07 julho 2005

Um mundo idílico

Ken e Barbie vivem num mundo especial.
Apesar de, como todos os casais, terem as suas brigas de vez em quando, uma chatice aqui e acolá e, muito ocasionalmente, sofrerem de crises de ciúmes agudas, Ken e Barbie são felizes.
É que o mundo em que estes dois personagens vivem não é um mundo normal - é um mundo especial.
Neste mundo, não é preciso pagar propinas e os numerus clausus há muito que são uma vaga lembrança nas cabeças dos mais velhos. Apesar disso, a qualidade do Ensino Superior tem subido de vento em popa e os alunos estão cada vez mais empenhados em terminar os cursos.
Neste mundo, a polícia não anda com armas e as forças de segurança viram, de há uns anos para cá, o seu raio de acção e poder de intervenção muito diminuídos, a droga foi despenalizada e a imigração tem carta branca para entrar e saír do país. Mas sosseguem aqueles que pensam que "neste mundo" a criminalidade disparou e a violência alastrou: hoje, "este mundo" é um sítio completamente seguro para se viver, de tal forma que praticamente já não há registos de actividade criminosa nos arquivos da polícia.
Neste mundo, os impostos descem a cada dia que passa, as empresas são severamente taxadas, a idade de reforma anda à volta dos 52 anos e há pensões gordas para desempregados, imigrantes, idosos, velhos, novos, adolescentes e praticamente tudo que tenha duas pernas e dois olhos na cara. Graças a estas medidas, a economia prospera, o desemprego é quase nulo e o défice está controlado.
Este mundo é perfeito. Como dizia Nicolau Santos na sua crónica habitual no Expresso, «este mundo só tem problema: não funciona.»
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Vem isto a respeito - e talvez venha um pouco tarde, dados os acontecimentos que têm marcado a actualidade - do popularíssimo Live Aid (julgo ser este o nome) que teve lugar, este ano, em Edimburgo, Escócia.
Este evento, que já conta com alguns anos de existência, tem como objectivo alertar o mundo Ocidental, e particularmente o mundo "rico" (falamos de Bush, Blair, Chirac e afins), para os graves problemas de África, tais como a fome, a pobreza, a miséria.
Óptimo: pela minha parte, estou avisado.
Neste mundo, como no mundo da Barbie e do Ken, a receita para acabar com todos os males é simples. Tão simples que quase choca. Para Bono e os amigos, a primeira coisa a fazer, se queremos que África progrida, é perdoar a dívida.
Mas ísto é só primeiro ponto. De seguida, a Europa e os Estados Unidos devem mandar dinheiro para o continente africano. Muito dinheiro. O dinheiro, já o dizia o outro, é como a memória RAM: nunca é demais. Por último, mas não menos importante, os países ocidentais devem financiar a agricultura africana, de forma a que esta possa competir com a agritultura europeia.
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É uma boa ideia.
Aliás, mais que uma boa ideia, é uma ideia bonita.
Bonita porque é fácil incutir, em jovens revolucionários, a ideia de que todos os males da humanidade radicam na opressão dos países pobres por parte dos países ricos. É um cenário que vende, é uma causa "nobre" e é uma oportunidade de união para lutar contra os capitalistas que esmagam o proletariado sob o peso dos cifrões.
Esta é uma forma de ver a questão - a forma errada.
Errada porque a ajuda a Àfrica é, no actual contexto, e perdoem-me a crueza das palavras, muito, mas mesmo muito difícil.
Em primeiro lugar porque quem manda em Àfrica não é o pobre, o explorado ou o miserável. Quem manda em África são pessoas que têm interesse na manutenção desta situação (a título de exemplo, José Eduardo dos Santos, aquele senhor que se desloca de avião privado).
Ora, é precisamente a esta gente que o Live Aid que entregar dinheiro de bandeja. "É para distribuir pelo seu povo", afirmou Bob Geldof. Ledo engano, meu caro Bob: o dinheiro vai direitinho para o bolso (ou para o Ferrari, ou para o palácio, ou para o avião a jacto) dos líderes africanos.
Claro que se poderia sustentar estas pobres pessoas através do envio, em doses industriais, de alimentos. Mas isso apenas serviria para promover o crescimento demográfico de países que não têm condições para subsistir por si mesmos. Evidentemente que, a uma certa altura, as coisas chegariam ao ponto de saturação, onde já não seria economicamente possível sustentar os milhões e milhões de bocas famintas de alimento.
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Estas actividades valem o que valem.
Sem pôr em causa as boas intenções - que as haverá, certamente -, parece-me que os concertos se tornaram (apenas) mais um palco de propaganda política por parte da extrema-esquerda, que ali, e aproveitando-se de alguma ingenuidade (e até ignorância), encontra terreno fértil para lançar as sementes do anti-americanismo primário, cujos expoentes máximos são as celebérrimas paradas "anti-globalização" (será que algum deles sabe efectivamente o que é a globalização?), que são, aliás, verdadeiras manifestações de espírito cívico.
Creio que, "descascado" o "embrulho" do Live 8, sobra pouca coisa. Porventura, apenas a boa vontade. Na minha opinião, não vale uma montra partida.

