24 agosto 2005

Correr por dinheiro

É muito comum, hoje em dia, dizer-se que o futebol «já não é o que era.»
Que deixou de ser vivido por jogadores e adeptos - para passar a ser gerido por empresários e companhias.
Que perdeu a sua paixão e que deixou de ser um desporto - para tornar-se um (rentável) negócio.
Amargurados, os mais nostálgicos invocam os nomes de Eusébio, Chalana e Manuel Fernandes - e menciono apenas os mais citados - para criticar a nova geração de vedetas que mudam de clube de seis em seis meses e duplicam os honorários de cada vez que o fazem. «No meu tempo é que era!», dizem aqueles que «daquele tempo» ainda têm memória.
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Não partilho desta opinião.
É evidente que o futebol mudou muito nas últimas décadas.
E mudou quer enquanto desporto - o predomínio do factor físico sobre o factor técnico, as novas metodologias de treino, as inovações tácticas (desde o WM de Chapman até ao 4x3x3 de Michels), etc. -, quer enquanto actividade profissional.
Mas serão os intervenientes de hoje diferentes dos de ontem?
Serão os dirigentes, jogadores, árbitros e treinadores actuais mais ou menos fiéis do que os que os antecederam?
Foram estas novas pessoas que mudaram o futebol ou, por outro lado, foi o futebol que, ao mudar-se a si mesmo, as mudou a elas por arrasto?
Pessoalmente, aventuro-me pela segunda hipótese.
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Certamente que a maioria das pessoas ja ouviu falar do Acordão Bosman.
O dito acordão veio ao mundo há pouco mais de uma década, na sequência de uma desavença laboral entre um jogador de futebol - Jean Marc Bosman de seu nome - e a sua entidade patronal - obviamente, um clube de futebol.
A partir de então, aos jogadores passou a ser concedida a possibilidade de saírem dos seus clubes quando o contrato findasse, não recebendo estes, em compensação, qualquer indeminização.
A lei era, de facto, justa, pois equiparava a actividade profissional de um futebolista a qualquer outra, tornando-o mais independente do seu empregador e, consequentemente, mais autónomo - mas revelou-se dramática para o «antigo futebol» que ocupava as tardes de domingo dos nossos avós.
As consequências foram imediatas: os salários dos jogadores subiram em flecha, as somas que permitiam os jogadores mudar de clube - as hoje célebres «cláusulas de rescisão» - aumentaram inexoravelmente (o Papa João Paulo II, perante a exorbitante quantia que levou Gianluca Vialli a mudar de clube, emitiu um comunicado a afirmar a «imoralidade da situação») e os jogadores, deparando-se com o fim de um limite para o número máximo de estrangeiros por equipa, não perderam tempo e começaram a trocar freneticamente de clube ao sabor do melhor contrato. Resultado: os clubes ficaram mais pobres e os jogadores mais ricos.
Mas não foi só isto.
Com a globalização do futebol, também as suas vedetas se tornaram cada vez mais famosas.
Se antes um Platini era conhecido por toda a Europa, a partir daquele momento toda a equipa da Juventus passou a ser conhecida em todo o mundo - suplentes, reservas e equipa B incluídos.
O futebol passou, portanto, a movimentar cada vez mais pessoas.
E foi este o ponto de ruptura.
Vieram as empresas e as marcas ter com os jogadores na esperança de uma eventual associação de imagens; vieram as televisões e os pay-per-view, vieram os empresários e as «Instituições de financiamento» à lá FMI, vieram os bancos que supriam as dívidas dos clubes e vieram os agiotas.
O futebol não ficou menos futebol - mas passou a estar cada vez mais parecido com a música, com o cinema e com o basketball. Os jogadores ficaram cada vez mais ricos e os clubes cada vez mais pobres.
Ao contrário do que muitos pensam, não foi a honra ou sentido patriótico a impedir Eusébio de partir em direcção a Milão nos anos sessenta; nem foram amarras afectivas que prenderam Travassos ao Sporting quando o Sevilla o aliciou. O que então havia, e não há hoje, é uma regulamentação bem mais restritiva no campo desportivo, que sempre impediu a estipulação dos salários dos jogadores como uma mera questão de oferta e procura.
