04 agosto 2005

Um duelo de titãs

É exactamente um “duelo de titãs”, aquilo que se espera no próximo ano aquando das eleições presidenciais. Mário Soares e Cavaco Silva preparam-se para assumirem as suas candidaturas a Belém, candidaturas essas que são tudo menos virgens.
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Mário Soares é a personificação do “animal político”. Veterano e experiente leão, está habituado a todo o tipo de confrontos políticos. Após o 25 de Abril regressou do exílio em França para assumir as rédeas do Partido Socialista. Foi por três vezes (muito curtas) primeiro- ministro e por 10 anos (de 1986 a 1996) Presidente da República. Após deixar Belém, aceitou o desafio de se candidatar ao Parlamento Europeu.
Hoje, Mário Soares tem 80 anos e está na iminência de apresentar nova candidatura a Belém. Não quero discutir a idade do senhor, mas de facto ele tem 80 anos. Se ganhar, terá 85 anos aquando das próximas eleições. Será este o perfil de Presidente que queremos passar para o resto da Europa? Mas esqueçamos a idade pois há gente muito mais nova que faria bem pior do que ele…(e, Portugal está, de facto, mais velho) Falemos de política. Por via de toda a sua experiência acumulada, Mário Soares tem uma vasta gama de confiança política e pública. Todos se lembram dele do tempo da oposição ao regime salazarista, e guardam dele boas recordações. Porém é só daí que guardam, pois o processo de descolonização por ele liderado foi um fiasco; os seus governos foram destituídos; e a sua passagem por Belém foi marcada por uma inércia gritante. E, quando todos julgávamos que poderíamos esperar um Mário Soares afastado, a gozar do prestígio acumulado (ele próprio confirmou isso em tempos à SIC, com o seu já célebre “Basta!”), eis que o vemos de novo envolvido “no jogo”.
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Contudo, eu julgo compreender as razões que levam Soares a passar por cima do seu amigo de 40 (!) anos, Manuel Alegre. Ele é um “animal político”, e como tal necessita de se sentir vivo, de se sentir importante. Em suma, ele precisa da ribalta. Mas a grande razão é a inexistência de alternativas credíveis à esquerda. Soares deixou o poder do PS a uma nova geração (Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro), porém essa mesma geração foi incapaz de apresentar nomes de relevo. Veja-se por exemplo que Manuel Alegre é “do tempo” de Soares, e era o único que se assumia como “disponível” para lutar contra Cavaco, já que Vitorino prefere encarnar a figura de “D. Sebastião” do PS, Guterres “emigrou” deixando Sócrates com um terrível nó na garganta e, não há mesmo mais ninguém com capacidade para lutar contra Cavaco. Sobra o “dinossauro”: Mário Soares. A candidatura de Soares só se pode compreender do ponto de vista do “vazio” deixado pela sua própria saída da governação do Partido Socialista. Hoje em dia não há uma figura em toda a esquerda portuguesa capaz de assumir um necessário combate a Belém, e Soares (que adora a exposição pública) vê-se obrigado a salvar a honra do convento e declarar-se apto a uma nova candidatura ao lugar que já foi seu.
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No meio de tudo isto como fica Manuel Alegre. Pelas suas próprias palavras: “sei muito bem que estou sozinho. Mas enquanto me bater, a guerra não está perdida.”[1] Alegre assumiu o vazio que mais ninguém se disponibilizava a preencher, e agora vê-se só.
Em tempos, Ferro Rodrigues afirmou à Antena1 que com 40, 50 anos ainda se é muito novo para apresentar uma candidatura a Belém. Seguindo essa linha de pensamento, Manuel Alegre (bem acima dessa faixa etária) decidiu apresentar-se ao secretário-geral do seu partido de sempre, e afirmar-se disposto a assumir a candidatura. E, enquanto Soares não abriu a boca, Sócrates pareceu apoiá-lo devido à falta de outros candidatos (não acho que fosse plausível o PS apoiar Freiras do Amaral). Todavia, a partir do momento em que Soares disse que a candidatura era uma hipótese a considerar, Sócrates “mudou de opinião” e deixou o poeta sozinho… Não se faz.
Manuel Alegre não tem a capacidade persuasiva de Mário Soares, mesmo que este tenha 80 anos, e por isso foi abandonado pelo “seu” PS. Na iminência de perder a Presidência da República, Sócrates recorreu ao seu maior trunfo: o fundador do seu Partido.
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Contudo, não se pense que a direita está melhor. Parece ser um facto concreto que o Professor Aníbal Cavaco Silva vai apresentar nova candidatura a Belém. O professor, doutorado pela Universidade de York, foi primeiro- ministro de 1987 a 1995 com duas maiorias absolutas. No período pós- 25 de Abril, foi o primeiro chefe a liderar os seus governos durante os 4 anos do mandato. Figura de respeito, foi derrotado em 1996 por Jorge Sampaio nas eleições presidenciais, pagando a factura de “10 anos de cavaquismo”.
Hoje, é também ele o candidato mais plausível pela direita. Porém, e ao contrário do que se passa com Soares, não só esta é uma candidatura que se avizinha há muito tempo (daí o pânico no largo do Rato), é também um processo que está a ser conduzido pelo próprio professor imune a pressões de qualquer ordem (Soares anda a aconselhar-se com os amigos e com as “bases”). Ao contrário de Soares que definiu o fim das férias como o momento ideal para lançar a mais que provável candidatura, Cavaco remeteu para depois das Autárquicas uma decisão, ou seja, ele está a definir o seu calendário, permanecendo imune ao partido e às pressões.
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O PSD, tal como o PS, não produziu uma figura de respeito desde Cavaco muito por culpa deste, já que Cavaco não permitia “parceiros”. Fernando Nogueira, o seu sucessor anda em França, Marcelo Rebelo de Sousa apenas ganhou credibilidade através de comentários televisivos, Durão Barroso é agora o nº1 da diplomacia Europeia e Santana Lopes “anda por aí”. Portanto, também a direita se vê presa à sua figura de maior prestígio desde Sá Carneiro, e não quer repetir a experiência Ferreira do Amaral. Até Freitas que poderia ser uma opção viável, “desertou” para a esquerda. Portanto, Marques Mendes (que apesar de tudo poderá conseguir uma vitória nas autárquicas com a manutenção das câmaras de Lisboa e do Porto) vê-se refém do Professor. A direita nunca conseguiu a Presidência da República (Freitas esteve tão perto em ’85), e este é o momento ideal: O governo socialista (de maioria absoluta) passa pela primeira crise (o abandono de Campos e Cunha é disso revelador), e a direita ambiciona por isso chegar ao poder em 2009… ou mais cedo! Para isso, um presidente das suas “cores” daria imenso jeito.
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Porém é aqui que as contas do PSD poderão sair defraudadas: Cavaco seria um presidente interventivo, mas nada aponta no sentido de que favoreceria uma dissolução do Parlamento, ou mesmo, que dificultaria de propósito (como Soares lhe fez a ele) a tarefa do Governo de Sócrates.