Comentários

24 Comments:

At sexta-feira, julho 08, 2005 7:41:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Muito bem dito, meu caro! Vou inserir link para este blog. Abraço!

 
At sexta-feira, julho 08, 2005 9:07:00 da tarde, Blogger Sílvio Mendes said...

e o sofá, está confortável,
mais um copinho de sumo?

Não dói muito, pois não?
Estar aqui, bem, dizer que são uns concertos inúteis, que a malta de extrema-esquerda é isto, que os africanos são corruptos e tal (e ainda por cima são burros - nunca vão ser capazes de gerir coisa nenhuma, muito menos um país)...

O mundo idílico dos que sonham é uma parvoíce.
Vamos antes optar por viver tranquiliamente no mundo real.
Onde, por acaso, até somos nós que estamos no lado privilegiado - é do lado dos outros que se morre. Não há mal nenhum.

O problema em África e no mundo é uma coisa muito complicada e é utopia pensarmos que somos capazes de o ajudar a resolver. É bem mais fácil invesrtir em armamento e em sondas inter-estrelares.
Sonhar para quê? Vamos ser realistas. Mudemos de canal.

Muito bem Sr. Romano, parabéns por tanta insensibilidade. Muito bem.

 
At sexta-feira, julho 08, 2005 9:30:00 da tarde, Blogger Sílvio Mendes said...

Acho de uma criatividade extraordinária conseguir reduzir uma movimento de artistas (de todas as crenças e religiões), preocupados com a fome (que mata mesmo)no mundo, num movimento de anti-americanismo primário...

Hilariante.

 
At sexta-feira, julho 08, 2005 9:32:00 da tarde, Blogger Sílvio Mendes said...

Pá,

mas força aí.

Sou, também eu, um extremista das liberdades.

E o -resto- do blog está interessante...

 
At sexta-feira, julho 08, 2005 10:59:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Caro Sílvio Mendes:

Em primeiro lugar, obrigado (sem ironias) por contribuir para o meu blog com 3 comentários. Como já deve ter reparado, os ditos comentários não são propriamente abundantes neste este humilde espaço.

Mas adiante.
Pude notar que, apesar de se mostrar marcadamente contra a minha posição, o (ou "os") seu comentário baseia-se essencialmente em dois pontos: críticas infundadas e más interpretações do Post.
Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar, o meu prezado colega ataca-me por eu achar que os "africanos são corruptos", e, ainda por cima, "burros".
Má leitura, caro Sílvio. Dizer que os líderes africanos são uma cambada de déspotas corruptos - que foi o que eu efectivamente afirmei - não é a mesma coisa que dizer que todos os africanos são corruptos. Parece-me que fez uma generalização um tanto ou quanto abusiva, não acha? Claro que as suas palavras podiam ser irónicas; talvez o meu amigo quisesse efectivamente dizer que não acha que os líderes africanos sejam corruptos. Nesse caso, julgo que pouco mais posso fazer além de respeitar a sua opinião. Mas acho que nem o senhor acredita muito nisso, pois não?

