31 agosto 2005

E tudo a Katrina levou

Na passada segunda-feira de tarde (em Portugal) a tempestade Katrina assolou a cidade de New Orleans, no Estado do Louisiana nos EUA. Foi relativamente breve a passagem da tempestade pela bela cidade americana, mas os danos por ela causados serão intemporais.
Hoje, New Orleans é uma cidade submersa em que o pânico das epidemias alastra-se, onde as pessoas ficaram desalojadas, e algumas (para já 50) morreram por não se quererem separar das suas casas. Pensa-se que muitas mais poderiam ter morrido se, no passado domingo, o Presidente George W. Bush não tivesse aconselhado os habitantes a procurarem refúgio e, a abandonarem a cidade.
De certeza que o resultado teria sido bem pior caso o Presidente não tivesse falado à população. Bush não procurou alarmar excessivamente os habitantes, apenas os avisou da iminência da chegada “do Katrina” e da necessidade de se acautelarem.
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“O Katrina” chegou, destruiu, e foi para norte onde passou de tempestade forte a uma “simples” tempestade tropical de grau 2 (outrora fora de grau 5).
Agora, olha-se para a cidade e vêem-se telhados. A própria cidade de New Orleans é naturalmente permeável, já que 80 % da cidade encontra-se abaixo do nível da água, sendo agora a situação pior já que alguns diques já cederam e outros dão mostras de falhas.
As pessoas que não “fugiram” da cidade, procuraram refúgio num recinto de futebol americano. O Superdome cumpriu a sua missão, tendo protegido aqueles que se encontravam lá dentro, apesar de agora ser necessário sair de lá, pois o recinto já não apresenta as necessárias condições de segurança.
As pessoas começam a vaguear pela cidade, observando o caos em que a sua vida ficou. Assim de um momento para o outro, milhares de americanos perderam tudo aquilo que tinham: casa, carro, economias, trabalho e, nalguns casos, família.
Neste momento, New Orleans é uma “cidade fantasma”: não tem nem electricidade nem água potável, e corre o risco de ver a sua população afectada por epidemias devido ao facto de as suas ruas estarem cobertas por águas contaminadas.
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Perante tudo isto somos colocados perante uma pergunta pertinente: O que somos? Sim, o que é que nós realmente representamos neste Mundo? Seremos tão importantes, tão impermeáveis quanto isso? Num espaço de horas, uma tempestade tropical arrasou uma cidade e todos os seus habitantes (não nos esqueçamos dos efeitos do tsunami no Sudeste Asiático, e dos Incêndios em Portugal). Anos e anos de civilização, de progresso, de vidas foram dizimados por uma tempestade, um simples acto da natureza.
As tempestades (e restantes calamidades naturais, como os tremores de terra, tufões, os tsunamis, alguns incêndios e, até, a própria seca) são o resultado de agentes naturais, e são devastadoras: “ O Katrina” destruiu grande parte das plataformas de petróleo no Golfo do México, contribuindo decisivamente para o contínuo aumento do preço do crude em Wallstreet, ajudando à evidente crise económica Mundial.
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A grande questão que eu aqui quero focar é a seguinte: Sempre que somos confrontados com desastres naturais (como os acima enunciados) somos também confrontados com a nossa pequenez: O que representa o comum dos Homens perante a força bruta e perene da Natureza? Penso que de quando em vez devemos ser recordados de que a nossa vida só é possível, graças à existência da Natureza, e daquilo que ela nos dá: desde logo a alimentação e o ar que respiramos, sem esquecer o espaço para fazermos as nossas casas e os recursos naturais para explorarmos. Como constatação de tudo isto, proponho que cada um faça um exame de consciência e veja se está a tratar bem da Mãe Natureza, pois nós precisamos mais dela, do que ela de nós.
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Dizem que “Depois da tempestade vem a bonança”, e no caso dos habitantes de New Orleans espero bem que sim.

