discursos ainda antes da campanha começar, começa a pesar os prós e os contras da sua eventual candidatura e chega à sagaz conclusão de que o quentinho da botija de água quente, o prazer de uma noite bem dormida e os descomprometidos e ociosos dias de uma reforma bem merecida são, talvez, bens demasiado valiosos para serem sacrificados em favor de uma mera candidatura presidencial. Para além disso, para que serve um presidente? Sim, Sampaio deu o exemplo: a visita guiada à Cova da Moura, a condecoração dos U2, mas duvido que Cavaco seja desse género. Talvez o incentivo fosse maior se em S. Bento residisse um certo menino guerreiro; pelo menos haveria sempre a possibilidade de, a todo o momento, Cavaco, qual adolescente a jogar Quake II, utilizar a mais poderosa das armas - a bomba atómica (dissolução da Assembleia, obviamente) - e divertir-se a ver os efeitos.
De qualquer forma, Cavaco ainda não confirmou a candidatura - é ainda um mistério. Até lá, alimentarei a secreta esperança de poder ver Manuel Monteiro a afirmar-se como o candidato de toda a direita!*
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Tem também marcado a actualidade a veia poética de Mário Soares, que, ao anunciar-se candidato, declamou Fernando Pessoa: um interessante poema que fazia eco das insuficiências de Jesus Cristo como economista. Soares esqueceu-se, contudo, de dizer que muito dificilmente Fernando Pessoa apoiaria uma eventual candidatura de Jesus Cristo à Presidência da República.
Há, aliás, uma outra questão que não posso deixar passar em branco: o evidente erro de raciocínio do solerte candidato quando puxa da velha cartilha humanista e afirma que é a favor de uma economia que ponha «as pessoas em primeiro lugar».
Ora, acontece que a economia é uma prática - ou ciência - cujo objectivo final é obter a saúde financeira de um povo. A um Ministro da Economia pede-se que seja capaz de estimular alguns sectores por forma a aumentar a receita, tomar medidas de modo a diminuir os gastos inúteis, fazer investimentos que estimulem a eficiência, etc. Mas o que acabei de enunciar não são os fins últimos da economia: tudo isto é apenas um meio de fazer com que o povo de uma dada região tenha meios - dinheiro, leia-se - para subsistir. Ou seja, a economia é algo que permite a melhoria da qualidade de vida das pessoa através da sua saúde monetária. Não há economia para as pessoas e outra economia per se: o que pode é haver uma má economia e uma boa economia, consoante ela consegue - ou não - atingir os seus objectivos.
Aquilo que Soares fez foi, isso sim, colocar-se contra aqueles que advogam pelas medidas difíceis que exigem sacrifícios - mas que a médio e longo prazo se revelarão mais acertadas. Quando disse que para ele as pessoas estariam primeiro, o que queria dizer era que, na sua concepção, não é lícito pedir sacrifícios às pessoas para melhorar a economia porque ela não é um fim em si; mas, lamentavelmente, esquece-se de dizer que ao enfraquecermos a economia estamos, em última análise, a hipotecar o nosso futuro económico, e a alimentar amanhãs pouco sorridentes.
A um Presidente da República exige-se não só sensatez e isenção mas também realismo, carácter e força de vontade para apoiar medidas impopulares... Foi uma péssima partida este discurso.
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Mas, de qualquer forma, diz-se que o debate económico não vai ser travado por Soares: esse papel caberá ao revolucionário Louçã. A teoria é plausível se lhe olharmos para o currículo como economista, mas completamente descabelada se pensarmos naquilo que o seu partido defende. Parece-me claro que o seu discurso estará a priori extremamente limitado e condicionado pelas posições que o Bloco de Esquerda perfilha a nível económico. Com efeito, é bonito atacar, por exemplo, o aumento da idade da reforma perante alguns jovens imberbes, mas duvido muito que Louçã tenha a desfaçatez de defender a tese perante um reputado economista como Cavaco Silva. Não devemos esquecer que Cavaco, apesar de ser figura calma e de bom trato, não é completamente desprovido das mais vulgares características humanas, pelo que nem ele conseguirá conter uma valente gargalhada quando Louçã propuser «o aumento da produtividade» como forma de ultrapassar a notória discrepância entre a riqueza criada e o capital consumido em Portugal (fruto da cada vez mais avançada esperança média de vida).
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P.S.- Apenas mais uma coisa: Louçã, como referi, propõe o aumento da produtividade. É engraçado, principalmente se tivermos em conta que o B.E. é realmente um partido que apela à capacidade de sacrifício do trabalhador, à sua responsabilização, ao trabalho árduo, à criação de valores (como o trabalho, o dever, etc.) entre os jovens, e repudia completamente as greves avulsas e desregradas, os buzinões sistemáticos, a «desobediência cívica», etc. Felizmente que nos acampamentos dos jovens do Bloco há «workshops» de artes circenses; assim, quando a malta concordar com estas medidas já se sente bem integrada na pele de «palhaço».
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*Espero que a ironia desta frase seja notória!