De seguida, sou acusado de afirmar que "a malta de extrema-esquerda é isto". Confesso que não sei bem a que é que se refere com "isto", mas presumo que coisa boa não seja.
Ora bem, quando falo em aproveitamento refiro-me a certos líderes que tendem a ver o mundo como um lugar de "maus" e de "bons". Nos bons estão os que lutam por boas causas, como Fidel Castro, Estaline, Lenin, Arafat e companhia; no outro lado - no lado dos "maus" estão os capitalistas corruptos, que erguem as suas fortalezas de marfim sobre os ossos dos explorados.
A partir desta seriação do mundo em "bons" e "maus", estes "líderes" formam a sua ideologia, segundo a qual a globalização, as empresas e os ricos devem ser combatido a todo o custo. Mas o cúmulo dos cúmulos é quando ouvimos um grande economista (com as responsabilidades inerentes) como o Dr. Louçã afirmar que a banca e o liberalismo são os grandes culpados pela má distribuição da riqueza (este senhor, soube-se recentemente, trabalha como consultor no banco Totta, pelo que é um lacaio do "grande capital" que tanto critica). São opiniões como estas que dão azo às manifestações anti-globalização (extremamente cívicas, como fiz questão de sublinhar) que por Edimburgo se viram.
Não me parece que sejam necessários muitos argumentos para justificar a minha posição neste particular; limito-me a fazer-lhe a pergunta a si: acha que é a globalização a causa do mal em África?

Por último, acusa-me, através dumas quantas frases em tom sarcástico, de ser, para usar linguagem chã, um "desmancha-prazeres". Frases como: "O mundo idílico dos que sonham é uma parvoíce", "O problema em África e no mundo é uma coisa muito complicada e é utopia pensarmos que somos capazes de o ajudar a resolver".

De novo o meu amigo faz uma má interpretação das minhas palavras. Dizer que o problema é difícil não significar cruzar os braços e não fazer nada. Significa, isso sim, que devemos procurar outras alternativas.

Para neutralizar um problema, é sempre necessário, em primeiro lugar, encontrar as causas. Se as não atingirmos, arriscamo-nos a andar às apalpadelas, a tentar tudo e mais alguma coisa na esperança de que algum dia, num golpe de sorte, acertemos em cheio.

Ser insensível, caro Sílvio, não é a mesma coisa que ser realista.
E ser realista é ter a coragem de dizer que há problemas que não se resolvem (apenas!) com boa vontade; é ter a consciência de que o mundo é como é e não como nós gostaríamos que ele fosse. Por vezes é mais fácil enterrar a cabeça na areia e fingir que estamos a fazer alguma coisa para melhorar o mundo, ou, noutros casos, procurar inimigos onde eles não existem. O pior é quando a realidada bate à porta.

Apesar de tudo, fico contente por ter vindo comentar o blog. Opiniões, concordantes ou divergentes, são sempre bem vindas. E é no confronto de ideias que aprendemos e crescemos como pessoas. Até porque eu, ao contrário do outro, muitas vezes me engano e ainda mais vezes tenho dúvidas.

Cumprimentos

P.S. "É bem mais fácil invesrtir em armamento e em sondas inter-estrelares" Não percebi onde é que este parágrafo se enquandra. Talvez já me tenha (inconscientemente) colocado no mesmo "balde" dos americanos e dos capitalistas. Neste ponto, posso assegurar-lhe, não poderia estar mais longe das ideias que defendo.

 
At sábado, julho 09, 2005 10:52:00 da tarde, Anonymous The Studio said...

Sílvio:

Já reparaste que nas soluções do Bobo Geldof cabe aos Europeus e Americanos fazer tudo ao passo que aos africanos apenas lhes é pedido que durmam a sombra da bananeira?

Sabes que África tem ao longo de todos estes anos recebido imenso dinheiro em ajuda externa e desde 1970 que a situação é cada vez pior?