24 agosto 2005

Correr por dinheiro

É muito comum, hoje em dia, dizer-se que o futebol «já não é o que era.»
Que deixou de ser vivido por jogadores e adeptos - para passar a ser gerido por empresários e companhias.
Que perdeu a sua paixão e que deixou de ser um desporto - para tornar-se um (rentável) negócio.
Amargurados, os mais nostálgicos invocam os nomes de Eusébio, Chalana e Manuel Fernandes - e menciono apenas os mais citados - para criticar a nova geração de vedetas que mudam de clube de seis em seis meses e duplicam os honorários de cada vez que o fazem. «No meu tempo é que era!», dizem aqueles que «daquele tempo» ainda têm memória.
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Não partilho desta opinião.
É evidente que o futebol mudou muito nas últimas décadas.
E mudou quer enquanto desporto - o predomínio do factor físico sobre o factor técnico, as novas metodologias de treino, as inovações tácticas (desde o WM de Chapman até ao 4x3x3 de Michels), etc. -, quer enquanto actividade profissional.
Mas serão os intervenientes de hoje diferentes dos de ontem?
Serão os dirigentes, jogadores, árbitros e treinadores actuais mais ou menos fiéis do que os que os antecederam?
Foram estas novas pessoas que mudaram o futebol ou, por outro lado, foi o futebol que, ao mudar-se a si mesmo, as mudou a elas por arrasto?
Pessoalmente, aventuro-me pela segunda hipótese.
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Certamente que a maioria das pessoas ja ouviu falar do Acordão Bosman.
O dito acordão veio ao mundo há pouco mais de uma década, na sequência de uma desavença laboral entre um jogador de futebol - Jean Marc Bosman de seu nome - e a sua entidade patronal - obviamente, um clube de futebol.
A partir de então, aos jogadores passou a ser concedida a possibilidade de saírem dos seus clubes quando o contrato findasse, não recebendo estes, em compensação, qualquer indeminização.
A lei era, de facto, justa, pois equiparava a actividade profissional de um futebolista a qualquer outra, tornando-o mais independente do seu empregador e, consequentemente, mais autónomo - mas revelou-se dramática para o «antigo futebol» que ocupava as tardes de domingo dos nossos avós.
As consequências foram imediatas: os salários dos jogadores subiram em flecha, as somas que permitiam os jogadores mudar de clube - as hoje célebres «cláusulas de rescisão» - aumentaram inexoravelmente (o Papa João Paulo II, perante a exorbitante quantia que levou Gianluca Vialli a mudar de clube, emitiu um comunicado a afirmar a «imoralidade da situação») e os jogadores, deparando-se com o fim de um limite para o número máximo de estrangeiros por equipa, não perderam tempo e começaram a trocar freneticamente de clube ao sabor do melhor contrato. Resultado: os clubes ficaram mais pobres e os jogadores mais ricos.
Mas não foi só isto.
Com a globalização do futebol, também as suas vedetas se tornaram cada vez mais famosas.
Se antes um Platini era conhecido por toda a Europa, a partir daquele momento toda a equipa da Juventus passou a ser conhecida em todo o mundo - suplentes, reservas e equipa B incluídos.
O futebol passou, portanto, a movimentar cada vez mais pessoas.
E foi este o ponto de ruptura.
Vieram as empresas e as marcas ter com os jogadores na esperança de uma eventual associação de imagens; vieram as televisões e os pay-per-view, vieram os empresários e as «Instituições de financiamento» à lá FMI, vieram os bancos que supriam as dívidas dos clubes e vieram os agiotas.
O futebol não ficou menos futebol - mas passou a estar cada vez mais parecido com a música, com o cinema e com o basketball. Os jogadores ficaram cada vez mais ricos e os clubes cada vez mais pobres.
Ao contrário do que muitos pensam, não foi a honra ou sentido patriótico a impedir Eusébio de partir em direcção a Milão nos anos sessenta; nem foram amarras afectivas que prenderam Travassos ao Sporting quando o Sevilla o aliciou. O que então havia, e não há hoje, é uma regulamentação bem mais restritiva no campo desportivo, que sempre impediu a estipulação dos salários dos jogadores como uma mera questão de oferta e procura.
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Posto isto, chegamos à questão moral: sendo o futebol um negócio, não será um contra-senso pedir a um jogador que fundamente a escolha do seu clube com base em factores afectivos e não puramente económico-financeiros?
Em princípio, parece-me que sim.
Suponho que ninguém condenará um trabalhador fabril que deixe o seu posto de trabalho para se empregar numa empresa onde poderá auferir um salário mais generoso, da mesma forma que não consigo imaginar alguém a criticar um actor de teatro por escolher a companhia que lhe garante uma melhor folha salarial.
A questão, contudo, não é tão simples como isto.
E não é tão simples porque, muito embora um futebolista possa olhar para o seu desporto como um negócio, não é essa relação que ele estabelece com o seu clube e, muito especialmente, com os seus adeptos.
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Quando Figo mudou de Barcelona para Madrid, alegou que o clube não lhe dera o devido valor.
Que não se sentara com ele à mesa para discutir a melhoria de ordenado - quando ele tinha propostas bem mais vantajosas em carteira.
A sua decisão de mudar de clube foi, portanto, puramente económica.
Ele chegou inclusive a afirmar que «numa empresa, ou te pagam mais, ou sais para onde te reconheçam valor.»
Argumentação irrepreensível.
Figo esqueceu-se, no entanto, de mencionar o resto da estória.
Esqueceu-se de referir as palavras de apoio que os adeptos sempre lhe dispensaram (e eu julgo que um mero «consumidor» não «apoia» psicologicamente um funcionário de uma empresa que lhe presta um serviço ou lhe vende um bem).
Esqueceu-se de referir aquele episódio em que, na noite em que o Barcelona se sagrou campeão, ele saltou para cima da camioneta de microfone em punho e reafirmou o seu amor ao clube culé e lançou farpas em direcção à capital.
Esqueceu-se ainda do aumento salarial que o Barcelona lhe concedeu quando não havia um único clube capaz de cobrir a cláusula de rescisão - tudo por uma questão de «justiça», por ter sido escolhido, por parte da aficción, para «Melhor jogador do ano».
Figo, um jogador que muito respeito, pode ter saído de Barcelona como funcionário, mas, enquanto lá esteve, nunca foi tratado como tal.
Ele teria toda a legitimidade para esquecer o passado e escolher o clube que mais lhe pagasse se tivesse abdicado de todo o carinho dos adeptos, do apoio do clube e do respeito que todos lhe tinham enquanto capitão de equipa.
Mas não o fez.
Este ano, foi dispensado do Real Madrid. Velhice e má-forma, disse o treinador.
Permitam-me jogar aos dados: em Barcelona, não seria assim.
Em Barcelona, o respeito dos adeptos pelo passado do português falaria mais alto - e ele não seria dispensado.
Neste Verão, Figo ainda tentou, numa entrevista desesperada a um canal espanhol, afirmar-se madridista de alma e coração; procurar, através da emoção, manter o lugar. Enfim, ser tratado como um filho no seio de uma empresa.
Não resultou. Pois é, Figo, agora já ninguém cai.