07 setembro 2005

To Germany 2006, with love

É verdade, lá empatámos. Nada que me espante, diga-se em abono da verdade. O apuramento está quase certo mas obliterar o espectáculo em favor da eficácia tangencial deixa sempre um ressaibo amargo na boca dos mais românticos.
A selecção ainda chegou a empolgar com a preciosa ajuda do russo Smertin, que usou os pés (bem juntinhos) para enfiar a cabeça da equipa russa no cadafalso, mas o benemérito Scolari puxou do seu reconhecido desportivismo e insistiu em manter as equipas niveladas a nível numérico, ordenando a entrada do assassino Postiga, um avançado alérgico ao golo cuja presença em campo é completamente irrelevante.
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P.S.- Sim, Pauleta já teve dias melhores, mas até o mais desgastado, massacrado, desmoralizado e vilipendiado Pauleta consegue ter melhor performance do que o Postiga nos seus melhores dias.

06 setembro 2005

Bang! Em cheio!

«Quem critica os Estados Unidos não é necessariamente anti-americano. Mas quem, não sendo americano, se mete em assuntos internos dos Estados Unidos como se esses assuntos fossem seus com o único objectivo de denegrir os Estados Unidos, fazendo-o com base numa representação caricatural da realidade e revelando uma total ignorância do que são os Estados Unidos, não aplicando o mesmo padrão a outros países, ainda por cima mais próximos, só pode ser anti-americano.»
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João Miranda, no excelente Blasfémias.