Sabes que Angola cortou ou ameaça cortar relações com o Fundo Monetário Internacional, porque o FMI publicou um relatório dizendo que em Angola só há uma instituição: A corrupção.

Qual é a instituição Angolana (quem diz Angolana diz de qualquer outro país africano) que vai gerir as novas ajudas? Será a instituição Corrupção?

Se o live aid do Bobo Geldof não fosse uma manifestação de anti-americanismo primário pediria aos africanos que se empenhassem e aos americanos e europeus que apoiassem. O Bobo Geldof a única coisa que faz é responsabilizar os americanos por todos os males de África e pedir dinheiro. Como é evidente, os problemas irão agravar-se.

 
At domingo, julho 10, 2005 4:04:00 da manhã, Anonymous The Studio said...

Aí vai o link:

http://www.sic.pt/online/noticias/mundo/20050707+-+Angola+ameaca+cortar+relacoes+com+o+FMI.htm

 
At domingo, julho 10, 2005 11:42:00 da manhã, Blogger Monique Mendes said...

Romano apenas tenho a subscrever o que dise o Alves, retirando a parte de inserir link, obviamente!
Estás sempre lá!!
Abraço*

 
At domingo, julho 10, 2005 4:22:00 da tarde, Blogger Sílvio Mendes said...

Ponto primeiro: é óbvio que usei, no meu comentário instintivo, uma ironia reforçada com duplo sublinhado (ou triplo, ou a bold, ou a metáfora que quiseres...), pelo que se trata muito mais do que o teu texto me fez sentir, do que da interpretação que dele fiz.
Tenho esse terrível defeito de me apaixonar pelas coisas, por me deixar envolver por elas em vez de as teorizar.
Assumo que, visto não te conhecer suficientemente bem, a "violência" nela incorporada tenha sido excessiva. Mas para isso é que serve o discurso e os salões de chá - para que as coisas se esclareçam.

Ponto segundo: Sr. Romano e Sr. estúdio, continua a parecer-me completamente descabido de sentido reduzir o evento (cheio de coisas bonitas, mas também de contradições, é certo)a uma manifestação de anti-americanismo primário. (Em simultâneo, analisando a situação política do momento acho, muito sinceramente, cada vez mais difícil que tais manifestações não sejam legítimas, mas isso é outra história...).

É óbvio que estou por dentro dos problemas de corrupção em África e da situação angolana em particular. Isso é mais do que evidente e, como já foi jsutificado no ponto anterior, a minha excessiva ironia não se baseava numa interpretação directa, mas num conjunto de opiniões (que, de forma surreal, vou ouvindo por aí) que me irritam profundamente.

Ponto terceiro: (acho que já estou perdido com tantos pontos e diversos temas de discussão).

Ponto quarto: Quanto ao aproveitamento por parte de quem quer que seja, parce-me uma situação inevitável. Não podemós é confundir a origem de um qualquer movimento com o posterior aproveitamento que dele possa ser feito. São coisas distintas e só à primeira deveria ser dado o devido relevo. Parece-me errado misturá-los.

Ponto quinto: Acho que os porblemas de África têm como origem os séculos de exploração e a sua sentença foi atribuida pelo irresponsável processo de descolonização e subsequente disputa pelo domínio (por influência política, económica e ideológica) dos territórios recém-colonizados, tanto pelos EUA como a ex-URSS. Situação que deu origem a uma selva de guerras cívis e uma mentalidade de guerra que ainda hoje não foi ultrapassada. Bem feitas as contas, não há um único país (ocidental, ex-comunista, entre outros...) que não possa ser responsabilizado com o que se está a passar em África.

Ponto não-sei-das-quantas: Não posso deixar de notar (e isto é um sintoma global) que qualquer crítica que se faça recebe logo a conotação de anti-americanista... quando falo em armas ou em investimento em projectos espaciais refiro-me a um leque de países que o fazem (mais na questão do armamento, claro) e não ando constatemente a perseguir o Sr Bush (embore ache que ele não merecesse outra coisa).