19 agosto 2005

A Penitência

Este passado fim-de-semana deu-se a anual romaria ao Santuário de S. Bento da Porta Aberta, situado no concelho de Terras de Bouro, distrito de Braga. Apesar de este ser o fim-de-semana convencional para a já histórica peregrinação, desde o início do Verão que é frequente ver-se as pessoas a caminharem até ao Santuário: É vê-las em grupos grandes ou pequenos, ou até individualmente, percorrer as subidas inclinadas pelos montes até chegar ao local de veneração; e os carros dos familiares ou amigos a vir em curta distância para acompanhar caso haja alguma infelicidade e algum dos peregrinos tenha que desistir.
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São Bento de Núrsia, fundou um Mosteiro no Monte Cassino (Abadia situada em Nápoles) e definiu as regras da vida monástica. Foi o inspirador da Ordem Religiosa que lhe tomou o nome: os beneditinos. O Papa Paulo VI declarou S. Bento como o santo padroeiro da Europa.
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As pessoas normalmente deslocam-se ao Santuário para pagar uma promessa. É fácil passar por pessoas que estão a rezar pelo caminho, a pedir a Deus que lhes dê forças para chegar lá acima. Algumas já fazem isto desde os tempos da juventude ( no caso dos mais velhos), outros já prometem fazer deste acto uma actividade a cumprir anualmente. Todos são unânimes em reconhecer a valia do Santo, não esquecendo também o seu carácter vingativo: Reza a lenda que quem não pagar a promessa a S. Bento, ou se a cumprir de forma ligeira (sem o verdadeiro sentimentalismo próprio de uma actividade desta natureza), será por isso castigado. É frequente ouvir-se falar de casos em que senhoras completamente esgotadas pelos 15 km de subida a pique, maldisseram o Santo, e caíram… Por isso, a maior parte das pessoas decide cumprir calmamente a rumaria, sem se insurgir contra o Santo.
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Devo dizer que este ano também eu fui. Sendo habitante do concelho de Amares (faz fronteira com Terras de Bouro), a distância a percorrer seria de 35 km. Saí de casa às 23:00 e cheguei ao Santuário de São Bento da Porta Aberta às 05:30. Pelo meio ficaram seis horas e meia de uma longa e dura viagem, sem paragens, através dos caminhos que ligam Amares a Terras de Bouro. Freguesias como Figueiredo, Dornelas, Guães, Bouro Santa Marta, Bouro Santa Maria e Valdozende ficaram para trás em 3 horas. Entrava em Terras de Bouro e rapidamente cheguei à Barragem de Caniçada que me acompanhou pelo resto da viagem. Até passar Rio Caldo e iniciar a subida ao Santuário mais 3 horas se passaram, e pelo meio vários quilómetros numa estrada repleta de curvas, sem iluminação e recheada de condutores que deveriam estar a pensar que aquilo fazia tudo parte da rodagem da “Velocidade Furiosa 3”. Chegados ao Santuário, entrámos na Igreja, cumprimos as nossas obrigações religiosas e viemos embora. Estivemos seis horas e meia a subir para meia-hora depois virmos embora. Eram 6:45 quando cheguei a casa.
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Pelo caminho conheci diversas pessoas, revi outras. A determinada altura fomos interpelados por um grupo que queria saber se havia alternativa à passagem por uma rotunda já próximo do Santuário. Dissemo-lhes que sim, indicámos o caminho e perguntámo-lhes de onde vinham. Resposta: da Maia! Estavam na estrada desde as 13:30!! Fizeram mais de 70 km a pé em dezasseis horas. Outros vinham de locais mais próximos como Viana, Braga, Famalicão, ou até da Póvoa de Lanhoso e Vieira do Minho. Nós, de Amares, acabamos por ter uma viagem mais curta.
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Eu fui para auxiliar a minha mãe que havia prometido que um dia iria ao S. Bento a pé. Eu não tinha prometido nada. Fui, com o intuito de ajudar a minha mãe numa desgastante tarefa, mas no nosso grupo vinha um senhor de 69 anos que fazia aquela viagem pela 32ª vez! Outros, emigrantes, fazem-na todos os anos quando vêm de férias.
Dei comigo a pensar, em sequência de todos esses relatos, na valia do sacrifício humano. As pessoas depositam tanta confiança num Santo, que lhe oferecem em troca da concretização de um pedido o seu esforço, o seu suor. Idosas, bem acima dos 70 anos, bem lhe pediam, “S. Bentinho tenha pena de mim, e ajude-me a chegar lá cima!”; outras comiam chocolates para restabelecer o organismo das perdas de açúcar, só para chegarem ao Santuário e cumprirem a sua parte do contrato. E muitas ficam pelo caminho… Não conseguem.