04 setembro 2005

Vira o disco e toca o mesmo

Ponto prévio: Sei que o furacão Katrina já serviu de matéria prima para um post neste blog; mesmo assim - e apesar da algaraviada opinante que por agora prolifera por toda a blogosfera -, gostaria de, também eu, deixar aqui a minha visão acerca da questão.
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Quando soube do furacão Katrina, confesso que não me apercebi de imediato da gravidade da situação - o que certamente também terá acontecido à maior parte das pessoas.
Com o passar do tempo, contudo, tornou-se óbvio que a questão não só era bastante séria como ameaçava originar uma verdadeira calamidade.
As imagens que começaram então a chegar apenas confirmaram o cenário: morte devastação, perdas humanas e financeiras, localidades destruídas e ruas submersas. Num momento trágico, chegou-se ao ponto de comparar a situação de New Orleans à que ocorreu na Ásia há alguns meses (um tal de "Tsunami" - decerto estarão lembrados). Creio que todos nos recordamos da forma como a comunidade internacional - e em especial a imprensa, bem como alguns "opinion-makers" - se reportaram à questão asiática.
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Fiquei, portanto, espantado quando, através da blogosfera, tomei conhecimento dos comentários que alguns vultos da nossa praça se dignaram a emitir. Os comentários em questão, de tão imbecis que são, não merecem sequer ser aqui reproduzidos - e por questões de higiene recuso-me também a fazer referência aos blogs que tiveram o despudor de parir tão aberrantes cogitações - mas o pensamento base é este: a culpa do furacão é de Bush, que pouco fez para o prever, que não disponibilizou os meios necessários para o combater e que não cumpre o protocolo de Quioto (note o leitor mais distraído que a emissão de gases para a atmosfera implica, necessariamente, uma Natureza mais instável - ao que nós chegámos!).
Numa análise mais geral, as culpas são, indirectamente, de todos os americanos, uma vez que são eles os responsáveis pela eleição de Bush e, como tal, pela perpetuação no poder do «segundo político mais perigoso do mundo a seguir a Hitler» (não, não me enganei nas aspas, alguém teve realmente a lata de dizer uma coisa destas). Faltou, obviamente, acusar Bush de ser crente e de ser contra o aborto, bem como de não ser homossexual e usar gravata.
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Há uma coisa que tem de ser dita, atinente à parte científica da coisa: há a impossibilidade teórica de prever com suficiente antecedência este tipo de fenómenos.
A questão é simples: um furacão - como um tornado ou um terramoto - origina-se devido a variações de parâmetros meteorológicos muito subtis (pressão, temperatura, nível da água, posição da lua, etc.). Ora, "subtil" não quer dizer "pequenas diferenças": "subtil" quer dizer "ínfima" - por exemplo, uma diferença de 0,1 graus pode constituir a fronteira entre um verão plácido e uma catástrofe ambiente.
O corolário é simples: se não pudermos saber com exacta precisão as condições iniciais de um sistema, não poderemos prever, de todo, a sua evolução. Este é uma propriedade encontrada em alguns sistemas que os físicos (e matemáticos) designam de "caos" - a possibilidade de variações minúsculas induzirem a resultados completamente diferentes.
Enfim, talvez o texto se comece a tornar aborrecido. Vamos, então, a um exemplo prático: é mais fácil prever a posição exacta de Marte daqui a 30 milhões de anos do que prever a ocorrência de um tornado nas próximas duas semanas. Acertar uma previsão (ainda que num intervalo de tempo muito mais curto) é, portanto, uma questão de sorte. E a sorte, como dizia Dumas, é como uma cortesã: tanto nos abre a porta de casa como nos vira as costas. Estranho? Definitivamente, mas verdadeiro.
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E a morosidade das forças especializadas a prestar auxílio aos desalojados e aos feridos? E toda a falta de preparação que em Nova Orleães se notou aquando da catástrofe? E a falta de meios? E os recursos?
Deixem-me deixar bem explícita a minha opinião: não sou anti-americano, mas também não sou pró-americano, razão pela qual não me sinto minimamente constrangido por condenar o que quer que nos EUA me pareça incorrecto. Não sei se houve falta de meios, ou lentidão de processos: neste ponto, manifesto a minha ignorância - não por falta de informação mas sim pelas contradições que tenho verificado na imprensa de hoje. Se as autoridades tinham capacidades para dar melhor resposta aos problemas dos habitantes de New Orleans do que aquela que efectivamente deram, então de facto há responsabilidades com que alguém terá de lidar - o que não significa que eu pense que as coisas seriam diferentes se o furacão tivesse passado não pelo continente americano mas pela nossa pequena Europa...
Mas a questão não é esta. O evidente berbicacho é a contradição em que alguns caem quando, arvorando-se em detentores da superioridade moral, exigem determinadamente ao Governo dos EUA que faça isto e aquilo, lamentando que não tenha feito aquilo e aqueloutro, e criticando a impunidade de que Bush goza perante o seu povo, embrenhando-se numa guerra ilegítima quando o dinheiro para coisas sérias começa já a escassear (ideia patenta na afirmação cada vez mais ouvida: "os americanos são estúpidos"; porquê? "Porque votaram no Bush, e não sabem o que é melhor para eles").
Mas contradição, dizia eu. Porquê? Porque estas são as mesmas pessoas que peroram pelo reconhecimento da soberania dos estados (fica por deslindar se a "soberania de uma nação" a que se referem é o desejo dos líderes "idóneos" e "verdadeiros" ou a vontade dos povos que por eles são dominados) e pelo "respeito das decisões de cada país naquilo que à sua política interna diz respeito" - África e Médio Oriente incluídos. Em pratos limpos e linguagem clara: os líderes africanos podem matar o povo à fome - estes têm o seu "timing" de desenvolvimento próprio, e não nos podemos impor a eles - e os líderes muçulmanos podem matar as mulheres que são violadas - afinal de contas há diferenças culturais a respeitar - mas o crápula do Bush deve lidar com as situações internas não à sua maneira mas à maneira dos intelectuais do velho continente. É só coerência.
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No momento em que escrevo isto, uma nova teoria veio à baila: a elevada percentagem de negros observada nas imagens indica o racismo que grassa pelos EUA. Enfim, mais uma "pérola" - ao melhor estilo da bloquista Ana Drago - vinda do insuspeito e "moderado" Vital Moreira. (Para se repetir a "cassete" só faltou mesmo a velha ladainha da "demagogia, racismo, xenofobia e populismo").
A teoria de Vital é tão abstrusa que muito me espantei ao verificar que houve pessoas que se deram ao trabalho de a refutar (aqui e aqui).
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P.S.- O Post está um pouco desconexo mas são quase quatro da manhã e as horas começam a pesar. Escreveria mais tarde mas, uma vez que vou estar impossibilitado de postar nos próximos dias, preferi aproveitar a ocasião.