Acho que ficam ainda muitas questões no ar, mas haverá certamente mais tempo para as discutirmos.

Ao Romano (que está do lado dos maus :P),

um cumprimento menos formal e um pedido para não me tratares por "Você", nem "Vossa Excelência", nem qualquer derivado.

 
At domingo, julho 10, 2005 4:27:00 da tarde, Blogger Sílvia said...

Romano, é a primeira vez que leio um post teu na sua totalidade!!!
Bem, mas muito bem, gostei.
Achei o tema interessante...
E depois claro,a barbie e o ken... ;)
Bjinhux.

 
At domingo, julho 10, 2005 4:42:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Bem Sílvio, gostei deste último comentário, menos emocionado e mais sensato.

Também para "ti" (saliento o uso da segunda pessoa do singular) um cumprimento menos informal e um agradecimento por me teres ajudado a atingir a bela marca dos 11 comentários...

P.S. Nunca te tratei por "vossa excelência" :P

 
At domingo, julho 10, 2005 5:55:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Pedro:
Pareces-me um bom menino. Inteligente. Apoiado – por outras pessoas, pela informação e conhecimento que tão bem aplicas nos teus textos, e pela convicção. És um criador “enquanto ser pensante”.
Mas algo que me ocorre: tentaste já, humildemente, perceber os dois “lados”? Vejo entre eles uma barreira – qual muro de Berlim! – que não compreendo. Cada um puxa cordas para seu lado, sem experimentar a entreajuda. Neste momento, não me parece haver “centristas”: há sim extremistas das decisões e dos ataques pessoais. Podem estar a falar sobre o mesmo e ter opiniões convergentes. Mas fazem questão de abordar os temas de forma a colocar essas mesmas opiniões convergentes em concepções diametralmente opostas.
Por vezes, penso que sim, que o fazes. Outras, simplesmente um redondo não seria a resposta. Não concordo ou discordo totalmente com o teu artigo (e comentários). Faço-o parcialmente.

Quanto ao Live 8, penso ser uma excelente iniciativa. E, quando asseveras que serve de propaganda aos que ao palco sobem, lembro os Pink Floyd. Não tocavam juntos desde 1981. As vendas do seu best of, de nome Echoes, subiram mais de 1300%. No dia seguinte, David Gilmour assegurou que todos os lucros resultantes da sua aparição no Live 8 seriam postos à disposição de instituições de caridade.

“Estas actividades valem o que valem” é uma afirmação vazia. Não necessária. Disso estamos fartos, de barriga cheia. Não cabe mais: – Mãe, não quero a sobremesa.

Aos “jovens revolucionários” ninguém explica a Revolução. Ninguém lhes explica quem foi Fidel Castro, antes de se tornar um reaccionário. Quem foi o seu amigo Ernesto Guevara de la Serna, ou Che – que tantos estandartes, camisolas e pins levanta. Quais os porquês das relações Cuba-URSS, formadas 1959. Quais as suas causas e os seus objectivos. O que, simplesmente, é a “esquerda”. Onde nasceu esta designação. O que é o Comunismo e o Socialismo e quais as divergências com a “direita” – diferenças objectivas! Quem foi Marx, Engels, Lenine (cuja história precisa ser segmentada em três, ou pelos menos dois), Estaline, Cunhal. É arrepiante como, sem conhecimento e sem disso ter qualquer medo, se levantam estes nomes aos céus, propalando os seus ideais como curas.

“Mas isso apenas serviria para promover o crescimento demográfico de países que não têm condições para subsistir por si mesmos.” Isto é insensibilidade. É na abordagem feita às questões que a realidade se pode tornar insensível nas nossas palavras. É também realidade.

Talvez o dinheiro enviado não seja suficiente – a acção, não as quantias. Talvez pedir aos africanos que se esforcem também não seja suficiente. Talvez só afirmar que os “déspotas corruptos” beneficiam com a continuidade da actual situação africana não seja suficiente. Talvez devêssemos afirmar também que os países ricos, industrializados, de primeiro mundo, também beneficiam. Talvez nós que sabemos muitas coisas e somos grandes devêssemos ir lá, levar o dinheiro, ficar e explicar como se faz. Não autoritariamente, sob poder bélico. Não. Ensinar.