Numa altura de crise de valores morais e sociais, acho que estas demonstrações de fé por parte das pessoas apenas servem para uma coisa: Demonstrar a valia do Homem e a sua disponibilidade em oferecer o seu sangue, suor e as suas lágrimas em troca de algo que ele considere que justifique tal oferenda. Claro que a religião move multidões e provoca atitudes incompreensíveis para os laicos (como estas peregrinações), mas é precisamente nestas demonstrações que os crentes enchem as suas vidas de significação. Mesmo aquelas promessas que se tornam mais penosas, devem ser interpretadas como a forma que aquela pessoa encontrou para demonstrar a sua gratidão face ao santo em questão e, neste campo, não devemos falar só de S. Bento, já que em Fátima é igual.
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Sem dúvidas que para quem não acredita na religião e prefere, por diferentes razões, acreditar na certeza e frieza das demonstrações científicas tudo isto é absurdo. Aceito isso. Agora, aquilo que não pode ser questionado é a vontade destas pessoas (a grande maioria sem elevados recursos económicos) em se devotarem de corpo e alma a um santo, a um profeta da paz. Não adianta tentar dizer às pessoas que é desumano fazer aquilo que algumas fazem, nem que se calhar o S. Bento não realiza milagres pois é somente ao cumprir a caminhada que os peregrinos se sentem felizes e realizados.
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Não é minha intenção entrar aqui em grandes deliberações acerca da verdade das demonstrações científicas por oposição (à grande maioria) dos dogmas cristãos; não é aqui o meu papel de crucificar o Vaticano por ainda não ter rectificado a sua posição no que ao uso do preservativo diz respeito; não pretendo acusar a Igreja de atraso no tratamento dado às mulheres. O que eu quero é demonstrar que apesar de tudo isto a fé das populações continua alta, e só quem percorreu aquela caminhada, ou quem visita regularmente Fátima, é que poderá ter conhecimentos para claramente rebater afirmações do tipo, “A Religião está morta”, ou, “A juventude não se interessa pela Religião”. Isto é tudo mentira, e basta ver o número de adolescentes que percorreram os quilómetros até chegarem ao Santuário. Mas, se isto não chegar é ver o número de adolescentes inscritos no diferentes grupos de jovens das principais paróquias. A fé em Deus continua elevada, aquilo que pode ter vacilado é a crença na Igreja enquanto instituição, porém urge separar as duas coisas: Uma é a Religião enquanto acto e vontade Divina; outra é o aproveitamento feito por alguns homens, para seu bem, da Igreja. A fé nunca acabará por completo, porque nós precisamos dela, nós sentimos a necessidade de encontrar algo superior a nós, algo que nos guie e mostre que há uma razão para nós estarmos aqui. E, neste ponto somos todos iguais, já que também os laicos têm fé, mas noutras coisas.
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Bem sei que grande parte das guerras deu-se devido à religião, mas é necessário compreender que não se deram devido à religião por si, mas antes devido ao Homem, e à sua incessante busca em submeter os restantes ao seu domínio e poder. Em nenhum capítulo da Bíblia se diz que é forçoso converter toda a população Mundial ao cristianismo através das armas. Foram os reinos na Idade Média que usaram a religião como um pretexto para invadirem o Oriente; Seguindo esta linha de raciocínio, nem hoje em dia é legítimo dizer-se que todos os muçulmanos são extremistas e violentos, só porque alguns deles vivem numa angústia contínua, e temem o progresso das suas civilizações. Não podemos por isso dizer que o Alcorão é um instrumento de incessante estímulo à violência. Portanto, o que é mau não é a religião por si só, mas antes o uso que dela é feito pelos homens.
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A religião, como eu presenciei na madrugada do dia 14 de Agosto, é o elo unificador das pessoas em torno de uma ideia de bem: A bondade, a caridade, a compaixão, a autenticidade, a honestidade em cumprir uma promessa inocente, são tudo elementos desse tal carácter unificador da Religião em torno de um ideal sadio. Como aprendi em Sociologia, as pessoas tendem a juntar-se em função daquilo que lhes é mais próximo e íntimo, e a religião será sempre um grande elo unificador do Homem.
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Não vou dizer que tive um “revelação” na minha caminhada, mas mentiria se dissesse que não vim do Santuário de S. Bento da Porta Aberta com o espírito mais limpo e bem mais próximo de Deus, do meu Deus. Foi uma experiência intensa mas, ao mesmo tempo, gratificante. A paz que eu senti quando cheguei ao fim da caminhada foi recompensa suficiente pelo desgaste físico a que me submeti.
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Em suma, recomendo a todos uma experiência semelhante, uma experiência em que também vocês se aproximem de um qualquer elemento espiritualmente forte, qualquer que ele seja, e procurem nele essa mesma paz interior. Quando a encontrarem, saberão a que me refiro.