E José Sócrates? Em que pé fica? À primeira vista, presidente ideal para o seu governo é Soares. Porém, as políticas económicas seguidas pelo seu governo adequam-se melhor à direita, e o próprio Sócrates afirma-se fã de Sá Carneiro, e é um ex- militante do PPD, portanto não é de todo descabido afirmar-se que o ambiente de trabalho seria bem mais saudável e proveitoso se o vencedor das presidenciais fosse Cavaco Silva, um reputado economista.
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Para mim, e à primeira vista, o facto de a tanto tempo das eleições estarmos reduzidos a 2 nomes fortes, e ambos da velha guarda (quanto muito 3 se Alegre insistir) indica que a comunidade política nacional não foi capaz de se rejuvenescer. Não apareceram políticos suficientemente capazes de estimular o público e por isso foi necessário recorrer, em tempo de crise, a duas figuras incontornáveis da história nacional de forma a estimular a amorfa população portuguesa a participar nas eleições. Ao contrário de Ferro Rodrigues, acho que é necessário que cada vez mais apareçam políticos jovens com ideias inovadoras e interessados em assumir um cargo de responsabilidade mas também de prestígio! O PR é o elemento superior das instituições democráticas e é necessário estimular as mentes mais jovens para essa realidade. O cargo não deve estar reservado aos consagrados em fim de carreira, mas sim a quem é capaz de acrescenta algo a Portugal, a quem é capaz de resolver os problemas nacionais. A democracia não é como a monarquia em que os Reis eram Reis até à morte: Na democracia há prazos eleitorais exactamente para impedir esse abuso de poder, e para permitir que apareçam novas caras. Não contesto a vontade de ambos os supracitados candidatos de servir o país mas é gritante como um país como o nosso não é capaz de em 10 anos gerar outras figuras de igual ou superior credibilidade política e pública (acima de tudo esta).
Entre Soares e Cavaco não tenho muitas dúvidas, mas se tivessem aparecido outros rostos com toda a certeza que quem teria ganho teriam sido Portugal e os portugueses.
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[1] In: Expresso, 30-07-05”.