Termino com um excerto de uma carta escrita pelo Che à sua filha mais velha Hildita, a 15 de Fevereiro de 1966, estava ele precisamente em África:
«(…) deves preparar-te, ser muito revolucionária, o que na tua idade, quer dizer: estudar muito, o mais possível, e estar sempre pronta a apoiar as causas justas.»

Espero um convite para a potencial tertúlia salões de chá, indirectamente proposta pelo Sílvio.

 
At segunda-feira, julho 11, 2005 2:21:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Hugo:

Concordo contigo quando dizes que «Neste momento, não me parece haver "centristas": há sim extremistas das decisões e dos ataques pessoais.»
Poder-me-ia alongar acerca desta ideia mas acho que a expuseste muito bem, em poucas palavras mas de forma eloquente, nos primeiros parágrafos do teu comentário.

Pessoalmente, não me parece que os meus Posts sejam extremistas (a não ser talvez aqueles que escrevo para 'A Santíssima Trindade'), até porque me considero uma pessoa moderada (algo que poderia inclusive ser confirmado pelas cruzinhas que coloquei nos dois últimos boletins de voto que me passaram pelas mãos, mas isso são contas de outro rosário) e de opiniões razoavelmente sensatas.

Neste último Post, contudo, aceito a tua crítica: efectivamente o meu texto incidiu mais sobre os aspectos negativos que nos aspectos positivos do Live 8.

Acontece que o meu blog é aquilo que chamo de "familiar" - dirige-se a um "público" ("público" entre aspas, porque chamar público a meia dúzia de pessoas é pretensioso) muito concreto, que são os meus colegas e amigos, que me conhecem bem e que estão perfeitamente a par (ou pelo menos julgo que estão) da visão abrangente que normalmente tenho das situações, pelo que sabem contextualizar devidamente aquilo que escrevo. Reduzir a visão que tenho acerca de um assunto a umas poucas dezenas de linhas escritas num blog pessoal parece-me abusivo, porque simplista e redutor.

Mas, de uma forma geral, aquilo que pretendi com este texto foi dar a conhecer "a outra face" do Live 8 - mostrar que, apesar de todo o belo cenário montado à sua volta, nem tudo são rosas e, que por vezes este tipo de eventos acaba por contribuir para a alienação de muito boa gente. Nota que o cariz extremamente crítico do meu Post tem como condição fundamental uma opinião bastante positiva - e generalizada - que o dito "público" tem destas iniciativas - fosse esta ideia tão positiva um pouco menos consensual (ou escrevesse eu para um blog "a sério"), e decerto que teria exposto os assuntos de maneira diferente.

Tudo isto para dizer que, "sim", realmente já tentei "humildemente, perceber os dois lados". Omitir 'A' não significa rejeitar 'A', significa apenas que, se decidi fazer referência a 'B', é porque considero que num dado contexto ele é menos conhecido das pessoas que lêm o meu blog, pelo que se poderá tornar, este ponto de vista, muito mais interessante e, até, informativo.

P.S. Quanto às tertúlias, creio que elas poderiam ter lugar durante as tardes de Maio; seriam boas para exercitar a cabeça enquanto se descansa o corpo dos extenuantes jogos do torneio de futsal do GACSUM e enquanto se prepara a festa nocturna (refiro-me, obviamente, ao Enterro da Gata).

 
At segunda-feira, julho 11, 2005 10:51:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

Tens que alargar a visão dos teus textos a um público-alvo de mais duas, três pessoas. Agora. Parece-me.
Foi uma boa discussão. Mérito do teu post.

Abraço.

 
At segunda-feira, julho 11, 2005 11:38:00 da manhã, Blogger Filipe Alves said...