10 agosto 2005

o humano

correm velozes os riscos que o habitam
em casa espera hesitam
em cada esquina o vento

onde se cruzam
dizem
cresce o tempo


Luís Soares Barbosa, Onde sopra o vento

P.S.- Hoje uma citação num blog, amanhã o Nobel.

04 agosto 2005

Um duelo de titãs

É exactamente um “duelo de titãs”, aquilo que se espera no próximo ano aquando das eleições presidenciais. Mário Soares e Cavaco Silva preparam-se para assumirem as suas candidaturas a Belém, candidaturas essas que são tudo menos virgens.
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Mário Soares é a personificação do “animal político”. Veterano e experiente leão, está habituado a todo o tipo de confrontos políticos. Após o 25 de Abril regressou do exílio em França para assumir as rédeas do Partido Socialista. Foi por três vezes (muito curtas) primeiro- ministro e por 10 anos (de 1986 a 1996) Presidente da República. Após deixar Belém, aceitou o desafio de se candidatar ao Parlamento Europeu.
Hoje, Mário Soares tem 80 anos e está na iminência de apresentar nova candidatura a Belém. Não quero discutir a idade do senhor, mas de facto ele tem 80 anos. Se ganhar, terá 85 anos aquando das próximas eleições. Será este o perfil de Presidente que queremos passar para o resto da Europa? Mas esqueçamos a idade pois há gente muito mais nova que faria bem pior do que ele…(e, Portugal está, de facto, mais velho) Falemos de política. Por via de toda a sua experiência acumulada, Mário Soares tem uma vasta gama de confiança política e pública. Todos se lembram dele do tempo da oposição ao regime salazarista, e guardam dele boas recordações. Porém é só daí que guardam, pois o processo de descolonização por ele liderado foi um fiasco; os seus governos foram destituídos; e a sua passagem por Belém foi marcada por uma inércia gritante. E, quando todos julgávamos que poderíamos esperar um Mário Soares afastado, a gozar do prestígio acumulado (ele próprio confirmou isso em tempos à SIC, com o seu já célebre “Basta!”), eis que o vemos de novo envolvido “no jogo”.
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Contudo, eu julgo compreender as razões que levam Soares a passar por cima do seu amigo de 40 (!) anos, Manuel Alegre. Ele é um “animal político”, e como tal necessita de se sentir vivo, de se sentir importante. Em suma, ele precisa da ribalta. Mas a grande razão é a inexistência de alternativas credíveis à esquerda. Soares deixou o poder do PS a uma nova geração (Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro), porém essa mesma geração foi incapaz de apresentar nomes de relevo. Veja-se por exemplo que Manuel Alegre é “do tempo” de Soares, e era o único que se assumia como “disponível” para lutar contra Cavaco, já que Vitorino prefere encarnar a figura de “D. Sebastião” do PS, Guterres “emigrou” deixando Sócrates com um terrível nó na garganta e, não há mesmo mais ninguém com capacidade para lutar contra Cavaco. Sobra o “dinossauro”: Mário Soares. A candidatura de Soares só se pode compreender do ponto de vista do “vazio” deixado pela sua própria saída da governação do Partido Socialista. Hoje em dia não há uma figura em toda a esquerda portuguesa capaz de assumir um necessário combate a Belém, e Soares (que adora a exposição pública) vê-se obrigado a salvar a honra do convento e declarar-se apto a uma nova candidatura ao lugar que já foi seu.
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No meio de tudo isto como fica Manuel Alegre. Pelas suas próprias palavras: “sei muito bem que estou sozinho. Mas enquanto me bater, a guerra não está perdida.”[1] Alegre assumiu o vazio que mais ninguém se disponibilizava a preencher, e agora vê-se só.