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Posto isto, chegamos à questão moral: sendo o futebol um negócio, não será um contra-senso pedir a um jogador que fundamente a escolha do seu clube com base em factores afectivos e não puramente económico-financeiros?
Em princípio, parece-me que sim.
Suponho que ninguém condenará um trabalhador fabril que deixe o seu posto de trabalho para se empregar numa empresa onde poderá auferir um salário mais generoso, da mesma forma que não consigo imaginar alguém a criticar um actor de teatro por escolher a companhia que lhe garante uma melhor folha salarial.
A questão, contudo, não é tão simples como isto.
E não é tão simples porque, muito embora um futebolista possa olhar para o seu desporto como um negócio, não é essa relação que ele estabelece com o seu clube e, muito especialmente, com os seus adeptos.
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Quando Figo mudou de Barcelona para Madrid, alegou que o clube não lhe dera o devido valor.
Que não se sentara com ele à mesa para discutir a melhoria de ordenado - quando ele tinha propostas bem mais vantajosas em carteira.
A sua decisão de mudar de clube foi, portanto, puramente económica.
Ele chegou inclusive a afirmar que «numa empresa, ou te pagam mais, ou sais para onde te reconheçam valor.»
Argumentação irrepreensível.
Figo esqueceu-se, no entanto, de mencionar o resto da estória.
Esqueceu-se de referir as palavras de apoio que os adeptos sempre lhe dispensaram (e eu julgo que um mero «consumidor» não «apoia» psicologicamente um funcionário de uma empresa que lhe presta um serviço ou lhe vende um bem).
Esqueceu-se de referir aquele episódio em que, na noite em que o Barcelona se sagrou campeão, ele saltou para cima da camioneta de microfone em punho e reafirmou o seu amor ao clube culé e lançou farpas em direcção à capital.
Esqueceu-se ainda do aumento salarial que o Barcelona lhe concedeu quando não havia um único clube capaz de cobrir a cláusula de rescisão - tudo por uma questão de «justiça», por ter sido escolhido, por parte da aficción, para «Melhor jogador do ano».
Figo, um jogador que muito respeito, pode ter saído de Barcelona como funcionário, mas, enquanto lá esteve, nunca foi tratado como tal.
Ele teria toda a legitimidade para esquecer o passado e escolher o clube que mais lhe pagasse se tivesse abdicado de todo o carinho dos adeptos, do apoio do clube e do respeito que todos lhe tinham enquanto capitão de equipa.
Mas não o fez.
Este ano, foi dispensado do Real Madrid. Velhice e má-forma, disse o treinador.
Permitam-me jogar aos dados: em Barcelona, não seria assim.
Em Barcelona, o respeito dos adeptos pelo passado do português falaria mais alto - e ele não seria dispensado.
Neste Verão, Figo ainda tentou, numa entrevista desesperada a um canal espanhol, afirmar-se madridista de alma e coração; procurar, através da emoção, manter o lugar. Enfim, ser tratado como um filho no seio de uma empresa.
Não resultou. Pois é, Figo, agora já ninguém cai.

Comentários

1 Comments:

At segunda-feira, agosto 29, 2005 11:00:00 da tarde, Blogger Phillipe Vieira said...

pois é, hoje em dia o futebol é uma indústria, e como tal os seus "operários" querem receber a sua fatia do bolo. E, sejamos claros, sem os jogadores não haveria futebol.

porém este problema é bem mais vasto, e alarga-se a todos os desportos à escala mundial: nomeadamente a F1 e os desportos americanos. Este ano nem houve liga de hóquei no gelo, porque o Sindicato e a liga não se entendiam no que aos ordenados diz respeito.

haverá sempre os jogadores com amor à camisola (jorge costa, baía, maldini, puyol, ricardo rocha, simão, sá pinto, pedro barbosa, keane, terry, lampard) mas hoje todos os jogadores de fut querem ser valorizados, e se para tal têm de ir jogar para o rival... assim seja. mas quando o fizerem que pensem no figo: a ida para madrid poderá ter sido boa a nível publicitário e económico, mas terá danificado irremediavelmente a imagem que ele tinha em Espanha, e contribuído para esta visão empresarial do jogo.

meu amigo, hoje o futebol já não é o passatempo dos domingos à tarde. e isso é que é uma pena...

 

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