Sílvio, não creio que na origem do atraso de África estejam apenas os "séculos de exploração". Até porque se não fossem esses séculos de exploração, os africanos ainda viveriam em comunidades governadas por régulos (e alguns ainda vivem...), não teriam qualquer estrutura estatal (pelo menos, no sentido moderno do termo) e permaneceriam alheados do resto do mundo, num estado primitivo. Antes dos Europeus lá chegarem, os Africanos viviam como os Lusitanos ou os Celtiberos quando os Romanos chegaram à nossa Península. E foi graças a Roma que entramos no mundo moderno e que hoje somos o que somos. Portanto, por muito má que tenha sido, a colonização europeia foi útil a África. Quanto aos problemas do presente, têm muito mais a ver com a corrupção dos dirigentes e as guerras intermináveis que à actuação das potências coloniais, há cinquenta ou cem anos atrás. Em relação ao Live Aid, creio que teve apenas o mérito de chamar a atenção para o drama africano, o que já é muito. De resto, foi apenas uma espécie de "alívio de consciência colectivo", com uma forma de explicar os problemas que é, no mínimo, redutora.

 
At segunda-feira, julho 11, 2005 5:14:00 da tarde, Blogger Sílvio Mendes said...

Amigo Alves,
acho essa abordagem completamente precipitada.
Nada nos garante que (primeiro)essa "comunidades governadas por régulos" não viessem a revelar (por mais "tarde" que fosse uma capacidade de emancipação e de criação.
Segundo, e isto num campo menos ideológico, o atraso que facilmente atribuimos a qualquer uma dessas tribos foi (e ainda o é) um terrível avanço em termos de realções humanas (puras e incorrumpíveis).

É curisoso estarmos sempre a falar da corrupção africana como causa de uma série de problemas do continente (o que tem a sua validade) e não nos lembrarmos da terrível corrupção em grande escala que serpenteia pelos Estados de Direito ocidentais, como se ela não existisse ou, existindo, não fosse culpada por nada.

O obojectivo do Live 8 era precisamente esse, não se podia nem devia ter esperado mais dele. Alertar (tanto políticos como cidadãos) para o ENORME PROBLEMA. E não apresentava, obviamente, uma solução mas uma primeira pedra fundamental.

Amigo Romano,
e já vamos em 16 ;)
- agradou-me o teu último comentário... já começamos a falar a mesma língua... ;)

 
At segunda-feira, julho 11, 2005 5:26:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Amigo Sílvio, não partilho dessa tua visão idílica sobre as tribos primitivas (lá está, a esquerda utópica teve sempre uma certa predilecção pelo mito do "bom selvagem"). Uma tribo atrasada era uma tribo atrasada... em que o régulo vendia o seu próprio povo como escravo a traficantes europeus e árabes, em que a esperança média de vida estava ao nível da Idade da Pedra, em que imperava a lei do mais forte. Não tenho qualquer fantasia ou ilusão sobre o "estado de Natureza" em que as relações humanas eram "incorruptíveis", qual Éden antes da queda. Quanto à hipotética possibilidade de as tribos africanas evoluírem por si só, sem influência da mundo civilizado, era de facto possível, mas difícil e teria levado séculos ou até milénios. Exceptuando as civilizações pré-colombianas (e mesmo estas, pelo que hoje se sabe!), nenhuma outra civilização evoluíu "orgulhosamente só" ou impermeável a influência estrangeira. A colonização europeia teve um lado muito negativo, é certo, mas deu abriu a África ao mundo e permitiu a criação de estados onde antes existiam apenas tribos primitivas e atrasadas a todos os níveis.

 
At segunda-feira, julho 11, 2005 5:30:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

(continuação) Quanto à corrupção em África, e à existência de elevados níveis de corrupção no mundo "desenvolvido", parece-me que na África o problema é bem mais grave. Existem, aliás, estatísticas que o comprovam. Abraço!

 
At segunda-feira, julho 11, 2005 8:45:00 da tarde, Blogger Sílvio Mendes said...