Em tempos, Ferro Rodrigues afirmou à Antena1 que com 40, 50 anos ainda se é muito novo para apresentar uma candidatura a Belém. Seguindo essa linha de pensamento, Manuel Alegre (bem acima dessa faixa etária) decidiu apresentar-se ao secretário-geral do seu partido de sempre, e afirmar-se disposto a assumir a candidatura. E, enquanto Soares não abriu a boca, Sócrates pareceu apoiá-lo devido à falta de outros candidatos (não acho que fosse plausível o PS apoiar Freiras do Amaral). Todavia, a partir do momento em que Soares disse que a candidatura era uma hipótese a considerar, Sócrates “mudou de opinião” e deixou o poeta sozinho… Não se faz.
Manuel Alegre não tem a capacidade persuasiva de Mário Soares, mesmo que este tenha 80 anos, e por isso foi abandonado pelo “seu” PS. Na iminência de perder a Presidência da República, Sócrates recorreu ao seu maior trunfo: o fundador do seu Partido.
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Contudo, não se pense que a direita está melhor. Parece ser um facto concreto que o Professor Aníbal Cavaco Silva vai apresentar nova candidatura a Belém. O professor, doutorado pela Universidade de York, foi primeiro- ministro de 1987 a 1995 com duas maiorias absolutas. No período pós- 25 de Abril, foi o primeiro chefe a liderar os seus governos durante os 4 anos do mandato. Figura de respeito, foi derrotado em 1996 por Jorge Sampaio nas eleições presidenciais, pagando a factura de “10 anos de cavaquismo”.
Hoje, é também ele o candidato mais plausível pela direita. Porém, e ao contrário do que se passa com Soares, não só esta é uma candidatura que se avizinha há muito tempo (daí o pânico no largo do Rato), é também um processo que está a ser conduzido pelo próprio professor imune a pressões de qualquer ordem (Soares anda a aconselhar-se com os amigos e com as “bases”). Ao contrário de Soares que definiu o fim das férias como o momento ideal para lançar a mais que provável candidatura, Cavaco remeteu para depois das Autárquicas uma decisão, ou seja, ele está a definir o seu calendário, permanecendo imune ao partido e às pressões.
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O PSD, tal como o PS, não produziu uma figura de respeito desde Cavaco muito por culpa deste, já que Cavaco não permitia “parceiros”. Fernando Nogueira, o seu sucessor anda em França, Marcelo Rebelo de Sousa apenas ganhou credibilidade através de comentários televisivos, Durão Barroso é agora o nº1 da diplomacia Europeia e Santana Lopes “anda por aí”. Portanto, também a direita se vê presa à sua figura de maior prestígio desde Sá Carneiro, e não quer repetir a experiência Ferreira do Amaral. Até Freitas que poderia ser uma opção viável, “desertou” para a esquerda. Portanto, Marques Mendes (que apesar de tudo poderá conseguir uma vitória nas autárquicas com a manutenção das câmaras de Lisboa e do Porto) vê-se refém do Professor. A direita nunca conseguiu a Presidência da República (Freitas esteve tão perto em ’85), e este é o momento ideal: O governo socialista (de maioria absoluta) passa pela primeira crise (o abandono de Campos e Cunha é disso revelador), e a direita ambiciona por isso chegar ao poder em 2009… ou mais cedo! Para isso, um presidente das suas “cores” daria imenso jeito.
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Porém é aqui que as contas do PSD poderão sair defraudadas: Cavaco seria um presidente interventivo, mas nada aponta no sentido de que favoreceria uma dissolução do Parlamento, ou mesmo, que dificultaria de propósito (como Soares lhe fez a ele) a tarefa do Governo de Sócrates.