Comentários

4 Comments:

At sexta-feira, agosto 05, 2005 1:50:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Focaste um ponto essencial: a clivagem entre a orientação política deste Executivo e as posições mais "puritanas" dos nomes mais à esquerda do PS (Manuel Alegre, Ana Gomes, o próprio Mário Soares).

Creio que a candidatura de Mário Soares pode, paradoxalmente, ser má para o PS.
Se ele sair derrotado, a Esquerda perde um símbolo e um combate eleitoral; se ele ganhar, Soares poderá tornar-se um impecilho a este governo que, definitivamente, meteu o socialismo na gaveta.

Neste contexto, não me parece que a eleição de Cavaco seja - à parte da derrota eleitoral - um problema para o Governo. Com ele na Presidência, Sócrates vai poder orientar-se mais calmamente e com menos interferência, conhecida que é a tendência que Soares tem para se imiscuir nos assuntos do Partido Socialista (mesmo depois de deixada para trás a vida política activa).

Já o Manuel Alegre sai desta situação de forma pouco airosa, ao ser literalmente descartado pelo PS, depois de se ter disposto a entrar num combate do qual teria poucas hipóteses de sair vencedor.

P.S.- Congratulo-me por ver um amigo meu arrebatar o título 'Post mais longo', que se encontrava anteriormente em minha posse (o famigerado 'Peter Bomb' de pouco valeu nesta luta!).

P.S.2- Eu ia escrever um Post sobre isto mesmo. Fizeste-me a folha...

 
At quarta-feira, agosto 10, 2005 10:35:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

o facto é que este blog está repleto de colaboradores de direita! qual o problema do Dr. Soares sa candidatar à presidência. É a idade? Soares é o Pai da Democracia portguesa, e por isso deveria haver mais respeito da vossa parte por ele. Cavaco é mais um fascista, que anda a fazer-se de importante!

Soares é Fixe!

joão silva

 
At quarta-feira, agosto 10, 2005 4:37:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

lol p o tipo anterior "Ser de direita" é ter opiniao e achar que há melhores alternativas que o soares. já o cavaco para ele é"fascista". presumo que sejas um "moderado" centrista não? há gente muito burra...

 
At quarta-feira, agosto 17, 2005 5:13:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

o dr. soares é O PAI DA DEMOCRACIA portuguesa, e pelos anos que passou no exílio merece todo o nosso respeito. A idade não é problema porque com os anos ele tornou-s ainda mais sábio e capaz de resolver os problemas nacionais.

Volto a terminar: Soares é fixe!

joão silva

 

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