Não há corrupções mais, ou menos, graves que outras.
Qualquer corrupção, na China ou em Cabo Verde, é condenável e condena directamente (através do implacável filtro da injustiça) os por ela vitimados. Agora, as consequências é que são diferentes, dependendo do contexto. Acho. É, de facto, inegável que a corrupção (sobretudo em África) em todo o lado é um problema terrível que deve ser combatido veementemente.

Nouto domínio, duvido bastante se alguma vez algum colonizador colocou na sua lista de dez objectivos principais para as colónias africanas:
"o desenvolvimento deste lindo povo que tanto amamos".

Abraço.

 
At terça-feira, julho 12, 2005 6:35:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Sílvio, toda a corrupção é intrínsecamente má. Mas a diferença entre a corrupção no mundo desenvolvido e em África é que, no caso desta última, a corrupção é endémica. Há vários organismos internacionais que têm alertado para o facto (salvo erro, existe até um "ranking" mundial). Quanto às intenções dos colonizadores, é evidente que as potências coloniais tinham interesse em dar aquelas populações um mínimo de condições que antes não tinham. E isto por muito "maquiavélicas" que fossem as suas intenções; precisavam de mão de obra minimamente literada (é célebre a frase do Cardeal Cerejeira a este respeito: "queremos ensinar os pretos (sic) a ler, escrever e a contar, mas não queremos fazer deles doutores") - e suficientemente saudável para trabalhar (muitas vezes em condições de semi-escravatura). Não é por acaso que os níveis de IDH (índice de desenvolvimento humano) e o PIB per capita da África Negra em 1960 eram superiores aos valores actuais, já para não falar da experança média de vida! Portanto, mais uma vez repito que as coisas não são assim tão simples como à primeira vista podem parecer. abraço

 
At terça-feira, julho 12, 2005 6:37:00 da tarde, Blogger Filipe Alves said...

Correcção: deve ler-se "esperança média de vida", e não "experança". Peço desculpa pelo lapso.

 
At quarta-feira, julho 13, 2005 12:59:00 da tarde, Blogger Et Voilá said...

Acho que neste ponto da calçada a conversa se está a desviar um pouco do tema principal. A propósito das "reais" intenções com que se organizam eventos que têm por objectivo nobres causas sociais, gostaria apenas de salientar uma afirmação do senhor Oliviero Toscanni ( para quem não sabe este senhor foi o fotografo responsável pela campanha da Benetton que atordoou o mundo com uma série de fotografias polémicas que ilustravam alguns dos problemas sociais vigentes) numa entrevista recentemente dada em Portugal. O senhor Toscanni afirmou nessa entrevista que a Benetton sempre se esteve "nas tintas" para os problemas sociais ( a sida, a fome, a descriminação racial, etc...) sendo a sua preocupação real os lucros que tão "badalada" campanha acarrataria para os seus cofres . Esta Benetton é a mesma que afirma que uma percentagem dos artigos vendidos reverte para a luta contra a fome em África.
Dá que pensar meus amigos...

 
At quarta-feira, julho 13, 2005 1:15:00 da tarde, Blogger Et Voilá said...

Correcção: Toscani e não Toscanni.
Aqui vai um link que vos poderá elucidar sobre a questão anterior:

http://www2.uol.com.br/trip/85/ong/toscani.htm

O teor desta entrevista é muito semelhante ao da entrevista dada em Portugal.

 
At segunda-feira, julho 18, 2005 10:16:00 da manhã, Blogger Phillipe Vieira said...

só quero dizer que os efeitos deste LIVE8 só serão visíveis dentro de anos, e é evidente que não é um concerto que resolve os problemas da humanidade, mas só o facto de nós alertarmos para a existência do problema já é revelador. viste o caso da menina que apareceu faminta no vídeo de 1985,e hoje é formada, graças ao dinheiro angariado com o Live AID?

num aspecto mais pessoal devo referir a emoção da qual fui alvo quando a melhor banda de todos os tempos se reuniu- PINK FLOYD!!! Foi um momento tocante, e numa perspectiva egoísta, só por causa disso já valeu a pena o Live 8...

 

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