E José Sócrates? Em que pé fica? À primeira vista, presidente ideal para o seu governo é Soares. Porém, as políticas económicas seguidas pelo seu governo adequam-se melhor à direita, e o próprio Sócrates afirma-se fã de Sá Carneiro, e é um ex- militante do PPD, portanto não é de todo descabido afirmar-se que o ambiente de trabalho seria bem mais saudável e proveitoso se o vencedor das presidenciais fosse Cavaco Silva, um reputado economista.
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Para mim, e à primeira vista, o facto de a tanto tempo das eleições estarmos reduzidos a 2 nomes fortes, e ambos da velha guarda (quanto muito 3 se Alegre insistir) indica que a comunidade política nacional não foi capaz de se rejuvenescer. Não apareceram políticos suficientemente capazes de estimular o público e por isso foi necessário recorrer, em tempo de crise, a duas figuras incontornáveis da história nacional de forma a estimular a amorfa população portuguesa a participar nas eleições. Ao contrário de Ferro Rodrigues, acho que é necessário que cada vez mais apareçam políticos jovens com ideias inovadoras e interessados em assumir um cargo de responsabilidade mas também de prestígio! O PR é o elemento superior das instituições democráticas e é necessário estimular as mentes mais jovens para essa realidade. O cargo não deve estar reservado aos consagrados em fim de carreira, mas sim a quem é capaz de acrescenta algo a Portugal, a quem é capaz de resolver os problemas nacionais. A democracia não é como a monarquia em que os Reis eram Reis até à morte: Na democracia há prazos eleitorais exactamente para impedir esse abuso de poder, e para permitir que apareçam novas caras. Não contesto a vontade de ambos os supracitados candidatos de servir o país mas é gritante como um país como o nosso não é capaz de em 10 anos gerar outras figuras de igual ou superior credibilidade política e pública (acima de tudo esta).
Entre Soares e Cavaco não tenho muitas dúvidas, mas se tivessem aparecido outros rostos com toda a certeza que quem teria ganho teriam sido Portugal e os portugueses.
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[1] In: Expresso, 30-07-05”.